Analisando “The Purple Album”, do Whitesnake

"The Purple Album": o 12º disco de estúdio do Whitesnake, que traz releituras do Deep Purple
“The Purple Album”: o 12º disco de estúdio do Whitesnake, que traz releituras do Deep Purple

Aproveitando que o texto anterior foi referente a uma pessoa fortemente ligada ao Deep Purple, vamos abordar sobre outro nome que marcou presença na banda britânica. Me refiro a David Coverdale, que substituiu Ian Gillan no Deep Purple. No caso aqui, falaremos especificamente do Whitesnake, grupo do qual Coverdale é o “dono”, “patrão”, “manda-chuva”, e seja lá qual mais definição que você queira definir, que lançou neste ano de 2015 o seu mais novo trabalho de estúdio: o disco “The Purple Album”, que contém regravações de músicas do Deep Purple do período em que seu líder fazia parte do grupo, ou seja, das fases dos MK’s III e IV, que atuou entre o final de 1973 a 1976, quando o Purple encerrou suas atividades, antes da volta de 1984.

Gravado entre 2014 e 2015, o play foi lançado pela gravadora Frontiers em 29 de abril no Japão, em maio na Europa e nos Estados Unidos, e o CD apresenta 15 faixas (sendo duas bônus), mais um DVD na edição “Deluxe”.

Evidentemente que as comparações entre as versões que o Whitesnake fez com as originais feitas pelo Deep Purple serão inevitáveis. E já adianto a minha opinião desde já que as releituras feitas pela banda de Coverdale ficaram inferiores à do grupo que o consagrou nos anos 1970. Mas isso não significar que “The Purple Album” seja um trabalho ruim, ele só não beira à perfeição como as obras ‘purplenianas’.

O disco abre com “Burn” que, talvez, seja o principal hino dessa fase do Purple. E a versão da “Cobra Branca”, embora seja mais técnica não é tão excelente quanto à clássica versão de 1974. Aliás, até hoje ninguém faz o maravilhoso trabalho que a dupla Blackmore/Lord fez nela. Evidentemente que Coverdale não consegue repetir a mesma qualidade vocal da mesma, o que é compreensível, afinal, ele já é um sessentão e humanamente é impossível manter a mesma pegada de um garoto de vinte e poucos. Mas o trabalho da dupla Reb Beach e Derek Hilland não comprometem.

Em seguida vem “You Fool No One”, que não compromete, e que aqui tem um pedaço de “Itchy Fingers”, quase que oculta, mas a “crueza” e paulada da música são mantidos, na medida do possível.

O terceiro tema é “Love Child”, que até tem partes interessantes, porém, ficou aquém da original, gravada com Tommy Bolin nas guitarras no clássico “Come Taste The Band” (1975).

Posteriormente surge uma das mais legais do álbum: “Sail Away”, que teve o seu ritmo ‘suingado’ original substituído por um bem trabalhado instrumental acústico. E ainda Coverdale, brilhantemente, inseriu um instrumental intitulado “Elegy For Jon”, em homenagem ao saudoso Jon Lord (tecladista tanto do Deep Purple quanto do Whitesnake). Comparo as duas versões dessa música da mesma forma que as versões original e acústica de “Layla”, de Eric Clapton. Ou seja, a mesma música com arranjos totalmente diferentes – que nem parecem se tratar da mesma canção, mas que ambas são formidáveis.

Outra faixa de “Stormbringer” segue em “The Purple Album”. Agora é a vez da ‘esquecida’ “The Gypsy”, que aqui ganhou um melhor instrumental e mais peso, e tirou aquela aparência de “música de AM de madrugada” que a original tinha.

O Hard Rock de “Lady Double Dealer” praticamente foi mantido aqui com uma dosagem de peso, mas que nos shows David Coverdale canta em tonalidade mais baixa, o que é compreensível em função da atual situação de sua voz.

Um dos maiores clássicos da MKIII não poderia ficar de fora, não é mesmo? Claro que “Mistreated” tinha que fazer parte desse projeto. Apesar da louvável tentativa da atual line-up do Whitesnake em chegar próximo à versão original, nada se compara aos riffs e solo que Ritchie Blackmore fez para essa música que é atemporal.

Gravada originalmente com os vocais de Glenn Hughes, “Holy Man” ganhou uma bela versão feita por Coverdale e sua trupe. Mas prefiro ainda o original que traz a indefectível voz do “the Voice of Rock”.

Might Just Take YourLife” é a nona faixa do play. Diferentemente da versão do álbum “Burn”, em que Jon Lord tinha dado as cartas na introdução com o seu impecável Hammond, o Whitesnake resolveu investir com violões. Ficou abaixo da original em virtude da ausência do vocal único de Glenn Hughes.

O próximo tema é “You Keep On Moving”. Embora tenham tentado chegar próximo à original em relação ao backing vocal, ficou “no quase”, afinal, essa é outra música que a voz de Glenn Hughes faz dela uma coisa única. Reforço que a releitura do Whitesnake, instrumentalmente falando, ficou muito boa.

Outro tema bastante conhecido dos ‘purplenianos’ e dos ‘whitesnakianos’ aparece em seguida. Refiro-me a “Soldier Of Fortune”, que faz parte do setlist do Whitesnake nos últimos anos, com Coverdale cantando à capella com o público. E, no play, ganhou uma versão acústica. Ficou semelhante a releitura que consta no álbum “Starkers In Tokyo” (1997), trabalho lançado pela dupla Coverdale/Vandenberg, mas que é creditado como um álbum do Whitesnake.

A penúltima faixa do disco é “Lay Down, Stay Down”, que apesar de ter ganho mais peso, mas tem um andamento com o “freio de mão” mais puxado em relação à original.

Para finalizar a versão “comum” do álbum, a clássica “Stormbringer” que atribuo à mesma situação em relação a “Burn”, faixa que abre o play: mais técnica, mas não tão excelente quanto à original.

Bom, mas a versão “Deluxe” de “The Purple Album” ainda traz duas releituras de “Come Taste The Band”: “Lady Luck” e “Comin’ Home”, que não ficaram ruins, mas quem escuta as originais com Tommy Bolin nas guitarras, chega à conclusão de que “nada se compara ao original”.

Além das faixas bônus citadas, essa versão ainda contém um DVD com videoclipes de algumas músicas que foram regravadas, destaco o belo vídeo “Stormbringer”.

Assim, para quem é fã ardoroso da era Coverdale/Hughes no Deep Purple, esse disco do Whitesnake pode até decepcioná-lo. Pois, os duetos fabulosos entre Coverdale e Hughes e os backing vocals do baixista foram substituídos por camadas de voz e também houve um uso excessivo de recursos tecnológicos, o que deixa o trabalho um pouco artificial. Enfim, com todo direito, pode avaliar o disco como “duvidoso”.

Agora, para quem apreciador da obra do Whitesnake, trata-se de um bom trabalho. Pois reúne todas as características de um álbum do Whitesnake: Hard Rock, baladas, agressividade, peso, enfim, todos os ingredientes que fizeram a empreitada criada por David Coverdale no final dos anos 1970 como uma das maiores bandas de Hard Rock da história.

Essa volta ao passado de David Coverdale, em meu ponto de vista, é válida, pois, mesmo com os inúmeros boatos e rumores para uma volta, uma turnê ou um show com o MK III do Deep Purple, nunca acontecerá, e isso sucumbiu de vez em 2012 com a morte de Jon Lord. Além disso, a atual formação do Deep Purple – Gillan, Glover, Morse, Airey e Paice – nunca tocará alguma coisa referente a essa fase da banda. Ou seja, os apreciadores dos clássicos “Burn”, “Stormbringer” e “Come Taste The Band” praticamente só poderão escutar esses temas ao vivo via Whitesnake ou nos shows do Glenn Hughes.

Outro ponto que acho louvável por parte de Coverdale foi prestar uma homenagem à sua “escola”, que foi o Deep Purple. Isso é uma prova de gratidão para com a banda que o consagrou. Evidentemente não saiu como o original e, como coautor de todas essas músicas, ele tem todo o direito de regravar, assim como Hughes. Aliás, a dedicação que se encontra no encarte é de emocionar: “This album is dedicated with honour, love & respect to: Ritchie Blackmore, Glenn Hughes e Ian Paice e in loving memory of Jon Lord e Tommy Bolin”, algo como: “Este álbum é dedicado com honra, amor e respeito a: Ritchie Blackmore, Glenn Hughes e Ian Paice e na memória amorosa de Jon Lord e Tommy Bolin”.

E, digo mais: apesar de não conseguir se desvincular com o seu passado com o Deep Purple, David Coverdale sempre mostrou-se orgulhoso dele. Afinal, muitos registros ao vivo do Whitesnake sempre traz algum clássico do Deep Purple e, graças a isso, que podemos testemunhar, cantar, celebrar e relembrar de uma das épocas mais importantes de uma das principais bandas da história.

Outra coisa que lamento em relação a “The Purple Album” foi o fato de que o vocalista poderia ter convidado o seu ‘parça’ Glenn Hughes para fazer uma participação especial em pelo menos uma música. Mas, como o ego sempre fez parte da história do rock, talvez Coverdale não tenha chamado Hughes com receio de que o ex-companheiro de banda “roubasse a cena” e o “deixasse no chinelo”, já que Glenn Hughes ainda continua cantando muito (quem foi ao show no Carioca Club no último domingo pode comprovar isso). Apesar dessa “mancada”, David até se redimiu ao convidar Hughes para fazer participação especial em alguns shows da turnê, que pode ser vista no Youtube.

Vale destacar também o excelente material do CD. Encarte bem produzido, que traz relatos de David Coverdale a respeito da regravação, assim como das músicas. Infelizmente, esse tipo de situação só é possível nas versões importadas, pois quando a edição brasileira for lançada, possivelmente, só terá aquelas coisas básicas: CD simples com 13 músicas (sem as faixas bônus) e o encarte com os créditos das músicas e da gravação.

No final, para um fã do Deep Purple, esse trabalho tem a nota 4, para o fã de Whitesnake pode valer até um 8. Mas para quem gosta das duas bandas, como este que vos escreve, uma nota 6 está de bom tamanho.

A seguir, a ficha técnica e o tracklist do play.

Álbum: The Purple Album
Intérprete: Whitesnake
Lançamento: 29/04/2015 (Japão), 15/05/2015 (Europa), 18/05/2015 (Reino Unido) e 19/05/2015 (EUA)
Gravadora: Frontiers
Produtores: David Coverdale, Michael McIntyre e Reb Beach
Preço médio: R$ 50,00 (importado)

David Coverdale: voz
Reb Beach: guitarra e backing vocal
Joel Hoekstra: guitarra e backing vocal
Michael Devin: baixo, gaita e backing vocal
Tommy Aldridge: bateria e percussão
Derek Hilland: teclados

CD 1:
1. Burn (Blackmore / Coverdale / Hughes / Lord / Paice)
2. You Fool No One interpolating “Itchy Fingers” (Blackmore/Coverdale/Hughes/Lord/Paice)
3. Love Child (Bolin / Coverdale)
4. Sail Away featuring Elegy For Jon (Blackmore / Coverdale)
5. The Gypsy (Blackmore / Coverdale / Hughes / Lord / Paice)
6. Lady Double Dealer (Blackmore / Coverdale)
7. Mistreated (Blackmore / Coverdale)
8. Holy Man (Coverdale / Hughes / Lord)
9. Might Just Take Your Life (Blackmore / Coverdale / Hughes / Lord / Paice)
10. You Keep On Moving (Coverdale / Hughes)
11. Soldier Of Fortune (Blackmore / Coverdale)
12. Lay Down Stay Down (Blackmore / Coverdale / Hughes / Lord / Paice)
13. Stormbringer (Blackmore / Coverdale)
Faixas bônus:
14. Lady Luck (Cook / Coverdale)
15. Comin’ Home (Bolin / Coverdale / Paice)
CD 2: DVD – Video
1. Lady Double Dealer
2. Sail Away
3. Stormbringer
4. Soldier Of Fortune
5. The Purple Album “Behind The Scenes”
6. The Purple Album EPK

Por Jorge Almeida

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Deep Purple: 40 anos de “Stormbringer”

"Stormbringer": último trabalho de Ritchie Blackmore com o Deep Purple até 1984

No último mês de novembro, o nono álbum do Deep Purple – “Stormbringer” – completou 40 anos de seu lançamento. O disco marcou o fim da MK III, uma vez que Ritchie Blackmore saiu pela primeira vez da banda em 7 de abril de 1975 (próximo do guitarrista completar 30 anos de vida) em virtude de sua insatisfação com os rumos musicais que o grupo estava a tomar, especialmente a influência da Black Music, mais especificamente funky e soul, de Glenn Hughes.

Gravado no Musicland Studios, em Munique, em agosto de 1974, e mixado no The Record Plant, em Los Angeles, em setembro do mesmo ano, “Stormbringer” foi produzido por Martin Birch em conjunto com o Purple.

Apesar de não conseguir igualar-se ao seu antecessor – o estupendo “Burn” -, nas paradas e na aceitação da crítica e do público, o play alcançou boas colocações nas paradas da Noruega (2º lugar), na Austrália (4º), enquanto nos Estados Unidos ocupou a 20ª colocação na Billboard. No entanto, rendeu Disco de Ouro na terra do Tio Sam, no Reino Unido e na França.

A paciência do carrancudo Blackmore estava a minguar cada vez mais com a sonoridade que o Deep Purple estava a adotar na ocasião. A tolerância do guitarrista durou até o término da turnê europeia da promoção do álbum. Pela insatisfação demonstrava, Ritchie Blackmore praticamente já vinha com o seu projeto em mente e que tornou-se realidade ainda em 1975 – o Rainbow.

A imagem utilizada na capa de “Stormbringer” é baseada em um registro fotográfico realizado em 1927 por Lucille Handberg. Na ocasião, em 8 de julho daquele ano, a fotógrafa captou um furacão perto da cidade de Jasper, em Minnesota e, a partir de então, a foto tornou-se uma imagem clássica. A mesma fotografia foi editada e utilizada na capa do álbum “Tinderbox” (1986), de Siouxie And The Banshees.

O disco abre com a clássica faixa-título e que traz a quase inaudível fala de David Coverdale, antes de entrar os vocais, copiada de um trecho do filme “O Exorcista” (1973). O grande trunfo da música são o riff de Blackmore e o vocal furioso de Coverdale. Certamente um dos maiores clássicos dessa formação do Deep Purple. Em seguida, “Love Don’t Mean A Thing”, que aborda o bon vivant que só se interessa pelo dinheiro. Aqui temos a mescla do que viria a ser o Whitesnake de anos mais tarde com o funky do Trapeze de Glenn Hughes. Mesmo fazendo um trabalho a contragosto, Ritchie manda muito bem ao colocar uma guitarra bem sacada na música. Posteriormente, vem a bela “Holy Man”, que tem como protagonista Glenn Hughes, que a interpreta com sentimento. Vale conferir também o solo cheio de feeling de Blackmore. E o lado A do vinil termina com “Hold On”, em que Coverdale e Hughes fazem dueto e é outra tipicamente “whitesnakiana”. Sua letra fala de forma bem franca sobre sexo.

O lado B começa com “Lady Double Dealer”, uma faixa hard rock clássica, acelerada e batida rápida, porém, o solo parece um pouco inspirado e a música é relativamente curta, o que é uma pena. A sexta música é “You Can’t Do It Right”, uma canção totalmente Glenn Hughes, pois é funky de cabo a rabo. O baixista aqui detona. O antepenúltimo tema é “High Ball Shooter”, outro hard em que Hughes dá mais um show, embora seja mais contida em relação a “Lady Double Dealer”. Destaque também para o desempenho de Ian Paice. O play chega ao final com mais duas grandes músicas: “The Gypsy”, onde o riffmaster Ritchie Blackmore executa sua Fender Stratocaster com maestria. E a clássica “Soldier Of Fortune”, uma balada perfeita escrita pela dupla Blackmore/Coverdale. Confesso que não sei quem se destaca mais: se é David cantarolando-a com a alma ou se é o excelente trabalho de Ritchie no violão e na guitarra. Mas uma coisa é certa: o Deep Purple foi certeiro ao deixá-la como música de encerramento desse incompreendido álbum.

Para celebrar os 35 anos de seu lançamento, em 2009, “Stormbringer” foi relançado com todas as faixas remasterizadas, além de alguns bônus e um DVD.

Vocês podem ter notado que na descrição toda do texto o nome de Jon Lord não foi citado. Isso se deve porque, apesar de não ter comprometido em nada no disco, o mestre dos teclados pouco apareceu. Na verdade, é que o saudoso tecladista não se destacou com o mesmo brilhantismo dos trabalhos anteriores. Mesmo assim, só a presença de Jon Lord já torna algo simples em grandioso. E mesmo porque o Deep Purple é o que é hoje graças a ele, que justifica o sobrenome.

Embora não esteja no mesmo patamar que os álbuns anteriores, “Stormbringer” é um disco versátil, criativo e que serve para mostrar a capacidade que o Deep Purple tem em se reinventar, mas sem perder a sua essência. Sim, é um daqueles discos que costumo classificar como “injustiçado”.  E digo mais: particularmente, acho que é o segundo melhor disco (só perde para “Burn”) lançado pelo Deep Purple sem ser com a MK II.

A seguir, a ficha técnica e o tracklist do disco.

Álbum: Stormbringer
Intérprete: Deep Purple
Lançamento: novembro de 1974
Gravadora: EMI/Purple Records (Reino Unido) / Warner Records (EUA)
Produtores: Martin Birch / Deep Purple

David Coverdale: voz
Ritchie Blackmore: guitarra e violão
Glenn Hughes: baixo, voz e backing vocal
Jon Lord: órgão e teclados
Ian Paice: bateria

1. Stormbringer (Blackmore / Coverdale)
2. Love Don’t Mean A Thing (Blackmore / Coverdale / Hughes / Lord / Paice)
3. Holy Man (Coverdale / Hughes / Lord)
4. Hold On (Coverdale / Hughes / Lord / Paice)
5.Lady Double Dealer (Blackmore / Coverdale)
6. You Can’t Do It Right (Blackmore / Coverdale / Hughes)
7. High Ball Shooter (Blackmore / Coverdale / Hughes / Lord / Paice)
8. The Gypsy (Blackmore / Coverdale / Hughes / Lord / Paice)
9. Soldier Of Fortune (Blackmore / Coverdale)

Por Jorge Almeida

Show do Deep Purple no Espaço das Américas (12.11.2014)

Deep Purple em apresentação no Espaço das Américas nesta quarta-feira. Foto: Jorge Almeida
Deep Purple em apresentação no Espaço das Américas nesta quarta-feira. Foto: Jorge Almeida

Nesta noite de quarta-feira (12), o Deep Purple fez a sua segunda apresentação em São Paulo durante a turnê de “Now What?!” no Espaço das Américas. A diferença entre o concerto da terça para o da quarta é que no do dia anterior a casa ficou configurada em formato de teatro, ou seja, com cadeiras. E ao longo de cerca de 1h40, os britânicos tocaram três músicas de seu mais novo trabalho e os velhos clássicos de sempre.

Depois de terminar a apresentação da banda de abertura, que ficou a cargo do Cruz (PS: este que vos escreve não conseguiu acompanhar a performance dos caras por problemas logísticos, show na quarta-feira em São Paulo já viu né? Trânsito caótico), o público ficou cerca de 40 minutos na espera até que, às 22h08, as PA’s do local começaram a ecoar o instrumental “Mars, The Bringer Of War”, do compositor e arranjador inglês Gustav Holst. Aliás, tema é um dos movimentos da suíte “The Planets”, composta por Holst entre 1914 e 1916.

E isso bastou para os presentes irem ao delírio quando adentraram no palco do Espaço das Américas: Ian Gillan (voz), Roger Glover (baixo), Steve Morse (guitarra), Don Airey (teclados) e Ian Paice (bateria), que já começaram com “Highway Star” logo de cara. Na sequência, outros três clássicos da formação clássica (MK II): “Into The Fire”, “Hard Lovin’ Man” e “Strange Kind Of Woman”.

Em seguida, o Purple apresentou o primeiro tema do último trabalho, “Vincent Price”, que é uma excelente música, seguido da instrumental “Contact Lost”, que praticamente é a parte do solo de Steve Morse que, mais uma vez, “calou” as viúvas de Ritchie Blackmore. Posteriormente, veio “Uncommom Man”, também do disco novo, e mais um tema instrumental – “The Well-Dressed Guitar”. Todas lançadas em discos mais recentes do Deep Purple.

E os veteranos continuaram o show com mais duas dos anos 1970: “The Mule”, com o tradicional e ótimo solo de bateria de Ian Paice, e a viajante “Lazy”, do clássico “Machine Head”. E a última canção de “Now What?!” tocada na noite foi “Hell To Pay”, que tem potencial de se tornar um clássico.

Em seguida foi a vez de Don Airey se destacar com o seu Hammond ao executar o seu solo, com direito a um trecho de “Aquarela do Brasil”, para alegria do público. Depois os demais voltam ao palco e seguem o show com o hino “Perfect Strangers”, uma das mais aclamadas da noite, seguido dos clássicos “Space Truckin’” e a obrigatória “Smoke On The Water”.

O grupo sai da arena e volta para o tradicional bis, que começou com “Green Onions”, um soul instrumental do Booker T. & The M. G.’s., de 1962. Em seguida, o primeiro hit da banda, a clássica “Hush”, de Joe South, posteriormente acompanhada pelo solo de Roger Glover, tendo a bateria de Ian Paice no suporte, para, enfim, finalizarem o concerto com “Black Night”, com direito a Steve Morse executar o riff de “La Grange”, do ZZ Top.

O show terminou perto da meia-noite e, com isso, quem se deslocou até o local através do transporte público teve de acelerar os passos para não se deparar com o Metrô fechado (como foi o meu caso), mas saiu satisfeito por ter visto mais um grande concerto desses dinossauros do rock.

Bom, Ian Gillan pode até não ter mais a sua “Silver Voice”, mas ainda arrisca dar uns de seus tradicionais berros, com direito a tosse. A “cozinha” de Paice e Glover continua funcionando perfeitamente. E os substitutos de Jon Lord e Ritchie Blackmore – Don Aires e Steve Mores, respectivamente – estão perfeitamente encaixados nesse atual contexto do Deep Purple, pois se destacaram no show, em especial Morse, que consegue mudar os já excelentes solos de Blackmore, mas sem descaracterizar as músicas e impõe seu estilo de tocar, mais técnico e sem virtuosismo inútil.

Está certo que os trabalhos mais recentes do Deep Purple estão longe da qualidade das obras-primas do anos 1970, mas os “tiozinhos” continuam fazendo o que melhor sabem: tocar ao vivo e manter aquele estilo de rock clássico de sempre, sem a mesma fúria, mas com o mesmo peso dos tempos de ouro.

Quanto ao setlist, sempre vai ter opiniões divididas sobre quais músicas deveriam tocar na noite, quais deveriam ficar de fora e tal. Por exemplo, gostaria que, dos temas do novo álbum, fosse tocado “All The Time In The World”, que é uma ótima música, ou tivessem apresentado outros clássicos como “Fireball”, a belíssima “When A Blind Man Cries” ou aquela que considero a melhor música do DP na fase Steve Morse: “Sometimes I Feel Like Screaming”, mas tudo bem. A performance da banda nesta noite valeu o ingresso.

Abaixo, o setlist da apresentação do Deep Purple no Espaço das Américas.

Intro: Mars, the Bringer of War (Holst)
1. Highway Star (Blackmore / Gillan / Glover / Lord / Paice)
2. Into the Fire (Blackmore / Gillan / Glover / Lord / Paice)
3. Hard Lovin’ Man (Blackmore / Gillan / Glover / Lord / Paice)
4. Strange Kind of Woman (Blackmore / Gillan / Glover / Lord / Paice)
5. Vincent Price (Gillan / Morse / Glover / Airey / Paice)
6. Contact Lost (Morse)
7. Uncommon Man (Gillan / Morse / Glover / Airey / Paice)
8. The Well-Dressed Guitar (Gillan / Morse / Glover / Airey / Paice)
9. The Mule (with Drum Solo) (Blackmore / Gillan / Glover / Lord / Paice)
10. Lazy (Blackmore / Gillan / Glover / Lord / Paice)
11. Hell To Pay (Gillan / Morse / Glover / Airey / Paice)
12. Keyboard Solo (Airey)
13. Perfect Strangers (Blackmore / Gillan / Glover)
14. Space Truckin’ (Blackmore / Gillan / Glover / Lord / Paice)
15. Smoke on the Water (Blackmore / Gillan / Glover / Lord / Paice)
Bis:
16. Green Onions (Jones / Cropper / Steinberg / Jackson Jr.)
17. Hush (South)
18. Bass Solo (Glover)
19. Black Night (Blackmore / Gillan / Glover / Lord / Paice)

Por Jorge Almeida

Há 30 anos era lançado “Perfect Strangers”, do Deep Purple

"Perfect Strangers": álbum que marca a volta do Deep Purple, em 1984
“Perfect Strangers”: álbum que marca a volta do Deep Purple, em 1984

Hoje, 16 de setembro, o clássico album do Deep Purple, “Perfect Strangers”, complete 30 anos de seu lançamento e foi marcado pela volta das atividades do grupo após um hiato de oito anos, sendo onze sem a sua formação mais bem sucedida e popular, a “Mark II”, composta por Ian Gillan, Roger Glover, Ritchie Blackmore, Jon Lord e Ian Paice, que trabalharam juntos pela última vez, até então, no álbum “Who Do We Think We Are?”, em 1973.

Antes da reativação do grupo, os integrantes seguiam a vida com seus projetos: Ritchie Blackmore e Roger Glover estavam no Rainbow, Ian Gillan se aventurava com o Black Sabbath, Jon Lord era o mago dos teclados do Whitesnake de David Coverdale e Ian Paice estava na banda de apoio de Gary Moore (ele também havia passado pelo Whitesnake no final dos anos 1970 e início dos 1980).

Na verdade, a volta do Deep Purple estava programada para acontecer em 1983, mas Gillan, após uma noite de bebedeira com Tony Iommi, acertou em gravar um disco com o Black Sabbath, o lendário “Born Again”, o que quase fez Blackmore desistir da ideia da reunião. No entanto, o dinheiro falou mais alto entre empresários e músicos e, assim, o grupo voltou à ativa, o que foi de bom proveito para os envolvidos. A banda assinou um contrato com a Polygram, com a Mercury (para o mercado norte-americano) e a Polydor Records, para o Reino Unido e outros países da Europa.

Gravado durante o mês de agosto de 1984 nos estúdios Horizons, em Stowe, no Vermont, Estados Unidos, o disco traz a produção assinada por Roger Glover e a própria banda.

A reunião foi bem sucedida, pois “Perfect Strangers” chegou ao quinto lugar nas paradas do Reino Unido e atingiu o 17º lugar na Billboard 200 nos Estados Unidos, o que rendeu o disco de platina na terra do Tio Sam. Além disso, o Purple arrebatou o ouro no Grã-Bretanha, na Alemanha e na Argentina.

Assim como as vendagens do play, a turnê, financeiramente falando, foi um tremendo sucesso. A “tour” começou na Austrália, passou pela América do Norte, Europa e precisou fazer outras apresentações adicionais nos Estados Unidos, onde eles só não arrecadaram mais com shows que Bruce Springsteen.

Na volta para o Reino Unido, o Deep Purple realizou um show no tradicional Knebworth Festival, em 22 de junho de 1985, que teve também as participações de bandas como o UFO, Scorpions, Meat Loaf, Mountain, entre outros. Apesar do tempo ruim, que contou com uma chuva torrencial, cerca de 80 mil fãs compareceram à edição do festival que recebeu a alcunha de “Return Of The Knebworth Fayre”.

O álbum começa com a poderosa “Knocking At Your Back Door”, que é a faixa mais longa do play. Foi lançada como single. Uma das melhores do disco. Na sequência, temos a pesada “Under The Gun”, onde os caras demonstram que não vieram para brincadeira. O terceiro tema é “Nobody’s Home”, que também foi lançada como single e é a única do disco a trazer a assinatura dos cinco integrantes (as demais, exceto a faixa bônus “Son Of Alerik”, levam a assinatura do trio Blackmore/Gillan/Glover). Posteriormente surge “Mean Streak”, que é a mais fraca do disco.

Virando a “bolacha”, “Perfect Strangers” começa justamente com a faixa que dá o nome ao álbum. Com melodias e arranjos impecáveis, a música tornou-se um hino para os “purplenianos”. Até hoje é inimaginável um concerto do DP sem “Perfect Strangers”. E, por incrível que pareça, não tem solo de guitarra. Já “A Gypsy’s Kiss” traz leve semelhança com a fase inicial do Rainbow, o que é um elogio, que fique claro. A sétima faixa é a balada dramática “Wasted Sunsets”, que só poderia ser cantada por Ian Gillan, e nenhum outro mais. Bela canção. E, para finalizar o vinil, “Hungry Daze”, em que Jon Lord dá uma aula com seu teclado.

As versões em CD e K7 de “Perfect Strangers” trazia a faixa extra “Not Responsible”, uma das raras músicas do Purple com letras profanas, com direito a palavra “fucking” podendo ser ouvida. Além dessa, na versão remasterizada e relançada do álbum em junho de 1999, trazia a instrumental “Son Of Alerik”, com seus dez minutos de duração composta por Ritchie Blackmore, que havia sido lançada como lado B do single “Perfect Strangers”.

Depois de “Perfect Strangers”, a “MK II” lançou ainda os álbuns “The House Of Blue Light” (1987) e o ao vivo “Nobody’s Perfect”, em 1988, antes da saída de Ian Gillan, que ocorreu em seguida (ele retornou em 1992 para desespero de Blackmore). Afinal, apesar da satisfação dos fãs pela volta do grupo, as rusgas entre Ian Gillan e Ritchie Blackmore também voltaram, o que complicou a duração da formação mais clássica de um dos pilares do Heavy Metal.

Para muitos, esse foi o último grande trabalho do Deep Purple, embora este que vos escreve discorde, mas não podemos negar que trata-se de um clássico.

Abaixo, a ficha técnica e o tracklist da versão do CD relançado em 1999.

Álbum: Perfect Strangers
Intérprete: Deep Purple
Lançamento: 16 de setembro de 1984
Gravadora: Polydor (Reino Unido) / Mercury (EUA) / Polygram (internacional)
Produtores: Roger Glover e Deep Purple

Ritchie Blackmore: guitarra
Ian Gillan: voz
Roger Glover: baixo
Jon Lord: teclados
Ian Paice: bateria

1. Knocking At Your Back Door (Blackmore / Gillan / Glover)
2. Under The Gun (Blackmore / Gillan / Glover)
3. Nobody’s Home (Blackmore / Glover / Gillan / Lord / Paice)
4. Mean Streak (Blackmore / Gillan / Glover)
5. Perfect Strangers (Blackmore / Gillan / Glover)
6. A Gypsy’s Kiss (Blackmore / Gillan / Glover)
7. Wasted Sunsets (Blackmore / Gillan / Glover)
8. Hungry Daze (Blackmore / Gillan / Glover)
9. Not Responsible (Blackmore / Gillan / Glover)
10. Son Of Alerik (Blackmore)

Por Jorge Almeida

Deep Purple vem ao Brasil em novembro, diz jornal

Deep Purple (da esq. para a dir.): Don Airey, Ian Paice, Steve Morse, Ian Gillan e Roger Glover: se apresentam no Brasil em novembro, segundo jornal. Foto: divulgação
Deep Purple (da esq. para a dir.): Don Airey, Ian Paice, Steve Morse, Ian Gillan e Roger Glover: se apresentam no Brasil em novembro, segundo jornal. Foto: divulgação

Na edição desta terça-feira (2) do Destak, jornal de distribuição gratuita que circula em São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília e Recife, publicou uma matéria assinada por José Norberto Flesch em que dizia que o grupo britânico Deep Purple virá ao Brasil em novembro para fazer shows em “várias cidades”. No entanto, as datas e os locais das apresentações do quinteto não foram definidos ainda.

A banda retornará ao País, após três anos da última passagem, para divulgar o seu mais novo trabalho – o bom álbum “Now What?!” – lançado no ano passado. O disco é o 19º registro de estúdio do Deep Purple.

O quinteto começou a carreira no final dos anos 1960 e forma junto com o Black Sabbath e o Led Zeppelin a “Santíssima Trindade” do Hard e Heavy Metal setentista. Ao longo de seus quase 50 anos de carreira – interrompidos em um hiato de oito anos entre 1976 e 1984 -, o Deep Purple lançou diversas obras-primas da história do rock como “In Rock” (1970), “Machine Head” (1972), “Burn” (1974) e “Perfect Strangers” (1984) – só para citar alguns. E é responsável por clássicos como “Child In Time”, “Smoke On The Water”, “Highway Star”, “Fireball”, entre outros.

Essa será a 11ª passagem do DP ao Brasil, sendo a sétima com a atual formação – MK VIII – formada por Ian Gillan (voz), Roger Glover (baixo), Steve Morse (guitarra), Don Airey (teclados) e Ian Paice (bateria). Esse último é o único integrante a participar de todas as formações do Deep Purple desde o início.

A primeira turnê do grupo no Brasil aconteceu em agosto de 1991. Na ocasião, o Purple estava a divulgar o álbum “Slaves & Masters” (1990) e trazia na line-up o lendário Ritchie Blackmore na guitarra e o contestado Joe Lynn Turner nos vocais.

Na matéria do Destak apontou que, de acordo com um estudo feito pela Folha de São Paulo, o Deep Purple fez 59 apresentações em 17 cidades brasileiras nas dez vezes em que visitou o solo tupiniquim.

Para quem curte rock de qualidade, Deep Purple é imperdível. Vale a pena o ingresso.

Fonte: Destak

Por Jorge Almeida

Os 45 anos de “Deep Purple”, o álbum

"Deep Purple", o álbum: o último registro de estúdio lançado pela MK I
“Deep Purple”, o álbum: o último registro de estúdio lançado pela MK I

No último dia 21 de junho, comemorou-se os 45 anos do lançamento do terceiro trabalho dos britânicos do Deep Purple, o álbum que leva o nome da banda, também conhecido como “Deep Purple III”. Lançado pela Harvest Records no Reino Unido e pela Tetragrammaton, nos EUA, o disco foi o último lançado com a formação original do grupo, o MK I.

O disco foi lançado na época em que o Purple excursionava para promover o seu segundo trabalho, “The Book Of Taliesyn”. No entanto, apesar do relativo sucesso nos Estados Unidos, o Deep Purple não conseguia decolar na Inglaterra por conta de seus compatriotas não digerirem a sonoridade que a banda apresentava, que variava entre o psicodélico e o bluesy. E, como se não bastasse isso, a Tetragammaton estava à beira da falência, o que dificultou o lançamento da edição norte-americana do álbum. Sem contar que ainda havia os conflitos na banda, que deixou Blackmore, Lord e, mais tarde, Paice de um lado e Nick Simper e Rod Evans do outro.

Gravado nos estúdios De Lane Lea, em Londres, entre janeiro e março de 1969, “Deep Purple” trazia um som mais pesado da banda, que também apostou mais em material próprio.

O clima estava tenso entre os membros por conta do direcionamento musical que eles queriam seguir. Ainda no final de 1968, Lord e Blackmore começaram a ensaiar um som mais nítido, cru e pesado e, de acordo com o que os dois queriam, a voz suave de Rod Evans não era a ideal para aguentar com um material mais agressivo. E, para aumentar a tensão, Nick Simper não aprovava a mudança musical do grupo. Então, por conta dessas desavenças, o tecladista e guitarrista concordaram em mudar a line-up do grupo, que também foi apoiada por Paice. O gerente John Coletta aconselhou o trio a manterem sigilo sobre o assunto até a conclusão da turnê.

Então, em junho de 1969, por meio de um convite do baterista Mick Underwood, Blackmore e Lord foram conferir a uma apresentação do Episode Six (que tinha Ian Gillan e Roger Glover em sua line-up). Na ocasião, os dois integrantes do Deep Purple subiram ao palco para uma Jam. Pouco tempo depois, Blackmore, Lord e Paice combinaram um teste com Ian Gillan, que levou o amigo Glover. Juntos, o quinteto gravou o single “Hallellujah”. Assim, nascia a MK II do Deep Purple. A situação era tão inusitada que, durante o dia, a segunda formação ensaiava enquanto a primeira continuava a se apresentar à noite como se nada estivesse correndo. E Evans e Simper não sabiam o que estava por acontecer até a véspera da estreia da nova formação do grupo nos palcos, a 10 de julho. Mas o mês de julho foi de correria tanto para Blackmore, Lord e Paice quanto para Gillan e Glover, já os dois tinham de realizar alguns shows com o Episode Six para cumprimento de contrato. Aí, o resto é história.

Mas, voltando para o álbum, “Deep Purple” não foi bem recebido nos Estados Unidos e ocupou apenas a 162ª colocação na Billboard, parte disso atribuída a crise da Tetragammaton, que atrasou o lançamento e não fez a devida divulgação do álbum. Além disso, a capa trazia uma reprodução da parte do tríptico de Hieronymus Bosch, intitulada “O Jardim das Delícias Terrenas”. A gravadora encontrou dificuldades sobre o uso da pintura de propriedade do Museu del Prado. A ilustração foi interpretada nos EUA, como “antirreligiosa”, com “cenas imorais” e, consequentemente, o disco foi rejeitado por parte das lojas de discos daquele País. Aliás, a capa do LP é bem melhor do que a reedição em CD, que tem apenas um quarto do tamanho e que dificulta a análise das imagens.

O álbum abre com “Chasing Shadows”, que mostra toda a habilidade de Ian Paice nas baquetas. Além disso, ela apresenta uma série percussiva com tambores e chocalhos.

Já “Blind” exibe a nítida a influência da música clássica em Jon Lord. Destaque também para o solo da guitarra distorcida de Ritchie Blackmore.

O terceiro tema é “Lalena”, o único cover do disco. A música originalmente foi escrita por Donovan em outubro de 1968. Nunca foi tocada ao vivo desde 1969. Porém, em uma sessão para a BBC, o grupo a tocou, foi registrada e incluída na versão remasterizada e expandida do álbum. Destaque para a interpretação triste de Evans e do belo solo de Jon Lord.

O play chega a sua metade com duas canções em uma só: “Fault Line / The Painter”. A primeira, instrumental, serve como uma introdução para a segunda e o baixo de Nick Simper é a grande graça. Já na segunda, os solos de Lord e Blackmore fazem dela uma obra-prima. Bluesy de qualidade. Vale destacar que, na edição remasterizada e expandida do disco, os dois temas vem como faixas “separadas”.

O lado B do LP de “Deep Purple” traz a ótima “Why Didn’t Rosemary”, que mostra todo o talento de Ritchie Blackmore e é uma espécie de anacronismo para o Blues americano e o Rock ‘N’ Roll da década de 1950. Tem uma leve lembrança dos Yardbirds. Dizem que a música foi escrita depois de a banda ver o filme “Rosemary’s Baby” (“O Bebê de Rosemary”). Sua letra lida com uma menina que ficou grávida por não ter tomado “a pílula”.

A penúltima faixa do disco é “Bird Has Flown”, que é a mais conhecida do disco e retorna à psicodelia dos dois primeiros trabalhos. Além disso, era um dos poucos temas que Gillan cantava da Mark I (MK I).

E, finalmente, “April”, com os seus mais de 12 minutos de virtuosismos, com passagens de orquestra, capitaneadas por Lord, é lógico, e um desempenho vocal magnífico de Evans.

Dessa forma, a MK I encerrava o primeiro de vários ciclos que o Deep Purple teria ao longo de seus quase 50 anos de ótimos serviços prestados à boa música. E, dentre os três trabalhos de estúdio feito pelo quinteto Blackmore, Lord, Paice, Evans e Simper, particularmente, acredito que esse seja o melhor.

A seguir, a ficha técnica e o tracklist de “Deep Purple”, o álbum.

Álbum: Deep Purple
Intérprete: Deep Purple
Lançamento: 21 de junho de 1969
Gravadora: Harvest (Reino Unido), Tetragrammaton (EUA) e Polydor (Canadá e Japão)
Produtor: Derek Lawrence

Rod Evans: voz
Ritchie Blackmore: guitarra
Jon Lord: órgão, teclados e backing vocal
Nick Simper: baixo e backing vocal
Ian Paice: bateria

1. Chasing Shadows (Lord / Paice)
2. Blind (Lord)
3. Lalena (Donovan Leitch)
4. Fault Line (Blackmore / Simper / Lord / Paice)
5. The Painter (Evans / Blackmore / Simper / Lord / Paice)
6. Why Didn’t Rosemary (Evans / Blackmore / Simper / Lord / Paice)
7. Bird Has Flown (Evans / Blackmore / Lord)
8. April (Blackmore / Lord)
Faixas bônus da versão remasterizada em CD:
9. Bird Has Flown (versão alternativa) (Evans / Blackmore / Lord)
10. Emmaretta (versão single) (Evans / Blackmore / Lord)
11. Emmaretta (versão BBC radio session gravada em 16/01/1969) (Evans/Blackmore/Lord)
12. Lalena (versão BBC radio session gravada em 06/06/1969) (Donovan Leitch)
13. The Painter (versão BBC radio session gravada em 06/06/1969) (Evans/Blackmore/Simper/Lord/Paice)

Por Jorge Almeida

Deep Purple: 40 anos de “Burn”

Burn: o primeiro álbum do Deep Purple com a MK III
Burn: o primeiro álbum do Deep Purple com a MK III

Neste dia 15 de fevereiro, o oitavo álbum de estúdio dos britânicos do Deep Purple, “Burn”, completa 40 anos de seu lançamento. Produzido por Martin Birch, o disco marcou a estreia de David Coverdale e Glenn Hughes na banda nos lugares de Ian Gillan e Roger Glover (que saíram em junho de 1973) respectivamente, formando assim, o MKIII, como é conhecida a terceira formação do grupo.

O primeiro a ser recrutado foi Glenn Hughes, que cantava e tocava baixo no Trapeze. A princípio, Hughes seria o vocalista e baixista da banda, mas Jon Lord e Ian Paice acharam que seria necessário mais uma pessoa para fazer os vocais e manter o grupo como quinteto. O Deep Purple tentou Paul Rodgers, do Free, mas não obteve sucesso porque o vocalista estava focado na criação do Bad Company.

O segundo integrante foi David Coverdale, então com 21 anos na época, e que antes de ingressar no Purple era balconista. Ao fazer o teste, Coverdale passou seis horas cantando músicas do DP e também outros temas conhecidos, como “Yesterday”. E quando David foi para casa, o restante do Deep Purple saiu para beber e decidiu: o gordinho seria o vocalista da banda (alguns meses depois, os empresários lhe deram medicamentos para afinar a aparência).

Definida a nova formação, o grupo passou o mês de setembro de 73 compondo e ensaiando no Castelo de Clearwell, no País de Gales. Gravou o álbum “Burn” em novembro em Montreux, na Suíça, usando a unidade móvel dos Rolling Stones (a mesma em que gravaram “Machine Head”, em 1972) e a banda se apresentou pela primeira vez com a sua terceira formação em oito de dezembro de 1973 na Dinamarca, contudo, o novo álbum só foi lançado no ano seguinte.

O MKIII seguiu em turnê divulgando o novo trabalho. Mas merece destaque a apresentação que o Deep Purple fez no festival California Jamming, em 6 de abril de 1974, diante de 200 mil pessoas, em que eles foram o headline do evento. Na ocasião, o concerto ficou marcado pelo destemperamento de Ritchie Blackmore, que detonou uma câmera em cima do palco com a sua Stratocaster, ocasionando um prejuízo de oito mil dólares, segundo Josh White, diretor de filmagens do evento.

O álbum abre com a estupenda faixa-título. Uma “pedrada” de um pouco mais de seis minutos em que todos se destacam: Coverdale e Hughes fazendo os vocais de forma magistral; Ian Paice arregaçando tudo na bateria; Jon Lord sempre perfeito em seu Hammond; e Blackmore fazendo dois solos fabulosos, além de um riff certeiro. Nos shows, “Burn” ficou marcado pelos berreiros de Glenn. Aliás, a música tem algumas semelhanças com “Highway Star”: rápida, praticamente o mesmo tempo de duração, belos solos e vocais impactantes.

Na sequência, surge “Might Just Take Your Life”, que teve o single lançado três dias antes do álbum. Seu riff foi pinçado de “Stone The Crow’s”, de Big Jim Salter. O grande destaque é o teclado de Jon Lord e o dueto de Coverdale e Hughes.

O terceiro tema é “Lay Down, Stay Down”, que traz um caprichado riff de Ritchie Blackmore e para mostrar que Ian Paice não está para brincadeira.

A faixa seguinte é a cadenciada “Sail Away”, que apresenta um vocal soberbo de Coverdale e Hughes. Uma ótima balada. Particularmente, atribuo como um dos melhores temas do Deep Purple.

A música seguinte é “You Fool No One”, que começa com a inconfundível performance de Paice em sua introdução, com uma puxada de “cowbell” (instrumento de percussão que remete a um pequeno sino, mas sem badalo, também conhecida como “caneca”). A faixa ganhou bastante notoriedade nos shows do Purple porque, nas apresentações, a banda a executava por mais de 15 minutos, onde eram inseridos solos de guitarra e teclados.

A sexta canção é o blues “What’s Goin’ On Here”, que tem as frases alternadas entre os dois vocalistas. Talvez, é a faixa de menor destaque, se é que podemos definir assim.

O penúltimo tema é “Mistreated”, cuja melodia foi criada por Blackmore e Hughes enquanto o vocalista do grupo não era definido. A dupla, à medida que iam se conhecendo e tocando juntos, compuseram esse clássico. Aliás, é a única música do álbum em que Coverdale canta sozinho. O solo de Ritchie no final é coisa de outro mundo. A música se destaca pela melancolia da letra e pela interpretação peculiar de David.

E a última faixa é a instrumental “A’200”, que mescla uma levada de marcha e umas viagens de teclado. O título da música foi retirado de um remédio homônimo contra “chatos” (piolho-da-púbis), que foi encontrado no banheiro do estúdio.

Em 2004, “Burn” foi relançado e com faixas bônus para celebrar os 30 anos do álbum: sendo quatro temas remixados e com a faixa “Coronarias Redig”, que foi gravada durante as sessões, mas não foi incluída no play, e aparecendo apenas no single de “Might Just Take Your Life”, além da coletânea “Singles A’s & B’s” (1993). E também é bom documentar que, no lançamento original do disco, por questões contratuais, Glenn Hughes não foi creditado nas canções, embora tenha participado do processo de criação. No entanto, na edição de 2004, seu nome foi inserido nos créditos.

A terceira encarnação do Deep Purple, além da troca de integrantes, ficou marcado pela sonoridade apresentada, especialmente à velocidade e técnica dada a Blackmore, além do dueto entre os dois cantores, que beiravam à perfeição. No palco, a performance vocal de Glenn Hughes impressionava, chegando até se destacar mais que a de David Coverdale. E o baixista também acrescentou uma pitada funky no grupo, o que contribuiu, aos poucos, o descontentamento de Ritchie Blackmore no Purple. E, até hoje, essa line-up do DP gera discussão: há os quem idolatra e também tem os que não conseguem imaginar a banda sem Roger Glover e, principalmente, sem Ian Gillan.

Bom, independentemente da opinião referente à formação do quinteto britânico, o que não se pode negar é que “Burn” é uma autêntica obra-prima do rock.

A seguir, a ficha técnica e o tracklist do play.

Álbum: Burn
Intérprete: Deep Purple
Lançamento: 15 de fevereiro de 1974
Gravadora: Purple Records/EMI (Reino Unido) / Warner Bros. (EUA)
Produtor: Martin Birch

Ritchie Blackmore: guitarra
David Coverdale: voz
Glenn Hughes: baixo, backing vocal e voz
Jon Lord: teclados e sintetizadores
Ian Paice: bateria

1. Burn (Blackmore / Coverdale / Hughes / Lord / Paice)
2. Might Just Take Your Life (Blackmore / Coverdale / Hughes / Lord / Paice)
3. Lay Down, Stay Down (Blackmore / Coverdale / Hughes / Lord / Paice)
4. Sail Away (Blackmore / Coverdale)
5. You Fool No One (Blackmore / Coverdale / Hughes / Lord / Paice)
6. What’s Goin’ On Here (Blackmore / Coverdale / Hughes / Lord / Paice)
7. Mistreated (Blackmore / Coverdale)
8. A’200 (Blackmore / Lord / Paice)
Faixas bônus:
9. Coronarias Redig (2004 remix) (Blackmore / Lord / Paice)
10. Burn (2004 remix) (Blackmore / Coverdale / Hughes / Lord / Paice)
11. Mistreated (2004 remix) (Blackmore / Coverdale)
12. You Fool No One (2004 remix) (Blackmore / Coverdale / Hughes / Lord / Paice)
13. Sail Away (2004 remix) (Blackmore / Coverdale)

Por Jorge Almeida