Sinopse de “Monsters Of Rock – Live At Donington 1980” do Rainbow

Registro ao vivo do Rainbow traz uma performance da banda na primeira edição do famoso festival "Monsters Of Rocks"
Registro ao vivo do Rainbow traz uma performance da banda na primeira edição do famoso festival Monsters Of Rock, em Castle Donington

Lançado em 22 de abril de 2016, o álbum “Monsters Of Rock – Live At Donington 1980” traz uma performance ao vivo do Rainbow no dia 16 de agosto de 1980 como headliner do festival Monsters Of Rock, de Castle Donington. O material foi lançado pela Eagle Rock Entertainment em um kit composto por CD e DVD.

Na ocasião, Ritchie Blackmore e companhia se apresentaram na primeira edição do famoso festival criado pelo promotor Paul Loasby que, em conjunto com Maurice Jones, queria um evento que reunisse apenas bandas de Hard Rock e Heavy Metal. O local escolhido foi o famoso autódromo de Donington Park, localizado ao lado da aldeia de Castle Donington, em Leicestershire, na Inglaterra. Assim, o Rainbow teve o privilégio de ser o headline (atração principal) do festival que cresceu gradativamente e atingiu outros países e continentes. Nessa edição inicial também participaram bandas como Judas Priest, Scorpions e Saxon.

A performance do Rainbow na ocasião foi a última do line-up que gravara o álbum “Down To Earth” (1979) com Ritchie Blackmore (guitarra), Graham Bonnet (voz), Cozy Powell (bateria) e os atuais Deep Purple Roger Glover (baixo) e Don Airey (teclados).

Além dos clássicos da banda, o show trouxe também grandes solos dos integrantes do grupo em uma noite de inspiração musical, especialmente Blackmore, Powell e Airey.

O DVD traz oito canções, enquanto o CD apresenta 12 temas, incluindo os solos. Vale reforçar que o material do DVD foi toda a filmagem do concerto que sobreviveu ao tempo, e que é a primeira vez que o áudio se encontra disponível na íntegra em um CD.

O material capta o ponto crucial de um momento raro na história de imagens da banda com a line-up da ocasião, pois o novo vocalista da época, Graham Bonnet, que substituiu Ronnie James Dio, ficou por um curto período e não fez uma nova turnê com o Rainbow. Além disso, o concerto marcou a saída do mestre Cozy Powell.

No play, o álbum é composto pelos sucessos do mais recente trabalho do grupo na época (“Down To Earth”), como “Lost In Hollywood”, “Since You Been Gone”, “All Night Long” e “Eyes Of The World”. Além disso, Bonnet fez o melhor que pode nos clássicos de seu predecessor, Ronnie James Dio, em temas como “Stargazer”, “Catch The Rainbow” e “Long Live Rock ‘N’ Roll”, e, como a formação do Rainbow tem 2/5 do Deep Purple, claro que rolou um cover da banda que consagrou Blackmore e Glover, aqui representado por “Lazy” que, obviamente, não ficou a altura da versão do Purple. O material mostra também os solos instrumentais virtuosos de Blackmore, Powell e Airey. Ainda no tracklist tem um cover que o grupo fez de “Will You Love Me Tomorrow”, do The Shirelles.

Pelo áudio, é notório perceber que o desempenho de Blackmore e companhia é estupendo. Porém Bonnet parece, às vezes, lutar para alcançar algumas notas e sem fôlego em outros. O vídeo, que tem mais de 35 anos, parte dele é escuro e escasso, uma vez que não havia todo aparato tecnológico para a ocasião mas, mesmo assim, é possível apreciar um Ritchie Blackmore quase possuído em seu solo de guitarra, as formas de como Bonnet e Glover trabalham para cativar a multidão, o bestial Cozy Powell quebrando tudo nas baquetas e o heroísmo de Don Airey, um discípulo do mestre Jon Lord.

No entanto, “Monsters Of Rock – Live At Donington 1980” não é o melhor registro ao vivo do Rainbow, pelo menos na opinião deste que vos escreve. Todavia, ele tem o seu valor por conta de ser um dos raros registros “live” com os vocais de Graham Bonnet.

A seguir a ficha técnica e o tracklist do disco.

Álbum: Monsters Of Rock – Live At Donington 1980
Intérprete: Rainbow
Lançamento: 22 de abril de 2016
Gravadora: Eagle Rock Entertainment
Produtor: Drew Thompson
Preço médio: R$ 52,90

Ritchie Blackmore: guitarra
Graham Bonnet: voz
Don Airey: teclados
Roger Glover: baixo
Cozy Powell: bateria

CD:
1. Intro/Eyes Of The World (Glover / Blackmore)
2. Since You Been Gone (Ballard)
3. Stargazer (Blackmore / Dio)
4. Catch The Rainbow (Blackmore / Dio)
5. Lost In Hollywood/Guitar Solo (Glover / Blackmore / Powell)
6. Difficult To Cure/Keyboard Solo (Blackmore/Glover/Beethoven/Arr.&Adapt.: Airey)
7. Drum Solo/Lost In Hollywood (Reprise) (Glove/Blackmore/Powell)
8. Lazy (Glover / Lord / Gillan / Blackmore / Paice)
9. All Night Long (Glover / Blackmore)
10. Blues (Blackmore)
11. Will You Love Me Tomorrow (King / Goffin)
12. Long Live Rock ‘N’ Roll (Blackmore / Dio)

DVD:
1. Lazy (Glover / Lord / Gillan / Blackmore / Paice)
2. All Night Long (Glover / Blackmore)
3. Catch The Rainbow (Blackmore / Dio)
4. Eyes Of The World (Glover / Blackmore)
5. Ritchie Blackmore Guitar Solo (Blackmore)
6. Difficult To Cure/Keyborad Solo (Blackmore/Glover/Beethoven/Arr.&Adapt.: Airey)
7. Will You Love Me Tomorrow (King / Goffin)
8. Long Live Rock ‘N’ Roll (Blackmore / Dio)

Por Jorge Almeida

Biografia do Rainbow é lançada

Capa da biografia do Rainbow, feita por Greg Prato
Capa da biografia do Rainbow, feita por Greg Prato

O jornalista norte-americano Greg Prato lançou a biografia do Rainbow, intitulada “The Other Side Of Rainbow”, e que, obviamente, aborda a banda fundada por Ritchie Blackmore após a sua saída do Deep Purple, em 1975, e suas diferentes eras.

Quando Ritchie Blackmore deixou o Deep Purple, em 1975, muitos fãs ficaram confusos. Como um dos melhores guitarristas do rock deixaria uma das bandas mais populares do mundo? Independentemente da razão, eles foram agraciados pelo guitarrista, que lançou o Rainbow – uma banda que agitou tão ferozmente quanto o Deep Purple, cuja música provou ser atemporal e incrivelmente influente para as bandas de Heavy Metal subsequentes.

E ao longo da empreitada com o Rainbow, Ritchie Blackmore mostrou-se extremamente hábil em revelar talentos desconhecidos e mostrá-los ao mundo – incluindo aí os vocalistas Ronnie James Dio, Graham Bonnet e Joe Lynn Turner. Todavia, Blackmore, como líder da banda, admitiu e demitiu muita gente, o que impediu o Rainbow ter uma formação base regular, impedindo que o grupo alcançasse seu potencial em cheio.

Em “The Other Side Of Rainbow” são apresentadas quase 30 entrevistas exclusivas para a obra, incluindo ex-integrantes da banda – Joe Lynn Turner, Graham Bonnet, Tony Carey, Doogie White, entre outros; de pessoas que trabalharam ou tiveram alguma ligação estreita com o grupo – Wendy Dio (viúva de Ronnie James Dio) e Flemming Rasmussen (produtor e engenheiro de som); além de admiradores do Rainbow, como o jornalista Eddie Trunk e Charlie Benante (baterista do Anthrax), e outros.

Greg Prato é um jornalista de Nova York e já escreveu livros sobre o Iron Maiden, o Kiss e o finado ex-guitarrista do Deep Purple, Tommy Bolin.

O livro está disponível em cópia física à venda no Amazon e em iBook na iTunes Store.

Infelizmente, para nós brasileiros, não há previsão de quando haverá uma versão do livro em português. Também, é compreensível, pois apesar de ser uma grande banda, o Rainbow não tem tanta popularidade no Brasil como o próprio Deep Purple.

Mas se, por ventura, ganharmos uma versão da obra, acredito que será indispensável.

Por Jorge Almeida

Rainbow: 20 anos de “Stranger In Us All”

"Stranger In Us All": o último registro de estúdio lançado pelo Rainbow de Ritchie Blackmore
“Stranger In Us All”: o último registro de estúdio lançado pelo Rainbow de Ritchie Blackmore

Já que os dois últimos posts estavam ligados ao Deep Purple, aproveito para falar sobre um ex-integrante da banda britânica: Ritchie Blackmore. Para ser mais preciso, sobre a sua banda após a saída do Purple, o Rainbow.

Hoje, 21 de agosto, o último registro de estúdio da banda completou 20 anos de lançamento. Trata-se de “Stranger In Us All”, disco em que Blackmore se juntou a músicos poucos conhecidos e que, a princípio, seria um disco solo do guitarrista, mas por pressão da gravadora BMG o disco saiu sob o nome do Rainbow (caso semelhante com o “Seventh Star”, do Black Sabbath, que era para ter sido o primeiro disco solo de Tony Iommi). Esse foi o último registro de hard rock de Ritchie.

Gravado nos estúdios Long View Farm (em Massachusetts), Cove City Sound Studios e Sound On Sound, Unique Studio e Soundtrack Studios, ambos em Nova York, o play foi produzido por Ritchie Blackmore e Pet Regan.

Depois de sair e prometer nunca mais voltar ao Deep Purple, Ritchie Blackmore resolveu retomar o seu grupo, o Rainbow, totalmente reconfigurado. Para a gravação do álbum, o dono da bola convocou Doogie White (voz), John O’Reilly (bateria) – que foi substituído por Chuck Burgi na turnê, Greg Smith (baixo), Paul Morris (teclados), além das participações especiais de Mitch Weiss (gaita) e Candice Night (backing vocal).

O álbum fez um relativo sucesso na Europa, mas pouco foi notado nos Estados Unidos, o que foi compreensível, afinal, as bandas grunges tomavam conta por lá. O título do disco é de um verso da faixa “Black Masquerade”.

E outro ponto que desfavoreceu Blackmore: ao tentar competir com a ex-banda, seu trabalho não ganhou a mesma notoriedade porque o Deep Purple se rejuvenesceu com a entrada de Steve Morse e lançou o clássico álbum “Purpendicular” (1996).

Mesmo não sendo um dos trabalhos mais aclamados do Rainbow, alguns temas de “Stranger In Us All” foram tocados pelos integrantes da banda que participaram da gravação do álbum, como os casos de Greg Smith e Paul Morris que tocaram no Over The Rainbow entre 2008 e 2009, e também a banda White Noise, capitaneada por Doogie White, em seu DVD oficial intitulado “In The Hall Of The Mountain King” (2004). Além deles, o Blackmore’s Night também contou com uma música – “Ariel” – desse disco em seu “Paris Moon”, de 2007.

O disco abre com a incrível “Wolf To The Moon“, que é um hard rock simples, mas eficiente. Posteriormente, o play apresente “Cold Hearted Woman“, um hard blues mediano que lembra vagamente o Whitesnake. O terceiro tema é o metal melódico “Hunting Humans“, com características típicas de Stratovarius. A quarta faixa é “Stand And Fight“, um hard rock pouco empolgante.

Em seguida, a faixa que merece uma atenção especial: “Ariel“. É o maior destaque do disco e, particularmente, acho que é uma das melhores músicas do Rainbow. Pois lembra os tempos áureos da era Dio, traz os solos épicos de Blackmore, um excelente desempenho vocal de Doogie White e, para colocar a cereja no bolo, o backing vocal de Candice Night (que é uma ótima cantora) é arrebatador. Para este que vos escreve essa faz parte do meu top 5 de melhores músicas do Rainbow.

O material dá uma caída em sequência com “Too Late For Tears“, que lembra os sons mais comerciais do Rainbow nos anos 1980. A sétima música é “Black Masquerade“, que é outra que merece atenção. Aqui a técnica é explorada ao máximo e todos acertaram em cheio nesse metal. A canção seguinte é a calma e singela “Silence“. A penúltima faixa do disco é “Hall Of The Mountain King“, que ganha destaque pela rapidez e por ser melódica. E, para finalizar, “Still I’m Sad“, outra releitura que o Rainbow faz para o clássico do Yardbirds (a primeira foi feita no ‘debut’ “Ritchie Blackmore’s Rainbow” em 1975).

Infelizmente, o Rainbow sempre foi uma banda subestimada, pois, aqui no Brasil, por exemplo, muita gente acha que o grupo só existiu durante a era Dio. E “Stranger In Us All” é um retrato fiel disso: um disco que é muito bom, mas que é ignorado por muitos. Confesso que não consigo entender o motivo disso. Uma vez que nele tem hard rock, metal melódico, balada, mescla todas as fases do Rainbow e também deixa uma prévia para o que viria a ser o Blackmore’s Night.

Outro fato a lamentar é que após a turnê de divulgação do álbum, Ritchie Blackmore resolveu encerrar mais uma vez o Rainbow. Mas pelo menos ele está feliz com a (agora) esposa Candice Night e fazendo o que gosta com o seu Blackmore’s Night.

A seguir, a ficha técnica do play.

Álbum: Stranger In Us All
Intérprete: Rainbow
Lançamento: 21 de agosto de 1995
Gravadora: BMG
Produtores: Pat Regan e Ritchie Blackmore

Ritchie Blackmore: guitarra
Doogie White: voz
John O’Reilly: bateria
Greg Smith: baixo
Paul Morris: teclados

Mitch Weiss: gaita
Candice Night: backing vocal

1.  Wolf To The Moon (White / Blackmore / Night)
2. Cold Hearted Woman (Blackmore / White)
3. Hunting Humans (Insatiable) (Blackmore / White)
4. Stand And Fight (Blackmore / White)
5. Ariel (Blackmore / Night)
6. Too Late For Tears (White / Blackmore / Regan)
7. Black Masquerade (White / Blackmore / Morris/ Night)
8. Silence (Blackmore / White)
9. Hall Of The Mountain King (Grieg / Arr.: Blackmore / Letra: Night)
10. Still I’m Sad (Samwell-Smith / McCarty)

Por Jorge Almeida

Analisando “The Purple Album”, do Whitesnake

"The Purple Album": o 12º disco de estúdio do Whitesnake, que traz releituras do Deep Purple
“The Purple Album”: o 12º disco de estúdio do Whitesnake, que traz releituras do Deep Purple

Aproveitando que o texto anterior foi referente a uma pessoa fortemente ligada ao Deep Purple, vamos abordar sobre outro nome que marcou presença na banda britânica. Me refiro a David Coverdale, que substituiu Ian Gillan no Deep Purple. No caso aqui, falaremos especificamente do Whitesnake, grupo do qual Coverdale é o “dono”, “patrão”, “manda-chuva”, e seja lá qual mais definição que você queira definir, que lançou neste ano de 2015 o seu mais novo trabalho de estúdio: o disco “The Purple Album”, que contém regravações de músicas do Deep Purple do período em que seu líder fazia parte do grupo, ou seja, das fases dos MK’s III e IV, que atuou entre o final de 1973 a 1976, quando o Purple encerrou suas atividades, antes da volta de 1984.

Gravado entre 2014 e 2015, o play foi lançado pela gravadora Frontiers em 29 de abril no Japão, em maio na Europa e nos Estados Unidos, e o CD apresenta 15 faixas (sendo duas bônus), mais um DVD na edição “Deluxe”.

Evidentemente que as comparações entre as versões que o Whitesnake fez com as originais feitas pelo Deep Purple serão inevitáveis. E já adianto a minha opinião desde já que as releituras feitas pela banda de Coverdale ficaram inferiores à do grupo que o consagrou nos anos 1970. Mas isso não significar que “The Purple Album” seja um trabalho ruim, ele só não beira à perfeição como as obras ‘purplenianas’.

O disco abre com “Burn” que, talvez, seja o principal hino dessa fase do Purple. E a versão da “Cobra Branca”, embora seja mais técnica não é tão excelente quanto à clássica versão de 1974. Aliás, até hoje ninguém faz o maravilhoso trabalho que a dupla Blackmore/Lord fez nela. Evidentemente que Coverdale não consegue repetir a mesma qualidade vocal da mesma, o que é compreensível, afinal, ele já é um sessentão e humanamente é impossível manter a mesma pegada de um garoto de vinte e poucos. Mas o trabalho da dupla Reb Beach e Derek Hilland não comprometem.

Em seguida vem “You Fool No One”, que não compromete, e que aqui tem um pedaço de “Itchy Fingers”, quase que oculta, mas a “crueza” e paulada da música são mantidos, na medida do possível.

O terceiro tema é “Love Child”, que até tem partes interessantes, porém, ficou aquém da original, gravada com Tommy Bolin nas guitarras no clássico “Come Taste The Band” (1975).

Posteriormente surge uma das mais legais do álbum: “Sail Away”, que teve o seu ritmo ‘suingado’ original substituído por um bem trabalhado instrumental acústico. E ainda Coverdale, brilhantemente, inseriu um instrumental intitulado “Elegy For Jon”, em homenagem ao saudoso Jon Lord (tecladista tanto do Deep Purple quanto do Whitesnake). Comparo as duas versões dessa música da mesma forma que as versões original e acústica de “Layla”, de Eric Clapton. Ou seja, a mesma música com arranjos totalmente diferentes – que nem parecem se tratar da mesma canção, mas que ambas são formidáveis.

Outra faixa de “Stormbringer” segue em “The Purple Album”. Agora é a vez da ‘esquecida’ “The Gypsy”, que aqui ganhou um melhor instrumental e mais peso, e tirou aquela aparência de “música de AM de madrugada” que a original tinha.

O Hard Rock de “Lady Double Dealer” praticamente foi mantido aqui com uma dosagem de peso, mas que nos shows David Coverdale canta em tonalidade mais baixa, o que é compreensível em função da atual situação de sua voz.

Um dos maiores clássicos da MKIII não poderia ficar de fora, não é mesmo? Claro que “Mistreated” tinha que fazer parte desse projeto. Apesar da louvável tentativa da atual line-up do Whitesnake em chegar próximo à versão original, nada se compara aos riffs e solo que Ritchie Blackmore fez para essa música que é atemporal.

Gravada originalmente com os vocais de Glenn Hughes, “Holy Man” ganhou uma bela versão feita por Coverdale e sua trupe. Mas prefiro ainda o original que traz a indefectível voz do “the Voice of Rock”.

Might Just Take YourLife” é a nona faixa do play. Diferentemente da versão do álbum “Burn”, em que Jon Lord tinha dado as cartas na introdução com o seu impecável Hammond, o Whitesnake resolveu investir com violões. Ficou abaixo da original em virtude da ausência do vocal único de Glenn Hughes.

O próximo tema é “You Keep On Moving”. Embora tenham tentado chegar próximo à original em relação ao backing vocal, ficou “no quase”, afinal, essa é outra música que a voz de Glenn Hughes faz dela uma coisa única. Reforço que a releitura do Whitesnake, instrumentalmente falando, ficou muito boa.

Outro tema bastante conhecido dos ‘purplenianos’ e dos ‘whitesnakianos’ aparece em seguida. Refiro-me a “Soldier Of Fortune”, que faz parte do setlist do Whitesnake nos últimos anos, com Coverdale cantando à capella com o público. E, no play, ganhou uma versão acústica. Ficou semelhante a releitura que consta no álbum “Starkers In Tokyo” (1997), trabalho lançado pela dupla Coverdale/Vandenberg, mas que é creditado como um álbum do Whitesnake.

A penúltima faixa do disco é “Lay Down, Stay Down”, que apesar de ter ganho mais peso, mas tem um andamento com o “freio de mão” mais puxado em relação à original.

Para finalizar a versão “comum” do álbum, a clássica “Stormbringer” que atribuo à mesma situação em relação a “Burn”, faixa que abre o play: mais técnica, mas não tão excelente quanto à original.

Bom, mas a versão “Deluxe” de “The Purple Album” ainda traz duas releituras de “Come Taste The Band”: “Lady Luck” e “Comin’ Home”, que não ficaram ruins, mas quem escuta as originais com Tommy Bolin nas guitarras, chega à conclusão de que “nada se compara ao original”.

Além das faixas bônus citadas, essa versão ainda contém um DVD com videoclipes de algumas músicas que foram regravadas, destaco o belo vídeo “Stormbringer”.

Assim, para quem é fã ardoroso da era Coverdale/Hughes no Deep Purple, esse disco do Whitesnake pode até decepcioná-lo. Pois, os duetos fabulosos entre Coverdale e Hughes e os backing vocals do baixista foram substituídos por camadas de voz e também houve um uso excessivo de recursos tecnológicos, o que deixa o trabalho um pouco artificial. Enfim, com todo direito, pode avaliar o disco como “duvidoso”.

Agora, para quem apreciador da obra do Whitesnake, trata-se de um bom trabalho. Pois reúne todas as características de um álbum do Whitesnake: Hard Rock, baladas, agressividade, peso, enfim, todos os ingredientes que fizeram a empreitada criada por David Coverdale no final dos anos 1970 como uma das maiores bandas de Hard Rock da história.

Essa volta ao passado de David Coverdale, em meu ponto de vista, é válida, pois, mesmo com os inúmeros boatos e rumores para uma volta, uma turnê ou um show com o MK III do Deep Purple, nunca acontecerá, e isso sucumbiu de vez em 2012 com a morte de Jon Lord. Além disso, a atual formação do Deep Purple – Gillan, Glover, Morse, Airey e Paice – nunca tocará alguma coisa referente a essa fase da banda. Ou seja, os apreciadores dos clássicos “Burn”, “Stormbringer” e “Come Taste The Band” praticamente só poderão escutar esses temas ao vivo via Whitesnake ou nos shows do Glenn Hughes.

Outro ponto que acho louvável por parte de Coverdale foi prestar uma homenagem à sua “escola”, que foi o Deep Purple. Isso é uma prova de gratidão para com a banda que o consagrou. Evidentemente não saiu como o original e, como coautor de todas essas músicas, ele tem todo o direito de regravar, assim como Hughes. Aliás, a dedicação que se encontra no encarte é de emocionar: “This album is dedicated with honour, love & respect to: Ritchie Blackmore, Glenn Hughes e Ian Paice e in loving memory of Jon Lord e Tommy Bolin”, algo como: “Este álbum é dedicado com honra, amor e respeito a: Ritchie Blackmore, Glenn Hughes e Ian Paice e na memória amorosa de Jon Lord e Tommy Bolin”.

E, digo mais: apesar de não conseguir se desvincular com o seu passado com o Deep Purple, David Coverdale sempre mostrou-se orgulhoso dele. Afinal, muitos registros ao vivo do Whitesnake sempre traz algum clássico do Deep Purple e, graças a isso, que podemos testemunhar, cantar, celebrar e relembrar de uma das épocas mais importantes de uma das principais bandas da história.

Outra coisa que lamento em relação a “The Purple Album” foi o fato de que o vocalista poderia ter convidado o seu ‘parça’ Glenn Hughes para fazer uma participação especial em pelo menos uma música. Mas, como o ego sempre fez parte da história do rock, talvez Coverdale não tenha chamado Hughes com receio de que o ex-companheiro de banda “roubasse a cena” e o “deixasse no chinelo”, já que Glenn Hughes ainda continua cantando muito (quem foi ao show no Carioca Club no último domingo pode comprovar isso). Apesar dessa “mancada”, David até se redimiu ao convidar Hughes para fazer participação especial em alguns shows da turnê, que pode ser vista no Youtube.

Vale destacar também o excelente material do CD. Encarte bem produzido, que traz relatos de David Coverdale a respeito da regravação, assim como das músicas. Infelizmente, esse tipo de situação só é possível nas versões importadas, pois quando a edição brasileira for lançada, possivelmente, só terá aquelas coisas básicas: CD simples com 13 músicas (sem as faixas bônus) e o encarte com os créditos das músicas e da gravação.

No final, para um fã do Deep Purple, esse trabalho tem a nota 4, para o fã de Whitesnake pode valer até um 8. Mas para quem gosta das duas bandas, como este que vos escreve, uma nota 6 está de bom tamanho.

A seguir, a ficha técnica e o tracklist do play.

Álbum: The Purple Album
Intérprete: Whitesnake
Lançamento: 29/04/2015 (Japão), 15/05/2015 (Europa), 18/05/2015 (Reino Unido) e 19/05/2015 (EUA)
Gravadora: Frontiers
Produtores: David Coverdale, Michael McIntyre e Reb Beach
Preço médio: R$ 50,00 (importado)

David Coverdale: voz
Reb Beach: guitarra e backing vocal
Joel Hoekstra: guitarra e backing vocal
Michael Devin: baixo, gaita e backing vocal
Tommy Aldridge: bateria e percussão
Derek Hilland: teclados

CD 1:
1. Burn (Blackmore / Coverdale / Hughes / Lord / Paice)
2. You Fool No One interpolating “Itchy Fingers” (Blackmore/Coverdale/Hughes/Lord/Paice)
3. Love Child (Bolin / Coverdale)
4. Sail Away featuring Elegy For Jon (Blackmore / Coverdale)
5. The Gypsy (Blackmore / Coverdale / Hughes / Lord / Paice)
6. Lady Double Dealer (Blackmore / Coverdale)
7. Mistreated (Blackmore / Coverdale)
8. Holy Man (Coverdale / Hughes / Lord)
9. Might Just Take Your Life (Blackmore / Coverdale / Hughes / Lord / Paice)
10. You Keep On Moving (Coverdale / Hughes)
11. Soldier Of Fortune (Blackmore / Coverdale)
12. Lay Down Stay Down (Blackmore / Coverdale / Hughes / Lord / Paice)
13. Stormbringer (Blackmore / Coverdale)
Faixas bônus:
14. Lady Luck (Cook / Coverdale)
15. Comin’ Home (Bolin / Coverdale / Paice)
CD 2: DVD – Video
1. Lady Double Dealer
2. Sail Away
3. Stormbringer
4. Soldier Of Fortune
5. The Purple Album “Behind The Scenes”
6. The Purple Album EPK

Por Jorge Almeida

Os 70 anos de Ritchie Blackmore

Ritchie Blackmore: 70 anos de personalidade forte e talento nas seis cordas
Ritchie Blackmore: 70 anos de personalidade forte e talento nas seis cordas

Hoje, 14 de abril, um dos mais lendários guitarristas da história do rock completa 70 anos de idade. Me refiro a Ritchie Blackmore, músico que fundou duas grandes bandas da história do rock: Deep Purple e Rainbow.

Nascido como Richard Hugh Blackmore a 14 de abril de 1945, em Weston-super-Mare, na Inglaterra, o jovem Ritchie Blackmore mudou-se com apenas dois anos de idade com os pais para Heston, em Hunslow, também na Inglaterra. E, em 1955, ganhou o seu primeiro violão do pai que, inclusive, lhe deu aulas de violão clássico. Em suas primeiras dedilhadas no violão, Ritchie mostrou-se desajeitado e apresentava dificuldades em lidar com o instrumento, o que despertou a impaciência do pai, que prometeu quebrar o violão em sua cabeça se não aprendesse a tocar.

Então, após muito treino, Ritchie, assim como muitos astros do rock, passou por diversas bandas (a primeira delas foi o 21s Coffe Bar Junior Skiffle Group) até chegar fevereiro de 1968, quando ele, juntamente com Jon Lord, Ian Paice, Rod Evans e Nick Simper, formaram o Deep Purple, cujo nome veio de uma música favorita da avó de Blackmore.

E com esses músicos que na metade de 1968 lançou o primeiro álbum da banda, “Shades Of Deep Purple”, recheado de regravações, fato que seguiu com o trabalho seguinte. No entanto, Blackmore e Lord estavam descontentes com a sonoridade apresentada pelo Deep Purple na ocasião. Então, ambos queriam experimentar mais com volume e eletricidade, mas consideravam que a voz de Evans não acompanharia as mudanças. A solução foi fazer um teste com Ian Gillan, que levou o amigo Roger Glover, do Episode Six.

Assim, sem Evans e Simper, Blackmore contribuiu (e fez parte) para a formação mais clássica do Deep Purple, a MK II – Blackmore/Gillan/Glover/Lord/Paice. Com essa line-up, o Deep Purple lançou os clássicos álbuns “In Rock” (1970), “Fireball” (1971), “Machine Head” (1972) e o ao vivo “Made In Japan” (1972), além do ‘injustiçado’ “Who Do We Think We Are?” (1973). E foi nesse período que Ritchie Blackmore apresentou o seu riff mais famoso: o de “Smoke On The Water”, cuja letra surgiu no período em que a banda gravava o álbum “Machine Head” em Montreux, na Suíça, quando houve um incêndio no cassino durante um show do Frank Zappa and The Mothers Of Invention.

Apesar do bom momento, Ian Gillan resolveu deixar a banda e Roger Glover o acompanhou. Na verdade, o baixista dedicou-se à produção de discos, inclusive do próprio Deep Purple. Para os seus lugares, entraram David Coverdale (voz) e Glenn Hughes (baixo). A princípio, os remanescentes – Blackmore, Lord e Paice – fizeram o convite a Paul Rodgers, que recusou para empenhar-se na formação do Bad Company. Com a nova formação, o Purple gravou o ótimo “Burn” (1974), álbum que mostrou todo o virtuosismo de Ritchie. E, no mesmo ano, fizeram “Stormbringer”, que desagradou Blackmore devido às influências do funky e do soul trazidas por Hughes e Coverdale.

Ritchie Blackmore também é conhecido pela sua personalidade forte. Isso foi comprovado no festival California Jam, realizado em 6 de abril de 1974. O evento, que seria transmitido pela TV, trazia grandes nomes como o Eagles e o Black Sabbath, entre outros. No momento em que o Deep Purple iria aparecer, Ritchie trancou-se no camarim e se recusou a entrar no palco. Os artistas que se apresentaram antes do Deep Purple terminaram antes do horário, o que fez com que a banda tivesse de adentrar antes do horário marcado, que era ao pôr do sol. Ritchie percebeu que isso iria atrapalhar os efeitos luminosos que a grupo havia preparado, por isso não quis ir. Após o canal de TV ABC trazer o xerife da cidade para levá-lo preso, ele resolveu entrar no palco. Entretanto, durante a apresentação, com raiva, ele quebrou uma câmera que se aproximou dele. Pouco tempo depois, no momento mais dramático da apresentação, o palco pegou fogo após a parede de amplificadores de Ritchie explodir. A rede de TV ABC ficou furiosa, mas a banda escapou de sua ira fugindo de helicóptero.

Pouco tempo depois do lançamento de “Stormbringer”, Ritchie Blackmore resolveu cair fora e formar outro grupo: o Rainbow. Em sua primeira formação, a nova empreitada capitaneada pelo, agora ex-Deep Purple, trazia ex-integrantes da banda Elf, que chegou a abrir shows para o DP. Dessa forma, com Ronnie James Dio no vocal, Craig Gruber (baixo), Gary Driscoll (bateria), Mickey Lee Soule (teclados) e, claro, Ritchie Blackmore na guitarra, foi lançado o ‘debut’ “Ritchie Blackmore’s Rainbow” em 1975.

O estilo musical do Rainbow era diferente do Deep Purple. Pois, suas melodias eram inspiradas em temas medievais e as letras de Dio falavam de castelos, reis, dragões e espadas. Após o disco de estreia, Blackmore dispensou todos os integrantes, exceto Dio. E recrutou o ótimo Cozy Powell para a bateria e os desconhecidos Tony Carey (teclados) e Jimmy Bain (baixo). Com esses músicos, o Rainbow gravou os álbuns “Rising” (1976), considerado o melhor trabalho do Rainbow, e o ao vivo “On Stage” (1977). Enquanto em “Long Live Rock ‘N’ Roll” (1978), Blackmore chegou a gravar as linhas de baixo enquanto o grupo estava a procura de um baixista, que foi preenchido com a entrada de Bob Daisley.

Apesar de contar com bons músicos e fazer boas canções, o Rainbow nunca foi de vender muitos discos. Então, os executivos da gravadora propuseram a Ritchie Blackmore que a banda gravasse músicas mais “comerciais” para alavancar as vendas. A ideia desagradou totalmente Ronnie James Dio, que resolveu sair do Rainbow e substituir Ozzy Osbourne no Black Sabbath. Para o seu lugar, entrou Graham Bonnet. Além de Dio, Powell foi substituído por Bobby Rondinelli.

Porém, com Bonnet, o Rainbow gravou apenas o álbum “Down To Earth”, que trouxe o maior sucesso comercial do grupo: “Since You’ve Been Gone”, um cover de Russ Ballard.

Após a saída de Graham Bonnet, Ritchie Blackmore seguiu com o Rainbow em diversas formações, como a entrada de Joe Lynn Turner e o próprio companheiro dos tempos de Deep Purple, Roger Glover, que chegou a assinar a produção de todos os discos do Rainbow após a era-Dio até a volta do Deep Purple, em 1984.

Assim, em abril de 1984, depois de muitos boatos, o Deep Purple volta à ativa com a sua formação mais clássica, a MK II. Dessa forma, Ian Gillan (que gravara o álbum “Born Again” com o Black Sabbath, no ano anterior), Roger Glover e Ritchie Blackmore (que estavam no Rainbow), juntamente com Ian Paice e Jon Lord, que deixaram o Whitesnake de David Coverdale, entraram em estúdio e, no mesmo ano, lançaram “Perfect Strangers”, considerado por muitos como o último grande trabalho do Deep Purple até hoje.

Com a MK II, o Purple ainda lançou em 1987 o mediano “The House Of The Blue Light” e o ‘live’ “Nobody’s Perfect” (1988), que trazia uma nova versão de “Hush”, cover de Joe South gravado pelo grupo pela primeira vez no disco de estreia em 1968. Contudo, a relação entre Ritchie e Gillan ficou estremecida. Com isso, em 1989, o vocalista foi mandado embora e, para o seu lugar, veio um velho conhecido de Blackmore: Joe Lynn Turner, com quem trabalhara no Rainbow. Com o novo vocalista, o Deep Purple lançou “Slaves & Masters” (1990), o que dividiu a opinião dos fãs e dos próprios integrantes, mais especificamente de Lord, Glover e Paice que, juntos, determinaram a volta de Ian Gillan, enquanto Ritchie defendia a permanência de Turner.

Ritchie cedeu e Gillan voltou para o Deep Purple e, pela terceira vez, a MK II se reuniu e gravou “The Battle Rages On”, em 1993, que trouxe dois belos arranjos: “Anya” e a faixa-título. No entanto, a tensão entre Blackmore e Gillan prosseguia. Mas, durante a turnê de divulgação do disco, em meados de 1994, o Purple não tinha mais clima para manter os dois. Para se ter uma ideia do clima entre os dois, no homevídeo “Come Hell Or High Water” (1994), a banda entrou no palco durante um show realizado na Alemanha tocando “Highway Star” sem Blackmore, que só veio a aparecer na hora de seu solo e, assim que adentra no certame, recebe uma reverência irônica de Ian Gillan, e, em certo momento do solo, Ritchie pegou uma garrafa d’água e joga em direção do vocalista (que tocava a sua “inaudível” percussão). Quem quiser conferir esse momento, acesse o link do vídeo aqui, mais precisamente entre 4’00” e 4’07”.

O guitarrista saiu e prometeu nunca mais voltar. Para seu lugar, durante a turnê foi convocado Joe Satriani, mas o posto de Blackmore foi preenchido por Steve Morse, que segue no Deep Purple até hoje.

Fora da banda que o consagrou, Ritchie Blackmore resolveu remontar o Rainbow com Doogie White nos vocais, Paul Morris (teclados), Greg Smith (baixo), John O’Reilly (bateria), além de Mitch Weiss (harmonica) e Candice Night (backing vocal) e, obviamente, Blackmore na guitarra. Com essa formação, a banda lançou “Stranger In Us All” (1995). Esse foi o último trabalho de estúdio do Rainbow.

Em 1997, Ritchie Blackmore se juntou a Candice Night, que tornou-se sua esposa, e formaram o Blackmore’s Night, banda de folk rock que toca temas renascentistas. Até 2013, o Blackmore’s Night havia lançado nove discos de estúdios, entre eles “Autumn Sky” (2010), cujo título é uma homenagem a Autumn Esmeralda Blackmore, filha de Ritchie com Candice.

E, desde então, esse grande guitarrista segue a vida com a esposa se apresentando com o Blackmore’s Night e, para a tristeza de seus fãs dos tempos de Deep Purple, Ritchie não cogita quaisquer possibilidades em realizar trabalhos com os ex-companheiros de Rainbow e de Deep Purple. E convites não faltaram, inclusive feitos por Joe Lynn Turner e por David Coverdale. Este último, frustrado por não conseguir reunir a MK III do Deep Purple, alguns anos após a morte de Jon Lord, resolveu lançar com o Whitesnake o “The Purple Album”, que traz temas do Deep Purple do período em que Coverdale fez parte da banda.

E, assim, fizemos esse pequeno resumo da carreira desse que é um dos maiores guitarristas de todos os tempos. O mago da Fender Stratocaster branca escreveu seu nome na história do rock.

Vida longa a Ritchie Blackmore.

Por Jorge Almeida

Deep Purple: 40 anos de “Stormbringer”

"Stormbringer": último trabalho de Ritchie Blackmore com o Deep Purple até 1984

No último mês de novembro, o nono álbum do Deep Purple – “Stormbringer” – completou 40 anos de seu lançamento. O disco marcou o fim da MK III, uma vez que Ritchie Blackmore saiu pela primeira vez da banda em 7 de abril de 1975 (próximo do guitarrista completar 30 anos de vida) em virtude de sua insatisfação com os rumos musicais que o grupo estava a tomar, especialmente a influência da Black Music, mais especificamente funky e soul, de Glenn Hughes.

Gravado no Musicland Studios, em Munique, em agosto de 1974, e mixado no The Record Plant, em Los Angeles, em setembro do mesmo ano, “Stormbringer” foi produzido por Martin Birch em conjunto com o Purple.

Apesar de não conseguir igualar-se ao seu antecessor – o estupendo “Burn” -, nas paradas e na aceitação da crítica e do público, o play alcançou boas colocações nas paradas da Noruega (2º lugar), na Austrália (4º), enquanto nos Estados Unidos ocupou a 20ª colocação na Billboard. No entanto, rendeu Disco de Ouro na terra do Tio Sam, no Reino Unido e na França.

A paciência do carrancudo Blackmore estava a minguar cada vez mais com a sonoridade que o Deep Purple estava a adotar na ocasião. A tolerância do guitarrista durou até o término da turnê europeia da promoção do álbum. Pela insatisfação demonstrava, Ritchie Blackmore praticamente já vinha com o seu projeto em mente e que tornou-se realidade ainda em 1975 – o Rainbow.

A imagem utilizada na capa de “Stormbringer” é baseada em um registro fotográfico realizado em 1927 por Lucille Handberg. Na ocasião, em 8 de julho daquele ano, a fotógrafa captou um furacão perto da cidade de Jasper, em Minnesota e, a partir de então, a foto tornou-se uma imagem clássica. A mesma fotografia foi editada e utilizada na capa do álbum “Tinderbox” (1986), de Siouxie And The Banshees.

O disco abre com a clássica faixa-título e que traz a quase inaudível fala de David Coverdale, antes de entrar os vocais, copiada de um trecho do filme “O Exorcista” (1973). O grande trunfo da música são o riff de Blackmore e o vocal furioso de Coverdale. Certamente um dos maiores clássicos dessa formação do Deep Purple. Em seguida, “Love Don’t Mean A Thing”, que aborda o bon vivant que só se interessa pelo dinheiro. Aqui temos a mescla do que viria a ser o Whitesnake de anos mais tarde com o funky do Trapeze de Glenn Hughes. Mesmo fazendo um trabalho a contragosto, Ritchie manda muito bem ao colocar uma guitarra bem sacada na música. Posteriormente, vem a bela “Holy Man”, que tem como protagonista Glenn Hughes, que a interpreta com sentimento. Vale conferir também o solo cheio de feeling de Blackmore. E o lado A do vinil termina com “Hold On”, em que Coverdale e Hughes fazem dueto e é outra tipicamente “whitesnakiana”. Sua letra fala de forma bem franca sobre sexo.

O lado B começa com “Lady Double Dealer”, uma faixa hard rock clássica, acelerada e batida rápida, porém, o solo parece um pouco inspirado e a música é relativamente curta, o que é uma pena. A sexta música é “You Can’t Do It Right”, uma canção totalmente Glenn Hughes, pois é funky de cabo a rabo. O baixista aqui detona. O antepenúltimo tema é “High Ball Shooter”, outro hard em que Hughes dá mais um show, embora seja mais contida em relação a “Lady Double Dealer”. Destaque também para o desempenho de Ian Paice. O play chega ao final com mais duas grandes músicas: “The Gypsy”, onde o riffmaster Ritchie Blackmore executa sua Fender Stratocaster com maestria. E a clássica “Soldier Of Fortune”, uma balada perfeita escrita pela dupla Blackmore/Coverdale. Confesso que não sei quem se destaca mais: se é David cantarolando-a com a alma ou se é o excelente trabalho de Ritchie no violão e na guitarra. Mas uma coisa é certa: o Deep Purple foi certeiro ao deixá-la como música de encerramento desse incompreendido álbum.

Para celebrar os 35 anos de seu lançamento, em 2009, “Stormbringer” foi relançado com todas as faixas remasterizadas, além de alguns bônus e um DVD.

Vocês podem ter notado que na descrição toda do texto o nome de Jon Lord não foi citado. Isso se deve porque, apesar de não ter comprometido em nada no disco, o mestre dos teclados pouco apareceu. Na verdade, é que o saudoso tecladista não se destacou com o mesmo brilhantismo dos trabalhos anteriores. Mesmo assim, só a presença de Jon Lord já torna algo simples em grandioso. E mesmo porque o Deep Purple é o que é hoje graças a ele, que justifica o sobrenome.

Embora não esteja no mesmo patamar que os álbuns anteriores, “Stormbringer” é um disco versátil, criativo e que serve para mostrar a capacidade que o Deep Purple tem em se reinventar, mas sem perder a sua essência. Sim, é um daqueles discos que costumo classificar como “injustiçado”.  E digo mais: particularmente, acho que é o segundo melhor disco (só perde para “Burn”) lançado pelo Deep Purple sem ser com a MK II.

A seguir, a ficha técnica e o tracklist do disco.

Álbum: Stormbringer
Intérprete: Deep Purple
Lançamento: novembro de 1974
Gravadora: EMI/Purple Records (Reino Unido) / Warner Records (EUA)
Produtores: Martin Birch / Deep Purple

David Coverdale: voz
Ritchie Blackmore: guitarra e violão
Glenn Hughes: baixo, voz e backing vocal
Jon Lord: órgão e teclados
Ian Paice: bateria

1. Stormbringer (Blackmore / Coverdale)
2. Love Don’t Mean A Thing (Blackmore / Coverdale / Hughes / Lord / Paice)
3. Holy Man (Coverdale / Hughes / Lord)
4. Hold On (Coverdale / Hughes / Lord / Paice)
5.Lady Double Dealer (Blackmore / Coverdale)
6. You Can’t Do It Right (Blackmore / Coverdale / Hughes)
7. High Ball Shooter (Blackmore / Coverdale / Hughes / Lord / Paice)
8. The Gypsy (Blackmore / Coverdale / Hughes / Lord / Paice)
9. Soldier Of Fortune (Blackmore / Coverdale)

Por Jorge Almeida

Há 30 anos era lançado “Perfect Strangers”, do Deep Purple

"Perfect Strangers": álbum que marca a volta do Deep Purple, em 1984
“Perfect Strangers”: álbum que marca a volta do Deep Purple, em 1984

Hoje, 16 de setembro, o clássico album do Deep Purple, “Perfect Strangers”, complete 30 anos de seu lançamento e foi marcado pela volta das atividades do grupo após um hiato de oito anos, sendo onze sem a sua formação mais bem sucedida e popular, a “Mark II”, composta por Ian Gillan, Roger Glover, Ritchie Blackmore, Jon Lord e Ian Paice, que trabalharam juntos pela última vez, até então, no álbum “Who Do We Think We Are?”, em 1973.

Antes da reativação do grupo, os integrantes seguiam a vida com seus projetos: Ritchie Blackmore e Roger Glover estavam no Rainbow, Ian Gillan se aventurava com o Black Sabbath, Jon Lord era o mago dos teclados do Whitesnake de David Coverdale e Ian Paice estava na banda de apoio de Gary Moore (ele também havia passado pelo Whitesnake no final dos anos 1970 e início dos 1980).

Na verdade, a volta do Deep Purple estava programada para acontecer em 1983, mas Gillan, após uma noite de bebedeira com Tony Iommi, acertou em gravar um disco com o Black Sabbath, o lendário “Born Again”, o que quase fez Blackmore desistir da ideia da reunião. No entanto, o dinheiro falou mais alto entre empresários e músicos e, assim, o grupo voltou à ativa, o que foi de bom proveito para os envolvidos. A banda assinou um contrato com a Polygram, com a Mercury (para o mercado norte-americano) e a Polydor Records, para o Reino Unido e outros países da Europa.

Gravado durante o mês de agosto de 1984 nos estúdios Horizons, em Stowe, no Vermont, Estados Unidos, o disco traz a produção assinada por Roger Glover e a própria banda.

A reunião foi bem sucedida, pois “Perfect Strangers” chegou ao quinto lugar nas paradas do Reino Unido e atingiu o 17º lugar na Billboard 200 nos Estados Unidos, o que rendeu o disco de platina na terra do Tio Sam. Além disso, o Purple arrebatou o ouro no Grã-Bretanha, na Alemanha e na Argentina.

Assim como as vendagens do play, a turnê, financeiramente falando, foi um tremendo sucesso. A “tour” começou na Austrália, passou pela América do Norte, Europa e precisou fazer outras apresentações adicionais nos Estados Unidos, onde eles só não arrecadaram mais com shows que Bruce Springsteen.

Na volta para o Reino Unido, o Deep Purple realizou um show no tradicional Knebworth Festival, em 22 de junho de 1985, que teve também as participações de bandas como o UFO, Scorpions, Meat Loaf, Mountain, entre outros. Apesar do tempo ruim, que contou com uma chuva torrencial, cerca de 80 mil fãs compareceram à edição do festival que recebeu a alcunha de “Return Of The Knebworth Fayre”.

O álbum começa com a poderosa “Knocking At Your Back Door”, que é a faixa mais longa do play. Foi lançada como single. Uma das melhores do disco. Na sequência, temos a pesada “Under The Gun”, onde os caras demonstram que não vieram para brincadeira. O terceiro tema é “Nobody’s Home”, que também foi lançada como single e é a única do disco a trazer a assinatura dos cinco integrantes (as demais, exceto a faixa bônus “Son Of Alerik”, levam a assinatura do trio Blackmore/Gillan/Glover). Posteriormente surge “Mean Streak”, que é a mais fraca do disco.

Virando a “bolacha”, “Perfect Strangers” começa justamente com a faixa que dá o nome ao álbum. Com melodias e arranjos impecáveis, a música tornou-se um hino para os “purplenianos”. Até hoje é inimaginável um concerto do DP sem “Perfect Strangers”. E, por incrível que pareça, não tem solo de guitarra. Já “A Gypsy’s Kiss” traz leve semelhança com a fase inicial do Rainbow, o que é um elogio, que fique claro. A sétima faixa é a balada dramática “Wasted Sunsets”, que só poderia ser cantada por Ian Gillan, e nenhum outro mais. Bela canção. E, para finalizar o vinil, “Hungry Daze”, em que Jon Lord dá uma aula com seu teclado.

As versões em CD e K7 de “Perfect Strangers” trazia a faixa extra “Not Responsible”, uma das raras músicas do Purple com letras profanas, com direito a palavra “fucking” podendo ser ouvida. Além dessa, na versão remasterizada e relançada do álbum em junho de 1999, trazia a instrumental “Son Of Alerik”, com seus dez minutos de duração composta por Ritchie Blackmore, que havia sido lançada como lado B do single “Perfect Strangers”.

Depois de “Perfect Strangers”, a “MK II” lançou ainda os álbuns “The House Of Blue Light” (1987) e o ao vivo “Nobody’s Perfect”, em 1988, antes da saída de Ian Gillan, que ocorreu em seguida (ele retornou em 1992 para desespero de Blackmore). Afinal, apesar da satisfação dos fãs pela volta do grupo, as rusgas entre Ian Gillan e Ritchie Blackmore também voltaram, o que complicou a duração da formação mais clássica de um dos pilares do Heavy Metal.

Para muitos, esse foi o último grande trabalho do Deep Purple, embora este que vos escreve discorde, mas não podemos negar que trata-se de um clássico.

Abaixo, a ficha técnica e o tracklist da versão do CD relançado em 1999.

Álbum: Perfect Strangers
Intérprete: Deep Purple
Lançamento: 16 de setembro de 1984
Gravadora: Polydor (Reino Unido) / Mercury (EUA) / Polygram (internacional)
Produtores: Roger Glover e Deep Purple

Ritchie Blackmore: guitarra
Ian Gillan: voz
Roger Glover: baixo
Jon Lord: teclados
Ian Paice: bateria

1. Knocking At Your Back Door (Blackmore / Gillan / Glover)
2. Under The Gun (Blackmore / Gillan / Glover)
3. Nobody’s Home (Blackmore / Glover / Gillan / Lord / Paice)
4. Mean Streak (Blackmore / Gillan / Glover)
5. Perfect Strangers (Blackmore / Gillan / Glover)
6. A Gypsy’s Kiss (Blackmore / Gillan / Glover)
7. Wasted Sunsets (Blackmore / Gillan / Glover)
8. Hungry Daze (Blackmore / Gillan / Glover)
9. Not Responsible (Blackmore / Gillan / Glover)
10. Son Of Alerik (Blackmore)

Por Jorge Almeida