Sinopse do livro “Luar Aos Avessos”, de Angelo Sastre

Capa de “Luar Aos Avessos”, de Angelo Sastre

Lançado pela primeira vez em 1999, o livro-reportagem do jornalista Angelo Sastre, “Luar Aos Avessos”, saiu pela Scortecci Editora. Divididos em 12 capítulos e mais itens anexos, a obra visa apresentar ao longo de suas 140 páginas a “outra face” de Raul Seixas, ícone da música popular brasileira.

O resultado do material foi fruto de dois anos e meio de pesquisa de seu autor. No período, Sastre analisou materiais de imprensa, documentos pessoais, entrevistas com pessoas que conheceram ou que tiveram ligações diretas com Raulzito, inclusive a mãe do compositor, dona Maria Eugênia, amigos de infância, parceiros musicais, ex-esposa, entre outros.

No livro de Angelo, é constituído os principais fatos da vida (e obra) de Raul Seixas, que vão desde a infância em Salvador até a sua morte, no fatídico 21 de agosto de 1989, em São Paulo. No contexto, a publicação aborda vários “mitos” vinculados ao eterno Maluco Beleza.

Entre os assuntos de maior relevância estão abordados os cinco casamentos de Raul, o seu envolvimento com magia negra, o seu exílio nos Estados Unidos, a expulsão da gravadora CBS, a luta contra o alcoolismo e às drogas, além de eventos pitorescos que, podem até parecer histórias de botequim, mas que são reais, como o famoso show que Raul Seixas fez na cidade de Caieiras, na Grande São Paulo, em 1982, e que, na ocasião, o cantor estava tão perturbado, que foi acusado de ser impostor de si mesmo e, por não portar documentos que comprovasse a sua identidade, foi “trocar uma ideia com o delegado”, mas que ele contou com a ajuda de sua esposa da época, Kika Seixas, para não ter de passar um tempo em cana.

O livro-reportagem também conta os perrengues que Raul Seixas passou por causa das gravadoras e também que ele fez as mesmas passarem por falta de seu profissionalismo em algumas situações.

Interessante também as passagens irônicas de Raul Seixas em algumas situações. Como a do concurso Miss Brasil de 1974 em que ele foi convidado a comparecer ao evento, em Brasília. Os organizadores enviaram-lhe um smoking para Raul vestir na cerimônia e, para surpresa de todos, o cantor apareceu no show vestido de pijama de lã, descalço e uma escova de dentes na mão.

Com uma linguagem simples e de fácil assimilação, a obra de André Sastre é idela para quem quiser dar os primeiros passos no universo raulseixista. Aliás, recomendo ler a publicação enquanto ouve alguns clássicos do inesquecível Maluco Beleza.

Infelizmente, o livro físico é difícil de encontrar – talvez o encontre em sebos, bibliotecas ou sites de vendas online -, mas há também a versão em e-book.

E só para finalizar, o título do livro é um verso da música “Lua Cheia”, do álbum “Raul Seixas” (1983).

A seguir, a ficha técnica da obra.

Livro: Luar Aos Avessos
Autor: Angelo Sastre
Editora: Scortecci Editora
Lançamento: 1999 / Versão ampliada relançada em 2013
Número de páginas: 140
Preço médio: R$ 35,00

Por Jorge Almeida

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Raul Seixas: 30 anos de “A Pedra do Gênesis”

“A Pedra do Gênesis”: o último disco solo de Raul Seixas

Na última terça-feira (21), o Brasil lembrou dos 29 anos da morte do mito Raul Seixas. Contudo, curiosamente, no dia seguinte (22), os fãs mais fervorosos do compositor baiano possivelmente recordaram dos 30 anos de seu último álbum solo: “A Pedra do Gênesis” (desconsiderando “A Panela do Diabo”, que foi lançado em parceria com o seu conterrâneo Marcelo Nova). Produzido pelo próprio Raul, o disco foi gravado entre fevereiro de 1986 e agosto de 1988 no estúdio Independente, em São Paulo, e nos estúdios da gravadora Copacabana, em São Bernardo do Campo – e foi o segundo e último trabalho lançado pela pequena gravadora.

Depois do lançamento do trabalho que antecedeu “A Pedra do Gênesis”, a saúde de Raul Seixas vinha degringolando cada vez mais, aliado aos problemas associados ao consumo de drogas. Por conta da pancreatite crônica que lhe acompanhara há tempos (precisou retirar a metade do pâncreas em 1979), o cantor precisava tomar insulina rotineiramente. Diante de tais circunstâncias, o compositor foi deixando aos poucos de fazer shows (antes de sair em turnê com Marcelo Nova, a última apresentação de Raulzito aconteceu em São Paulo, em dezembro de 1985). Ficando fora dos holofotes da mídia, o cantor estava caindo no ostracismo e, com o “boom” das bandas de BRock dos anos 1980, pouco se falava de Raul Seixas.

O mestre ressurgiu com o álbum “Uah-Bap-Lu-Bap-Lah-Béin-Bum!” (1987), o primeiro dos dois trabalhos assinados com a modesta Copacabana e que tinha como carro-chefe a satírica “Cowboy Fora-da-Lei”, e com um tracklist excepcional (considero o melhor trabalho de Raul lançado na década de 1980). E três músicas que fariam parte desse disco (“Check-Up”, “Fazendo O Que O Diabo Gosta” e “Não Quero Mais Andar na Contramão (No No Song)”) foram barradas pela censura, e aproveitadas em “A Pedra do Gênesis” e isso só foi possível devido à intervenção de Romeu Tuma, então diretor-geral da Polícia Federal.

Diferentemente dos últimos trabalhos em que Raul Seixas apostava na sonoridade mais voltada ao rock, “A Pedra do Gênesis” resgatou (ou tentou resgatar) o lado místico que trazia as mensagens exotéricas do mago que rendera sucesso ao Maluco Beleza na década de 1970. A começar pela capa, que trazia uma foto de arquivo de Raul Seixas de 1974, com ele caracterizado como um legítimo mago e sua icônica capa, em vez de uma imagem atual do canto. As letras do disco também mesclam com temas alusivos aos seus problemas pessoais ao tratar assuntos como alcoolismo, problemas de saúde e a proximidade da morte.

O trabalho começa com a faixa que dá nome ao álbum, que traz ecos de misticismo de temas que deram títulos a dois sucessos raulseixistas da década de 1970 (“Eu Nasci Há Dez Mil Anos Atrás” e “Gitã”). Na sequência, em “A Lei”, uma ode ao anarquismo, com direito a Raul Seixas lendo as “leis” da sua “Sociedade Alternativa”, e com o refrão da música homônima no backing vocal. Na sequência, dois terços das censuradas. Primeiro com “Check-Up”, composta nos anos 1970, mas que foi censurada (por citar medicamentos controlados) e liberada mais de dez anos depois, porém, com a letra alterada (a versão original saiu no póstumo “Documento”). Aliás, curiosamente, Rita Lee e o Tutti Frutti a gravaram para o álbum “Entradas e Bandeiras” (1976), contudo, com a letra alterada e outro nome (“Bruxa Amarela”). A segunda censurada foi “Fazendo O Que O Diabo Gosta”, Raul Seixas coloca em prática a parceria na autoria (e no teor da letra?) com Lena Coutinho, sua última esposa. A música repreendida pelos censores por trazer uma letra com eventuais conotações sexuais (!?). Ué? Quem nunca?. E o lado A do vinil termina com “Cavalos Calados”, que fala sobre a situação crítica do estado de saúde de seu autor – “A minha morte aparente”, precisa traduzir?. A canção foi regravada por Cazuza (que fez um Blues matador em sua versão e que saiu no póstumo “Por Aí”, de 1992).

O lado B do play começa com “Não Quero Mais Andar Na Contramão (No No Song)”, que foi censurada por fazer alusão ao consumo de drogas, mas que o cantor parece não querer mais desfrutar do (falso) prazer que elas lhe dera. Aliás, essa foi uma versão que Raul Seixas fez de “No No Song”, do cantor e compositor country norte-americano Holy Axton, mas que foi gravada primeiramente pelo ex-Beatle Ringo Starr em seu álbum “Goodnight Vienna” (1974). A versão de Axton saiu em seu disco – “Southbound” – lançado no ano seguinte. O trabalho segue com “I Don’t Really Need You Anymore”, que, apesar do título em inglês, foi composta por Raul em parceria com Cláudio Roberto e que, embora Raulzito mande bem no idioma, a música é a mais fraca do álbum. Posteriormente, a obra segue com a bela toada da dupla Zé do Norte e Zé Martins, “Lua Bonita”. Apesar de ter sido gravada oficialmente em 1988, Raul já cantava a música há um bom tempo (vide pelo registro do álbum “Se O Rádio Não Toca”, lançado em 1994 com gravação de um show realizado em Brasília em 1974), embora não constantemente. O disco chega aos momentos finais com dois temas: “Senhora Dona Persona (Pesadelo Mitológico nº 3)“, outra parceria de Raul com Lena, e “Areia da Ampulheta”, singela música que fecha o disco de um Raul Seixas melancólico, aparentando uma despedida.

Apesar da boa recepção por parte da crítica especializada, as vendagens de “A Pedra do Gênesis” foram um fiasco. Mas a “culpa” não foi pela qualidade do material, mas sim pela péssima estratégia de divulgação do trabalho, aliado aos baixos investimentos da gravadora e também pelo fato de Raul Seixas não ter saído em turnê para promover o disco, mas isso foi por conta de seus problemas de saúde, a maldita pancreatite que, aliás, foi a responsável pela sua morte no ano seguinte no auge de seus 44 anos. Após o lançamento do disco, o cantor se separou de sua quinta e última mulher, Lena Coutinho. A ausência de Raul dos palcos durou até 18 de setembro de 1988, quando saiu em turnê com o seu pupilo Marcelo Nova.

Só para reforçar, o álbum foi relançado pela Copacabana em 2003, além de coletâneas caça-níqueis que existem por aí.

A seguir, a ficha técnica e o tracklist da obra.

Álbum: A Pedra do Gênesis
Intérprete: Raul Seixas
Lançamento: 22 de agosto de 1988
Gravadora: Copacabana
Produtor: Raul Seixas

Raul Seixas: voz e arranjos de base

Miguel Cidras: teclados, arranjos e regência
Rick Ferreira: guitarra, arranjos e regência
Antenor e Álvaro: guitarras
Geraldinho Vieira: baixo
Albino Cezar Infantozzi: bateria
Azevedo: trombone
Tenisson Rufino: trompete
Nailor Proveta: saxofone alto
Cacá: saxofone tenor
Maria Aparecida “Cidinha” de Souza, Nadir, Carlinhos, Luis Carlos, Ringo e Rita Kfouri: backing vocal

1. A Pedra do Gênesis (Raul Seixas / Lena Coutinho / José Roberto Abrahão)
2. A Lei (Raul Seixas)
3. Check-Up (Raul Seixas)
4. Fazendo O Que O Diabo Gosta (Raul Seixas / Lena Coutinho)
5. Cavalos Calados (Raul Seixas)
6. Não Quero Mais Andar na Contramão (No No Song) (Jackson/Axton/Versão: Raul Seixas/Lena Coutinho)
7. I Don’t Really You Anymore (Raul Seixas / Lena Coutinho)
8. Lua Bonita (Zé do Norte / Zé Martins)
9. Senhora Dona Persona (Pesadelo Mitológico Nº 3) (Raul Seixas / Lena Coutinho)
10. Areia da Ampulheta (Raul Seixas)

Por Jorge Almeida

Raul Seixas: 20 anos de “Documento”

O póstumo álbum “Documento”, de Raul Seixas, que traz versões inéditas de músicas do Maluco Beleza

Já que hoje, 21 de agosto, o nome de Raul Seixas está sendo muito lembrado em função dos 29 anos de sua morte, vamos abordar sobre um álbum (póstumo) lançado há duas décadas, “Documento”. Produzido por Marco Mazzola (que foi produtor de álbuns clássicos de Raul nos anos 70), pela MZA, o disco trata-se de um projeto que Raul Seixas já sonhara ainda na década de 1970 em ter versões de suas músicas em inglês. Contudo, o álbum apresenta músicas do Maluco Beleza com novos arranjos e instrumental idem, mas que abordam praticamente a fase da Phillips, e não da WEA, ou seja, até 1977.

Em boa parte das músicas, reforçando que nem todo o material foi lançado com as canções em inglês, foi gravado por músicos que atuaram com Raul Seixas nos anos 1970 (faltou o maestro Miguel Cidras, mas não foi por falta de esforço de Mazzola, que tentou localizá-lo antes de tocar o projeto) e outros como Milton Guedes e Roberto Frejat (ex-Barão Vermelho e fã de Raulzito). O produto merece destaque também pelo tratamento dado à voz de Raul Seixas, que foi remasterizada e passando a impressão de que “Documento” tinha sido gravado no final dos anos 1990.

O CD abre com “Love Is Magick”, que teve a sua letra original vetada e que no álbum recebeu um belíssimo arranjo de cordas novo que a deixou formidável. Em seguida, Raul interpreta magistralmente em inglês a versão do clássico “Trem das Sete”, que aqui ganhou o título de “Morning Train”. A música ganhou um “videoclipe” que foi feito com imagens de Raulzito nos Estados Unidos e foi utilizado na divulgação de “Documento”. O terceiro tema é a inédita e irreverente “Faça, Fuce, Force”, que o compositor detona no deboche da canção. Enquanto isso, em “Blue Moon Of Kentucky”, Raul Seixas faz a sua famosa fusão de Elvis com Gonzagão, que foi lembrado ao ter a sua “Asa Branca” citada. Não é uma faixa inédita, pois, ela saiu em “Raul Rock Seixas” (1977), mas ela representa exatamente as maiores influências do cantor baiano. Na sequência, “Orange Juice” foi a versão matadora da clássica “S.O.S.”, que é uma das melhores do álbum. O disco chega à metade com “Check Up”, com a versão que fora censurada pela ditadura nos anos 1970 e que teve a letra modificada no lançamento oficial que fora feita em “A Pedra do Gênesis” (1988).

O disco traz “How Could I Know”, que não ganhou uma nova roupagem, mas possivelmente entrou por conta da fidelização de Mazzola para o projeto idealizado por Raul. O CD continua com uma versão inédita de “Rockixe”, que embora tenha ficado boa, ficou aquém da versão que conhecemos do álbum “Krig-Ha, Bandolo!” (1973). O álbum segue com uma versão de “White Wings”, versão inglesa de “Asa Branca”, de Luiz Gonzaga, que Raul gravou pela Copacabana Records em 1987, mas que não foi lançada oficialmente. A faixa seguinte é “Fool’s Gold”, que dispensa tradução, né? Claro que é a versão “gringa” do hino “Ouro de Tolo”. O CD se encaminha para o final. Primeiro vem com “Let Me Sing, Let Me Sing”, que não poderia ficar de fora desse projeto por conta da importância histórica que ela tem na trajetória de Raul Seixas. Pois foi com ela que tudo começou em 1972, finalíssima do VII Festival Internacional da Canção. O penúltimo tema é “Se O Rádio Não Toca”, que teve uma produção muito bem feita e trata-se de uma música não lançada por Raul (pode ser conferida no igualmente póstumo “Se O Rádio Não Toca”, de 1994). Destaque para o primoroso trabalho de Roberto Frejat na guitarra. Infelizmente, a faixa que fecha o álbum não é digna às demais. Pois, apesar do grandioso trabalho de Marco Mazzola nas faixas anteriores, o que foi feito com “É Fim de Mês” foi uma “atrocidade” com a obra de Raul Seixas, que nela só teve a sua voz mantida. Pois na parte instrumental foi inserido um fundo musical que remete a dance music, totalmente sem nexo, e que parece ter sido criado em programa de computador feito em casa. Antes de começar a “crueldade”, traz um registro feito por Raul Seixas em uma fita K-7 em que ele “dialoga” com a sua filha Vivian, então com apenas um mês de idade.

Marco Mazzola, que produziu Raul Seixas e vários outros nomes da MPB, foi o responsável por ouvir, separar e produzir esse disco que, apesar do deslize dessa versão de “É Fim de Mês”, deixou o saldo positivo para esse álbum, pois proporcionou ao fã a importância desses registros.

E só um adendo: em 2009, “Documento” foi relançado com o título “20 Anos Sem Raul”, que contém uma faixa inédita, “Gospel”.

A seguir, a ficha técnica e o tracklist da obra.

Álbum: Documento
Intérprete: Raul Seixas
Lançamento: 1998
Gravadora: MZA Music
Produtor: Marco Mazzola

1. Love Is Magick (Raul Seixas / Spacey Glow)
2. Morning Train (Trem das Sete) (Raul Seixas)
3. Faça, Force, Fuce (Raul Seixas)
4. Blue Moon Of Kentucky / Asa Branca (Monroe) (Luiz Gonzaga/Humberto Teixeira)
5. Orange Juice (S.O.S.) (Raul Seixas)
6. Check Up (Raul Seixas)
7. How Could I Know (Raul Seixas)
8. Rockixe (Raul Seixas / Paulo Coelho)
9. White Wings (Asa Branca) (Luiz Gonzaga / Humberto Teixeira / Versão: Raul Seixas)
10. Fool’s Gold (Ouro de Tolo) (Raul Seixas)
11. Let Me Sing, Let Me Sing (Raul Seixas / Nadine Wisner)
12. Se O Rádio Não Toca (Raul Seixas)
13. É Fim de Mês (Raul Seixas)

Por Jorge Almeida

Raul Seixas: 40 anos de “O Dia Em Que A Terra Parou”

“O Dia Em Que A Terra Parou”: o primeiro disco de Raul Seixas lançado pela WEA

Aproveitando que hoje, 21 de agosto, completam-se 28 anos da morte de Raul Seixas, resolvamos abordar sobre os 40 anos de um dos seus mais célebres álbuns: o clássico “O Dia Em Que A Terra Parou”. Produzido por Marco Mazzola, o disco é o primeiro lançado pelo músico pela WEA e o sétimo de sua discografia solo.

E a mudança não ficou apenas em relação à gravadora, mas também com o direcionamento musical e a parceria. Assim, Raul Seixas trocou a Phillips pela WEA e optou em diversificar mais a sua musicalidade deixando um pouco de lado o misticismo que o consagrou ao lado de Paulo Coelho por um estilo mais “pés no chão” de Cláudio Roberto, e com direito a dois funks (não, por favor, não confunda com esse “funk” que faz sucesso hoje no Brasil).

O disco abre com a sensacional “Tapanacara”, um ‘funkão’ nervoso recheado de metais e muito bem acompanhado da Banda Black Rio. Suspeita-se que a letra da música seria uma resposta a seus críticos, talvez, Caetano Veloso. Na sequência, o hino raulseixista “Maluco Beleza”, em que Raul tenta “explicar” a sua loucura e tentar levar a vida em um caminho que “é tão fácil seguir, por não ter onde ir”. Foi lançado um videoclipe da música em que Raulzito aparece sem uma de suas principais marcas: o cavanhaque. Sim, ele estava de “cara limpa”. E, por causa desse hit, que o compositor passou a ser conhecido como Maluco Beleza pelo resto da vida. O terceiro tema é a faixa que dá nome ao álbum. Em que o interlocutor diz que ter sonhado que ninguém saía de casa como se fosse combinado em todo planeta, logo, poderia ser uma espécie de greve geral, afinal, naqueles tempos as greves começavam a se tornar algo corriqueiro para os trabalhadores reivindicarem seus direitos e, ao mesmo tempo, incomodar a ditadura. Para esse que vos escreve: “é a melhor música escrita em português da história”. Já em “No Fundo do Quintal da Escola“, traz um rockzinho animado em que o interlocutor confronta sua atitude com as do demais enquanto eles iam “bater uma bola” enquanto ele ia para o “fundo do quintal da escola”, mas não especifica o que foi fazer lá (fumar, talvez?). Essa foi gravada pelo Barão Vermelho no álbum-tributo a Raul Seixas “O Início, o Fim e o Meio”, de 1991. O disco chega a metade com “Eu Quero Mesmo”, em que Raul declara o seu amor ao rock e também para Gloria Vaquer, sua esposa na época.

O lado B do play começa com outra que tem status de clássico raulseixista: “Sapato 36”, cujo teor, subliminarmente, o cantor dá um esporro nos censores, que acreditaram que o conteúdo dito na letra tratava-se de um “desabafo do filho incomodado com um sapato dado pelo pai”. Posteriormente, o play segue com a lenta e lindíssima “Você“, inspirada em ritmo latino, e que ele questiona quem o ouve o porquê de seu conformismo. Enquanto isso, a igualmente espetacular “Sim” parece ser a resposta para o questionamento feito por ele na faixa anterior. A penúltima canção é “Que Luz É Essa?”, que tem a participação especial de Gilberto Gil nos arranjos. Raul Seixas pergunta sobre essa luz, que poderia ser a vinda de algum Messias, ou o fim ditadura que tanto o perseguiu, ou o fim da civilização ou o início de uma nova era?, e, para finalizar, “De Cabeça-pra-Baixo”, música que tem outra incursão de funk e aborda sobre como seria a convivência em uma cidade de ponta-cabeça, em que o teto seria usado como “capacho” e as ondas do mar iriam se quebrar no ar.

O disco fez sucesso de público, mas a crítica não gostou porque foi dito na época que o álbum não manteve o mesmo nível dos trabalhos anteriores de Raul. Sinceramente, discordo. De fato, há diferenças em relação aos últimos trabalhos de Raulzito, mas “O Dia Em Que A Terra Parou” não é inferior a eles, mas sim está no mesmo patamar.

A seguir, a ficha técnica e o tracklist do disco.

Álbum: O Dia Em Que A Terra Parou
Intérprete: Raul Seixas
Lançamento: 1977
Gravadora: WEA
Produtor: Marco Mazzola

Raul Seixas: voz e arranjos de base
Miguel Cidras: piano e arranjos de base
Gay Vaquer (hoje Jay Anthony Vaquer) e Lee Ritenour: violão e guitarra
Hélio Delmiro e Gilberto Gil: violão
José Paulo, Chiquito Braga e Cláudio Stevenson: guitarra
Luiz Cláudio Ramos: violão de 12 cordas
Paulo César Barros, Liminha e Jamil Joanes: baixo
José Roberto Bertrami: piano
Chico Batera e Djalma Corrêa: percussão
Pedrinho Batera, Mamão, Paulinho Braga e Luiz Carlos dos Santos: bateria
Eric da Silva: arranjos de orquestra

1. Tapanacara (Raul Seixas / Cláudio Roberto)
2. Maluco Beleza (Raul Seixas / Cláudio Roberto)
3. O Dia Em Que A Terra Parou (Raul Seixas / Cláudio Roberto)
4. No Fundo do Quintal da Escola (Raul Seixas / Cláudio Roberto)
5. Eu Quero Mesmo (Raul Seixas / Cláudio Roberto)
6. Sapato 36 (Raul Seixas / Cláudio Roberto)
7. Você (Raul Seixas / Cláudio Roberto)
8. Sim (Raul Seixas / Cláudio Roberto)
9. Que Luz É Essa? (Raul Seixas / Cláudio Roberto)
10. De Cabeça-Pra-Baixo (Raul Seixas / Cláudio Roberto)

Por Jorge Almeida

Analisando o box “25 Anos Sem o Maluco Beleza – Toca Raul!”, de Raul Seixas

Box lançado pela Gravadora Eldorado apresenta 6 CD's e 1 DVD. Créditos: divulgação
Box lançado pela Gravadora Eldorado apresenta 6 CD’s e 1 DVD. Créditos: divulgação

Aproveitando que hoje, 28 de junho, seria o 70º aniversário de Raul Seixas, conforme bem lembrou Frejat no Shopping Vila Olímpia, vamos analisar o box “25 Anos Sem o Maluco Beleza – Toca Raul!”. Perambulando por essas livrarias do tipo “Megastore” da vida, ao vasculhar o setor de CD’s e DVD’s um material em particular me chamou atenção: um box do Raul Seixas com seis CD’s e um DVD. Tratei de consultar o preço, achei plausível o valor e resolvi adquiri. O material em questão é da Gravadora Eldorado, que Raul fez parte de seu cast na primeira metade da década de 1980.

O box foi lançado no ano passado para lembrar os 25 anos da partida do cantor do plano terrestre e traz um CD de estúdio, cinco CD’s ao vivo (sendo dois inéditos) e um DVD com uma entrevista com Silvio Passos, presidente do fã-clube de Raul Seixas, o Raul Rock Seixas, e também uma entrevista que Raul Seixas deu à Rádio Eldorado em 1983, além de uma fotobiografia.

Embora não estejam mais em cartaz, os álbuns “Raul Seixas” (1983), “Ao Vivo – Único e Exclusivo” (1984) e “Raul Vivo” (1993) e “Se o Rádio Não Toca” (1994) foram resgatados e saíram no box, mas se você pesquisar, poderá encontrá-los por um preço bacana por aí. Então, nesse box, não acrescentam muita coisa. O deleite está mesmo por conta dos dois CD’s gravados ao vivo em épocas distintas da carreira do compositor baiano e o DVD.

Um dos CD’s traz o áudio de um show que Raul Seixas fez em 1974 na cidade mineira de Patrocínio. Na época, o cantor promovia o clássico “Gitã”. Intitulado como “Eu Não Sou Hippie – Ao Vivo no Cine Patrocínio 1974”, o play traz 15 temas, sendo dois covers – “Rock Around The Clock” e “Ready Teddy” – e o resto as principais composições de Raul que a história tratou de transformá-las em clássicos. Aliás, nos créditos desse álbum, “Metamorfose Ambulante” está erroneamente creditada à dupla Raul Seixas e Paulo Coelho. Pois, a canção foi feita apenas por Raul.

Enquanto isso, o outro CD inédito apresenta outro concerto que Raulzito fez em Águas Claras (MG). Na ocasião, Raul promovia o álbum “Abre-te Sésamo” (1980). O play tem 12 músicas, sendo dois covers (“Blue Suede Shoes” e “Reddy Teddy”), e só traz “Maluco Beleza” da época da WEA, as demais são dos tempos da Phillips e três são da divulgação do mais recente trabalho da época – “Aluga-se”, “Abre-te Sésamo” e “Rock das ‘Aranha’”. O material tem o peculiar título “Isso Aqui Não É Woodstock, Mas Um Dia Pode Ser – Ao Vivo no Festival de Águas Claras -1981”. Outro destaque do CD ficou por conta de um pequeno depoimento de Luiz Gonzaga, o Rei do Baião, sobre a tal “Sociedade Alternativa” de Raul Seixas.

Já o DVD, por sua vez, traz uma entrevista com Sylvio Passos, presidente do fã-clube de Raul Seixas, que comenta a respeito da época que o Maluco Beleza assinou com a Gravadora Eldorado, como foi a época das gravações do álbum “Raul Seixas” e o motivo que levou o compositor a trabalhar em projetos como o disco “Ao Vivo – Único e Exclusivo”, gravado no ginásio da S.E. Palmeiras em 1983 em que Raul Seixas resolve contar a história do Rock and Roll através das músicas de ícones que foram primordiais para o surgimento do gênero. Silvio explicou também como conseguiu arrumar o material que deu origem aos dois CD’s ao vivo lançados de forma inédita e justificou porquê ambos não têm os créditos dos músicos participantes, entre outras peculiaridades. O presidente do Raul Rock Seixas também mostrou itens de seu vasto (e valioso) acervo do ídolo e mostrou coisas que ia desde a infância até o pijama utilizado por Raul Seixas no dia em que fora encontrado morto no fatídico 21 de agosto de 1989. Além disso, há uma entrevista que Raul Seixas deu à Rádio Eldorado em 1983. Enquanto o papo rolou solto, fotos aparecem ao longo da entrevista, como uma espécie de datashow.

Enfim, apesar de não ter material 100% inédito, esse box é imperdível para quem é colecionador e efusivo apreciador da vida e obra desse que é considerado o “pai” do rock nacional e o artista póstumo mais cultuado na nossa música até hoje. Não é à toa que o famoso “Toca Raul!” já virou um mantra.

A seguir, a ficha técnica do material.

Álbum: 25 Anos Sem o Maluco Beleza – Toca Raul! (box com 6 CD’s e um DVD)
Intérprete: Raul Seixas
Lançamento: 2014
Gravadora: Eldorado
Produtor: Sylvio Passos (box)
Preço Médio: R$ 100,00

CD1 – Raul Seixas (1983):
1. D.D.I. (Discagem Direta Interestelar) (Raul Seixas / Kika Seixas)
2. Coisas do Coração (Raul Seixas / Cláudio Roberto / Kika Seixas)
3. Coração Noturno (Raul Seixas / Kika Seixas / Raul Varella Seixas)
4. Não Fosse O Cabral (Slippin’ And Slidin’) (Raul Seixas / Jim Lewis)
5. Quero Mais (Raul Seixas / Cláudio Roberto / Kika Seixas)
6. Lua Cheia (Raul Seixas)
7. O Carimbador Maluco (Raul Seixas)
8. Segredo da Luz (Raul Seixas / Kika Seixas)
9. Aquela Coisa (Raul Seixas / Kika Seixas / Cláudio Roberto)
10. Eu Sou Eu, Nicuri É O Diabo (Raul Seixas)
11. Capim Guiné (Raul Seixas / Wilson Aragão)
12. Babilina (Vincent / Davis / Versão: Raul Seixas)
13. So Glad You’re Mine (Arthur Cudrup)

CD 2 – Ao Vivo – Único e Exclusivo (1984):
1. My Baby Left Me (Arthur Crudup)
2. Ain’t She Sweet (Jack Yellen/Milton Ager)
3. So Glad You’re Mine (Arthur Crudup)
4. Do You Know What It Means to Miss New Orleans (Louis Alter/Eddie DeLarge)
5. Barefoot Ballad (Dolores Fuller/Lee Morris)
6. Blue Moon Kentucky (Bill Monroe) / Asa Branca (Luiz Gonzaga/Humberto Teixeira)
7. Roll Over Beethoven (Chucky Berry)
8. Blue Suede Shoes (Carl Perkins)
9. Be Bop a Lula (Davis/ Vicent)

CD 3 – Raul Vivo (1993):
1. Rock do Diabo (Raul Seixas / Paulo Coelho)
2. So Glad You’re Mine (Cudrup)
3. My Baby Left Me (Cudrup)
4. Ain’t She Sweet (Yellen / Ager)
5. Do You Know What It Means To Miss New Orleans (DeLange / Alter)
6. Barefoot Ballad (Morris / Fuller)
7. Blue Moon Of Kentucky / Asa Branca (Monroe) (Luiz Gonzaga / Humberto Teixeira)
8. Roll Over Beethoven (Chuck Berry)
9. Blue Suede Shoes (Perkins)
10. Be-Bop-A-Lula (Vincent / Davis)
11. Rock das “Aranha” (Claudio Roberto / Raul Seixas)
12. Maluco Beleza (Raul Seixas / Claudio Roberto)
13. Sociedade Alternativa (Raul Seixas / Paulo Coelho)
14. Rockixe (Raul Seixas / Paulo Coelho)
15. Metamorfose Ambulante (Raul Seixas)
16. Trem das Sete (Raul Seixas)
17. Prelúdio (Raul Seixas)
18. Gitã/Ouro de Tolo/Eu Nasci Há Dez Mil Anos Atrás (Raul Seixas/Paulo Coelho) (Raul Seixas) (Raul Seixas/Paulo Coelho)

CD 4 – Se o Rádio Não Toca (1994):
1. Al Capone/Rockixe/Prelúdio/Como Vovó Já Dizia (Raul Seixas/Paulo Coelho) (Raul Seixas/Paulo Coelho) (Raul Seixas) (Raul Seixas/Paulo Coelho)
2. Se O Rádio Não Toca (Raul Seixas / Paulo Coelho)
3. Loteria da Babilônia (Raul Seixas / Paulo Coelho)
4. Água Viva (Raul Seixas / Paulo Coelho)
5. Lua Bonita (Zé do Norte / Zé Martins)
6. Monólogo (Depoimento Raul Seixas)
7. Sessão das Dez (Raulzito)
8. Gitã (Raul Seixas / Paulo Coelho)
9. Como Vovó Já Dizia (Raul Seixas / Paulo Coelho)
10. As Aventuras de Raul Seixas na Cidade de Thor (Raul Seixas)
11. S.O.S. (Raul Seixas)
12. Metamorfose Ambulante (Raul Seixas)
13. O Trem das Sete (Raul Seixas)
14. Não Pare Na Pista (Raul Seixas / Paulo Coelho)
15. Sociedade Alternativa (Raul Seixas / Paulo Coelho)
16. Rock Around The Clock (Knight / Freedman)

CD 5 – Eu Não Sou Hippie – Ao Vivo No Cine Patrocínio 1974 (2014):
1. Se O Rádio Não Toca (Raul Seixas / Paulo Coelho)
2. Ouro de Tolo (Raul Seixas)
3. O Trem das Sete (Raul Seixas)
4. Cachorro Urubu (Raul Seixas / Paulo Coelho)
5. Gitã (Raul Seixas / Paulo Coelho)
6. Água Viva (Raul Seixas / Paulo Coelho)
7. Sessão das 10 (Raulzito)
8. As Minas do Rei Salomão (Raul Seixas / Paulo Coelho)
9. Não Pare Na Pista (Raul Seixas / Paulo Coelho)
10. Let Me Sing, Let Me Sing (Raul Seixas / Nadine Wisner)
11. Rock Around The Clock (Freedman / Myers)
12. Ready Teddy (Morascalco / Blackwell)
13. Metamorfose Ambulante (Raul Seixas)
14. As Aventuras de Raul Seixas na Cidade de Thor (Raul Seixas)
15. Sociedade Alternativa (Raul Seixas / Paulo Coelho)

CD 6 – Isso Aqui Não É Woodstock, Mas Um Dia Pode Ser – Ao Vivo No Festival de Águas Claras – 1981 (2014):
1. Rock do Diabo (Raul Seixas / Paulo Coelho)
2. Aluga-se (Raul Seixas / Cláudio Roberto)
3. Como Vovó Já Dizia (Raul Seixas / Paulo Coelho)
4. Abre-te Sésamo (Raul Seixas / Cláudio Roberto)
5. As Aventuras de Raul Seixas na Cidade de Thor (Raul Seixas)
6. O Trem das Sete (Raul Seixas)
7. Blue Suede Shoes (Perkins)
8. Ready Teddy (Morascalco / Blackwell)
9. Maluco Beleza (Raul Seixas / Cláudio Roberto)
10. Al Capone (Raul Seixas / Cláudio Roberto)
11. Rock das ‘Aranha’ (Raul Seixas / Cláudio Roberto)
12. Sociedade Alternativa (Raul Seixas / Paulo Coelho)

DVD:
1. Entrevista com Sylvio Passos
2. Raul Seixas – “Início, Meio e Fim” – Entrevista com Raul Seixas (1983)
3. Fotobiografia

Aprecie sem moderação.

Por Jorge Almeida

Show “Gita – 40 Anos” no Sesc Pompeia (31.10.2014)

Da esquerda para direita: Fernando Catatau, Rubi, BNegão, Zé Geraldo e Maurício Pereira cantam "Gita". Foto: Jorge Almeida
Da esquerda para direita: Fernando Catatau, Rubi, BNegão, Zé Geraldo e Maurício Pereira cantam “Gita”. Foto: Jorge Almeida

O Sesc Pompeia apresentou na noite desta sexta-feira (31) o show “Gita – 40 Anos”, que celebra as quatro décadas do lançamento do clássico álbum de Raul Seixas. O espetáculo traz cinco cantores – Bnegão, Fernando Catatau, Maurício Pereira, Rubi e Zé Geraldo – que, de alguma forma, fazem referência em suas carreiras artísticas a Raul. Com direção artística e produção de Xuxa Levy, o show durou aproximadamente uma hora e trouxe na íntegra todas as 12 faixas de “Gita”, além de “Não Pare Na Pista” (lançada como lado B de “Gita”) e “Um Som Para Laio”, que fez parte da trilha sonora da novela “O Rebu” e que também está presente em algumas coletâneas do eterno Maluco Beleza.

Prevista para começar às 21h30, o show sofreu um pequeno atraso de dez minutos. No entanto, às 21h40, surgem no palco da Choperia do Sesc Pompeia os músicos Carneiro Sândalo (bateria), Jotaerre (percusão), Tuco Marcondes (guitarra), Regis Damasceno (violão e guitarra), Dudinha (baixo) e o trio responsáveis pelos metais: Sidmar Vieira, Will e Denílson Martins, capitaneados por Xuxa Levy, que no concerto tocou teclados, fez os backing vocals e “regeu” a banda.

Com essa formação, o show começou com um tema instrumental enquanto isso no backdrop era exibida projeções com imagens de Raul Seixas feitas pelo artista VJScan. Após a abertura, o primeiro vocalista a se apresentar foi Maurício Pereira, que nos anos 1980 fundou juntamente com André Abujamra a banda Os Mulheres Negras. Maurício cantarolou três temas: “Super Heróis”, faixa que abre o álbum homenageado, e que durante a performance, ele parecia ter esquecido (ou errado mesmo) parte da letra da sarcástica música de Raulzito. Mas, em seguida, soube conduzir o público com a inigualável “Sessão das Dez”. E, para encerrar a trinca, a clássica “Não Pare Na Pista”.

Depois foi a vez do goiano radicado em São Paulo Rubi interpretar de forma magistral mais três músicas do disco: as “calmas” “Prelúdio” e “Água Viva” e, para arrebentar com a incrível interpretação para “Moleque Maravilhoso”.

O ex-Planet Hemp BNegão seguiu no posto de frontman para cantarolar mais duas: “As Aventuras de Raul Seixas na Cidade de Thor”, onde contou com uma “cola” nada discreta (sim, ele cantou segurando uma folha na mão com a letra da música) e ainda interrompeu a música para falar a respeito da falta d’água em São Paulo e foi aplaudido pelos presentes. E mandou bem em “Loteria da Babilônia”. Aliás, cabe aqui uma observação a respeito de BNegão: ele participou no álbum-tributo a Raul Seixas lançado em 2004 intitulado “O Baú do Raul: Uma Homenagem a Raul Seixas”, onde cantou a faixa “É Fim do Mês”.

Outro que veio reverenciar o mestre foi Fernando Catatau que juntamente com sua guitarra interpretou “Um Som Para Laio” e a grande “S.O.S.”. E o fundador do Cidadão Instigado não fez feio. Saiu bastante aclamado pelo público.

E o show chega à sua reta final com a, talvez, participação mais aguardado: Zé Geraldo. Contemporâneo de Raulzito, o compositor mineiro mandou “O Trem das Sete” e, antes de cantar “Medo da Chuva”, ele contou brevemente como conheceu Raul Seixas. E enquanto Zé cantava os primeiros versos de “Gita”, os demais vocalistas voltaram ao palco para que, de forma revezada, encerrassem a apresentação cantarolando a faixa-título do álbum de 1974.

O arranjador Xuxa Levy pediu para que os cantores permanecessem no palco, ou seja, o tradicional “bis” foi feito com os todos os músicos no palco. O produtor fez os agradecimentos, apresentou a banda e, quando todos se preparavam para tocar “Sociedade Alternativa”, a Choperia ficou alguns minutos sem energia, o que não impediu que Carneiro Sândalo tocasse sua bateria e o público, mesmo às escuras e à capella, cantasse o hino raulseixista. Com a energia reestabelecida, os demais foram ligando os instrumentos para que, todos, cantassem em uníssono a mística faixa.

E, para a tristeza dos fãs de Raulzito, como esse que vos escreve, o show termina pontualmente às 22h40. E o público vai se dispersando pela unidade com o gostinho de “quero mais”.

Para quem perdeu a apresentação dessa noite terá uma nova chance neste sábado (1º). Pois, haverá o segundo concerto em homenagem aos 40 anos de “Gita” na mesma unidade. Contudo, as compras de ingressos pela internet já foram encerradas. O ideal é verificar na bilheteria do Sesc Pompeia. Os valores dos ingressos são: R$ 6,00 (comerciário), R$ 15,00 (meia-entrada) e R$ 30,00 (inteira). Reforçando que a venda é limitada a quatro ingressos por pessoa e menores de 18 anos só podem adentrar na Choperia acompanhados dos pais ou responsáveis legais.

A seguir, o setlist do show “Gita – 40 Anos”.

1. Abertura: tema instrumental
2. Super Heróis (Raul Seixas / Paulo Coelho)
3. Sessão das Dez (Raulzito)
4. Não Pare Na Pista (Raul Seixas / Paulo Coelho)
5. Prelúdio (Raul Seixas)
6. Água Viva (Raul Seixas / Paulo Coelho)
7. Moleque Maravilhoso (Raul Seixas / Paulo Coelho)
8. As Aventuras de Raul Seixas na Cidade de Thor (Raul Seixas)
9. Loteria da Babilônia (Raul Seixas / Paulo Coelho)
10. Um Som Para Laio (Raul Seixas)
11. S.O.S. (Raul Seixas)
12. O Trem das Sete (Raul Seixas)
13. Medo da Chuva (Raul Seixas)
14. Gita (Raul Seixas / Paulo Coelho)
Bis:
15. Sociedade Alternativa (Raul Seixas / Paulo Coelho)

Por Jorge Almeida

Raul Seixas: 40 anos de “Gita”

"Gita": o maior sucesso comercial de Raul Seixas com mais de 600 mil cópias vendidas
“Gita”: o maior sucesso comercial de Raul Seixas com mais de 600 mil cópias vendidas

Já que hoje, 21 de agosto, marca o 25º aniversário da morte de Raul Seixas, aproveito a ocasião para escrever sobre o que, pelo menos para mim, é o seu maior clássico: “Gita”, o seu segundo “disco solo de verdade” e que, em 2014, chega aos 40 anos de seu lançamento. Produzido pelo amigo Marco Mazzola, o álbum é considerado o de maior sucesso da carreira de Raulzito, com mais de 600 mil cópias vendidas, o que rendeu ao compositor o seu primeiro disco de ouro.

Em 1974, Raul Seixas e Paulo Coelho criaram a tal da Sociedade Alternativa, uma sociedade que se baseava na ideologia do bruxo inglês Aleister Crowley. Inclusive, a tal Sociedade Alternativa tinha sede, papel timbrado, relatórios mensais e chegou até à aquisição de um terreno em Minas Gerais para a construção da “Cidade das Estrelas”, cuja comunidade viveria em apenas uma única lei: “faze o que tu queres, pois é tudo da lei”. E, em todo show, Raul Seixas divulgava como era essa Sociedade Alternativa durante a execução da música de mesmo nome. E esse objetivo da dupla em fazer essa “civilização” trouxe problemas com a ditadura. O DOPS prendeu Raul e Paulo Coelho por achar que a Sociedade Alternativa seria um movimento armado contra o Governo.

Depois de torturados, Raul Seixas, Paulo Coelho e suas esposas – Edith e Adalgisa Rios, respectivamente – foram exilados para os Estados Unidos. E durante a estadia deles na terra do Tio Sam, muitas histórias foram ditas, incluindo até um encontro entre o cantor e John Lennon, que ninguém sabe se, de fato, aconteceu.

No entanto, enquanto Seixas e Coelho permaneciam exilados, a Phillips lançou o álbum “Gita” aqui no Brasil. O LP fez tanto sucesso que a Ditadura foi forçada a trazê-los de volta. E, por conta da popularidade do álbum, Raul Seixas e Paulo Coelho foram convidados a compor a trilha sonora de “O Rebu”, novela da Rede Globo (que ganhou um remake recentemente) e também um álbum homônimo. Ainda em 1974, Raul se separa de Edith, que foi embora para os Estados Unidos com a filha do casal – Simone.

Ainda não conhecido como Maluco Beleza, Raul provoca a Ditadura Militar – que o forçou a se exilar nos EUA – ao posar para a capa do disco vestido de guerrilheiro com uma guitarra vermelha.

O álbum abre com a ‘blueseira’ “Super Heróis”, com letra sarcástica em que o cantor cita gente como Marlon Brando, Silvio Santos, Pelé e Emerson Fittipaldi. A segunda faixa é a ‘classuda’ “Medo da Chuva”. Na sequência, a bacana “As Aventuras de Raul Seixas na Cidade de Thor”, que o compositor aproveita para “cutucar” àqueles que o acusava de fazer pacto com o “tinhoso”. Em seguida, a poética “Água Viva”, cantada magistralmente por Raul. O quinto tema é “Moleque Maravilhoso”, no melhor estilo Frank Sinatra. O álbum chega à sua metade com a ‘boêmia’ “Sessão das Dez”, que na verdade é uma regravação que Raul Seixas fez da música que ele e seus “Kavernistas” gravaram no álbum “Sociedade da Grã-Ordem Kavernista Apresenta: Sessão das Dez”. E, curiosamente, é a única faixa que é creditada como “Raulzito”.

O lado 2 do álbum começa com a emblemática “Sociedade Alternativa”, que foi inspirada na obra de Crowley e fala do “mundo perfeito”, segundo Raul – o tal do “faça o que tu queres”. Posteriormente, o disco segue com outro clássico e emblemático tema: “O Trem das Sete”, que permite várias interpretações da música, inclusive a respeito da morte. Depois, surge a ótima “S.O.S” que, para este que vos escreve, é a melhor faixa de “Gita”. A canção seguinte é “Prelúdio” que, entre os raulseixistas, virou uma espécie de mantra – “sonho que se sonha só, é só um sonho que se sonha só, mas sonho que sonha junto vira realidade”. A penúltima faixa é “Loteria da Babilônia”, que passa a impressão de ter sido gravada ao vivo, mas na verdade foi feita em estúdio com palmas enxertadas. E, para finalizar, a música que dá título ao play: “Gita”, uma das canções mais populares de Raul Seixas, que foi inspirada em um livro sagrado hindu, o Bhagavad Gita, escrito há mais de seis mil anos.

O disco é um dos maiores clássicos da história da música brasileira (no geral, não apenas do rock nacional), pois traz verdadeiras obras-primas de Raul Seixas. Quase todas as faixas são conhecidas do grande público, mesmo que não é fã do cantor. Vai me dizer que você não conhece ou alguém que não conheça coisas como “Gita”, “Medo da Chuva”, “S.O.S” ou “O Trem das Sete”? Se a resposta for positiva, como diria o próprio Raul, “pare o mundo que eu quero descer”. Obrigatório.

A seguir, a ficha técnica e o tracklist de “Gita”.

Álbum: Gita
Intérprete: Raul Seixas
Lançamento: 1974
Gravadora: Phillips
Produtor: Marco Mazzola

Raul Seixas: voz, violão, guitarra e arranjos
Miguel Cidras: orquestração
Luis Cláudio, Rick Ferreira, Tony Osanah e Alexandre: guitarras
Neco e Tony Osanah: violões
Alexandre, Juan Roberto Capobianco, Sérgio Barroso, Ivan, Luizão e Paulo César Barros: baixo
Mamão, Paulinho e Gustavo: bateria
Zé Roberto, Miguel Cidras e Jay Vaquer: teclados

1. Super Heróis (Raul Seixas / Paulo Coelho)
2. Medo da Chuva (Raul Seixas / Paulo Coelho)
3. As Aventuras de Raul Seixas na Cidade de Thor (Raul Seixas)
4. Água Viva (Raul Seixas / Paulo Coelho)
5. Moleque Maravilhoso (Raul Seixas / Paulo Coelho)
6. Sessão das Dez (Raulzito)
7. Sociedade Alternativa (Raul Seixas / Paulo Coelho)
8. O Trem das Sete (Raul Seixas)
9. S.O.S (Raul Seixas)
10. Prelúdio (Raul Seixas)
11. Loteria da Babilônia (Raul Seixas / Paulo Coelho)
12. Gita (Raul Seixas / Paulo Coelho)

Por Jorge Almeida