Deep Purple: 15 anos de “Bananas”, o álbum

“Bananas”: o primeiro trabalho do Deep Purple sem o fundador Jon Lord

O 17º álbum de estúdio do Deep Purple, “Bananas”, completa 15 anos de seu lançamento neste domingo, 9 de setembro. Produzido por Michael Bradford, o disco foi gravado no Royaltone Studios, em Burbank, na Califórnia, entre janeiro e fevereiro de 2003. Enquanto a versão europeia e japonesa do play saiu nesta data pela EMI, a edição norte-americana foi lançada em 7 de outubro do mesmo ano pela Sanctuary. Esse foi o primeiro trabalho do Purple lançado sem o seu fundador, o saudoso tecladista Jon Lord, logo, trata-se da estreia do MK VIII.

Antes de entrar em estúdio para gravar o sucessor de “Abandon” (1998), já em 2012, o Deep Purple recebeu uma ducha de água fria: Jon Lord anunciou que deixaria o grupo e, de forma amigável, saiu da banda para dedicar-se aos projetos pessoais, especialmente os trabalhos orquestrais. Até aquele momento, ele e Ian Paice eram os únicos remanescentes de todas as encarnações do Deep Purple. Para substituí-lo, o grupo trouxe outro veterano dos teclados no rock: Don Airey, que já havia trabalhado com o Coliseu II, Rainbow, Ozzy Osbourne, Black Sabbath e Whitesnake, ou seja, não poderia ter sido nome melhor para substituir o mestre Lord. Aliás, Airey já havia ajudado o grupo quando Jon feriu o joelho em 2001.

Com o novo tecladista, o Deep Purple lançou o seu novo registro depois de um hiato de cinco anos. E, com “Bananas”, a banda iniciou uma turnê mundial (em São Paulo, no Pacaembu, eles foram o headliner do festival Kaiser Music Festival que, além deles, trazia os The Hellacopters e o Sepultura). No entanto, a EMI negou a extensão de um contrato com o grupo, talvez, devido às vendas abaixo do esperado. Porém, na verdade, “In Concert With The London Symphony Orchestra” (2000) vendeu mais do que “Bananas”. No final da turnê, Airey havia marcado sua apoteose: de “substituto” a membro do grupo totalmente integrado, até porque ele teve o “aval” do mestre.

Aliás, desde “Abandon” (1998), o Deep Purple apresentava três músicas novas nos shows: “Long Time Gone”, que saiu no verão de 2000, mas que não foi inserido em “Bananas”, assim como “Up The Wall”, que foi tocada durante uma turnê no Reino Unido em 2002, mas que foi retrabalhada na faixa “I’ve Got Your Number” e a instrumental “Well Dressed Guitar”, que permaneceu inédito até o trabalho seguinte do quinteto, “Rapture Of The Deep” (2005).

E é bom notarmos que “Bananas” foi o primeiro trabalho do Deep Purple a ter backing vocal feito sem ser por Ian Gillan (claro que não devemos considerar as formações sem a presença do Silver Voice). Ou seja, desde as sessões de 1972 de “Woman From Tokyo”, que teve os backing vocals gravados por Roger Glover e Jon Lord, ninguém havia feito a função em uma canção do Purple. Neste caso, a “honra” coube a Beth Hart, que fez backing vocal em “Haunted”.

O disco não tem aquele status de “clássico de cabo a rabo”, mas traz boas canções. A faixa de abertura, “House Of Pain”, por exemplo, é um tremendo “hardão”, cuja ‘intro’ lembra com “All Night Long”, do Rainbow de Blackmore, eterno desafeto de Gillan. Na sequência, a igualmente boa, porém, mais cadenciada “Sun Goes Down”. O terceiro tema é a excelente balada “Haunted”, traz uma letra bem feita e foge um pouco dos padrões de baladas do grupo (não chega a ser uma “When A Blind Man Cries” ou “Soldier Of Fortune”) ao conter, por exemplo, vocais femininos no backing vocal. O disco segue com duas faixas Hard Rock de qualidade “Razzle Dazzle” e “Silver Tongue”. A sexta e a sétima faixa do play – “Walk On” e “Picture Of Innocence” – não são ruins, elas fazem o básico “arroz com feijão” da obra. Talvez nem a própria banda lembre delas.

Outro destaque do disco é “I Got Your Number”, em que Gillan solta a voz, mas não dos tempos de outrora, é claro, afinal, à época o vocalista já beirava à casa dos 60 anos, nela, o grupo apresenta um rock bem rigoroso. Em seguida, a ótima balada “Never A Word”, com uma melodia envolvente e que mostra que a escolha do Deep Purple em trazer Don Airey foi acertada, pois, o tecladista faz um trabalho primordial e que não está lá apenas para fazer “Ctrl C + Ctrl V” de Jon Lord embora que, assim como ele, utiliza o clássico Hammond ao longo da obra. O décimo tema é a faixa que dá nome ao disco. “Bananas”, a música, é um rock pesado e que, sem hesitar, é uma das principais músicas do disco. A penúltima faixa é “Doing It Tonight”, que não acrescenta muito à obra. E, para finalizar, a curta e instrumental “Contact Lost”, composta pelo guitarrista Steve Morse, em que ele, em um triste tema na guitarra, presta uma homenagem aos astronautas do ônibus espacial Space Shuttle Columbia, que explodiu e matou todos os sete tripulantes que estavam a bordo em 1º de fevereiro de 2003.

Em suma, “Bananas”, apesar das críticas, está longe de ser o melhor trabalho do Deep Purple, mas não podemos “dar uma banana” (desculpem-me o trocadilho, mas não pude evitar), pois trata-se de um bom disco de rock, de fato, mas abaixo aos clássicos álbuns que a banda lançou nos anos 1970. No entanto, neste registro mostrou que o Deep Purple estava em grande forma, Gillan cantando bem, embora não com o mesmo vigor (acho que parte da voz dele foi embora no “Born Again”, do Black Sabbath, brincadeira!). Vale destacar que a “cozinha” de Roger Glover e Ian Paice funciona perfeitamente como uma cirurgia cardíaca feita com sucesso. Steve Morse, como sempre, continuou a calar as “viúvas de Ritchie Blackmore”, e Don Airey provou a sua competência e que não entrou no grupo apenas para “copiar” Jon Lord e que o Deep Purple foi muito feliz ao escolhê-lo para substituir uma figura tão ímpar na história do rock como Jon Lord.

A seguir, a ficha técnica e o tracklist da obra.

Álbum: Bananas
Intérprete: Deep Purple
Lançamento: 9 de setembro de 2003 (Europa) / 7 de outubro de 2003 (Estados Unidos)
Gravadora: EMI (Europa e Japão) / Sanctuary (Estados Unidos)
Produtor: Michael Bradford

Ian Gillan: voz
Ian Paice: bateria
Roger Glover: baixo
Steve Morse: guitarra
Don Airey: teclados

Paul Buckmaster: arranjo de cordas e violoncelo em “Haunted
Beth Hart: backing vocal em “Haunted
Michael Bradford: guitarra em “Walk On

1. House Of Pain (Gillan / Bradford)
2. Sun Goes Down (Gillan / Glover / Morse / Airey / Paice)
3. Haunted (Gillan / Glover / Morse / Airey / Paice)
4. Razzle Dazzle (Gillan / Glover / Morse / Airey / Paice)
5. Silver Tongue (Gillan / Glover / Morse / Airey / Paice)
6. Walk On (Gillan / Bradford)
7. Picture Of Innocence (Gillan / Glover / Morse / Lord / Paice)
8. I Got Your Number (Gillan / Glover / Morse / Lord / Paice / Bradford)
9. Never A Word (Gillan / Glover / Morse / Airey / Paice)
10. Bananas (Gillan / Glover / Morse / Airey / Paice)
11. Doing It Tonight (Gillan / Glover / Morse / Airey / Paice)
12. Contact Lost (Morse)

Por Jorge Almeida

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Deep Purple: 20 anos de “Abandon”

“Abandon”: 16º disco de estúdio do Deep Purple e o último de inéditas com o fundador Jon Lord na formação

O álbum “Abandon”, o 16º trabalho de estúdio do Deep Purple, completou 20 anos de seu lançamento no último dia 2 de junho. Gravado no Greg Rike Studios, em Altamonte Springs, na Flórida, a produção do disco foi creditada à banda e a Roger Glover, e saiu pela CMC Internacional/BMG, nos Estados Unidos; pela EMI Switzerland, na Europa; e pela Thames, no Japão. O play marca o último lançamento de inéditas do grupo com a presença de seu fundador: o tecladista Jon Lord, que deixou a banda de forma amigável em 2002.

Com a chegada de Steve Morse no lugar de Ritchie Blackmore, revitalizou a criatividade da banda e, com ele, foi lançado um novo álbum, “Purpendicular”, apresentando uma variedade de estilos musicais, mas sem ter feito sucesso nas paradas da Billboard 200 nos Estados Unidos. Com a nova formação, Gillan/Glover/Lord/Paice/Morse, o grupo saiu em excursão com um setlist renovado e uma turnê bem sucedida, que resultou no bom registro ao vivo, “Live At The Olympia ‘96” (1997), e mais um disco de estúdio a caminho, no caso, “Abandon”, cujo título veio de um trocadilho feito por Ian Gillan com o termo “A Band On”, que também originou o título da turnê como “A Band On Tour” que, assim como a anterior, foi bem sucedida e ocupou o biênio de 1998 e 1999 e levou o Purple para a Austrália pela primeira vez em 15 anos. Em 1999, foi lançado o CD e DVD “Total Abandon: Australia ‘99”, gravado em Melbourne em 20 de abril do mesmo ano.

Depois da turnê de promoção de “Abandon”, o Deep Purple seguiu em outra para celebrar as três décadas do lançamento do “Concerto For Group And Orchestra”, com o quinteto tocando juntamente com uma orquestra e executando os três temas do álbum de 1969, além de clássicos de sua carreira. Inclusive, em algumas dessas apresentações o saudoso Ronnie James Dio se juntava a eles para cantar temas como “Sitting In A Dream” e “Love Is All”, ambas do álbum “The Butterfly Ball And The Grashopper’s Feast” (1974), de Roger Glover, e também em dueto com Gillan em “Smoke On The Water” (quem não se esquece daquela apresentação única feita em São Paulo?). Depois disso, o igualmente saudoso Jon Lord anunciou sua saída do Deep Purple sob a alegação de que sua saúde não estava conseguindo acompanhar a banda nas constantes viagens e compromissos, ficando apenas em uma modesta carreira solo e participações especiais em projetos de amigos uma vez ou outra, como o WhoCares (duo feito entre Ian Gillan e Tony Iommi).

Embora não seja um álbum tão bom quanto seu antecessor, “Abandon” não pode ser considerado um “clássico”, as músicas não são ruins de se ouvir, mas não chegam a ser marcantes. Os músicos mostraram a mesma competência de sempre, os temas trazem refrãos e solos interessantes, que transitam o Deep Purple do Hard Rock com um descontraído Blues Rock, mas longe de ser comparado com os históricos registros de outrora.

Algumas faixas merecem destaques. O tema de abertura, “Any Fule Kno That”, que traz um andamento quebrado. Enquanto “Watching The Sky” se destaca pelas diversas variações ao longo de seus quase 5’30” de duração. A linda balada “Don’t Make Me Happy” foi mixada acidentalmente em mono. Na época, cogitou-se até em regravá-la em stéreo, mas que resultaria em um atraso de dois meses no lançamento do álbum. Além disso, Roger Glover cogitou em relançar o disco com a “versão estéreo”, porém, achou que estaria sendo injusto com os fãs que haviam adquirido as primeiras cópias e que, possivelmente, iriam comprar o disco novamente. Assim, o baixista/produtor cogita lançar a faixa em stéreo, como deveria ter sido lançada, no futuro, talvez nas bodas de prata de “Abandon”, ou seja, em 2023.

Outras músicas também podem ser melhores apreciadas, como as partes acústicas de “Fingers To The Bone”, que realça diante as demais. A sacana “69”, que Ian Gillan costumava anunciá-la nos shows algo como: “A próxima música fala sobre uma posição sexual bem interessante”. E, não sei porquê, o grupo regravou “Bloodsucker”, do clássico “In Rock” (1970), e que, em “Abandon”, foi rebatizada como “Bludsucker”.

Apesar de “Abandon” ser um disco ‘mediano’ (em se tratando de Deep Purple, pois, se comparado a algumas bandas, é superior), mostra que o grupo está em forma. Seja com a poderosa bateria de Ian Paice, pela nitidez do Hammond de Jon Lord, pela solidez do baixo de Roger Glover ou os impressionantes solos e riffs de Steve Morse. O único porém é que voz de Ian Gillan, que nunca mais foi a mesma desde quando a MKII se reuniu em 1984, mas, mesmo assim, o eterno Silver Voice é um show a parte.

Em suma, se você for escutar “Abandon” com a intenção de comparar com os clássicos, vai perder seu tempo, pois fica aquém do legado dessa histórica banda, mas se quiser ouvir sem nenhum compromisso, vale a pena, pois, ele ainda conseguiu manter a chama da banda acesa. De zero a dez, ele vale um 6,5. Ah, só para finalizar, ainda acho esse disco do Purple melhor que “Slaves And Masters”, único registro dos britânicos com Joe Lynn Turner nos vocais.

A seguir, a ficha técnica da obra.

Álbum: Abandon
Intérprete: Deep Purple
Lançamento: 2 de junho de 1998
Gravadoras: EMI Switzerland (Europa) / CMC International/BMG (Estados Unidos) / Thames (Japão)
Produtores: Deep Purple e Roger Glover

Ian Gillan: voz
Jon Lord: teclados e órgão
Ian Paice: bateria
Roger Glover: baixo
Steve Morse: guitarra

1. Any Fule Kno That (Gillan / Glover / Lord / Morse / Paice)
2. Almost Human (Gillan / Glover / Lord / Morse / Paice)
3. Don’t Make Me Happy (Gillan / Glover / Lord / Morse / Paice)
4. Seventh Heaven (Gillan / Glover / Lord / Morse / Paice)
5. Watching The Sky (Gillan / Glover / Lord / Morse / Paice)
6. Fingers To The Bone (Gillan / Glover / Lord / Morse / Paice)
7. Jack Ruby (Gillan / Glover / Lord / Morse / Paice)
8. She Was (Gillan / Glover / Lord / Morse / Paice)
9. Whatsername (Gillan / Glover / Lord / Morse / Paice)
10. 69 (Gillan / Glover / Lord / Morse / Paice)
11. Evil Louie (Gillan / Glover / Lord / Morse / Paice)
12. Bludsucker (Blackmore / Gillan / Glover / Lord / Paice)

Por Jorge Almeida

Analisando “The Purple Album”, do Whitesnake

"The Purple Album": o 12º disco de estúdio do Whitesnake, que traz releituras do Deep Purple
“The Purple Album”: o 12º disco de estúdio do Whitesnake, que traz releituras do Deep Purple

Aproveitando que o texto anterior foi referente a uma pessoa fortemente ligada ao Deep Purple, vamos abordar sobre outro nome que marcou presença na banda britânica. Me refiro a David Coverdale, que substituiu Ian Gillan no Deep Purple. No caso aqui, falaremos especificamente do Whitesnake, grupo do qual Coverdale é o “dono”, “patrão”, “manda-chuva”, e seja lá qual mais definição que você queira definir, que lançou neste ano de 2015 o seu mais novo trabalho de estúdio: o disco “The Purple Album”, que contém regravações de músicas do Deep Purple do período em que seu líder fazia parte do grupo, ou seja, das fases dos MK’s III e IV, que atuou entre o final de 1973 a 1976, quando o Purple encerrou suas atividades, antes da volta de 1984.

Gravado entre 2014 e 2015, o play foi lançado pela gravadora Frontiers em 29 de abril no Japão, em maio na Europa e nos Estados Unidos, e o CD apresenta 15 faixas (sendo duas bônus), mais um DVD na edição “Deluxe”.

Evidentemente que as comparações entre as versões que o Whitesnake fez com as originais feitas pelo Deep Purple serão inevitáveis. E já adianto a minha opinião desde já que as releituras feitas pela banda de Coverdale ficaram inferiores à do grupo que o consagrou nos anos 1970. Mas isso não significar que “The Purple Album” seja um trabalho ruim, ele só não beira à perfeição como as obras ‘purplenianas’.

O disco abre com “Burn” que, talvez, seja o principal hino dessa fase do Purple. E a versão da “Cobra Branca”, embora seja mais técnica não é tão excelente quanto à clássica versão de 1974. Aliás, até hoje ninguém faz o maravilhoso trabalho que a dupla Blackmore/Lord fez nela. Evidentemente que Coverdale não consegue repetir a mesma qualidade vocal da mesma, o que é compreensível, afinal, ele já é um sessentão e humanamente é impossível manter a mesma pegada de um garoto de vinte e poucos. Mas o trabalho da dupla Reb Beach e Derek Hilland não comprometem.

Em seguida vem “You Fool No One”, que não compromete, e que aqui tem um pedaço de “Itchy Fingers”, quase que oculta, mas a “crueza” e paulada da música são mantidos, na medida do possível.

O terceiro tema é “Love Child”, que até tem partes interessantes, porém, ficou aquém da original, gravada com Tommy Bolin nas guitarras no clássico “Come Taste The Band” (1975).

Posteriormente surge uma das mais legais do álbum: “Sail Away”, que teve o seu ritmo ‘suingado’ original substituído por um bem trabalhado instrumental acústico. E ainda Coverdale, brilhantemente, inseriu um instrumental intitulado “Elegy For Jon”, em homenagem ao saudoso Jon Lord (tecladista tanto do Deep Purple quanto do Whitesnake). Comparo as duas versões dessa música da mesma forma que as versões original e acústica de “Layla”, de Eric Clapton. Ou seja, a mesma música com arranjos totalmente diferentes – que nem parecem se tratar da mesma canção, mas que ambas são formidáveis.

Outra faixa de “Stormbringer” segue em “The Purple Album”. Agora é a vez da ‘esquecida’ “The Gypsy”, que aqui ganhou um melhor instrumental e mais peso, e tirou aquela aparência de “música de AM de madrugada” que a original tinha.

O Hard Rock de “Lady Double Dealer” praticamente foi mantido aqui com uma dosagem de peso, mas que nos shows David Coverdale canta em tonalidade mais baixa, o que é compreensível em função da atual situação de sua voz.

Um dos maiores clássicos da MKIII não poderia ficar de fora, não é mesmo? Claro que “Mistreated” tinha que fazer parte desse projeto. Apesar da louvável tentativa da atual line-up do Whitesnake em chegar próximo à versão original, nada se compara aos riffs e solo que Ritchie Blackmore fez para essa música que é atemporal.

Gravada originalmente com os vocais de Glenn Hughes, “Holy Man” ganhou uma bela versão feita por Coverdale e sua trupe. Mas prefiro ainda o original que traz a indefectível voz do “the Voice of Rock”.

Might Just Take YourLife” é a nona faixa do play. Diferentemente da versão do álbum “Burn”, em que Jon Lord tinha dado as cartas na introdução com o seu impecável Hammond, o Whitesnake resolveu investir com violões. Ficou abaixo da original em virtude da ausência do vocal único de Glenn Hughes.

O próximo tema é “You Keep On Moving”. Embora tenham tentado chegar próximo à original em relação ao backing vocal, ficou “no quase”, afinal, essa é outra música que a voz de Glenn Hughes faz dela uma coisa única. Reforço que a releitura do Whitesnake, instrumentalmente falando, ficou muito boa.

Outro tema bastante conhecido dos ‘purplenianos’ e dos ‘whitesnakianos’ aparece em seguida. Refiro-me a “Soldier Of Fortune”, que faz parte do setlist do Whitesnake nos últimos anos, com Coverdale cantando à capella com o público. E, no play, ganhou uma versão acústica. Ficou semelhante a releitura que consta no álbum “Starkers In Tokyo” (1997), trabalho lançado pela dupla Coverdale/Vandenberg, mas que é creditado como um álbum do Whitesnake.

A penúltima faixa do disco é “Lay Down, Stay Down”, que apesar de ter ganho mais peso, mas tem um andamento com o “freio de mão” mais puxado em relação à original.

Para finalizar a versão “comum” do álbum, a clássica “Stormbringer” que atribuo à mesma situação em relação a “Burn”, faixa que abre o play: mais técnica, mas não tão excelente quanto à original.

Bom, mas a versão “Deluxe” de “The Purple Album” ainda traz duas releituras de “Come Taste The Band”: “Lady Luck” e “Comin’ Home”, que não ficaram ruins, mas quem escuta as originais com Tommy Bolin nas guitarras, chega à conclusão de que “nada se compara ao original”.

Além das faixas bônus citadas, essa versão ainda contém um DVD com videoclipes de algumas músicas que foram regravadas, destaco o belo vídeo “Stormbringer”.

Assim, para quem é fã ardoroso da era Coverdale/Hughes no Deep Purple, esse disco do Whitesnake pode até decepcioná-lo. Pois, os duetos fabulosos entre Coverdale e Hughes e os backing vocals do baixista foram substituídos por camadas de voz e também houve um uso excessivo de recursos tecnológicos, o que deixa o trabalho um pouco artificial. Enfim, com todo direito, pode avaliar o disco como “duvidoso”.

Agora, para quem apreciador da obra do Whitesnake, trata-se de um bom trabalho. Pois reúne todas as características de um álbum do Whitesnake: Hard Rock, baladas, agressividade, peso, enfim, todos os ingredientes que fizeram a empreitada criada por David Coverdale no final dos anos 1970 como uma das maiores bandas de Hard Rock da história.

Essa volta ao passado de David Coverdale, em meu ponto de vista, é válida, pois, mesmo com os inúmeros boatos e rumores para uma volta, uma turnê ou um show com o MK III do Deep Purple, nunca acontecerá, e isso sucumbiu de vez em 2012 com a morte de Jon Lord. Além disso, a atual formação do Deep Purple – Gillan, Glover, Morse, Airey e Paice – nunca tocará alguma coisa referente a essa fase da banda. Ou seja, os apreciadores dos clássicos “Burn”, “Stormbringer” e “Come Taste The Band” praticamente só poderão escutar esses temas ao vivo via Whitesnake ou nos shows do Glenn Hughes.

Outro ponto que acho louvável por parte de Coverdale foi prestar uma homenagem à sua “escola”, que foi o Deep Purple. Isso é uma prova de gratidão para com a banda que o consagrou. Evidentemente não saiu como o original e, como coautor de todas essas músicas, ele tem todo o direito de regravar, assim como Hughes. Aliás, a dedicação que se encontra no encarte é de emocionar: “This album is dedicated with honour, love & respect to: Ritchie Blackmore, Glenn Hughes e Ian Paice e in loving memory of Jon Lord e Tommy Bolin”, algo como: “Este álbum é dedicado com honra, amor e respeito a: Ritchie Blackmore, Glenn Hughes e Ian Paice e na memória amorosa de Jon Lord e Tommy Bolin”.

E, digo mais: apesar de não conseguir se desvincular com o seu passado com o Deep Purple, David Coverdale sempre mostrou-se orgulhoso dele. Afinal, muitos registros ao vivo do Whitesnake sempre traz algum clássico do Deep Purple e, graças a isso, que podemos testemunhar, cantar, celebrar e relembrar de uma das épocas mais importantes de uma das principais bandas da história.

Outra coisa que lamento em relação a “The Purple Album” foi o fato de que o vocalista poderia ter convidado o seu ‘parça’ Glenn Hughes para fazer uma participação especial em pelo menos uma música. Mas, como o ego sempre fez parte da história do rock, talvez Coverdale não tenha chamado Hughes com receio de que o ex-companheiro de banda “roubasse a cena” e o “deixasse no chinelo”, já que Glenn Hughes ainda continua cantando muito (quem foi ao show no Carioca Club no último domingo pode comprovar isso). Apesar dessa “mancada”, David até se redimiu ao convidar Hughes para fazer participação especial em alguns shows da turnê, que pode ser vista no Youtube.

Vale destacar também o excelente material do CD. Encarte bem produzido, que traz relatos de David Coverdale a respeito da regravação, assim como das músicas. Infelizmente, esse tipo de situação só é possível nas versões importadas, pois quando a edição brasileira for lançada, possivelmente, só terá aquelas coisas básicas: CD simples com 13 músicas (sem as faixas bônus) e o encarte com os créditos das músicas e da gravação.

No final, para um fã do Deep Purple, esse trabalho tem a nota 4, para o fã de Whitesnake pode valer até um 8. Mas para quem gosta das duas bandas, como este que vos escreve, uma nota 6 está de bom tamanho.

A seguir, a ficha técnica e o tracklist do play.

Álbum: The Purple Album
Intérprete: Whitesnake
Lançamento: 29/04/2015 (Japão), 15/05/2015 (Europa), 18/05/2015 (Reino Unido) e 19/05/2015 (EUA)
Gravadora: Frontiers
Produtores: David Coverdale, Michael McIntyre e Reb Beach
Preço médio: R$ 50,00 (importado)

David Coverdale: voz
Reb Beach: guitarra e backing vocal
Joel Hoekstra: guitarra e backing vocal
Michael Devin: baixo, gaita e backing vocal
Tommy Aldridge: bateria e percussão
Derek Hilland: teclados

CD 1:
1. Burn (Blackmore / Coverdale / Hughes / Lord / Paice)
2. You Fool No One interpolating “Itchy Fingers” (Blackmore/Coverdale/Hughes/Lord/Paice)
3. Love Child (Bolin / Coverdale)
4. Sail Away featuring Elegy For Jon (Blackmore / Coverdale)
5. The Gypsy (Blackmore / Coverdale / Hughes / Lord / Paice)
6. Lady Double Dealer (Blackmore / Coverdale)
7. Mistreated (Blackmore / Coverdale)
8. Holy Man (Coverdale / Hughes / Lord)
9. Might Just Take Your Life (Blackmore / Coverdale / Hughes / Lord / Paice)
10. You Keep On Moving (Coverdale / Hughes)
11. Soldier Of Fortune (Blackmore / Coverdale)
12. Lay Down Stay Down (Blackmore / Coverdale / Hughes / Lord / Paice)
13. Stormbringer (Blackmore / Coverdale)
Faixas bônus:
14. Lady Luck (Cook / Coverdale)
15. Comin’ Home (Bolin / Coverdale / Paice)
CD 2: DVD – Video
1. Lady Double Dealer
2. Sail Away
3. Stormbringer
4. Soldier Of Fortune
5. The Purple Album “Behind The Scenes”
6. The Purple Album EPK

Por Jorge Almeida

Os 70 anos de Ian Gillan

Ian Gillan: vocalista do Deep Purple completou 70 anos na última quarta-feira (19). Foto: divulgação
Ian Gillan: vocalista do Deep Purple completou 70 anos na última quarta-feira (19). Foto: divulgação

Na última terça-feira, 19 de agosto, um dos mais carismáticos e técnicos vocalistas da história do rock completa 70 anos de idade. Estamos falando de Ian Gillan, o eterno vocalista do Deep Purple, conhecido também como “The Silver Voice”.

Nascido em 19 de agosto de 1945 no Chiswick Maternity Hospital, em Hounslow, na Inglaterra, Ian Gillan tinha a música em seu DNA, pois seu avô materno, Arthur Watkins, era cantor de ópera profissional, um barítono educado em Milão.

Na adolescência, influenciado por Elvis Presley, Gillan integrou diversos grupos ao longo dos anos 1960, mas teve o talento reconhecido quando passou pelo Episode Six, de onde saiu em 1969 juntamente com Roger Glover para entrar para história do rock ao ingressar no Deep Purple, que recentemente dispensara o vocalista Rod Evans e o baixista Nick Simper. O convite foi feito por Blackmore e Jon Lord após assistirem a um concerto do Episode Six.

Ao se juntar a Ritchie Blackmore, Ian Paice e Jon Lord que sua carreira deslanchou e, com isso, veio o famoso apelido “The Silver Voice”, por conta de seu grande potencial vocal. No Deep Purple, Ian Gillan lançou com os companheiros álbuns que fazem parte de verdadeiros clássicos do rock: ”Concerto For Group And Orchestra” (1969), “In Rock” (1970), “Fireball” (1971), “Machine Head” (1972), “Made In Japan” (1972) e “Who Do We Think We Are?” (1973). São nesses trabalhos que estão presentes eternos hinos do Hard Rock/Heavy Metal como “Child In Time”, “Fireball”,”Black Night”, “Highway Star”, “Lazy”, “Woman From Tokyo” e o maior de todos eles: “Smoke On The Water”. E, em 1970, o vocalista ainda participou da opera rock “Jesus Christ Superstar”, gravando a voz de Jesus Cristo na produção original em 1970, de Andrew Lloyd Webber.

Com uma carga de trabalho intensa, quase que ininterrupta, o vocalista teve problemas de relacionamentos com integrantes da banda, especialmente Ritchie Blackmore. Entre os desentendimentos, por exemplo, foi o caso envolvendo a música “When A Blind Man Cries”, que Gillan queria que entrasse no tracklist de “Machine Head”, mas o guitarrista vetou a ideia e a música (muito bonita por sinal) ficou de fora e foi lançada no lado B do single “Never Before” e, anos depois, no relançamento remasterizado do clássico álbum de 1972.

Em junho de 1973, Ian Gillan se demitiu do Deep Purple e resolveu aposentar-se dos palcos. Então, resolveu investir em diversos empreendimentos que, no final, foram mal sucedidos, como um hotel perto de Oxford e um projeto chamado Ciclos Mantis Motor, mas que foi prejudicado pelo colapso da indústria de motocicletas na Inglaterra nos anos 1970. Mas ao substituir Ronnie James Dio no último minuto em uma apresentação no Butterfly Ball em 16 de outubro de 1974, Ian Gillan resolveu retomar a carreira musical.

Assim, em 1975, o vocalista formou a Ian Gillan Band, que durou até 1978, lançando alguns álbuns, quando Ian formou uma nova banda simplesmente chamada de Gillan, que teve entre seus integrantes o futuro guitarrista do Iron Maiden: Janick Gers, que tocou nos álbuns “Double Trouble” (1981) e “Magic” (1982).

Aliás, enquanto seguia com uma carreira entre altos e baixos com sua banda, no Natal de 1979, Ian Gillan recebeu a visita de Ritchie Blackmore, que o convidou para participar do Rainbow no lugar de Graham Bonnet. Mas o vocalista recusou. Apesar disso, os dois tocaram juntos por três noites no Marquee Club, essa havia sido a primeira vez que ambos compartilharam o mesmo palco desde 1973.

O Gillan (a banda) se desfez em 1982 porque seu mentor precisava “descansar” suas cordas vocais que estavam danificadas.

Depois de uma pequena pausa, em 1983, o empresário do Black Sabbath, Don Arden (pai de Sharon Osbourne), convidou Ian Gillan para se juntar a Tony Iommi, Geezer Butler e Bill Ward para atuar no Black Sabbath no lugar de Ronnie James Dio. Dizem que esse encontro foi regado a muita bebedeira. E, dessa forma, a banda gravou “Born Again”, mas o baterista Bill Ward apresentou problemas de saúde e foi substituído por Bev Bevan.

Como um integrante do Black Sabbath, Gillan se viu obrigado a aprender o repertório mais antigo da banda, mas tinha dificuldades em lembrar algumas letras. Então, finalmente, ele teve a ideia em escrever as letras para fora de uma pasta de perspex, equilibrando-as em um monitor para virar as páginas com os pés. No entanto, em um dos shows, Ian Gillan foi surpreendido com o gelo seco no palco que praticamente tornou um impossível de ler as palavras, assim, precisou se abaixar e, de joelhos, virar as páginas com as mãos nisso ouviu alguém da plateia comentar: “Olha, o Ronnie James Dio voltou”. Esse episódio foi relatado em sua biografia “Child in Time: The Life Story of the Singer from Deep Purple”, de 1993, que ele escreveu juntamente com David Cohen. Os mais radicais criticavam o grupo em virtude da presença constante de “Smoke On The Water” no repertório.

Apesar de ser considerado um dos melhores trabalhos da carreira do vocalista, Ian Gillan não estava satisfeito em trabalhar com o Black Sabbath. Inclusive, ele detestou a capa de “Born Again”, que trazia a imagem de um bebê com aparência demoníaca. Em entrevista à revista Kerrang!, em 1984, o vocalista disse que recebeu algumas cópias do álbum e, ao ver a capa, esmagou cada uma delas em pedaços.

Depois da decepção com o Black Sabbath, Ian Gillan se juntou aos demais integrantes da formação clássica do Deep Purple para a volta do grupo em 1984. O retorno rendeu alguns milhares de dólares aos músicos e o resultado disso foi “Perfect Strangers”, disco lançado no mesmo ano e que, para alguns, foi o último grande trabalho do Deep Purple.

Mesmo com a reativação da MKII, os trabalhos seguintes do Deep Purple não tiveram a mesma qualidade da primeira fase dessa formação. E, para piorar, os desentendimentos entre Ian Gillan e Ritchie Blackmore ressurgiram. E mais uma vez o vocalista foi demitido do grupo e foi substituído pelo ex-Rainbow Joe Lynn Turner.

Fora do Deep Purple, Ian Gillan lançou alguns trabalhos, tais como “Accidentally On Purpose” (1988) com Roger Glover, “Naked Thunder” (1990) e “Toolbox” (1991). Foi durante este tempo que Gillan regravou “Smoke On The Water” com pesos-pesados como Bryan Adams, Brian May, Bruce Dickinson, David Gilmour Paul Rodgers, Roger Taylor e Tony Iommi para o Rock Aid Armenia, que consistia em um disco para angariar fundos para ajudar as vítimas de um terremoto que afetara a Armênia em 1988, que trazia diversas outras participações.

Em 1992, após a insistência de Roger Glover, Ian Paice e Jon Lord, Gillan retorna ao Deep Purple mais uma vez. Dessa forma, a MKII se reunia pela terceira vez, mas não duraria muito. Pois, menos de dois anos depois, as rusgas entre o vocalista e Ritchie Blackmore não foram cicatrizadas e, dessa vez, quem “deu a linha na pipa” foi o guitarrista em novembro de 1993 para nunca mais voltar até então sendo substituído inicialmente por Joe Satriani e, finalmente, por Steve Morse (ex-Dixie Dregs e Kansas).

Assim, sem o seu desafeto por perto, Silver Voice ficou mais à vontade no Purple, inclusive, a tal ponto de mudar o setlist do grupo ao incluir, por exemplo, temas que raramente a banda tocava, como “Maybe I’m A Leo” (que homenageia o seu signo, Leão) e “When A Blind Man Cries”.

E, desde então, Ian Gillan seguiu à frente do Deep Purple até hoje. Com a entrada de Morse na banda, só foi necessária apenas uma alteração em sua formação: em 2002 o tecladista Jon Lord saiu amigavelmente e foi substituído por Don Airey, que permanece até os dias atuais.

Mesmo com o privilégio de estar na condição de frontman de uma das maiores bandas de rock de todos os tempos, o vocalista seguiu com seus projetos paralelos, como os discos solos “Dreamcatcher” (1997), “Gillan’s Inn” (2006), “Live In Anaheim” (2008) e “One Eye To Marocco” (2009), além do WhoCares, supergrupo que lançou um álbum em 2002 e que, além de Gillan, tinha as presenças de Tony Iommi, Nicko McBrain (Iron Maiden), Jason Newsted (ex-Metallica), Jon Lord e Linde Lindstrom.

Só para constar: Ian Gillan é considerado um dos maiores cantores de Heavy Metal de todos os tempos.

E, para finalizar esse breve resumo da vida e obra de Ian Gillan, duas lendas a seu respeito: dizem que ele usava calças apertadas para potencializar os seus gritos em “Child In Time”, e a outra era de que ele cantava nu em estúdio, durante as gravações, para sentir-se à vontade – foi daí que viria o apelido “Naked Thunder”, que é citado em “Hungry Daze”, faixa do disco “Perfect Strangers” e também do nome de um álbum solo lançado em 1990.

Assim, encerramos esse relato a respeito de um dos mais respeitados músicos da história do rock.

Parabéns Ian Gillan.

Por Jorge Almeida

Os 70 anos de Ritchie Blackmore

Ritchie Blackmore: 70 anos de personalidade forte e talento nas seis cordas
Ritchie Blackmore: 70 anos de personalidade forte e talento nas seis cordas

Hoje, 14 de abril, um dos mais lendários guitarristas da história do rock completa 70 anos de idade. Me refiro a Ritchie Blackmore, músico que fundou duas grandes bandas da história do rock: Deep Purple e Rainbow.

Nascido como Richard Hugh Blackmore a 14 de abril de 1945, em Weston-super-Mare, na Inglaterra, o jovem Ritchie Blackmore mudou-se com apenas dois anos de idade com os pais para Heston, em Hunslow, também na Inglaterra. E, em 1955, ganhou o seu primeiro violão do pai que, inclusive, lhe deu aulas de violão clássico. Em suas primeiras dedilhadas no violão, Ritchie mostrou-se desajeitado e apresentava dificuldades em lidar com o instrumento, o que despertou a impaciência do pai, que prometeu quebrar o violão em sua cabeça se não aprendesse a tocar.

Então, após muito treino, Ritchie, assim como muitos astros do rock, passou por diversas bandas (a primeira delas foi o 21s Coffe Bar Junior Skiffle Group) até chegar fevereiro de 1968, quando ele, juntamente com Jon Lord, Ian Paice, Rod Evans e Nick Simper, formaram o Deep Purple, cujo nome veio de uma música favorita da avó de Blackmore.

E com esses músicos que na metade de 1968 lançou o primeiro álbum da banda, “Shades Of Deep Purple”, recheado de regravações, fato que seguiu com o trabalho seguinte. No entanto, Blackmore e Lord estavam descontentes com a sonoridade apresentada pelo Deep Purple na ocasião. Então, ambos queriam experimentar mais com volume e eletricidade, mas consideravam que a voz de Evans não acompanharia as mudanças. A solução foi fazer um teste com Ian Gillan, que levou o amigo Roger Glover, do Episode Six.

Assim, sem Evans e Simper, Blackmore contribuiu (e fez parte) para a formação mais clássica do Deep Purple, a MK II – Blackmore/Gillan/Glover/Lord/Paice. Com essa line-up, o Deep Purple lançou os clássicos álbuns “In Rock” (1970), “Fireball” (1971), “Machine Head” (1972) e o ao vivo “Made In Japan” (1972), além do ‘injustiçado’ “Who Do We Think We Are?” (1973). E foi nesse período que Ritchie Blackmore apresentou o seu riff mais famoso: o de “Smoke On The Water”, cuja letra surgiu no período em que a banda gravava o álbum “Machine Head” em Montreux, na Suíça, quando houve um incêndio no cassino durante um show do Frank Zappa and The Mothers Of Invention.

Apesar do bom momento, Ian Gillan resolveu deixar a banda e Roger Glover o acompanhou. Na verdade, o baixista dedicou-se à produção de discos, inclusive do próprio Deep Purple. Para os seus lugares, entraram David Coverdale (voz) e Glenn Hughes (baixo). A princípio, os remanescentes – Blackmore, Lord e Paice – fizeram o convite a Paul Rodgers, que recusou para empenhar-se na formação do Bad Company. Com a nova formação, o Purple gravou o ótimo “Burn” (1974), álbum que mostrou todo o virtuosismo de Ritchie. E, no mesmo ano, fizeram “Stormbringer”, que desagradou Blackmore devido às influências do funky e do soul trazidas por Hughes e Coverdale.

Ritchie Blackmore também é conhecido pela sua personalidade forte. Isso foi comprovado no festival California Jam, realizado em 6 de abril de 1974. O evento, que seria transmitido pela TV, trazia grandes nomes como o Eagles e o Black Sabbath, entre outros. No momento em que o Deep Purple iria aparecer, Ritchie trancou-se no camarim e se recusou a entrar no palco. Os artistas que se apresentaram antes do Deep Purple terminaram antes do horário, o que fez com que a banda tivesse de adentrar antes do horário marcado, que era ao pôr do sol. Ritchie percebeu que isso iria atrapalhar os efeitos luminosos que a grupo havia preparado, por isso não quis ir. Após o canal de TV ABC trazer o xerife da cidade para levá-lo preso, ele resolveu entrar no palco. Entretanto, durante a apresentação, com raiva, ele quebrou uma câmera que se aproximou dele. Pouco tempo depois, no momento mais dramático da apresentação, o palco pegou fogo após a parede de amplificadores de Ritchie explodir. A rede de TV ABC ficou furiosa, mas a banda escapou de sua ira fugindo de helicóptero.

Pouco tempo depois do lançamento de “Stormbringer”, Ritchie Blackmore resolveu cair fora e formar outro grupo: o Rainbow. Em sua primeira formação, a nova empreitada capitaneada pelo, agora ex-Deep Purple, trazia ex-integrantes da banda Elf, que chegou a abrir shows para o DP. Dessa forma, com Ronnie James Dio no vocal, Craig Gruber (baixo), Gary Driscoll (bateria), Mickey Lee Soule (teclados) e, claro, Ritchie Blackmore na guitarra, foi lançado o ‘debut’ “Ritchie Blackmore’s Rainbow” em 1975.

O estilo musical do Rainbow era diferente do Deep Purple. Pois, suas melodias eram inspiradas em temas medievais e as letras de Dio falavam de castelos, reis, dragões e espadas. Após o disco de estreia, Blackmore dispensou todos os integrantes, exceto Dio. E recrutou o ótimo Cozy Powell para a bateria e os desconhecidos Tony Carey (teclados) e Jimmy Bain (baixo). Com esses músicos, o Rainbow gravou os álbuns “Rising” (1976), considerado o melhor trabalho do Rainbow, e o ao vivo “On Stage” (1977). Enquanto em “Long Live Rock ‘N’ Roll” (1978), Blackmore chegou a gravar as linhas de baixo enquanto o grupo estava a procura de um baixista, que foi preenchido com a entrada de Bob Daisley.

Apesar de contar com bons músicos e fazer boas canções, o Rainbow nunca foi de vender muitos discos. Então, os executivos da gravadora propuseram a Ritchie Blackmore que a banda gravasse músicas mais “comerciais” para alavancar as vendas. A ideia desagradou totalmente Ronnie James Dio, que resolveu sair do Rainbow e substituir Ozzy Osbourne no Black Sabbath. Para o seu lugar, entrou Graham Bonnet. Além de Dio, Powell foi substituído por Bobby Rondinelli.

Porém, com Bonnet, o Rainbow gravou apenas o álbum “Down To Earth”, que trouxe o maior sucesso comercial do grupo: “Since You’ve Been Gone”, um cover de Russ Ballard.

Após a saída de Graham Bonnet, Ritchie Blackmore seguiu com o Rainbow em diversas formações, como a entrada de Joe Lynn Turner e o próprio companheiro dos tempos de Deep Purple, Roger Glover, que chegou a assinar a produção de todos os discos do Rainbow após a era-Dio até a volta do Deep Purple, em 1984.

Assim, em abril de 1984, depois de muitos boatos, o Deep Purple volta à ativa com a sua formação mais clássica, a MK II. Dessa forma, Ian Gillan (que gravara o álbum “Born Again” com o Black Sabbath, no ano anterior), Roger Glover e Ritchie Blackmore (que estavam no Rainbow), juntamente com Ian Paice e Jon Lord, que deixaram o Whitesnake de David Coverdale, entraram em estúdio e, no mesmo ano, lançaram “Perfect Strangers”, considerado por muitos como o último grande trabalho do Deep Purple até hoje.

Com a MK II, o Purple ainda lançou em 1987 o mediano “The House Of The Blue Light” e o ‘live’ “Nobody’s Perfect” (1988), que trazia uma nova versão de “Hush”, cover de Joe South gravado pelo grupo pela primeira vez no disco de estreia em 1968. Contudo, a relação entre Ritchie e Gillan ficou estremecida. Com isso, em 1989, o vocalista foi mandado embora e, para o seu lugar, veio um velho conhecido de Blackmore: Joe Lynn Turner, com quem trabalhara no Rainbow. Com o novo vocalista, o Deep Purple lançou “Slaves & Masters” (1990), o que dividiu a opinião dos fãs e dos próprios integrantes, mais especificamente de Lord, Glover e Paice que, juntos, determinaram a volta de Ian Gillan, enquanto Ritchie defendia a permanência de Turner.

Ritchie cedeu e Gillan voltou para o Deep Purple e, pela terceira vez, a MK II se reuniu e gravou “The Battle Rages On”, em 1993, que trouxe dois belos arranjos: “Anya” e a faixa-título. No entanto, a tensão entre Blackmore e Gillan prosseguia. Mas, durante a turnê de divulgação do disco, em meados de 1994, o Purple não tinha mais clima para manter os dois. Para se ter uma ideia do clima entre os dois, no homevídeo “Come Hell Or High Water” (1994), a banda entrou no palco durante um show realizado na Alemanha tocando “Highway Star” sem Blackmore, que só veio a aparecer na hora de seu solo e, assim que adentra no certame, recebe uma reverência irônica de Ian Gillan, e, em certo momento do solo, Ritchie pegou uma garrafa d’água e joga em direção do vocalista (que tocava a sua “inaudível” percussão). Quem quiser conferir esse momento, acesse o link do vídeo aqui, mais precisamente entre 4’00” e 4’07”.

O guitarrista saiu e prometeu nunca mais voltar. Para seu lugar, durante a turnê foi convocado Joe Satriani, mas o posto de Blackmore foi preenchido por Steve Morse, que segue no Deep Purple até hoje.

Fora da banda que o consagrou, Ritchie Blackmore resolveu remontar o Rainbow com Doogie White nos vocais, Paul Morris (teclados), Greg Smith (baixo), John O’Reilly (bateria), além de Mitch Weiss (harmonica) e Candice Night (backing vocal) e, obviamente, Blackmore na guitarra. Com essa formação, a banda lançou “Stranger In Us All” (1995). Esse foi o último trabalho de estúdio do Rainbow.

Em 1997, Ritchie Blackmore se juntou a Candice Night, que tornou-se sua esposa, e formaram o Blackmore’s Night, banda de folk rock que toca temas renascentistas. Até 2013, o Blackmore’s Night havia lançado nove discos de estúdios, entre eles “Autumn Sky” (2010), cujo título é uma homenagem a Autumn Esmeralda Blackmore, filha de Ritchie com Candice.

E, desde então, esse grande guitarrista segue a vida com a esposa se apresentando com o Blackmore’s Night e, para a tristeza de seus fãs dos tempos de Deep Purple, Ritchie não cogita quaisquer possibilidades em realizar trabalhos com os ex-companheiros de Rainbow e de Deep Purple. E convites não faltaram, inclusive feitos por Joe Lynn Turner e por David Coverdale. Este último, frustrado por não conseguir reunir a MK III do Deep Purple, alguns anos após a morte de Jon Lord, resolveu lançar com o Whitesnake o “The Purple Album”, que traz temas do Deep Purple do período em que Coverdale fez parte da banda.

E, assim, fizemos esse pequeno resumo da carreira desse que é um dos maiores guitarristas de todos os tempos. O mago da Fender Stratocaster branca escreveu seu nome na história do rock.

Vida longa a Ritchie Blackmore.

Por Jorge Almeida

Deep Purple: 40 anos de “Stormbringer”

"Stormbringer": último trabalho de Ritchie Blackmore com o Deep Purple até 1984

No último mês de novembro, o nono álbum do Deep Purple – “Stormbringer” – completou 40 anos de seu lançamento. O disco marcou o fim da MK III, uma vez que Ritchie Blackmore saiu pela primeira vez da banda em 7 de abril de 1975 (próximo do guitarrista completar 30 anos de vida) em virtude de sua insatisfação com os rumos musicais que o grupo estava a tomar, especialmente a influência da Black Music, mais especificamente funky e soul, de Glenn Hughes.

Gravado no Musicland Studios, em Munique, em agosto de 1974, e mixado no The Record Plant, em Los Angeles, em setembro do mesmo ano, “Stormbringer” foi produzido por Martin Birch em conjunto com o Purple.

Apesar de não conseguir igualar-se ao seu antecessor – o estupendo “Burn” -, nas paradas e na aceitação da crítica e do público, o play alcançou boas colocações nas paradas da Noruega (2º lugar), na Austrália (4º), enquanto nos Estados Unidos ocupou a 20ª colocação na Billboard. No entanto, rendeu Disco de Ouro na terra do Tio Sam, no Reino Unido e na França.

A paciência do carrancudo Blackmore estava a minguar cada vez mais com a sonoridade que o Deep Purple estava a adotar na ocasião. A tolerância do guitarrista durou até o término da turnê europeia da promoção do álbum. Pela insatisfação demonstrava, Ritchie Blackmore praticamente já vinha com o seu projeto em mente e que tornou-se realidade ainda em 1975 – o Rainbow.

A imagem utilizada na capa de “Stormbringer” é baseada em um registro fotográfico realizado em 1927 por Lucille Handberg. Na ocasião, em 8 de julho daquele ano, a fotógrafa captou um furacão perto da cidade de Jasper, em Minnesota e, a partir de então, a foto tornou-se uma imagem clássica. A mesma fotografia foi editada e utilizada na capa do álbum “Tinderbox” (1986), de Siouxie And The Banshees.

O disco abre com a clássica faixa-título e que traz a quase inaudível fala de David Coverdale, antes de entrar os vocais, copiada de um trecho do filme “O Exorcista” (1973). O grande trunfo da música são o riff de Blackmore e o vocal furioso de Coverdale. Certamente um dos maiores clássicos dessa formação do Deep Purple. Em seguida, “Love Don’t Mean A Thing”, que aborda o bon vivant que só se interessa pelo dinheiro. Aqui temos a mescla do que viria a ser o Whitesnake de anos mais tarde com o funky do Trapeze de Glenn Hughes. Mesmo fazendo um trabalho a contragosto, Ritchie manda muito bem ao colocar uma guitarra bem sacada na música. Posteriormente, vem a bela “Holy Man”, que tem como protagonista Glenn Hughes, que a interpreta com sentimento. Vale conferir também o solo cheio de feeling de Blackmore. E o lado A do vinil termina com “Hold On”, em que Coverdale e Hughes fazem dueto e é outra tipicamente “whitesnakiana”. Sua letra fala de forma bem franca sobre sexo.

O lado B começa com “Lady Double Dealer”, uma faixa hard rock clássica, acelerada e batida rápida, porém, o solo parece um pouco inspirado e a música é relativamente curta, o que é uma pena. A sexta música é “You Can’t Do It Right”, uma canção totalmente Glenn Hughes, pois é funky de cabo a rabo. O baixista aqui detona. O antepenúltimo tema é “High Ball Shooter”, outro hard em que Hughes dá mais um show, embora seja mais contida em relação a “Lady Double Dealer”. Destaque também para o desempenho de Ian Paice. O play chega ao final com mais duas grandes músicas: “The Gypsy”, onde o riffmaster Ritchie Blackmore executa sua Fender Stratocaster com maestria. E a clássica “Soldier Of Fortune”, uma balada perfeita escrita pela dupla Blackmore/Coverdale. Confesso que não sei quem se destaca mais: se é David cantarolando-a com a alma ou se é o excelente trabalho de Ritchie no violão e na guitarra. Mas uma coisa é certa: o Deep Purple foi certeiro ao deixá-la como música de encerramento desse incompreendido álbum.

Para celebrar os 35 anos de seu lançamento, em 2009, “Stormbringer” foi relançado com todas as faixas remasterizadas, além de alguns bônus e um DVD.

Vocês podem ter notado que na descrição toda do texto o nome de Jon Lord não foi citado. Isso se deve porque, apesar de não ter comprometido em nada no disco, o mestre dos teclados pouco apareceu. Na verdade, é que o saudoso tecladista não se destacou com o mesmo brilhantismo dos trabalhos anteriores. Mesmo assim, só a presença de Jon Lord já torna algo simples em grandioso. E mesmo porque o Deep Purple é o que é hoje graças a ele, que justifica o sobrenome.

Embora não esteja no mesmo patamar que os álbuns anteriores, “Stormbringer” é um disco versátil, criativo e que serve para mostrar a capacidade que o Deep Purple tem em se reinventar, mas sem perder a sua essência. Sim, é um daqueles discos que costumo classificar como “injustiçado”.  E digo mais: particularmente, acho que é o segundo melhor disco (só perde para “Burn”) lançado pelo Deep Purple sem ser com a MK II.

A seguir, a ficha técnica e o tracklist do disco.

Álbum: Stormbringer
Intérprete: Deep Purple
Lançamento: novembro de 1974
Gravadora: EMI/Purple Records (Reino Unido) / Warner Records (EUA)
Produtores: Martin Birch / Deep Purple

David Coverdale: voz
Ritchie Blackmore: guitarra e violão
Glenn Hughes: baixo, voz e backing vocal
Jon Lord: órgão e teclados
Ian Paice: bateria

1. Stormbringer (Blackmore / Coverdale)
2. Love Don’t Mean A Thing (Blackmore / Coverdale / Hughes / Lord / Paice)
3. Holy Man (Coverdale / Hughes / Lord)
4. Hold On (Coverdale / Hughes / Lord / Paice)
5.Lady Double Dealer (Blackmore / Coverdale)
6. You Can’t Do It Right (Blackmore / Coverdale / Hughes)
7. High Ball Shooter (Blackmore / Coverdale / Hughes / Lord / Paice)
8. The Gypsy (Blackmore / Coverdale / Hughes / Lord / Paice)
9. Soldier Of Fortune (Blackmore / Coverdale)

Por Jorge Almeida

Show do Deep Purple no Espaço das Américas (12.11.2014)

Deep Purple em apresentação no Espaço das Américas nesta quarta-feira. Foto: Jorge Almeida
Deep Purple em apresentação no Espaço das Américas nesta quarta-feira. Foto: Jorge Almeida

Nesta noite de quarta-feira (12), o Deep Purple fez a sua segunda apresentação em São Paulo durante a turnê de “Now What?!” no Espaço das Américas. A diferença entre o concerto da terça para o da quarta é que no do dia anterior a casa ficou configurada em formato de teatro, ou seja, com cadeiras. E ao longo de cerca de 1h40, os britânicos tocaram três músicas de seu mais novo trabalho e os velhos clássicos de sempre.

Depois de terminar a apresentação da banda de abertura, que ficou a cargo do Cruz (PS: este que vos escreve não conseguiu acompanhar a performance dos caras por problemas logísticos, show na quarta-feira em São Paulo já viu né? Trânsito caótico), o público ficou cerca de 40 minutos na espera até que, às 22h08, as PA’s do local começaram a ecoar o instrumental “Mars, The Bringer Of War”, do compositor e arranjador inglês Gustav Holst. Aliás, tema é um dos movimentos da suíte “The Planets”, composta por Holst entre 1914 e 1916.

E isso bastou para os presentes irem ao delírio quando adentraram no palco do Espaço das Américas: Ian Gillan (voz), Roger Glover (baixo), Steve Morse (guitarra), Don Airey (teclados) e Ian Paice (bateria), que já começaram com “Highway Star” logo de cara. Na sequência, outros três clássicos da formação clássica (MK II): “Into The Fire”, “Hard Lovin’ Man” e “Strange Kind Of Woman”.

Em seguida, o Purple apresentou o primeiro tema do último trabalho, “Vincent Price”, que é uma excelente música, seguido da instrumental “Contact Lost”, que praticamente é a parte do solo de Steve Morse que, mais uma vez, “calou” as viúvas de Ritchie Blackmore. Posteriormente, veio “Uncommom Man”, também do disco novo, e mais um tema instrumental – “The Well-Dressed Guitar”. Todas lançadas em discos mais recentes do Deep Purple.

E os veteranos continuaram o show com mais duas dos anos 1970: “The Mule”, com o tradicional e ótimo solo de bateria de Ian Paice, e a viajante “Lazy”, do clássico “Machine Head”. E a última canção de “Now What?!” tocada na noite foi “Hell To Pay”, que tem potencial de se tornar um clássico.

Em seguida foi a vez de Don Airey se destacar com o seu Hammond ao executar o seu solo, com direito a um trecho de “Aquarela do Brasil”, para alegria do público. Depois os demais voltam ao palco e seguem o show com o hino “Perfect Strangers”, uma das mais aclamadas da noite, seguido dos clássicos “Space Truckin’” e a obrigatória “Smoke On The Water”.

O grupo sai da arena e volta para o tradicional bis, que começou com “Green Onions”, um soul instrumental do Booker T. & The M. G.’s., de 1962. Em seguida, o primeiro hit da banda, a clássica “Hush”, de Joe South, posteriormente acompanhada pelo solo de Roger Glover, tendo a bateria de Ian Paice no suporte, para, enfim, finalizarem o concerto com “Black Night”, com direito a Steve Morse executar o riff de “La Grange”, do ZZ Top.

O show terminou perto da meia-noite e, com isso, quem se deslocou até o local através do transporte público teve de acelerar os passos para não se deparar com o Metrô fechado (como foi o meu caso), mas saiu satisfeito por ter visto mais um grande concerto desses dinossauros do rock.

Bom, Ian Gillan pode até não ter mais a sua “Silver Voice”, mas ainda arrisca dar uns de seus tradicionais berros, com direito a tosse. A “cozinha” de Paice e Glover continua funcionando perfeitamente. E os substitutos de Jon Lord e Ritchie Blackmore – Don Aires e Steve Mores, respectivamente – estão perfeitamente encaixados nesse atual contexto do Deep Purple, pois se destacaram no show, em especial Morse, que consegue mudar os já excelentes solos de Blackmore, mas sem descaracterizar as músicas e impõe seu estilo de tocar, mais técnico e sem virtuosismo inútil.

Está certo que os trabalhos mais recentes do Deep Purple estão longe da qualidade das obras-primas do anos 1970, mas os “tiozinhos” continuam fazendo o que melhor sabem: tocar ao vivo e manter aquele estilo de rock clássico de sempre, sem a mesma fúria, mas com o mesmo peso dos tempos de ouro.

Quanto ao setlist, sempre vai ter opiniões divididas sobre quais músicas deveriam tocar na noite, quais deveriam ficar de fora e tal. Por exemplo, gostaria que, dos temas do novo álbum, fosse tocado “All The Time In The World”, que é uma ótima música, ou tivessem apresentado outros clássicos como “Fireball”, a belíssima “When A Blind Man Cries” ou aquela que considero a melhor música do DP na fase Steve Morse: “Sometimes I Feel Like Screaming”, mas tudo bem. A performance da banda nesta noite valeu o ingresso.

Abaixo, o setlist da apresentação do Deep Purple no Espaço das Américas.

Intro: Mars, the Bringer of War (Holst)
1. Highway Star (Blackmore / Gillan / Glover / Lord / Paice)
2. Into the Fire (Blackmore / Gillan / Glover / Lord / Paice)
3. Hard Lovin’ Man (Blackmore / Gillan / Glover / Lord / Paice)
4. Strange Kind of Woman (Blackmore / Gillan / Glover / Lord / Paice)
5. Vincent Price (Gillan / Morse / Glover / Airey / Paice)
6. Contact Lost (Morse)
7. Uncommon Man (Gillan / Morse / Glover / Airey / Paice)
8. The Well-Dressed Guitar (Gillan / Morse / Glover / Airey / Paice)
9. The Mule (with Drum Solo) (Blackmore / Gillan / Glover / Lord / Paice)
10. Lazy (Blackmore / Gillan / Glover / Lord / Paice)
11. Hell To Pay (Gillan / Morse / Glover / Airey / Paice)
12. Keyboard Solo (Airey)
13. Perfect Strangers (Blackmore / Gillan / Glover)
14. Space Truckin’ (Blackmore / Gillan / Glover / Lord / Paice)
15. Smoke on the Water (Blackmore / Gillan / Glover / Lord / Paice)
Bis:
16. Green Onions (Jones / Cropper / Steinberg / Jackson Jr.)
17. Hush (South)
18. Bass Solo (Glover)
19. Black Night (Blackmore / Gillan / Glover / Lord / Paice)

Por Jorge Almeida