Analisando “The Purple Album”, do Whitesnake

"The Purple Album": o 12º disco de estúdio do Whitesnake, que traz releituras do Deep Purple
“The Purple Album”: o 12º disco de estúdio do Whitesnake, que traz releituras do Deep Purple

Aproveitando que o texto anterior foi referente a uma pessoa fortemente ligada ao Deep Purple, vamos abordar sobre outro nome que marcou presença na banda britânica. Me refiro a David Coverdale, que substituiu Ian Gillan no Deep Purple. No caso aqui, falaremos especificamente do Whitesnake, grupo do qual Coverdale é o “dono”, “patrão”, “manda-chuva”, e seja lá qual mais definição que você queira definir, que lançou neste ano de 2015 o seu mais novo trabalho de estúdio: o disco “The Purple Album”, que contém regravações de músicas do Deep Purple do período em que seu líder fazia parte do grupo, ou seja, das fases dos MK’s III e IV, que atuou entre o final de 1973 a 1976, quando o Purple encerrou suas atividades, antes da volta de 1984.

Gravado entre 2014 e 2015, o play foi lançado pela gravadora Frontiers em 29 de abril no Japão, em maio na Europa e nos Estados Unidos, e o CD apresenta 15 faixas (sendo duas bônus), mais um DVD na edição “Deluxe”.

Evidentemente que as comparações entre as versões que o Whitesnake fez com as originais feitas pelo Deep Purple serão inevitáveis. E já adianto a minha opinião desde já que as releituras feitas pela banda de Coverdale ficaram inferiores à do grupo que o consagrou nos anos 1970. Mas isso não significar que “The Purple Album” seja um trabalho ruim, ele só não beira à perfeição como as obras ‘purplenianas’.

O disco abre com “Burn” que, talvez, seja o principal hino dessa fase do Purple. E a versão da “Cobra Branca”, embora seja mais técnica não é tão excelente quanto à clássica versão de 1974. Aliás, até hoje ninguém faz o maravilhoso trabalho que a dupla Blackmore/Lord fez nela. Evidentemente que Coverdale não consegue repetir a mesma qualidade vocal da mesma, o que é compreensível, afinal, ele já é um sessentão e humanamente é impossível manter a mesma pegada de um garoto de vinte e poucos. Mas o trabalho da dupla Reb Beach e Derek Hilland não comprometem.

Em seguida vem “You Fool No One”, que não compromete, e que aqui tem um pedaço de “Itchy Fingers”, quase que oculta, mas a “crueza” e paulada da música são mantidos, na medida do possível.

O terceiro tema é “Love Child”, que até tem partes interessantes, porém, ficou aquém da original, gravada com Tommy Bolin nas guitarras no clássico “Come Taste The Band” (1975).

Posteriormente surge uma das mais legais do álbum: “Sail Away”, que teve o seu ritmo ‘suingado’ original substituído por um bem trabalhado instrumental acústico. E ainda Coverdale, brilhantemente, inseriu um instrumental intitulado “Elegy For Jon”, em homenagem ao saudoso Jon Lord (tecladista tanto do Deep Purple quanto do Whitesnake). Comparo as duas versões dessa música da mesma forma que as versões original e acústica de “Layla”, de Eric Clapton. Ou seja, a mesma música com arranjos totalmente diferentes – que nem parecem se tratar da mesma canção, mas que ambas são formidáveis.

Outra faixa de “Stormbringer” segue em “The Purple Album”. Agora é a vez da ‘esquecida’ “The Gypsy”, que aqui ganhou um melhor instrumental e mais peso, e tirou aquela aparência de “música de AM de madrugada” que a original tinha.

O Hard Rock de “Lady Double Dealer” praticamente foi mantido aqui com uma dosagem de peso, mas que nos shows David Coverdale canta em tonalidade mais baixa, o que é compreensível em função da atual situação de sua voz.

Um dos maiores clássicos da MKIII não poderia ficar de fora, não é mesmo? Claro que “Mistreated” tinha que fazer parte desse projeto. Apesar da louvável tentativa da atual line-up do Whitesnake em chegar próximo à versão original, nada se compara aos riffs e solo que Ritchie Blackmore fez para essa música que é atemporal.

Gravada originalmente com os vocais de Glenn Hughes, “Holy Man” ganhou uma bela versão feita por Coverdale e sua trupe. Mas prefiro ainda o original que traz a indefectível voz do “the Voice of Rock”.

Might Just Take YourLife” é a nona faixa do play. Diferentemente da versão do álbum “Burn”, em que Jon Lord tinha dado as cartas na introdução com o seu impecável Hammond, o Whitesnake resolveu investir com violões. Ficou abaixo da original em virtude da ausência do vocal único de Glenn Hughes.

O próximo tema é “You Keep On Moving”. Embora tenham tentado chegar próximo à original em relação ao backing vocal, ficou “no quase”, afinal, essa é outra música que a voz de Glenn Hughes faz dela uma coisa única. Reforço que a releitura do Whitesnake, instrumentalmente falando, ficou muito boa.

Outro tema bastante conhecido dos ‘purplenianos’ e dos ‘whitesnakianos’ aparece em seguida. Refiro-me a “Soldier Of Fortune”, que faz parte do setlist do Whitesnake nos últimos anos, com Coverdale cantando à capella com o público. E, no play, ganhou uma versão acústica. Ficou semelhante a releitura que consta no álbum “Starkers In Tokyo” (1997), trabalho lançado pela dupla Coverdale/Vandenberg, mas que é creditado como um álbum do Whitesnake.

A penúltima faixa do disco é “Lay Down, Stay Down”, que apesar de ter ganho mais peso, mas tem um andamento com o “freio de mão” mais puxado em relação à original.

Para finalizar a versão “comum” do álbum, a clássica “Stormbringer” que atribuo à mesma situação em relação a “Burn”, faixa que abre o play: mais técnica, mas não tão excelente quanto à original.

Bom, mas a versão “Deluxe” de “The Purple Album” ainda traz duas releituras de “Come Taste The Band”: “Lady Luck” e “Comin’ Home”, que não ficaram ruins, mas quem escuta as originais com Tommy Bolin nas guitarras, chega à conclusão de que “nada se compara ao original”.

Além das faixas bônus citadas, essa versão ainda contém um DVD com videoclipes de algumas músicas que foram regravadas, destaco o belo vídeo “Stormbringer”.

Assim, para quem é fã ardoroso da era Coverdale/Hughes no Deep Purple, esse disco do Whitesnake pode até decepcioná-lo. Pois, os duetos fabulosos entre Coverdale e Hughes e os backing vocals do baixista foram substituídos por camadas de voz e também houve um uso excessivo de recursos tecnológicos, o que deixa o trabalho um pouco artificial. Enfim, com todo direito, pode avaliar o disco como “duvidoso”.

Agora, para quem apreciador da obra do Whitesnake, trata-se de um bom trabalho. Pois reúne todas as características de um álbum do Whitesnake: Hard Rock, baladas, agressividade, peso, enfim, todos os ingredientes que fizeram a empreitada criada por David Coverdale no final dos anos 1970 como uma das maiores bandas de Hard Rock da história.

Essa volta ao passado de David Coverdale, em meu ponto de vista, é válida, pois, mesmo com os inúmeros boatos e rumores para uma volta, uma turnê ou um show com o MK III do Deep Purple, nunca acontecerá, e isso sucumbiu de vez em 2012 com a morte de Jon Lord. Além disso, a atual formação do Deep Purple – Gillan, Glover, Morse, Airey e Paice – nunca tocará alguma coisa referente a essa fase da banda. Ou seja, os apreciadores dos clássicos “Burn”, “Stormbringer” e “Come Taste The Band” praticamente só poderão escutar esses temas ao vivo via Whitesnake ou nos shows do Glenn Hughes.

Outro ponto que acho louvável por parte de Coverdale foi prestar uma homenagem à sua “escola”, que foi o Deep Purple. Isso é uma prova de gratidão para com a banda que o consagrou. Evidentemente não saiu como o original e, como coautor de todas essas músicas, ele tem todo o direito de regravar, assim como Hughes. Aliás, a dedicação que se encontra no encarte é de emocionar: “This album is dedicated with honour, love & respect to: Ritchie Blackmore, Glenn Hughes e Ian Paice e in loving memory of Jon Lord e Tommy Bolin”, algo como: “Este álbum é dedicado com honra, amor e respeito a: Ritchie Blackmore, Glenn Hughes e Ian Paice e na memória amorosa de Jon Lord e Tommy Bolin”.

E, digo mais: apesar de não conseguir se desvincular com o seu passado com o Deep Purple, David Coverdale sempre mostrou-se orgulhoso dele. Afinal, muitos registros ao vivo do Whitesnake sempre traz algum clássico do Deep Purple e, graças a isso, que podemos testemunhar, cantar, celebrar e relembrar de uma das épocas mais importantes de uma das principais bandas da história.

Outra coisa que lamento em relação a “The Purple Album” foi o fato de que o vocalista poderia ter convidado o seu ‘parça’ Glenn Hughes para fazer uma participação especial em pelo menos uma música. Mas, como o ego sempre fez parte da história do rock, talvez Coverdale não tenha chamado Hughes com receio de que o ex-companheiro de banda “roubasse a cena” e o “deixasse no chinelo”, já que Glenn Hughes ainda continua cantando muito (quem foi ao show no Carioca Club no último domingo pode comprovar isso). Apesar dessa “mancada”, David até se redimiu ao convidar Hughes para fazer participação especial em alguns shows da turnê, que pode ser vista no Youtube.

Vale destacar também o excelente material do CD. Encarte bem produzido, que traz relatos de David Coverdale a respeito da regravação, assim como das músicas. Infelizmente, esse tipo de situação só é possível nas versões importadas, pois quando a edição brasileira for lançada, possivelmente, só terá aquelas coisas básicas: CD simples com 13 músicas (sem as faixas bônus) e o encarte com os créditos das músicas e da gravação.

No final, para um fã do Deep Purple, esse trabalho tem a nota 4, para o fã de Whitesnake pode valer até um 8. Mas para quem gosta das duas bandas, como este que vos escreve, uma nota 6 está de bom tamanho.

A seguir, a ficha técnica e o tracklist do play.

Álbum: The Purple Album
Intérprete: Whitesnake
Lançamento: 29/04/2015 (Japão), 15/05/2015 (Europa), 18/05/2015 (Reino Unido) e 19/05/2015 (EUA)
Gravadora: Frontiers
Produtores: David Coverdale, Michael McIntyre e Reb Beach
Preço médio: R$ 50,00 (importado)

David Coverdale: voz
Reb Beach: guitarra e backing vocal
Joel Hoekstra: guitarra e backing vocal
Michael Devin: baixo, gaita e backing vocal
Tommy Aldridge: bateria e percussão
Derek Hilland: teclados

CD 1:
1. Burn (Blackmore / Coverdale / Hughes / Lord / Paice)
2. You Fool No One interpolating “Itchy Fingers” (Blackmore/Coverdale/Hughes/Lord/Paice)
3. Love Child (Bolin / Coverdale)
4. Sail Away featuring Elegy For Jon (Blackmore / Coverdale)
5. The Gypsy (Blackmore / Coverdale / Hughes / Lord / Paice)
6. Lady Double Dealer (Blackmore / Coverdale)
7. Mistreated (Blackmore / Coverdale)
8. Holy Man (Coverdale / Hughes / Lord)
9. Might Just Take Your Life (Blackmore / Coverdale / Hughes / Lord / Paice)
10. You Keep On Moving (Coverdale / Hughes)
11. Soldier Of Fortune (Blackmore / Coverdale)
12. Lay Down Stay Down (Blackmore / Coverdale / Hughes / Lord / Paice)
13. Stormbringer (Blackmore / Coverdale)
Faixas bônus:
14. Lady Luck (Cook / Coverdale)
15. Comin’ Home (Bolin / Coverdale / Paice)
CD 2: DVD – Video
1. Lady Double Dealer
2. Sail Away
3. Stormbringer
4. Soldier Of Fortune
5. The Purple Album “Behind The Scenes”
6. The Purple Album EPK

Por Jorge Almeida

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Deep Purple: 40 anos de “Stormbringer”

"Stormbringer": último trabalho de Ritchie Blackmore com o Deep Purple até 1984

No último mês de novembro, o nono álbum do Deep Purple – “Stormbringer” – completou 40 anos de seu lançamento. O disco marcou o fim da MK III, uma vez que Ritchie Blackmore saiu pela primeira vez da banda em 7 de abril de 1975 (próximo do guitarrista completar 30 anos de vida) em virtude de sua insatisfação com os rumos musicais que o grupo estava a tomar, especialmente a influência da Black Music, mais especificamente funky e soul, de Glenn Hughes.

Gravado no Musicland Studios, em Munique, em agosto de 1974, e mixado no The Record Plant, em Los Angeles, em setembro do mesmo ano, “Stormbringer” foi produzido por Martin Birch em conjunto com o Purple.

Apesar de não conseguir igualar-se ao seu antecessor – o estupendo “Burn” -, nas paradas e na aceitação da crítica e do público, o play alcançou boas colocações nas paradas da Noruega (2º lugar), na Austrália (4º), enquanto nos Estados Unidos ocupou a 20ª colocação na Billboard. No entanto, rendeu Disco de Ouro na terra do Tio Sam, no Reino Unido e na França.

A paciência do carrancudo Blackmore estava a minguar cada vez mais com a sonoridade que o Deep Purple estava a adotar na ocasião. A tolerância do guitarrista durou até o término da turnê europeia da promoção do álbum. Pela insatisfação demonstrava, Ritchie Blackmore praticamente já vinha com o seu projeto em mente e que tornou-se realidade ainda em 1975 – o Rainbow.

A imagem utilizada na capa de “Stormbringer” é baseada em um registro fotográfico realizado em 1927 por Lucille Handberg. Na ocasião, em 8 de julho daquele ano, a fotógrafa captou um furacão perto da cidade de Jasper, em Minnesota e, a partir de então, a foto tornou-se uma imagem clássica. A mesma fotografia foi editada e utilizada na capa do álbum “Tinderbox” (1986), de Siouxie And The Banshees.

O disco abre com a clássica faixa-título e que traz a quase inaudível fala de David Coverdale, antes de entrar os vocais, copiada de um trecho do filme “O Exorcista” (1973). O grande trunfo da música são o riff de Blackmore e o vocal furioso de Coverdale. Certamente um dos maiores clássicos dessa formação do Deep Purple. Em seguida, “Love Don’t Mean A Thing”, que aborda o bon vivant que só se interessa pelo dinheiro. Aqui temos a mescla do que viria a ser o Whitesnake de anos mais tarde com o funky do Trapeze de Glenn Hughes. Mesmo fazendo um trabalho a contragosto, Ritchie manda muito bem ao colocar uma guitarra bem sacada na música. Posteriormente, vem a bela “Holy Man”, que tem como protagonista Glenn Hughes, que a interpreta com sentimento. Vale conferir também o solo cheio de feeling de Blackmore. E o lado A do vinil termina com “Hold On”, em que Coverdale e Hughes fazem dueto e é outra tipicamente “whitesnakiana”. Sua letra fala de forma bem franca sobre sexo.

O lado B começa com “Lady Double Dealer”, uma faixa hard rock clássica, acelerada e batida rápida, porém, o solo parece um pouco inspirado e a música é relativamente curta, o que é uma pena. A sexta música é “You Can’t Do It Right”, uma canção totalmente Glenn Hughes, pois é funky de cabo a rabo. O baixista aqui detona. O antepenúltimo tema é “High Ball Shooter”, outro hard em que Hughes dá mais um show, embora seja mais contida em relação a “Lady Double Dealer”. Destaque também para o desempenho de Ian Paice. O play chega ao final com mais duas grandes músicas: “The Gypsy”, onde o riffmaster Ritchie Blackmore executa sua Fender Stratocaster com maestria. E a clássica “Soldier Of Fortune”, uma balada perfeita escrita pela dupla Blackmore/Coverdale. Confesso que não sei quem se destaca mais: se é David cantarolando-a com a alma ou se é o excelente trabalho de Ritchie no violão e na guitarra. Mas uma coisa é certa: o Deep Purple foi certeiro ao deixá-la como música de encerramento desse incompreendido álbum.

Para celebrar os 35 anos de seu lançamento, em 2009, “Stormbringer” foi relançado com todas as faixas remasterizadas, além de alguns bônus e um DVD.

Vocês podem ter notado que na descrição toda do texto o nome de Jon Lord não foi citado. Isso se deve porque, apesar de não ter comprometido em nada no disco, o mestre dos teclados pouco apareceu. Na verdade, é que o saudoso tecladista não se destacou com o mesmo brilhantismo dos trabalhos anteriores. Mesmo assim, só a presença de Jon Lord já torna algo simples em grandioso. E mesmo porque o Deep Purple é o que é hoje graças a ele, que justifica o sobrenome.

Embora não esteja no mesmo patamar que os álbuns anteriores, “Stormbringer” é um disco versátil, criativo e que serve para mostrar a capacidade que o Deep Purple tem em se reinventar, mas sem perder a sua essência. Sim, é um daqueles discos que costumo classificar como “injustiçado”.  E digo mais: particularmente, acho que é o segundo melhor disco (só perde para “Burn”) lançado pelo Deep Purple sem ser com a MK II.

A seguir, a ficha técnica e o tracklist do disco.

Álbum: Stormbringer
Intérprete: Deep Purple
Lançamento: novembro de 1974
Gravadora: EMI/Purple Records (Reino Unido) / Warner Records (EUA)
Produtores: Martin Birch / Deep Purple

David Coverdale: voz
Ritchie Blackmore: guitarra e violão
Glenn Hughes: baixo, voz e backing vocal
Jon Lord: órgão e teclados
Ian Paice: bateria

1. Stormbringer (Blackmore / Coverdale)
2. Love Don’t Mean A Thing (Blackmore / Coverdale / Hughes / Lord / Paice)
3. Holy Man (Coverdale / Hughes / Lord)
4. Hold On (Coverdale / Hughes / Lord / Paice)
5.Lady Double Dealer (Blackmore / Coverdale)
6. You Can’t Do It Right (Blackmore / Coverdale / Hughes)
7. High Ball Shooter (Blackmore / Coverdale / Hughes / Lord / Paice)
8. The Gypsy (Blackmore / Coverdale / Hughes / Lord / Paice)
9. Soldier Of Fortune (Blackmore / Coverdale)

Por Jorge Almeida

Há 30 anos era lançado “Perfect Strangers”, do Deep Purple

"Perfect Strangers": álbum que marca a volta do Deep Purple, em 1984
“Perfect Strangers”: álbum que marca a volta do Deep Purple, em 1984

Hoje, 16 de setembro, o clássico album do Deep Purple, “Perfect Strangers”, complete 30 anos de seu lançamento e foi marcado pela volta das atividades do grupo após um hiato de oito anos, sendo onze sem a sua formação mais bem sucedida e popular, a “Mark II”, composta por Ian Gillan, Roger Glover, Ritchie Blackmore, Jon Lord e Ian Paice, que trabalharam juntos pela última vez, até então, no álbum “Who Do We Think We Are?”, em 1973.

Antes da reativação do grupo, os integrantes seguiam a vida com seus projetos: Ritchie Blackmore e Roger Glover estavam no Rainbow, Ian Gillan se aventurava com o Black Sabbath, Jon Lord era o mago dos teclados do Whitesnake de David Coverdale e Ian Paice estava na banda de apoio de Gary Moore (ele também havia passado pelo Whitesnake no final dos anos 1970 e início dos 1980).

Na verdade, a volta do Deep Purple estava programada para acontecer em 1983, mas Gillan, após uma noite de bebedeira com Tony Iommi, acertou em gravar um disco com o Black Sabbath, o lendário “Born Again”, o que quase fez Blackmore desistir da ideia da reunião. No entanto, o dinheiro falou mais alto entre empresários e músicos e, assim, o grupo voltou à ativa, o que foi de bom proveito para os envolvidos. A banda assinou um contrato com a Polygram, com a Mercury (para o mercado norte-americano) e a Polydor Records, para o Reino Unido e outros países da Europa.

Gravado durante o mês de agosto de 1984 nos estúdios Horizons, em Stowe, no Vermont, Estados Unidos, o disco traz a produção assinada por Roger Glover e a própria banda.

A reunião foi bem sucedida, pois “Perfect Strangers” chegou ao quinto lugar nas paradas do Reino Unido e atingiu o 17º lugar na Billboard 200 nos Estados Unidos, o que rendeu o disco de platina na terra do Tio Sam. Além disso, o Purple arrebatou o ouro no Grã-Bretanha, na Alemanha e na Argentina.

Assim como as vendagens do play, a turnê, financeiramente falando, foi um tremendo sucesso. A “tour” começou na Austrália, passou pela América do Norte, Europa e precisou fazer outras apresentações adicionais nos Estados Unidos, onde eles só não arrecadaram mais com shows que Bruce Springsteen.

Na volta para o Reino Unido, o Deep Purple realizou um show no tradicional Knebworth Festival, em 22 de junho de 1985, que teve também as participações de bandas como o UFO, Scorpions, Meat Loaf, Mountain, entre outros. Apesar do tempo ruim, que contou com uma chuva torrencial, cerca de 80 mil fãs compareceram à edição do festival que recebeu a alcunha de “Return Of The Knebworth Fayre”.

O álbum começa com a poderosa “Knocking At Your Back Door”, que é a faixa mais longa do play. Foi lançada como single. Uma das melhores do disco. Na sequência, temos a pesada “Under The Gun”, onde os caras demonstram que não vieram para brincadeira. O terceiro tema é “Nobody’s Home”, que também foi lançada como single e é a única do disco a trazer a assinatura dos cinco integrantes (as demais, exceto a faixa bônus “Son Of Alerik”, levam a assinatura do trio Blackmore/Gillan/Glover). Posteriormente surge “Mean Streak”, que é a mais fraca do disco.

Virando a “bolacha”, “Perfect Strangers” começa justamente com a faixa que dá o nome ao álbum. Com melodias e arranjos impecáveis, a música tornou-se um hino para os “purplenianos”. Até hoje é inimaginável um concerto do DP sem “Perfect Strangers”. E, por incrível que pareça, não tem solo de guitarra. Já “A Gypsy’s Kiss” traz leve semelhança com a fase inicial do Rainbow, o que é um elogio, que fique claro. A sétima faixa é a balada dramática “Wasted Sunsets”, que só poderia ser cantada por Ian Gillan, e nenhum outro mais. Bela canção. E, para finalizar o vinil, “Hungry Daze”, em que Jon Lord dá uma aula com seu teclado.

As versões em CD e K7 de “Perfect Strangers” trazia a faixa extra “Not Responsible”, uma das raras músicas do Purple com letras profanas, com direito a palavra “fucking” podendo ser ouvida. Além dessa, na versão remasterizada e relançada do álbum em junho de 1999, trazia a instrumental “Son Of Alerik”, com seus dez minutos de duração composta por Ritchie Blackmore, que havia sido lançada como lado B do single “Perfect Strangers”.

Depois de “Perfect Strangers”, a “MK II” lançou ainda os álbuns “The House Of Blue Light” (1987) e o ao vivo “Nobody’s Perfect”, em 1988, antes da saída de Ian Gillan, que ocorreu em seguida (ele retornou em 1992 para desespero de Blackmore). Afinal, apesar da satisfação dos fãs pela volta do grupo, as rusgas entre Ian Gillan e Ritchie Blackmore também voltaram, o que complicou a duração da formação mais clássica de um dos pilares do Heavy Metal.

Para muitos, esse foi o último grande trabalho do Deep Purple, embora este que vos escreve discorde, mas não podemos negar que trata-se de um clássico.

Abaixo, a ficha técnica e o tracklist da versão do CD relançado em 1999.

Álbum: Perfect Strangers
Intérprete: Deep Purple
Lançamento: 16 de setembro de 1984
Gravadora: Polydor (Reino Unido) / Mercury (EUA) / Polygram (internacional)
Produtores: Roger Glover e Deep Purple

Ritchie Blackmore: guitarra
Ian Gillan: voz
Roger Glover: baixo
Jon Lord: teclados
Ian Paice: bateria

1. Knocking At Your Back Door (Blackmore / Gillan / Glover)
2. Under The Gun (Blackmore / Gillan / Glover)
3. Nobody’s Home (Blackmore / Glover / Gillan / Lord / Paice)
4. Mean Streak (Blackmore / Gillan / Glover)
5. Perfect Strangers (Blackmore / Gillan / Glover)
6. A Gypsy’s Kiss (Blackmore / Gillan / Glover)
7. Wasted Sunsets (Blackmore / Gillan / Glover)
8. Hungry Daze (Blackmore / Gillan / Glover)
9. Not Responsible (Blackmore / Gillan / Glover)
10. Son Of Alerik (Blackmore)

Por Jorge Almeida

Os 45 anos de “Deep Purple”, o álbum

"Deep Purple", o álbum: o último registro de estúdio lançado pela MK I
“Deep Purple”, o álbum: o último registro de estúdio lançado pela MK I

No último dia 21 de junho, comemorou-se os 45 anos do lançamento do terceiro trabalho dos britânicos do Deep Purple, o álbum que leva o nome da banda, também conhecido como “Deep Purple III”. Lançado pela Harvest Records no Reino Unido e pela Tetragrammaton, nos EUA, o disco foi o último lançado com a formação original do grupo, o MK I.

O disco foi lançado na época em que o Purple excursionava para promover o seu segundo trabalho, “The Book Of Taliesyn”. No entanto, apesar do relativo sucesso nos Estados Unidos, o Deep Purple não conseguia decolar na Inglaterra por conta de seus compatriotas não digerirem a sonoridade que a banda apresentava, que variava entre o psicodélico e o bluesy. E, como se não bastasse isso, a Tetragammaton estava à beira da falência, o que dificultou o lançamento da edição norte-americana do álbum. Sem contar que ainda havia os conflitos na banda, que deixou Blackmore, Lord e, mais tarde, Paice de um lado e Nick Simper e Rod Evans do outro.

Gravado nos estúdios De Lane Lea, em Londres, entre janeiro e março de 1969, “Deep Purple” trazia um som mais pesado da banda, que também apostou mais em material próprio.

O clima estava tenso entre os membros por conta do direcionamento musical que eles queriam seguir. Ainda no final de 1968, Lord e Blackmore começaram a ensaiar um som mais nítido, cru e pesado e, de acordo com o que os dois queriam, a voz suave de Rod Evans não era a ideal para aguentar com um material mais agressivo. E, para aumentar a tensão, Nick Simper não aprovava a mudança musical do grupo. Então, por conta dessas desavenças, o tecladista e guitarrista concordaram em mudar a line-up do grupo, que também foi apoiada por Paice. O gerente John Coletta aconselhou o trio a manterem sigilo sobre o assunto até a conclusão da turnê.

Então, em junho de 1969, por meio de um convite do baterista Mick Underwood, Blackmore e Lord foram conferir a uma apresentação do Episode Six (que tinha Ian Gillan e Roger Glover em sua line-up). Na ocasião, os dois integrantes do Deep Purple subiram ao palco para uma Jam. Pouco tempo depois, Blackmore, Lord e Paice combinaram um teste com Ian Gillan, que levou o amigo Glover. Juntos, o quinteto gravou o single “Hallellujah”. Assim, nascia a MK II do Deep Purple. A situação era tão inusitada que, durante o dia, a segunda formação ensaiava enquanto a primeira continuava a se apresentar à noite como se nada estivesse correndo. E Evans e Simper não sabiam o que estava por acontecer até a véspera da estreia da nova formação do grupo nos palcos, a 10 de julho. Mas o mês de julho foi de correria tanto para Blackmore, Lord e Paice quanto para Gillan e Glover, já os dois tinham de realizar alguns shows com o Episode Six para cumprimento de contrato. Aí, o resto é história.

Mas, voltando para o álbum, “Deep Purple” não foi bem recebido nos Estados Unidos e ocupou apenas a 162ª colocação na Billboard, parte disso atribuída a crise da Tetragammaton, que atrasou o lançamento e não fez a devida divulgação do álbum. Além disso, a capa trazia uma reprodução da parte do tríptico de Hieronymus Bosch, intitulada “O Jardim das Delícias Terrenas”. A gravadora encontrou dificuldades sobre o uso da pintura de propriedade do Museu del Prado. A ilustração foi interpretada nos EUA, como “antirreligiosa”, com “cenas imorais” e, consequentemente, o disco foi rejeitado por parte das lojas de discos daquele País. Aliás, a capa do LP é bem melhor do que a reedição em CD, que tem apenas um quarto do tamanho e que dificulta a análise das imagens.

O álbum abre com “Chasing Shadows”, que mostra toda a habilidade de Ian Paice nas baquetas. Além disso, ela apresenta uma série percussiva com tambores e chocalhos.

Já “Blind” exibe a nítida a influência da música clássica em Jon Lord. Destaque também para o solo da guitarra distorcida de Ritchie Blackmore.

O terceiro tema é “Lalena”, o único cover do disco. A música originalmente foi escrita por Donovan em outubro de 1968. Nunca foi tocada ao vivo desde 1969. Porém, em uma sessão para a BBC, o grupo a tocou, foi registrada e incluída na versão remasterizada e expandida do álbum. Destaque para a interpretação triste de Evans e do belo solo de Jon Lord.

O play chega a sua metade com duas canções em uma só: “Fault Line / The Painter”. A primeira, instrumental, serve como uma introdução para a segunda e o baixo de Nick Simper é a grande graça. Já na segunda, os solos de Lord e Blackmore fazem dela uma obra-prima. Bluesy de qualidade. Vale destacar que, na edição remasterizada e expandida do disco, os dois temas vem como faixas “separadas”.

O lado B do LP de “Deep Purple” traz a ótima “Why Didn’t Rosemary”, que mostra todo o talento de Ritchie Blackmore e é uma espécie de anacronismo para o Blues americano e o Rock ‘N’ Roll da década de 1950. Tem uma leve lembrança dos Yardbirds. Dizem que a música foi escrita depois de a banda ver o filme “Rosemary’s Baby” (“O Bebê de Rosemary”). Sua letra lida com uma menina que ficou grávida por não ter tomado “a pílula”.

A penúltima faixa do disco é “Bird Has Flown”, que é a mais conhecida do disco e retorna à psicodelia dos dois primeiros trabalhos. Além disso, era um dos poucos temas que Gillan cantava da Mark I (MK I).

E, finalmente, “April”, com os seus mais de 12 minutos de virtuosismos, com passagens de orquestra, capitaneadas por Lord, é lógico, e um desempenho vocal magnífico de Evans.

Dessa forma, a MK I encerrava o primeiro de vários ciclos que o Deep Purple teria ao longo de seus quase 50 anos de ótimos serviços prestados à boa música. E, dentre os três trabalhos de estúdio feito pelo quinteto Blackmore, Lord, Paice, Evans e Simper, particularmente, acredito que esse seja o melhor.

A seguir, a ficha técnica e o tracklist de “Deep Purple”, o álbum.

Álbum: Deep Purple
Intérprete: Deep Purple
Lançamento: 21 de junho de 1969
Gravadora: Harvest (Reino Unido), Tetragrammaton (EUA) e Polydor (Canadá e Japão)
Produtor: Derek Lawrence

Rod Evans: voz
Ritchie Blackmore: guitarra
Jon Lord: órgão, teclados e backing vocal
Nick Simper: baixo e backing vocal
Ian Paice: bateria

1. Chasing Shadows (Lord / Paice)
2. Blind (Lord)
3. Lalena (Donovan Leitch)
4. Fault Line (Blackmore / Simper / Lord / Paice)
5. The Painter (Evans / Blackmore / Simper / Lord / Paice)
6. Why Didn’t Rosemary (Evans / Blackmore / Simper / Lord / Paice)
7. Bird Has Flown (Evans / Blackmore / Lord)
8. April (Blackmore / Lord)
Faixas bônus da versão remasterizada em CD:
9. Bird Has Flown (versão alternativa) (Evans / Blackmore / Lord)
10. Emmaretta (versão single) (Evans / Blackmore / Lord)
11. Emmaretta (versão BBC radio session gravada em 16/01/1969) (Evans/Blackmore/Lord)
12. Lalena (versão BBC radio session gravada em 06/06/1969) (Donovan Leitch)
13. The Painter (versão BBC radio session gravada em 06/06/1969) (Evans/Blackmore/Simper/Lord/Paice)

Por Jorge Almeida

Deep Purple: 40 anos de “Burn”

Burn: o primeiro álbum do Deep Purple com a MK III
Burn: o primeiro álbum do Deep Purple com a MK III

Neste dia 15 de fevereiro, o oitavo álbum de estúdio dos britânicos do Deep Purple, “Burn”, completa 40 anos de seu lançamento. Produzido por Martin Birch, o disco marcou a estreia de David Coverdale e Glenn Hughes na banda nos lugares de Ian Gillan e Roger Glover (que saíram em junho de 1973) respectivamente, formando assim, o MKIII, como é conhecida a terceira formação do grupo.

O primeiro a ser recrutado foi Glenn Hughes, que cantava e tocava baixo no Trapeze. A princípio, Hughes seria o vocalista e baixista da banda, mas Jon Lord e Ian Paice acharam que seria necessário mais uma pessoa para fazer os vocais e manter o grupo como quinteto. O Deep Purple tentou Paul Rodgers, do Free, mas não obteve sucesso porque o vocalista estava focado na criação do Bad Company.

O segundo integrante foi David Coverdale, então com 21 anos na época, e que antes de ingressar no Purple era balconista. Ao fazer o teste, Coverdale passou seis horas cantando músicas do DP e também outros temas conhecidos, como “Yesterday”. E quando David foi para casa, o restante do Deep Purple saiu para beber e decidiu: o gordinho seria o vocalista da banda (alguns meses depois, os empresários lhe deram medicamentos para afinar a aparência).

Definida a nova formação, o grupo passou o mês de setembro de 73 compondo e ensaiando no Castelo de Clearwell, no País de Gales. Gravou o álbum “Burn” em novembro em Montreux, na Suíça, usando a unidade móvel dos Rolling Stones (a mesma em que gravaram “Machine Head”, em 1972) e a banda se apresentou pela primeira vez com a sua terceira formação em oito de dezembro de 1973 na Dinamarca, contudo, o novo álbum só foi lançado no ano seguinte.

O MKIII seguiu em turnê divulgando o novo trabalho. Mas merece destaque a apresentação que o Deep Purple fez no festival California Jamming, em 6 de abril de 1974, diante de 200 mil pessoas, em que eles foram o headline do evento. Na ocasião, o concerto ficou marcado pelo destemperamento de Ritchie Blackmore, que detonou uma câmera em cima do palco com a sua Stratocaster, ocasionando um prejuízo de oito mil dólares, segundo Josh White, diretor de filmagens do evento.

O álbum abre com a estupenda faixa-título. Uma “pedrada” de um pouco mais de seis minutos em que todos se destacam: Coverdale e Hughes fazendo os vocais de forma magistral; Ian Paice arregaçando tudo na bateria; Jon Lord sempre perfeito em seu Hammond; e Blackmore fazendo dois solos fabulosos, além de um riff certeiro. Nos shows, “Burn” ficou marcado pelos berreiros de Glenn. Aliás, a música tem algumas semelhanças com “Highway Star”: rápida, praticamente o mesmo tempo de duração, belos solos e vocais impactantes.

Na sequência, surge “Might Just Take Your Life”, que teve o single lançado três dias antes do álbum. Seu riff foi pinçado de “Stone The Crow’s”, de Big Jim Salter. O grande destaque é o teclado de Jon Lord e o dueto de Coverdale e Hughes.

O terceiro tema é “Lay Down, Stay Down”, que traz um caprichado riff de Ritchie Blackmore e para mostrar que Ian Paice não está para brincadeira.

A faixa seguinte é a cadenciada “Sail Away”, que apresenta um vocal soberbo de Coverdale e Hughes. Uma ótima balada. Particularmente, atribuo como um dos melhores temas do Deep Purple.

A música seguinte é “You Fool No One”, que começa com a inconfundível performance de Paice em sua introdução, com uma puxada de “cowbell” (instrumento de percussão que remete a um pequeno sino, mas sem badalo, também conhecida como “caneca”). A faixa ganhou bastante notoriedade nos shows do Purple porque, nas apresentações, a banda a executava por mais de 15 minutos, onde eram inseridos solos de guitarra e teclados.

A sexta canção é o blues “What’s Goin’ On Here”, que tem as frases alternadas entre os dois vocalistas. Talvez, é a faixa de menor destaque, se é que podemos definir assim.

O penúltimo tema é “Mistreated”, cuja melodia foi criada por Blackmore e Hughes enquanto o vocalista do grupo não era definido. A dupla, à medida que iam se conhecendo e tocando juntos, compuseram esse clássico. Aliás, é a única música do álbum em que Coverdale canta sozinho. O solo de Ritchie no final é coisa de outro mundo. A música se destaca pela melancolia da letra e pela interpretação peculiar de David.

E a última faixa é a instrumental “A’200”, que mescla uma levada de marcha e umas viagens de teclado. O título da música foi retirado de um remédio homônimo contra “chatos” (piolho-da-púbis), que foi encontrado no banheiro do estúdio.

Em 2004, “Burn” foi relançado e com faixas bônus para celebrar os 30 anos do álbum: sendo quatro temas remixados e com a faixa “Coronarias Redig”, que foi gravada durante as sessões, mas não foi incluída no play, e aparecendo apenas no single de “Might Just Take Your Life”, além da coletânea “Singles A’s & B’s” (1993). E também é bom documentar que, no lançamento original do disco, por questões contratuais, Glenn Hughes não foi creditado nas canções, embora tenha participado do processo de criação. No entanto, na edição de 2004, seu nome foi inserido nos créditos.

A terceira encarnação do Deep Purple, além da troca de integrantes, ficou marcado pela sonoridade apresentada, especialmente à velocidade e técnica dada a Blackmore, além do dueto entre os dois cantores, que beiravam à perfeição. No palco, a performance vocal de Glenn Hughes impressionava, chegando até se destacar mais que a de David Coverdale. E o baixista também acrescentou uma pitada funky no grupo, o que contribuiu, aos poucos, o descontentamento de Ritchie Blackmore no Purple. E, até hoje, essa line-up do DP gera discussão: há os quem idolatra e também tem os que não conseguem imaginar a banda sem Roger Glover e, principalmente, sem Ian Gillan.

Bom, independentemente da opinião referente à formação do quinteto britânico, o que não se pode negar é que “Burn” é uma autêntica obra-prima do rock.

A seguir, a ficha técnica e o tracklist do play.

Álbum: Burn
Intérprete: Deep Purple
Lançamento: 15 de fevereiro de 1974
Gravadora: Purple Records/EMI (Reino Unido) / Warner Bros. (EUA)
Produtor: Martin Birch

Ritchie Blackmore: guitarra
David Coverdale: voz
Glenn Hughes: baixo, backing vocal e voz
Jon Lord: teclados e sintetizadores
Ian Paice: bateria

1. Burn (Blackmore / Coverdale / Hughes / Lord / Paice)
2. Might Just Take Your Life (Blackmore / Coverdale / Hughes / Lord / Paice)
3. Lay Down, Stay Down (Blackmore / Coverdale / Hughes / Lord / Paice)
4. Sail Away (Blackmore / Coverdale)
5. You Fool No One (Blackmore / Coverdale / Hughes / Lord / Paice)
6. What’s Goin’ On Here (Blackmore / Coverdale / Hughes / Lord / Paice)
7. Mistreated (Blackmore / Coverdale)
8. A’200 (Blackmore / Lord / Paice)
Faixas bônus:
9. Coronarias Redig (2004 remix) (Blackmore / Lord / Paice)
10. Burn (2004 remix) (Blackmore / Coverdale / Hughes / Lord / Paice)
11. Mistreated (2004 remix) (Blackmore / Coverdale)
12. You Fool No One (2004 remix) (Blackmore / Coverdale / Hughes / Lord / Paice)
13. Sail Away (2004 remix) (Blackmore / Coverdale)

Por Jorge Almeida

Whitesnake: 30 anos de “Slide It In”

"Slide It In": clássico absoluto da discografia do Whitesnake
“Slide It In”: clássico absoluto da discografia do Whitesnake

O sétimo álbum de estúdio dos britânicos do Whitesnake, “Slide It In”, completa 30 anos de seu lançamento em janeiro de 2014. Produzido por Martin Birch, o disco foi gravado por “duas bandas” no final de 1983. Ou seja, os músicos gravaram a versão europeia, enquanto alguns temas da versão norte-americana sofreram algumas modificações e foram regravadas por outros integrantes.

Depois dos lançamentos de “Come An’ Get It” (1981) e “Saints & Sinners” (1982), o Whitesnake passou por constantes mudanças em sua line-up, chegando até ao ponto de um possível término da banda, o que não ocorreu. Saíram Ian Paice, Bernie Marsden e Neil Murray (que foi recrutado posteriormente). Entraram Mel Galley (ex-companheiro de Glenn Hughes do Trapeze) nas guitarras, Colin Hodgkinson no baixo e o baterista Cozy Powell. E, durante o processo de gravação, Micky Moody saiu e foi substituído por John Sykes. As trocas que ocorreram na banda se devem, principalmente, por conta dos desentendimentos dos integrantes com o “patrão” David Coverdale.

Então, a gravação da edição europeia de “Slide It In” foi feita pelos seguintes músicos: David Coverdale (voz, percussão e piano), Micky Moody e Mel Galley nas guitarras, Coling Hodgkinson (baixo), Jon Lord (teclados) e Cozy Powell (bateria). Enquanto a versão dos Estados Unidos teve a presença adicional de John Sykes na guitarra e a volta de Neil Murray no baixo no lugar de Hodgkinson.

Para ingressar no mercado norte-americano, o Whitesnake assinou um contrato com a Geffen Records, que insistiu que o álbum fosse remixado. Assim, o disco apresentou alguns solos de guitarra diferentes da edição europeia, isso se deve a presença de John Sykes como um terceiro guitarrista, que acrescentou “camadas” em cima das partes originais feitas por Galley e Moody. Enquanto as partes de baixo gravadas por Colin Hodgkinson foram substituídas por Neil Murray, que retornou ao grupo após uma breve saída. Além disso, Bill Cuomo acrescentou alguns sons de teclados na edição ianque de “Slide It In”. É perceptível notar algumas diferenças entre as duas versões: enquanto a europeia traz uma forte presença dos teclados de Jon Lord e o baixo é mais percebível. E também, em alguns temas, traz pequenas mudanças. Por exemplo, em “Gambler”, na versão europeia, a voz de Coverdale ecoa após cada linha que ele canta – isso não acontece na mixagem feita nos EUA. Enquanto em “Slow An’ Easy”, a edição norte-americana tem mais eco.

Vale registrar que o single de “Guilty Of Love”, bem como seu lado B – “Gambler” – foi produzido por Eddie Kramer, mas ele foi demitido e substituído por Martin Birch. E, apesar das constantes trocas de integrantes na formação, o álbum chegou ao nono lugar nas paradas britânicas e na 40ª posição na Billboard 200 nos EUA.

Em 2009, “Slide It In” foi relançado em formado digipack, com CD e um DVD, que traz sete faixas: três videoclipes – “Guilty Of Love”, “Slow An’ Easy” e “Love Ain’t No Stranger”; três performances ao vivo – “Guilty Of Love”, gravada em Donington em 1983; e duas versões de “Love Ain’t No Stranger”, uma retirada do álbum “Starkers In Tokyo” (1997) e a outra de “Live… In The Still Of The Night”; e uma aparição da banda no tradicional Top Of The Pops, da BBC em 19 de janeiro de 1984, onde mandaram “Give Me More Time”.

Pouco tempo após o lançamento do álbum, Micky Moody deixa a banda e John Sykes foi anunciado como novo guitarrista do Whitesnake. Contudo, durante a turnê europeia, Mel Galley sofreu uma lesão no braço e precisou ficar “de molho” durante parte da turnê. Dessa forma, o Whitesnake seguiu apenas com Sykes nas guitarras. Em abril de 1984, os rumores da reunião do Deep Purple era iminente, e, assim, banda de David Coverdale sofreu outra baixa: Jon Lord sai para voltar a reunir-se com o MKII da banda que o consagrou. A última aparição do tecladista com o Whitesnake foi em 16 de abril daquele ano em um programa de TV sueco. Com a saída de Lord, Richard Bailey foi trazido para a banda para a continuidade da turnê.

Em janeiro de 1985, o Whitesnake tocou no Brasil pela primeira vez. A apresentação de Coverdale e cia. aconteceu na primeira edição do Rock In Rio, e a sua inclusão no cast do festival foi “acidental”. Isso porque o grupo substituiu o Def Leppard, que desistiu de participar do evento em virtude do trágico acidente de carro sofrido pelo baterista Rick Allen no final de 1983 que culminou na amputação de seu braço.

Mas, voltando para o álbum, “Slide It In” traz riffs poderosos ao longo das músicas, assim como merece ser destacado o trabalho de vocalização e dos arranjos das canções. Os guitarristas Micky Moody e Mel Galley fizeram um trabalho “redondinho”, assim como John Sykes, que regravou todo o álbum posteriormente na íntegra, como foi dito. Além disso, nunca devemos deixar passar despercebido o trabalho do mestre Jon Lord, apesar de ter atuado menos em relação aos registros anteriores da “Cobra Branca”. Outro ponto forte do disco foi a eficiente “cozinha” de Neil Murray (ou de Colin Hodgkinson) e do saudoso Cozy Powell. Aqui cabe uma observação: apesar de mandar e desmandar na banda, David Coverdale é um monstro para montar formações de músicos de primeiro escalão no Whitesnake. Aliás, infelizmente, três músicos que gravaram “Slide It In” não estão mais entre nós: Cozy Powell (morto em 1998 em um acidente de carro), Mel Galley (que perdeu a batalha para um câncer de esôfago em 2008) e Jon Lord, que faleceu em 16 de julho de 2012 em consequência de uma embolia pulmonar, ele já sofria de câncer no pâncreas.

O tracklist do álbum apresenta as “zeppelianas” “Gambler” (que abre o disco) e “Slow An’ Easy”, e também as menos conhecidas, mas não menos relevantes, como a bela “Standing In The Shadow”, “Give Me More Time”, ”Hungry For Love”, “All Or Nothing” e “Spit It Out”. A faixa-título é um petardo e, seguramente, é um dos carros-chefes do disco. É impossível ficar parado quando se ouve “Guilty Of Love”, que é acelerada e certeira, um ‘hardão’ de primeira. E, propositalmente, deixei por último o principal hit do play: “Love Ain’t No Stranger”, que, particularmente, a classifico como o “Hard Rock na sua essência”. Aliás, a música foi uma das trilhas sonoras do cigarro Hollywood nos anos 1980.

Esse trabalho do Whitesnake foi um divisor de águas na carreira da banda. Pois, marcou a transição da pegada “blueseira” dos primeiros registros para o Hard Rock característico daquela década, que expôs o grupo cada vez mais na Mtv através de seus videoclipes.

Se você puder, adquira a edição de 25 anos do álbum. Caso contrário, o CD simples também vale. Afinal, trata-se de um clássico.

A seguir, a ficha técnica e o tracklist* de “Slide It In”.

Álbum: Slide It In
Intérprete: Whitesnake
Gravadora: Geffen/Warner Bros. (EUA/Canadá); CBS/Sony (Japão); Liberty Records (internacional)
Produtor: Martin Birch

David Coverdale: voz, percussão e piano
Micky Moody: guitarras
Mel Galley: guitarras e backing vocal
Cozy Powell: bateria
Jon Lord: teclados
John Sykes: guitarras (versão norte-americana do disco)
Colin Hodgkinson: baixo (versão europeia)
Neil Murray: baixo (versão norte-americana)

1. Gambler (Coverdale / Galley)
2. Slide It In (Coverdale / Galley)
3. Standing In The Shadow (Coverdale)
4. Give Me More Time (Coverdale / Galley)
5. Love Ain’t No Stranger (Coverdale / Galley)
6. Slow An’ Easy (Coverdale / Moody)
7. Spit It Out (Coverdale / Galley)
8. All Or Nothing (Coverdale / Galley)
9. Hungry For Love (Coverdale)
10. Guilty Of Love (Coverdale)
11. Need Your Love So Bad (Mertis John Jr.) – faixa bônus da edição japonesa
* Tracklist da versão europeia do álbum

Por Jorge Almeida

Whitesnake: 35 anos de “Trouble”

Trouble (1978): álbum que marca o reencontro de David Coverdale e Jon Lord após o fim do Deep Purple, em 1976
Trouble (1978): álbum que marca o reencontro de David Coverdale e Jon Lord após o fim do Deep Purple, em 1976

Nesse mês de outubro, o álbum “Trouble”, do Whitesnake, fez 35 anos de seu lançamento. Gravado no Central Recorders Studios, em Londres, o disco foi mixado em dez dias e teve a produção assinada por Martin Birch. O trabalho alcançou o 50º lugar nos charts britânicos.

Podemos considerar que “Trouble”, de fato, é o álbum de estreia do Whitesnake, uma vez que o primeiro registro fonográfico da banda de David Coverdale foi o EP “Snakebite” lançado também em 1978 e que teve como grande destaque – e principal hit – um cover de Bobby “Blue” Bland chamado “Ain’t No Love In The Heart Of The City”. Só para entendermos melhor: a relação entre o EP “Snakebite” e o disco “Trouble” para o Whitesnake é a mesma coisa que o “The Soundhouse Tapes” e o ‘debut’ do Iron Maiden tem para o grupo de Steve Harris, entendeu?

O Hard Rock que consagrou David Coverdale com o Deep Purple é fortemente influenciado em seus primeiros trabalhos solos – os álbuns “White Snake” (1977) e “Northwinds” (1978) – e também no citado EP. Contudo, em “Trouble”, o vocalista junto com a sua trupe dá umas pitadas de Rhythm ‘N’ Blues e o resultado deixa nítido a evolução do grupo, demonstrando que ali estava surgindo um grande grupo.

A faixa-título é o carro-chefe do álbum, que se destaca por ser uma balada blues-rock com um desempenho arrebatador de Coverdale. Outros temas merecem atenções especiais, casos de “The Time Is Right For Love”, “Nightawk (Vampire Blues)” e a excelente versão de “Day Tripper”, dos Beatles. Aliás, essas músicas não constam no setlist do Whitesnake há um bom tempo, o que é uma pena.

O registro marcou a inclusão de velho conhecido de Coverdale na banda: o mestre Jon Lord, que trabalhou com o vocalista na época de Deep Purple. Pouco tempo depois, o Whitesnake teve em sua line-up 3/5 do MK III e IV do Purple: David Coverdale, Jon Lord e Ian Paice. Esse último entrou na banda em 1979 e ficou até 1984, ano em que o Deep Purple voltou à ativa após um hiato de oito anos de inatividade.

Além de Coverdale nos vocais e Lord nos teclados, a formação do grupo no lançamento de “Trouble” era composta por Bernie Marsden e Micky Moody nas guitarras, Neil Murray no baixo e Dave Dowle na bateria.

Para promover o álbum, o Whitesnake excursionou pela Europa e, nesse período, gravou o que viria ser o seu primeiro trabalho ao vivo, o aclamado “Live… In The Heart Of The City”, gravado no lendário Hammersmith Odeon, tradicional casa de espetáculo londrina.

O registro foi reeditado em 2006 e teve as quatro faixas de “Snakebite” acrescidas como bônus.

Apesar de não fazer parte do rol dos clássicos do Whitesnake, “Trouble” é um disco que possui muitas virtudes. E, convenhamos, não dá para resumir o Whitesnake apenas em “Slide It In” (1984) e “1987” (1987).

Abaixo, a ficha técnica e o tracklist de “Trouble”.

Álbum: Trouble
Intérprete: Whitesnake
Lançamento: outubro de 1978
Produtor: Martin Birch
Gravadora: United Artists/Geffen (EUA e Canadá)/Polydor (Japão)/EMI (internacional)

David Coverdale: voz
Micky Moody: guitarra
Bernie Marsden: guitar e voz em “Free Flight
Neil Murray: baixo
Jon Lord: teclados
Dave Dowle: bateria

1. Take Me With You (Coverdale / Moody)
2. Love To Keep You Warm (Coverdale)
3. Lie Down (A Modern Love Song) (Coverdale / Moody)
4. Day Tripper (Lennon / McCartney)
5. Nightawk (Vampire Blues) (Coverdale / Marsden)
6. The Time Is Right For Love (Coverdale / Moody / Marsden)
7. Trouble (Coverdale / Marsden)
8. Belgian Tom’s Hat Trick (Moody)
9. Free Flight (Coverdale / Marsden)
10. Don’t Mess With Me (Coverdale / Moody / Marsden / Murray / Lord / Dowle)
Faixas bônus:
11. Come On (Coverdale / Marsden)
12. Bloody Mary (Coverdale)
13. Steal Away (Coverdale / Moody / Marsden / Murray / Solley / Dowle)
14. Ain’t No Love In The Heart Of The City (Price / Walsh)

Por Jorge Almeida