Twisted Sister: 35 anos de “You Can’t Stop Rock ‘N’ Roll”

“You Can’t Stop Rock ‘N’ Roll”: o primeiro trabalho do twisted Sister lançado por uma grande gravadora

No mês de maio passado, o segundo álbum de estúdio dos norte-americanos do Twisted Sister, “You Can’t Stop Rock ‘N’ Roll”, completou 35 anos de seu lançamento. Gravado no início de 1983, no Sol Studios, em Cookham, na Inglaterra, o material foi lançado pela Atlantic e produzido por Stuart Epps

Após a vendagem sólida de seu ‘debut’, “Under The Blade” (1982), lançado de forma independente, o Twisted Sister foi recompensado com um contrato com uma grande gravadora, a Atlantic Records, que se aproximou da banda depois de uma aparição dos “sickmotherfuckers” no programa de TV musical chamado The Tube. A gravadora fez o primeiro lançamento doméstico do grupo, justamente “You Can’t Stop Rock ‘N’ Roll” (a gravadora relançou o trabalho independente da banda em julho de 1985).

Com a mesma pegada do disco anterior, a banda apostou em seu Hard Rock cru e ainda conseguiram ser mais consistentes no quesito de composição e performance. No quesito produção, “You Can’t Stop…” soou melhor que seu antecessor, mas saiu tão pesado quanto. Depois do sucesso do play, a gravadora decidiu promover a banda mais fortemente. Um videoclipe foi feito para a faixa-título, tornando-se o primeiro de uma série de vídeos cômicos que deixaram a popularidade do grupo em alta.

O álbum recebeu o certificado de ouro em 1995 pelas vendas superiores a 500 mil cópias e, com três singles lançados – a faixa-título, “The Kids Are Back” e “I Am (I’m Me)”, o trabalho deixou um cenário perfeito para o Twisted Sister alavancar de vez com o lançamento do trabalho seguinte: “Stay Hungry”, em 1984.

O álbum inicia com uma dobradinha incrível que mostra toda a pegada e a energia do Twisted Sister: “The Kids Are Back” e “Life A Knife In The Back“, sempre obrigatória nos shows. O terceiro tema é a ótima “Ride To Live, Live To Ride“, excelente trilha sonora para ouvir ao volante (ou ao guidão, por que não?).  Posteriormente, outro petardo, “I am (I’m Me)“. E o disco termina o lado A com “The Power And The Glory“, que apresenta uma excepcional linha de baixo tocada por Mark “The Animal” Mendoza.

Enquanto isso, o lado B da bolacha começa bem com “We’re Gonna Make It“, com seu ótimo riff, que é sucedida por “I’ve Had Enough“, outra com excepcional trabalho de Mendoza. O oitavo tema é a não tão conhecida, mas espetacular “I’ll Take You Alive”, com outro excelente riff. O disco dá uma quebrada de ritmo com a balada “You’re Not Alone (Suzette’s Song)“, composta por Dee Snider em homenagem para sua esposa, Suzette – é tipo uma espécie de “Beth“, do Kiss, para os padrões do Twisted Sister. A obra termina com a faixa-título, que aborda a força do Rock and Roll e da impossibilidade de pará-lo. Aliás, essa música é hino quanto “We’re Not Gonna Take It” na carreira dos “SMF” do Twisted Sister.
O disco foi relançado anos mais tarde em CD acrescido de três faixas bônus: “One Man Woman”, “Four Barrel Heart Of Love” e “Feel The Power”.

Quando se fala em Twisted Sister a associação à música (e ao tosco clipe) de “We’re Not Gonna Take It” é inevitável. Mas para o quinteto chegar até o seu “hit-mor”, eles ralaram bastante e, antes da consagração do grupo com “Stay Hungry”, os caras lançaram um ótimo disco e que, para quem curte o cenário do Hard Rock/Heavy Metal dos anos 1980, trata-se de um trabalho tão imperdível quanto o clássico registro de 1984 do grupo. Discaço.

A seguir, a ficha técnica e o tracklist da obra.

Álbum: You Can’t Stop Rock ‘N’ Roll
Intérprete: Twisted Sister
Lançamento: maio de 1983
Gravadora: Atlantic Records
Produtor: Stuart Epps

Dee Snider: voz
Jay Jay French e Eddie “Fingers” Ojeda: guitarras rítmicas e solo e backing vocal
Mark “The Animal” Mendoza: baixo e backing vocal
A. J. Pero: bateria e percussão

1. The Kids Are Back (Snider)
2. Like A Knife In The Back (Snider)
3. Ride To Live, Live To Ride (Snider)
4. I Am (I’m Me) (Snider)
5. The Power And The Glory (Snider)
6. We’re Gonna Make It (Snider)
7. I’ve Had Enough (Snider)
8. I’ll Take You Alive (Snider)
9. You’re Not Alone (Suzette’s Song) (Snider)
10. You Can’t Stop Rock ‘N’ Roll (Snider)
11. One Man Woman (Snider)*
12. Four Barrel Heart Of Love (Snider)*
13. Feel The Power (Snider)*
* Faixas bônus

Por Jorge Almeida

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Uriah Heep: 35 anos de “Head First”

“Head First”: álbum do Uriah Heep que completa 35 anos em 2018

O 15º trabalho de estúdio do Uriah Heep, “Head First”, completou 35 anos de seu lançamento no último mês de maio. Produzido por Ashley Howe, o disco saiu pelo selo britânico da Gerry Bron, a Bronze Records. Gravado entre janeiro e março de 1983 no The Manor Studio, em Oxfordshire, e no The Roundhouse, em Londres,

O disco foi gravado com a mesma formação do trabalho anterior, “Abominog” (1982), porém, com uma quantidade maior de músicas compostas pelos integrantes do grupo. Contudo, Bob Daisley deixou o Uriah Heep pouco tempo depois para se juntar à banda de Ozzy Osbourne. Então, para a turnê, Trevor Bolder voltou ao grupo e efetivamente substituiu o seu substituto (parece confuso, né?), e ficou na banda até a sua morte, ocorrida em 2013.

Apesar de ter sido um sucessor digno de “Abominog”, o play sofreu com a falta de promoção quando a Bronze entrou em liquidação no mês seguinte após o lançamento. Um vídeo da turnê, um show realizado na Nova Zelândia, foi fortemente apresentado no longa metragem “Easy Livin’: The History Of Uriah Heep”, lançado no formato de laserdisc somente no Japão.

Com Ashley Howe, que atuou quase como um sexto integrante do grupo, o Uriah Heep seguiu na mesma linha do disco anterior, combinando o poder do Heavy Metal pesado e a suavidade do AOR. Isso resultou em interesse breve e recente pela banda entre os fãs mais jovens do gênero.

O Uriah Heep seguiu em turnê pelos Estados Unidos como banda de apoio para o Rush, Judas Priest e Def Leppard, cujo vocalista Joe Elliot elogiou a excursão feita com os britânicos. A aquela altura, Gerry Bron já não gerenciava o grupo, mas sim com a supervisão de Neil Warnock pela Europa e pela mesma equipe de gerenciamento do Blue Oyster Cult nos Estados Unidos, quando, finalmente, a Bronze Records entrou em colapso com o peso das dívidas e que, de acordo com Mick Box, “… custou muito dinheiro ao Heep”.

Não satisfeitos com os habituais mercados estabelecidos, os caras começaram a expandir seus horizontes visitando territórios mais “obscuros” (pelo menos em termos de Heavy Metal), como as turnês da Massive Asian – Índia, Malásia e Indonésia – e também da América do Sul seguiram antes do quinteto retornar ao estúdio com o produtor Tony Platt e um novo contrato assinado com a Portrait, da CBS, garantido pelo novo empresário, Harry Maloney. Enquanto isso, uma personalidade marcante na história da banda tivera um triste fim: David Byron morreu de ataque cardíaco e doença hepática em 28 de fevereiro de 1985, aos 38 anos de idade.

O álbum foi lançado originalmente com dez temas, porém, no relançamento do play, em 1997, veio com três faixas bônus e, na edição que saiu em 2005, contém mais cinco músicas a mais de extra.

Embora não tenha o mesmo culhão em relação aos trabalhos da década anterior, “Head First” deu suas “patinadas”, mas não pode ser considerado um fracasso. O Uriah Heep tentou se adequar ao mercado da época e fez algo semelhante ao Rainbow: saiu do Hard Rock/Heavy Metal para fazer Heavy Metal/AOR. Aliás, a semelhança com a sonoridade da banda de Ritchie Blackmore (da fase pós-Dio) é perceptível na primeira audição, como a faixa de abertura, por exemplo. Mas uma das principais ‘pérolas’ do disco é “Lonely Hearts”, sim, isso mesmo: hit de Bryan Adams gravada em 1981 para o álbum “You Want It, You Got It”.

A seguir, a ficha técnica e o tracklist (do lançamento original) da obra.

Álbum: Head First
Intérprete: Uriah Heep
Lançamento: maio de 1983
Gravadora: Bronze Records / Mercury
Produtor: Ashley Howe

Mick Box: guitarra e backing vocal
Peter Goalby: voz
Bob Dasley: baixo
Lee Kerslake: bateria, percussão e backing vocal
John Sinclair: teclados, sintetizadores e backing vocal

Frank Ricotti: percussão em “Roll-Overture

1. The Other Side Of Midnight (Box / Daisley / Goalby / Kerslake / Sinclair)
2. Stay On Top (Jackson)
3. Lonely Nights (Adams / Vallance)
4. Sweet Talk (Box / Daisley / Goalby / Sinclair / Kerslake / L. Sinclair)
5. Love Is Blind (Zito / Carbone)
6. Roll-Overture (Box / Daisley / Goalby / Sinclair)
7. Red Lights (Box / Daisley / Goalby / Sinclair)
8. Rollin’ The Rock (Box / Daisley / Goalby / Sinclair / Kerslake)
9. Straight Through The Heart (Box / Daisley / Goalby / Sinclair / Kerslake)
10. Weekend Warriors (Box / Daisley / Goalby / Sinclair / Kerslake)

Por Jorge Almeida

Jethro Tull: 45 anos de “A Passion Play”

“A Passion Play”: álbum conceitual do Jetrho Tull que completa 45 anos em 2018

Nesta sexta-feira, 13 de julho, o sexto álbum de estúdio do Jethro Tull, “A Passion Play”, completa 45 anos de seu lançamento, coincidentemente, no Dia Mundial do Rock. Produzido por Terry Ellis, o disco foi gravado durante o mês de março de 1973 e lançado pela Chrysalis Records, e seu formato é similar ao disco anterior, “Thick As A Brick”, ou seja, um álbum conceitual com uma única canção dividida nos dois lados do LP – salvo aqui por uma interrupção para a leitura do estranho conto “The Story Of The Hare Who Lost His Spectacles”. O tema do conceito é a jornada espiritual de um homem na vida após a morte.

Os versos prolixos, cheios de jogos de palavras e apólogos, assentados com uma música de certo modo sem capacidade criadora se confrontada aos trabalhos anteriores, fez de “A Passion Play” um dos álbuns mais controversos da carreira do Tull. Em seu lançamento em 1973, o álbum recebeu em geral críticas negativas; ainda assim, vendeu bem o suficiente para alcançar a primeira colocação nas paradas de sucesso norte-americanas.

Os trabalhos para a gravação do álbum tiveram início na Suíça, mas a banda resolveu mudar para França, motivado para escapar das altas taxadas de impostos britânicos, tática adotada por inúmeras bandas. O Tull se instalou nos estúdios Château d’Hérouvile – famoso nos anos 1970 por serem frequentados por nomes como Pink Floyd, Elton John e T. Rex. A ideia inicial era fazer um disco duplo, o próximo passo lógico de “Thick As A Brick”. Os conceitos eram tão variados quanto o significado da vida (“Skating Away”), os críticos (“Critique Oblique”) e a comparação entre o homem e o reino animal (“Animalee” e “Law Of The Bangle”). Apesar de ter material suficiente gravado para preencher três lados do álbum duplo pretendido, problemas no estúdio e desconforto entre os integrantes da banda fizeram com que Ian Anderson descartasse as músicas e começasse do zero. Pouca parte do material foi reutilizado em “A Passion Play”, com a notável exceção de “Critique Oblique”, que foi adaptada ao novo conceito. E parte do material gravado anteriormente foi utilizado mais tarde no disco “War Child” (1974), como “Skating Away” e “Only Solitaire”.

Com apenas dezessete dias antes da turnê americana, Ian escreveu um novo material e reestruturou vastamente algumas das ideias do “Chateau d’Isaster” (apelido que Anderson deu ao estúdio francês) e a banda gravou o álbum de 45 minutos.

Com duas músicas divididas em quatro atos, o enredo da obra aborda que Ronnie Pilgrim reconhece a própria morte e, de forma fantasmagórica, assiste ao próprio funeral e, antes de passar pelo purgatório, recebe a visita de um guia angelical sorridente (ato 1). Na sequência, ele é levado para uma espécie de sala de exibição em que os eventos de sua vida são exibidos repetidas vezes por um projecionista diante de um júri exigente. Após um longo e peculiar processo de avaliação, o júri concluiu que ele levou uma vida decente e, portanto, será admitido no céu, o que corresponde ao súbito começo, de uma alegre melodia “Forest Dance” (ato 2). E, antes do início do ato 3, o enredo é interrompido por um interlúdio cômico falado e não relacionado à saga (narrado por Jeffrey Hammond com um sotaque exagerado de Lancashire). Apresentado como uma fábula absurda, o interlúdio, recheado com jogo de palavras, fala do fracasso de um grupo de animais antropomórficos para ajudar uma lebre a encontrar seus óculos perdidos. O ato 3 começa com a retomada da melodia “Forest Dance”, e Ronnie Pilgrim, agora no céu, porém, se demonstrava insatisfeito por estar no plano celestial por conta de ainda estar ligado à sua atmosfera mundana. Sendo assim, incapaz de se adaptar, Pilgrim vai até G. Oddie & Filho para solicitar uma mudança para o inferno, sentido que ele tem um “direito de estar errado”. Descendo para o inferno, Pilgrim é confrontado por Lúcifer (chamado de “Lucy” no programa fictício do álbum), que afirma sua autoridade fria como “supervisor” de Pilgrim. Ronnie, de imediato, percebeu que o inferno ainda é pior que o céu e foge, compreendendo-se agora como um ser que não é completamente bom e nem mau. Então, ele fala a Magus Perdé sobre o seu dileta e, tendo mostrado e rejeitado os extremos de suas opções de vida após a morte, ele finalmente fica em uma praia de Styx (rio infernal no Hades dedicado a Estige, de acordo com a mitologia grega) como um “voyager into life” (“viajante na vida”). Nesta praia, outras pessoas e animais também se preparam para “renovar o penhor da longa canção da vida”. A peça conclui com uma forte implicação de renascimento eterno e, assim o ato 4 termina.

Em “A Passion Play”, a banda tocou uma infinidade de instrumentos, especialmente, dominando a menor variação de teclas. A parte falada da peça “A história da lebre que perdeu seus óculos”, tem suas relações em termos musicais com “Pedro e o Lobo”, de Prokofiev.

A intensa turnê de apoio de nove meses, que começou antes mesmo do lançamento do álbum, apresentou o disco na íntegra, um filme de apoio (que mais tarde apareceria no vídeo da edição de comemoração dos 25 anos do lançamento do play) e, talvez, o ponto alto do Jethro Tull para as elaboradas produções teatrais.

No entanto, um tour manager do Jethro Tull da época, de forma equivocada, anunciou que a banda interromperia as apresentações ao vivo, como repúdio às críticas negativas dadas ao álbum e aos shows, o que não era verdade e que isso prejudicou seriamente a imagem da banda. Tanto que, embora tenha recebido críticas negativas e sendo comparado de forma desfavorável com “Thick As A Brick”, “A Passion Play” se tornou o segundo disco do Jethro Tull a alcançar o primeiro lugar das paradas nos Estados Unidos.

Ao longo desses 45 anos, o disco teve suas reedições em diversos formatos: LP, CD, CD duplo, boxset. Destaque para a edição comemorativa de 30 anos intitulada Ultradisc Original Master Recording Gold CD, que contém trilhas que podem ser ouvida para cada título (16 faixas), porém as versões em CD contém uma ou duas faixas, dependendo da versão. A vantagem das versões em CD que traz apenas uma faixa é que o álbum pode ser ouvido de forma ininterrupta, sem aqueles “cortes” na mudança de faixa.

Embora as críticas não tenham sido favoráveis, “A Passion Play” merece ser ouvido por trazer um enredo interessante e peculiar.

A seguir, a ficha técnica e o tracklist da obra.

Álbum: A Passion Play
Intérprete: Jethro Tull
Lançamento: 13 de julho de 1973
Gravadora: Chrysalis Records
Produtor: Terry Ellis

Ian Anderson: voz, flauta, violão, saxofone soprano
Martin Barre: guitarras
John Evan: piano, órgão, sintetizadores e backing vocal
Jeffrey Hammond: baixo e narração em “The Story Of The Hare Who Lost His Spectacles
Barriemore Barlow: tambores, tímpanos, marimba e glockenspiel

David Palmer: arranjos orquestrais

1. A Passion Play (Part 1) (Anderson)
2. A Passion Play (Part 2) (incluindo “The Story Of Hare Who Lost His Spactacles) (Anderson) (Anderson / Hammond / Evan)

Por Jorge Almeida

Ira!: 30 anos de “Psicoacústica”

“Psicoacústica”, do Ira!, completou 30 anos no último mês de maio

No dia 11 de maio de 1988, portanto, há 30 anos, foi lançado “Psicoacústica”, o terceiro trabalho de estúdio dos paulistanos do Ira!. Gravado entre novembro de 1987 e janeiro no estúdio Nas Nuvens, Rio de Janeiro, a obra foi lançada pela WEA e produção assinada pela banda em conjunto com Paulo Junqueiro.

O quarteto formado por Edgard Scandurra (guitarra), Nasi (voz), Gaspa (baixo) e André Jung (bateria) vinha de dois excelentes discos na bagagem (“Mudança de Comportamento”, de 1985, e “Vivendo e Não Aprendendo”, de 1986) e, assim como seus contemporâneos, estavam com o Rock Brasil a pleno vapor, com aparição em programas de TV, como o Cassino do Chacrinha, por exemplo, excursionando país afora e, depois da boa repercussão da primeira edição do Rock In Rio, em 1985, o Brasil entrou na rota dos principais shows de rock e festivais internacionais. E o Ira!, assim como os demais grupos do BRock, fizeram parte do cast de alguns desses. Mas, um evento em especial chamou a atenção, na verdade, provocou aquele adjetivo que fez jus ao nome do grupo.

O Ira! já estava em processo de gravação de seu terceiro disco quando foi convidado para fazer parte das atrações do Hollywood Rock de 1988. Os paulistas foram chamados para se apresentar na segunda edição e o resultado foi lamentável. Aproveitando do prestígio conquistado com clássicos do rock brazuca, como “Envelheço na Cidade“, “Flores Em Você“, “Pobre Paulista“, entre outros, os caras colocaram para fora toda a sua “ira” com os organizadores do festival tratavam os músicos brasileiros. Na conferência de imprensa para o evento, o grupo se rebelou e diante dos jornalistas reunidos ali (e também dos organizadores) denunciaram que os artistas brasileiros não recebiam cachê pelas apresentações e também tiveram um tratamento inferior aos nomes internacionais.

Embora tivesse razão, o Ira! ficou sozinho no protesto, já que os demais grupos brasileiros não se importaram e enxergaram o festival como chance de ampliar mais fama e prestígio. A indignação de Nasi e sua trupe tiveram consequências na apresentação, tais como sabotagens com falhas no som e interrupção do show pelos produtores do Hollywood Rock antes do término do show da banda, tudo isso rolando com o público enaltecendo o grupo. Dessa forma, o Ira! saiu do cenário dos grandes festivais por anos, sendo taxados de “rebelde sem causa”. O impacto que isso causou nos integrantes foi tão forte que, por pouco, a banda não encerrou suas atividades. Desiludido com o mainstream do rock nacional, Nasi e Jung passaram a ouvir outros gêneros, especialmente RAP e Hip Hop, para desespero de Scandurra.

A raiva adquirida pelo Ira! com esse incidente fez com que o Ira! se autoproduzisse e, com uma pequena colaboração do português Paulo Junqueiro, eles estavam livres para fazer o que quiserem e dispuseram toda sua fúria em um disco que, para os padrões da época, foi considerado abusado e ousado, fugindo totalmente dos “padrões midiáticos” para tocar nas rádios ao apresentar músicas com mais de cinco minutos de duração, o que justifica o fato de o álbum ter apenas oito faixas. O aspecto anticomercial do play culminou com o fracasso de vendas: apenas 50 mil cópias, porém, a crítica recebeu bem “Psicoacústica”. O crítico musical Thales de Menezes, em artigo ao caderno Ilustrada, da Folha de São Paulo, em 11 de maio de 1988, destacou que “é o disco mais ousado do Ira!. O grupo rompeu com a estrutura tradicional ‘1ª estrofe, refrão, 2ª estrofe, refrão, solo, refrão’ que norteava a maioria das músicas de seus dois primeiros LPs”.

O disco abre com “Rubro Zorro“, com a sua ‘intro’ pesada e com um riff rasgado de Scandurra. A música traz um sampler de um trecho do áudio do filme “O Bandido da Luz Vermelha” (1968), que foi inspiração para a letra da música. Na sequência, “Manhãs de Domingo” segue a sonoridade dos primeiros álbuns do grupo, começa com Scandurra nos teclados fazendo parecer um coral de Igreja, seguido de um riff pesado e o baixo galopante de Gaspa. André Jung detonando os pratos. O guitarrista e Nasi dividem os vocais. Edgard menciona a expressão “amigos invisíveis”, frase que daria nome ao seu álbum solo, lançado em 1989. A canção dá uma diminuída no andamento e aparecem as vozes sobrepostas. Uma das minhas preferidas do álbum. Mantendo a pegada da faixa anterior, “Poder, Sorriso, Fama“, mas com Nasi sussurrando na música e Edgard, mais uma vez, destruindo tudo na guitarra, mas com uma pegada que remete ao início dos Mutantes, especialmente na parte que a guitarra de Scandurra sobrepõe a voz de Nasi. A obra chega à metade com “Receita Para Se Fazer Um Herói“, uma balada com pitadas de reggae à lá The Clash (uma das inspirações do Ira!) e que também tem outro sampler do já citado filme de Rogério Sganzerla. Aliás, essa música tem um caso bem peculiar. Edgard Scandurra recebeu a letra da música de um colega de quartel, no início dos anos 1980, chamado Esteves. O Ira! já tocava a música desde as suas primeiras apresentações e resolveu lançá-la no disco, mas o grupo não conseguiu entrar em contato com o tal Esteves para tratar da autorização da publicação da faixa – o que explica o “Esteves, cadê você?” na lista de agradecimentos do disco. Então, meses mais tarde, com o álbum já lançado, Esteves apareceu e ameaçou entrar na Justiça para exigir sua parte em dinheiro em relação aos direitos autorais. No entanto, uma leitora de uma revista de música especializada da época, a Bizz, percebeu a semelhança entre a letra de Esteves com a de um poema do escritor lusitano Reinaldo Ferreira. Ou seja, o Ira! poderia ser processado por plágio, mas pelo menos descobriu a farsa de Esteves e, para evitar um eventual litígio, a banda manteve contato com a viúva do poeta. Resultado: a música foi gravada e, na primeira edição em CD, o nome de Ferreira foi devidamente creditado.

O álbum abre o lado B com “Pegue Essa Arma“, outra inspirada em “O Bandido da Luz Vermelha”, com outro pesado riff de Edgard Scandurra, mas o grande destaque é o baixo de Gaspa que é responsável pelo seu ritmo. E, assim como Esteves, Sganzerla também fez exigência ao grupo por conta da extração dos áudios de seu filme. O tema seguinte é o ‘hardão’ “Farto de Rock ‘N’ Roll“, que é cantada por Scandurra, uma vez que Nasi se recusou a cantá-la. Edgard foi motivado a fazê-la por ter ficado incomodado com o vocalista e o baterista de sua banda se envolvendo com o universo do hip-hop e a música soou como uma espécie de “recado”. Na música, podemos constatar porque Edgard Scandurra é considerado um dos melhores guitarristas que esse país já teve. A penúltima faixa, “Advogado do Diabo“, começa com a batida do pandeiro, mas a música é “ecletizada” pela junção de elementos que misturam rock, rap e embolada nordestina, fazendo, assim, aquilo que na década seguinte ficou caracterizado na sonoridade de bandas como Nação Zumbi, Charlie Brown Jr. e Planet Hemp. E a obra finaliza com “Mesmo Distante“, um rock psicodélico cantado por Edgard Scandurra conduzida com violões e (muitos) efeitos de guitarra e sonoros, lembrando o hoje cinquentenário trabalho de estreia do Pink Floyd, “The Piper At The Gates Of Down” (1967).

A tiragem inicial do LP trazia encartado um óculos tridimencional, de forma que o fã deleitasse com a arte na capa dupla do disco, consistente em anaglifo nas cores verde e vermelha. Outra curiosidade relacionada ao disco é que a versão lançada em fita K7 trazia uma faixa a mais: uma versão ao vivo de “Não Pague Pra Ver“, gravada ao vivo no Hollywood Rock em São Paulo, como a quinta faixa do lado A.

O play não foi lançado em CD à época, embora o trabalho anterior fora lançado neste formato no ano anterior. Contudo, “Psicoacústica” teve sua edição em formato digital primeiramente na coletânea da série “2 É Demais!!” (1998), dedicada ao Ira!, dividindo o espaço com as faixas do quinto trabalho do quarteto, “Meninos da Rua Paulo” (1991). Em 2001, o disco ganhou a sua edição em CD individual, com direito a capa original e a readaptação da arte gráfica ao lançamento original, como parte do projeto “Arquivos Warner”, liderado por Charles Gavin (então baterista dos Titãs e ex-integrante do Ira!). Porém, o CD não traz nenhuma faixa-bônus.

Com um trabalho considerado inovador para a época, “Psicoacústica” trazia um material nenhum pouco convencional para as rádios e TV. Para começar, a dificuldade já se dava na definição do estilo do qual o álbum fazia parte. A faixa escolhida pela WEA para divulgar o trabalho foi “Pegue Essa Arma“, um fracasso total, comercialmente falando. É o típico disco certo lançado na época errada.

A seguir, a ficha técnica e o tracklist da obra.

Álbum: Psicoacústica:
Intérprete: Ira!
Lançamento: 11 de maio de 1988
Gravadora: WEA
Produtores: Ira! e Paulo Junqueiro

Nasi: voz e scratch áudio máster
Edgard Scandurra: guitarra, banjo, craviola, guitarras fantamasgóricas, caixa clara em “Mesmo Distante” e voz
Ricardo Gaspa: baixo e backing vocal
André Jung: bateria e backing vocal

Don Harris: trompetes em “Receita Para Se Fazer Um Herói
Roberto Firmino: teclados em “Receita Para Se Fazer Um Herói
William Forghieri: teclados

1. Rubro Zorro (Edgard Scandurra / André Jung / Ricardo Gaspa / Nasi)
2. Manhãs de Domingo (Edgard Scandurra)
3. Poder, Sorriso, Fama (Edgard Scandurra)
4. Receita Para Se Fazer Um Herói (Edgard Scandurra / Nasi / André Jung / Rircado Gaspa / Reinaldo Edgar Ferreira)
5. Pegue Essa Arma (Edgard Scandurra)
6. Farto de Rock ‘N’ Roll (Edgard Scandurra / Ricardo Gaspa)
7. Advogado do Diabo (Nasi / André Jung)
8. Mesmo Distante (Edgard Scandurra)

Por Jorge Almeida

Wings: 45 anos de “Red Rose Speedway”

“Red Rose Speedway”, o segundo álbum do Wings, que completa 45 anos em 2018

No dia 30 de abril passado, a versão norte-americana de “Red Rose Speedway”, o segundo álbum do Wings, banda formada por Paul McCartney após a separação dos Beatles, completou 45 anos de seu lançamento. A versão britânica da ‘bolacha’ foi lançada dias depois, em 4 de março. Produzido pelo ex-Beatle, o disco foi lançada pela Apple e gravado em diversos estúdios (entre eles, o Abbey Road, claro) entre março e junho de 1972 e de setembro a dezembro do mesmo ano.

O álbum foi o primeiro trabalho do Wings a ser lançado como quinteto. Pois, além do casal McCartney (Paul e Linda), Denny Laine e Denny Seiwell foi adicionado o guitarrista Henry McCullogh.

Antes de iniciar as gravações do álbum, no começo de 1972, o Wings começou uma turnê pelas universidades britânicas como quinteto. E, apesar de não ter lançado nenhum disco em 1972, o grupo lançou alguns compactos, como “Give Ireland Back To The Irish”, que foi banida pela BBC por conta de seu teor político, “Mary Had A Little Lamb” e “Hi, Hi, Hi”, que também foram proibidas pelo principal veículo de comunicação do Reino Unido por fazer referências a drogas e letras de conotação sexual.

Aliás, “Red Rose Speedway” foi lançado após o desempenho comercial relativamente fraco do ‘debut’ do Wings, “Wild Life” (1971), mas, ao contrário do registro anterior, o play alcançou o primeiro lugar da Billboard 200 nos Estados Unidos e “My Love” ficou no topo por lá e se tornou a faixa mais popular do álbum.

As gravações do disco tiveram início em março de 1972 e a ideia, no começo, era para que o material foi lançado em um álbum duplo, pois McCartney decidiu inserir alguns temas inéditos que haviam sido originalmente gravadas durante as sessões de “Ram” (1971), seu álbum solo antes da formação do Wings. Duas dessas músicas – “Get On The Right Thing” e “Little Lamb Dragonfly” apareceram no disco final. A partir de 19 de março de 1972, as sessões foram realizadas nos Olympic Studios, em Londres, após o qual as gravações continuariam esporadicamente ao longo daquele ano. Glyn Johns foi convidado para produzir algumas sessões, mas saiu pouco tempo depois por conta de desentendimentos com Paul. O líder do Wings pedira para que Johns não pensasse nele como Paul McCartney, mas sim como o “baixista da banda”, porém, o próprio Paul não era acolhia à opinião de Johns, que também não ficou impressionado com a qualidade do material e ficava lendo jornal na sala de controle enquanto o grupo fumava maconha e improvisava no estúdio. As gravações deram continuidade em outubro e novembro de 1972 no Abbey Road Studios, no Oympic Sound Studios, no Morgan Studios, Trident Studios e Island Studios, todos em Londres, onde o grupo gravou naquele ano.

O conceito de o disco ser lançado como um trabalho solo de McCartney foi cortado em uma tentativa de lançar um disco mais comercial e menos caro. A decisão partiu da EMI, pois, além de não acreditar que o material gravado não era de um padrão suficientemente alto, a gravadora estava receosa por conta do desempenho comercial modesto de “Wild Life” e dos primeiros singles do Wings.

Denny Laine, posteriormente, expressou sua frustração de que “Red Rose Speedway” foi lançado em apenas disco único, dizendo que em sua forma original, o álbum era “mais uma vitrine para a banda”. E que, entre as omissões, estavam “I Only Only Smile”, de sua autoria, e “I Lie Around”, em que Laine fazia o vocal principal. Além dele, McCullough ficou decepcionado com o fato de que diversas faixas de McCartney foram cortadas da versão final do disco, que se concentraram no material mais leve.

Antes de sair o disco, o primeiro single de “Red Rose Speedway” foi “My Love”, com “The Mess” como lado B. Essa última música foi gravada ao vivo durante a turnê europeia de 1972. O disco foi lançado originalmente com nove faixas e termina com um medley de onze minutos com as músicas “Hold Me Tight”, “Lazy Dynamite”, “Hands Of Love” e “Power Cut”, sendo que esta última foi composta durante a greve dos mineiros de 1972, e que esse medley foi feito em estilo similar ao que os Beatles fizeram no “Abbey Road” (1969).

A data de lançamento de “Red Rose Speedway” ficou para o final de abril de 1973 porque a Apple Records estava dando prioridade a duas copilações dos Beatles – “1962-1966” e “1967-1970”, ambas de 1973. A embalagem do álbum traz um livro de 12 páginas grampeado na capa, com fotos dos shows do Wings. Enquanto a capa trazia Paul McCartney à esquerda com uma “rosa vermelha” à boca e parte parcial de uma Harley-Davidson, que era de Linda McCartney. O design da capa foi feito por Eduardo Paolozzi. A contracapa contém uma mensagem em Braille dedicada à Stevie Wonder com os dizeres: “We love ya baby”.

Curiosamente, durante as sessões de “Red Rose Speedway” é que foi gravada a famosa “Live And Let Die”, música-título do filme de James Bond, mas que foi lançado apenas no álbum “Live And Let Die”. Outras músicas gravadas no período foram lançadas depois, como “I Would Only Smile”, que Denny Laine incluiu em seu álbum “Japanese Tears” (1980). Já “Mama’s Little Girl” foi gravada, mas lançada como lado B do single “Put It There”, que Paul McCartneyl lançou em 1990. Outros faixas foram descartadas como “Night Out”, “Best Friend 3”, “Jazz Street”, “Thank You Darling” e um cover de Thomas Wayne, “Tragedy”.

E, ao longo desses 45 anos, o disco foi relançado e remasterizado em outros formatos. A versão original em CD, por exemplo, foi lançada pela Fame, subsidiária da EMI, em outubro de 1987 e continha três faixas bônus: “I Lie Around”, “Coutry Dreamer” e “The Mess (Live At The Hague)”. Uma versão em LP desta edição de CD foi lançada no mesmo dia, mas omitindo as faixas bônus. Em 1993, o disco foi remasterizado e reeditado em CD como parte da série “The Paul McCartney Collection”, com “C Moon”, “Hi, Hi, Hi”, “The Mess (Live At The Hague)” e “I Lie Around”, como faixas bônus, além de “Country Dreamer”, que foi posteriormente adicionada à reedição de “Band On The Run”, da mesma série.

Os críticos não foram muitos receptivos com o álbum, sendo que muitos deles consideraram suas músicas medíocres. O autor e crítico Bob Woffiden, ao escrever  sobre o disco em 1981, por exemplo, disse que o álbum foi um exemplo de como Paul McCartney “continuava a exasperar seu público”, isso antes que ele e o Wings finalmente conquistassem total respeito com o lançamento de “Band On The Run”, no final de 1973. Já John Pidgeon, do Let It Rock, apontou que “Red Rose Speedway soa como se tivesse sido escrito após um grande chá em frente ao fogo com os pés de chinelo para cima”. Enquanto Robert Christgau, crítico do Village Voice, não poupou o disco e descreveu a obra como “possivelmente o pior álbum já feito por um roqueiro de primeira linha”.

Apesar das críticas a “Red Rose Speedway”, o Wings seguiu a todo vapor em 1973, lançou “Live And Let Die”, com produção de George Martin, e que foi composta especialmente para ser tema para o filme de James Bond de mesmo nome. A música foi indicada ao Oscar.

Depois de uma turnê pelo Reino Unido, o grupo gravou o disco seguinte na Nigéria e, durante as gravações Denny Seiwell e Henry McCullough deixaram o grupo. Como trio, o Wings lançou o seu álbum de maior sucesso comercial: “Band On The Run”, ainda em 1973. Eleito o disco do ano, atingiu o topo das paradas e agradou críticos e fãs.

Quanto à “Red Rose Speedway”, pode não ser o disco mais inspirador do Wings, mas é um álbum que, ao contrário do exagero por parte de alguns críticos, é agradável de se ouvir

A seguir, a ficha técnica e o tracklist da obra.

Álbum: Red Rose Speedway
Intérprete: Wings
Lançamento: 30/04/1973 (nos EUA) / 04/05/1973 (no Reino Unido)
Gravadora: Apple Records
Produtor: Paul McCartney

Paul McCartney: voz, baixo, piano, guitarra, piano elétrico, mellotron, celesta e sintetizador Moog
Linda McCartney: voz, piano, órgão, cravo e percussão
Denny Laine: voz, guitarra, baixo e gaita
Denny Seiwell: bateria e percussão
Henry McCullough: guitarra, backing vocal e percussão

Hugh McCracken: guitarra em “Little Lamb Dragonfly
David Spinozza: guitarra em “Get On The Right Thing

1. Big Barn Bed (P. McCartney / L. McCartney)
2. My Love (P. McCartney / L. McCartney)
3. Get On The Right Thing (P. McCartney / L. McCartney)
4. One More Kiss (P. McCartney / L. McCartney)
5. Little Lamb Dragonfly (P. McCartney / L. McCartney)
6. Single Pigeon (P. McCartney / L. McCartney)
7. When The Night (P. McCartney / L. McCartney)
8. Loup (1st Indian On The Moon) (P. McCartney / L. McCartney)
9. Medley:
– Hold Me Tight (P. McCartney / L. McCartney)
– Lazy Dynamite (P. McCartney / L. McCartney)
– Hands Of Love (P. McCartney / L. McCartney)
– Power Cut (P. McCartney / L. McCartney)

Por Jorge Almeida

Aerosmith: 25 anos de “Get A Grip”

“Get A Grip”: o último disco de estúdio lançado pelo Aerosmith pela Geffen Records

O clássico “Get A Grip”, o décimo primeiro álbum de estúdio do Aerosmith, completou 25 anos no último dia 20 de abril. Com produção de Bruce Fairbair, o disco foi gravado entre janeiro e fevereiro de 1992, no A&M Studios e de setembro a novembro do mesmo ano no Little Mountain Sound Studios, e foi o último trabalho da banda de Boston lançado pela Geffen antes de retornarem à Columbia Records.

Em 1992, o grupo fez uma breve pausa antes de gravar o sucessor de “Pump” (1989). Apesar das mudanças significativas no mainstream musical no início dos anos 1990, “Get A Grip” teve um sucesso comercial estrondoso, tornando-se o primeiro trabalho do grupo a estrear no primeiro lugar das paradas norte-americanas e acumulando vendas de sete milhões de cópias em um período de dois anos e meio – ficando atrás de “Toys In The Attic”, que alcançou incríveis oito milhões de cópias – e foi o terceiro disco consecutivo do quinteto com vendas nos Estados Unidos de pelo menos cinco milhões. Sem contar o fato de que o disco foi o trabalho de estúdio mais vendido do Aerosmith em todo o mundo, com aproximadamente 20 milhões de cópias vendidas.

A princípio, o disco tinha originalmente 12 músicas e seria lançado no terceiro trimestre de 1992, porém, John Kalodner, executivo da Geffen, escutou o que havia sido gravado e achou que faltava variedade nas músicas e um hit em potencial para tocar no rádio. Então, a banda compôs mais músicas com colaboradores como o ‘hitmaker’ Desmond Child, repetindo a fórmula usada em “Permanent Vacation” (1987) e o já citado “Pump“.

Com isso, muitas músicas foram escritas e gravadas para o disco, mas que foram utilizadas como “b-sides” ou nunca lançadas, como “Don’t Stop”, “Head First”, “Can’t Stop Messin’”, que saíram como lados B e edições especiais do álbum como faixa bônus. Outras foram listadas no site oficial do Aerosmith e que podem ser acessadas via Wayblack Machine, como “Black Cherry”, “Devil’s Got A New Disguise”, “Legendary Child”, “Lizard Love”, entre outras.

Os primeiros singles de “Get A Grip” foram as “hardonas” “Livin’ On The Edge” e “Eat The Rich”, mas a “mina de ouro” dos bad boys de Boston foram as poderosas baladas do play – “Cryin’”, “Crazy” e “Amazing” -. A empresa que gerencia o grupo e a gravadora, que trouxeram diversos colaboradores profissionais de composição (“hitmakers”), tinham como objetivo deixar as canções da banda com apelo mais comercial, tendência que seguiu até o início dos anos 2000.

E não foi só na parte de compor as músicas que o Aerosmith ganhou “reforço”. Na gravação do álbum, Don Henley, fez backing vocal em “Amazing” e Lenny Kravitz que, além de ter feito o backing vocal, foi o co-autor de “Line Up”.

Outra estratégia adotada para alavancar a popularidade do Aerosmith, além da exaustiva turnê de 18 meses para promover “Get A Grip”, foi a banda se autopromover e também o álbum para atrair o público mais jovem, como a aparição de Steven Tyler e companhia no filme “Wayne’s World 2” (no Brasil “Quanto Mais Idiota Melhor 2”) como eles próprios e a inclusão de suas músicas nos games “Revolution X” e “Quest For Fame”, e ainda uma participação no Woodstock 94. E, claro, com a popularidade da MTV para o público jovem os indefectíveis videoclipes que apresentavam a promissora atriz Alicia Silverstone; suas performances provocantes lhe renderam o título de “a garota do Aerosmith” para a primeira metade da década. A filha de Steven Tyler, Liv Tyler, também foi destaque no vídeo “Crazy“. Duas faixas do disco ganharam o Grammy Awards na categoria “Melhor Performance de Rock por um Duo ou Grupo com Vocal” em 1993 e 1994.

E, como polêmica e Aerosmith praticamente são sinônimos, a capa do disco chamou atenção de um grupo de defesa dos direitos animais que se opuseram porque o bico da teta da vaca estava perfurado por um piercing, mas o grupo confirmou que o acessório foi gerado por computador.

No ano seguinte ao lançamento do álbum, foi lançada a coletânea para a Geffen Records, intitulada “Big Ones”, que trazia os maiores sucessos dos registros de estúdio que a banda gravou no período em que trabalhou com a gravadora – “Permanent Vacation”, “Pump” e “Get A Grip”, além das inéditas “Deuces Are Wild”, que saiu no álbum “The Beavis And Butt-Head Experience”, e também “Blind Man” e “Walk On Water”.

Enquanto o cenário da primeira metade dos anos 1990 era dominada pelo pessoal do grunge (Nirvana, Pearl Jam, Soundgarden e por aí vai), o Aerosmith chegou arrebentando tudo com esse petardo. Só o clipe de “Crazy” já faz “Get A Grip” valer a pena, se é que me entende.

A seguir, a ficha técnica e o tracklist da obra.

Álbum: Get A Grip
Intérprete: Aerosmith
Lançamento: 20 de abril de 1993
Gravadora: Geffin Records
Produtor: Bruce Fairbairn

Steven Tyler: vocal principal, teclados, bandolim, gaita, percussão adicional
Joe Perry: guitarra, backing vocals, vocal principal em “Walk on Down
Brad Whitford: guitarra
Tom Hamilton: baixo
Joey Kramer: bateria

Paul Baron: trompete
Desmond Child: teclados em “Crazy
David Campbell: arranjos de orquestra em “Crazy” e “Amazing
Bruce Fairbairn: trompete
Don Henley: vocais de fundo em “Amazing
Tom Keenlyside: saxofone
Lenny Kravitz: vocais de fundo em “Line Up
Melvin Liufau, Wesey Mamea, Sandy Kanaeholo, Liainaiala Tagaloa e Mapuhi T. Tekurio: tambor de fenda em “Eat the Rich
Ian Putz: saxofone barítono
Bob Rogers: trombone
Richard Supa: teclados em “Amazing
Aladd Alationa Teofilo: bateria de log em “Eat the Rich
John Webster: teclados

1. Intro (Perry / Vallance / Tyler)
2. Eat The Rich (Perry / Vallance / Tyler)
3. Get A Grip (Perry / Vallance / Tyler)
4. Fever (Perry / Tyler)
5. Livin’ On The Edge (Mark / Hudson / Perry / Tyler)
6. Flesh (Child / Perry / Tyler)
7. Walk On Down (Perry)
8. Shut Up And Dance (Blades / Perry / Shaw / Tyler)
9. Cryin’ (Perry / Rhodes / Tyler)
10. Gotta Love It (Hudson / Perry / Tyler)
11. Can’t Stop Messin’ (Tyler / Perry / Blades / Shaw)
12. Amazing (Supa / Tyler)
13. Boogie Man (Perry / Vallance / Tyler)

Por Jorge Almeida

Uriah Heep: 45 anos de “Uriah Heep Live”

“Uriah Heep Live”: primeiro registro ao vivo dos britânicos do Uriah Heep, que completa 45 anos em 2018

Neste mês de junho, que está prestes do fim, um dos maiores álbuns ao vivo da história do rock completa 45 anos de seu lançamento, o primeiro registro ‘live’ do Uriah Heep, intitulado simplesmente como “Uriah Heep Live”. Produzido por Gerry Bron e Ken Hensley, o registro foi lançado em disco duplo.

O álbum é praticamente um “greatest hits live”, pois apresentava um tracklist com o que havia de melhor do Uriah Heep, seus principais clássicos representativos, enfim, um belo resumo da carreira discográfica da banda. Se para ser considerado um gigante do rock da década de 1970 precisava de um registro ao vivo, o Uriah Heep, com esse trabalho, consolidou seu lugar no pantaleão do rock.

O desempenho dos integrantes dispensa comentários, pois eles se destacam igualmente e deixava claro que David Byron, de fato, era um talento puro e dono de uma técnica vocal incrível.

Gravado no Birmingham Townhall em janeiro de 1973, o registro provou que a popularidade do grupo estava em alta com o recebimento do certificado de outro pela RIAA pelas vendagens do disco nos Estados Unidos, país que, inclusive, a banda não tem tanto mercado assim.

Com a plateia entusiasmada e o desempenho afiadíssimo do grupo em suas performances, “Uriah Heep Live” sintetiza perfeitamente a energia que tomara conta de seus shows memoráveis. As faixas mais rápidas, como “Traveller In Time” e “Love Machine”, bombaram com força total e potência. Na ocasião, o principal hit do grupo era “Easy Livin’” que, evidentemente, não podia ficar de fora, mas faixas como “Sweet Lorraine”, “Sunrise” e uma versão prolongada da já “quilométrica” “July Morning” sofreram cortes no disco. Aliás, essa última trouxera uma força emocional incrível, que música!. O grupo ia dos versos “semi-pastorais” tendo como apoio os riffs de órgão de Ken Hensley às guitarras uivantes de “wah-wah” em um estalar de dedos.

As tradicionais jams instrumentais da banda não poderiam ficar de fora, como em “Gypsy”, cuja performance dos músicos fez com que a faixa tivesse duração duas vezes maior que a versão original e repleta de solos.

E, como era típico nos shows do Uriah Heep na época, havia o tradicional “Rock And Roll Medley”, onde o grupo fazia seu tributo às suas raízes, com trechos de clássicos do rock como “Roll Over Beethoven”, “Blue Suede Shoes” e “Hound Dog”, por exemplo. E essa sequência de clássicos que finaliza esse discaço. Se  for apontar um defeito no play, seria a ausência de “Lady In Black” no tracklist.

Para falar de “Uriah Heep Live” não poderia deixar passar em branco a sua capa. A versão original, típica do começo da década de 1970, apresentava apenas a capa e as páginas centrais com fotos dos integrantes da banda. Porém, havia versões que trazia um livreto interno com oito páginas (que não saiu na versão lançada no Brasil, lógico) que, além das fotografias dos músicos, trazia recortes de jornais e revistas da época críticas e elogios ao grupo.

Esse primeiro registro ao vivo do Uriah Heep é um tremendo clássico, onde um conjunto de treze faixas (incluindo o medley) mostra um desempenho de uma banda tocando com total entrega e com muita energia para dar e vender. Discaço.

A seguir, a ficha técnica e o tracklist da obra.

Álbum: Uriah Heep Live
Intérprete: Uriah Heep
Lançamento: junho de 1973
Gravadora: Bronze (Reino Unido) / EMI (Estados Unidos)
Produtores: Gerry Bron e Ken Hensley

David Byron: voz
Mick Box: guitarra e backing vocal
Ken Hensley: teclados, guitarra e backing vocal
Gary Thain: baixo e backing vocal
Lee Kerslake: bateria e backing vocal

1. Sunrise (Hensley)
2. Sweet Lorraine (Box / Byron / Thain)
3. Traveller In Time (Box / Byron / Kerslake)
4. Easy Livin’ (Hensley)
5. July Morning (Byron / Hensley)
6. Tears In My Eyes (Hensley)
7. Gypsy (Box / Byron)
8. Circle Of Hands (Hensley)
9. Look At Yourself (Hensley)
10. The Magician’s Birthday (Box / Hensley / Kerslake)
11. Love Machine (Box / Byron / Hensley)
12. Rock ‘N’ Roll Medley:
– Roll Over Beethoven (Berry)
– Blue Suede Shoes (Perkins)
– Mean Woman Blues (Leiber / Stoller)
– Hound Dog (Singer / Medora / White)
– At The Hop (Williams / David)
– Whole Lotta Shakin’ Goin’ On (Perkins)

Por Jorge Almeida