Raul Seixas: 40 anos de “O Dia Em Que A Terra Parou”

“O Dia Em Que A Terra Parou”: o primeiro disco de Raul Seixas lançado pela WEA

Aproveitando que hoje, 21 de agosto, completam-se 28 anos da morte de Raul Seixas, resolvamos abordar sobre os 40 anos de um dos seus mais célebres álbuns: o clássico “O Dia Em Que A Terra Parou”. Produzido por Marco Mazzola, o disco é o primeiro lançado pelo músico pela WEA e o sétimo de sua discografia solo.

E a mudança não ficou apenas em relação à gravadora, mas também com o direcionamento musical e a parceria. Assim, Raul Seixas trocou a Phillips pela WEA e optou em diversificar mais a sua musicalidade deixando um pouco de lado o misticismo que o consagrou ao lado de Paulo Coelho por um estilo mais “pés no chão” de Cláudio Roberto, e com direito a dois funks (não, por favor, não confunda com esse “funk” que faz sucesso hoje no Brasil).

O disco abre com a sensacional “Tapanacara”, um ‘funkão’ nervoso recheado de metais e muito bem acompanhado da Banda Black Rio. Suspeita-se que a letra da música seria uma resposta a seus críticos, talvez, Caetano Veloso. Na sequência, o hino raulseixista “Maluco Beleza”, em que Raul tenta “explicar” a sua loucura e tentar levar a vida em um caminho que “é tão fácil seguir, por não ter onde ir”. Foi lançado um videoclipe da música em que Raulzito aparece sem uma de suas principais marcas: o cavanhaque. Sim, ele estava de “cara limpa”. E, por causa desse hit, que o compositor passou a ser conhecido como Maluco Beleza pelo resto da vida. O terceiro tema é a faixa que dá nome ao álbum. Em que o interlocutor diz que ter sonhado que ninguém saía de casa como se fosse combinado em todo planeta, logo, poderia ser uma espécie de greve geral, afinal, naqueles tempos as greves começavam a se tornar algo corriqueiro para os trabalhadores reivindicarem seus direitos e, ao mesmo tempo, incomodar a ditadura. Para esse que vos escreve: “é a melhor música escrita em português da história”. Já em “No Fundo do Quintal da Escola“, traz um rockzinho animado em que o interlocutor confronta sua atitude com as do demais enquanto eles iam “bater uma bola” enquanto ele ia para o “fundo do quintal da escola”, mas não especifica o que foi fazer lá (fumar, talvez?). Essa foi gravada pelo Barão Vermelho no álbum-tributo a Raul Seixas “O Início, o Fim e o Meio”, de 1991. O disco chega a metade com “Eu Quero Mesmo”, em que Raul declara o seu amor ao rock e também para Gloria Vaquer, sua esposa na época.

O lado B do play começa com outra que tem status de clássico raulseixista: “Sapato 36”, cujo teor, subliminarmente, o cantor dá um esporro nos censores, que acreditaram que o conteúdo dito na letra tratava-se de um “desabafo do filho incomodado com um sapato dado pelo pai”. Posteriormente, o play segue com a lenta e lindíssima “Você“, inspirada em ritmo latino, e que ele questiona quem o ouve o porquê de seu conformismo. Enquanto isso, a igualmente espetacular “Sim” parece ser a resposta para o questionamento feito por ele na faixa anterior. A penúltima canção é “Que Luz É Essa?”, que tem a participação especial de Gilberto Gil nos arranjos. Raul Seixas pergunta sobre essa luz, que poderia ser a vinda de algum Messias, ou o fim ditadura que tanto o perseguiu, ou o fim da civilização ou o início de uma nova era?, e, para finalizar, “De Cabeça-pra-Baixo”, música que tem outra incursão de funk e aborda sobre como seria a convivência em uma cidade de ponta-cabeça, em que o teto seria usado como “capacho” e as ondas do mar iriam se quebrar no ar.

O disco fez sucesso de público, mas a crítica não gostou porque foi dito na época que o álbum não manteve o mesmo nível dos trabalhos anteriores de Raul. Sinceramente, discordo. De fato, há diferenças em relação aos últimos trabalhos de Raulzito, mas “O Dia Em Que A Terra Parou” não é inferior a eles, mas sim está no mesmo patamar.

A seguir, a ficha técnica e o tracklist do disco.

Álbum: O Dia Em Que A Terra Parou
Intérprete: Raul Seixas
Lançamento: 1977
Gravadora: WEA
Produtor: Marco Mazzola

Raul Seixas: voz e arranjos de base
Miguel Cidras: piano e arranjos de base
Gay Vaquer (hoje Jay Anthony Vaquer) e Lee Ritenour: violão e guitarra
Hélio Delmiro e Gilberto Gil: violão
José Paulo, Chiquito Braga e Cláudio Stevenson: guitarra
Luiz Cláudio Ramos: violão de 12 cordas
Paulo César Barros, Liminha e Jamil Joanes: baixo
José Roberto Bertrami: piano
Chico Batera e Djalma Corrêa: percussão
Pedrinho Batera, Mamão, Paulinho Braga e Luiz Carlos dos Santos: bateria
Eric da Silva: arranjos de orquestra

1. Tapanacara (Raul Seixas / Cláudio Roberto)
2. Maluco Beleza (Raul Seixas / Cláudio Roberto)
3. O Dia Em Que A Terra Parou (Raul Seixas / Cláudio Roberto)
4. No Fundo do Quintal da Escola (Raul Seixas / Cláudio Roberto)
5. Eu Quero Mesmo (Raul Seixas / Cláudio Roberto)
6. Sapato 36 (Raul Seixas / Cláudio Roberto)
7. Você (Raul Seixas / Cláudio Roberto)
8. Sim (Raul Seixas / Cláudio Roberto)
9. Que Luz É Essa? (Raul Seixas / Cláudio Roberto)
10. De Cabeça-Pra-Baixo (Raul Seixas / Cláudio Roberto)

Por Jorge Almeida

Analisando o box “25 Anos Sem o Maluco Beleza – Toca Raul!”, de Raul Seixas

Box lançado pela Gravadora Eldorado apresenta 6 CD's e 1 DVD. Créditos: divulgação
Box lançado pela Gravadora Eldorado apresenta 6 CD’s e 1 DVD. Créditos: divulgação

Aproveitando que hoje, 28 de junho, seria o 70º aniversário de Raul Seixas, conforme bem lembrou Frejat no Shopping Vila Olímpia, vamos analisar o box “25 Anos Sem o Maluco Beleza – Toca Raul!”. Perambulando por essas livrarias do tipo “Megastore” da vida, ao vasculhar o setor de CD’s e DVD’s um material em particular me chamou atenção: um box do Raul Seixas com seis CD’s e um DVD. Tratei de consultar o preço, achei plausível o valor e resolvi adquiri. O material em questão é da Gravadora Eldorado, que Raul fez parte de seu cast na primeira metade da década de 1980.

O box foi lançado no ano passado para lembrar os 25 anos da partida do cantor do plano terrestre e traz um CD de estúdio, cinco CD’s ao vivo (sendo dois inéditos) e um DVD com uma entrevista com Silvio Passos, presidente do fã-clube de Raul Seixas, o Raul Rock Seixas, e também uma entrevista que Raul Seixas deu à Rádio Eldorado em 1983, além de uma fotobiografia.

Embora não estejam mais em cartaz, os álbuns “Raul Seixas” (1983), “Ao Vivo – Único e Exclusivo” (1984) e “Raul Vivo” (1993) e “Se o Rádio Não Toca” (1994) foram resgatados e saíram no box, mas se você pesquisar, poderá encontrá-los por um preço bacana por aí. Então, nesse box, não acrescentam muita coisa. O deleite está mesmo por conta dos dois CD’s gravados ao vivo em épocas distintas da carreira do compositor baiano e o DVD.

Um dos CD’s traz o áudio de um show que Raul Seixas fez em 1974 na cidade mineira de Patrocínio. Na época, o cantor promovia o clássico “Gitã”. Intitulado como “Eu Não Sou Hippie – Ao Vivo no Cine Patrocínio 1974”, o play traz 15 temas, sendo dois covers – “Rock Around The Clock” e “Ready Teddy” – e o resto as principais composições de Raul que a história tratou de transformá-las em clássicos. Aliás, nos créditos desse álbum, “Metamorfose Ambulante” está erroneamente creditada à dupla Raul Seixas e Paulo Coelho. Pois, a canção foi feita apenas por Raul.

Enquanto isso, o outro CD inédito apresenta outro concerto que Raulzito fez em Águas Claras (MG). Na ocasião, Raul promovia o álbum “Abre-te Sésamo” (1980). O play tem 12 músicas, sendo dois covers (“Blue Suede Shoes” e “Reddy Teddy”), e só traz “Maluco Beleza” da época da WEA, as demais são dos tempos da Phillips e três são da divulgação do mais recente trabalho da época – “Aluga-se”, “Abre-te Sésamo” e “Rock das ‘Aranha’”. O material tem o peculiar título “Isso Aqui Não É Woodstock, Mas Um Dia Pode Ser – Ao Vivo no Festival de Águas Claras -1981”. Outro destaque do CD ficou por conta de um pequeno depoimento de Luiz Gonzaga, o Rei do Baião, sobre a tal “Sociedade Alternativa” de Raul Seixas.

Já o DVD, por sua vez, traz uma entrevista com Sylvio Passos, presidente do fã-clube de Raul Seixas, que comenta a respeito da época que o Maluco Beleza assinou com a Gravadora Eldorado, como foi a época das gravações do álbum “Raul Seixas” e o motivo que levou o compositor a trabalhar em projetos como o disco “Ao Vivo – Único e Exclusivo”, gravado no ginásio da S.E. Palmeiras em 1983 em que Raul Seixas resolve contar a história do Rock and Roll através das músicas de ícones que foram primordiais para o surgimento do gênero. Silvio explicou também como conseguiu arrumar o material que deu origem aos dois CD’s ao vivo lançados de forma inédita e justificou porquê ambos não têm os créditos dos músicos participantes, entre outras peculiaridades. O presidente do Raul Rock Seixas também mostrou itens de seu vasto (e valioso) acervo do ídolo e mostrou coisas que ia desde a infância até o pijama utilizado por Raul Seixas no dia em que fora encontrado morto no fatídico 21 de agosto de 1989. Além disso, há uma entrevista que Raul Seixas deu à Rádio Eldorado em 1983. Enquanto o papo rolou solto, fotos aparecem ao longo da entrevista, como uma espécie de datashow.

Enfim, apesar de não ter material 100% inédito, esse box é imperdível para quem é colecionador e efusivo apreciador da vida e obra desse que é considerado o “pai” do rock nacional e o artista póstumo mais cultuado na nossa música até hoje. Não é à toa que o famoso “Toca Raul!” já virou um mantra.

A seguir, a ficha técnica do material.

Álbum: 25 Anos Sem o Maluco Beleza – Toca Raul! (box com 6 CD’s e um DVD)
Intérprete: Raul Seixas
Lançamento: 2014
Gravadora: Eldorado
Produtor: Sylvio Passos (box)
Preço Médio: R$ 100,00

CD1 – Raul Seixas (1983):
1. D.D.I. (Discagem Direta Interestelar) (Raul Seixas / Kika Seixas)
2. Coisas do Coração (Raul Seixas / Cláudio Roberto / Kika Seixas)
3. Coração Noturno (Raul Seixas / Kika Seixas / Raul Varella Seixas)
4. Não Fosse O Cabral (Slippin’ And Slidin’) (Raul Seixas / Jim Lewis)
5. Quero Mais (Raul Seixas / Cláudio Roberto / Kika Seixas)
6. Lua Cheia (Raul Seixas)
7. O Carimbador Maluco (Raul Seixas)
8. Segredo da Luz (Raul Seixas / Kika Seixas)
9. Aquela Coisa (Raul Seixas / Kika Seixas / Cláudio Roberto)
10. Eu Sou Eu, Nicuri É O Diabo (Raul Seixas)
11. Capim Guiné (Raul Seixas / Wilson Aragão)
12. Babilina (Vincent / Davis / Versão: Raul Seixas)
13. So Glad You’re Mine (Arthur Cudrup)

CD 2 – Ao Vivo – Único e Exclusivo (1984):
1. My Baby Left Me (Arthur Crudup)
2. Ain’t She Sweet (Jack Yellen/Milton Ager)
3. So Glad You’re Mine (Arthur Crudup)
4. Do You Know What It Means to Miss New Orleans (Louis Alter/Eddie DeLarge)
5. Barefoot Ballad (Dolores Fuller/Lee Morris)
6. Blue Moon Kentucky (Bill Monroe) / Asa Branca (Luiz Gonzaga/Humberto Teixeira)
7. Roll Over Beethoven (Chucky Berry)
8. Blue Suede Shoes (Carl Perkins)
9. Be Bop a Lula (Davis/ Vicent)

CD 3 – Raul Vivo (1993):
1. Rock do Diabo (Raul Seixas / Paulo Coelho)
2. So Glad You’re Mine (Cudrup)
3. My Baby Left Me (Cudrup)
4. Ain’t She Sweet (Yellen / Ager)
5. Do You Know What It Means To Miss New Orleans (DeLange / Alter)
6. Barefoot Ballad (Morris / Fuller)
7. Blue Moon Of Kentucky / Asa Branca (Monroe) (Luiz Gonzaga / Humberto Teixeira)
8. Roll Over Beethoven (Chuck Berry)
9. Blue Suede Shoes (Perkins)
10. Be-Bop-A-Lula (Vincent / Davis)
11. Rock das “Aranha” (Claudio Roberto / Raul Seixas)
12. Maluco Beleza (Raul Seixas / Claudio Roberto)
13. Sociedade Alternativa (Raul Seixas / Paulo Coelho)
14. Rockixe (Raul Seixas / Paulo Coelho)
15. Metamorfose Ambulante (Raul Seixas)
16. Trem das Sete (Raul Seixas)
17. Prelúdio (Raul Seixas)
18. Gitã/Ouro de Tolo/Eu Nasci Há Dez Mil Anos Atrás (Raul Seixas/Paulo Coelho) (Raul Seixas) (Raul Seixas/Paulo Coelho)

CD 4 – Se o Rádio Não Toca (1994):
1. Al Capone/Rockixe/Prelúdio/Como Vovó Já Dizia (Raul Seixas/Paulo Coelho) (Raul Seixas/Paulo Coelho) (Raul Seixas) (Raul Seixas/Paulo Coelho)
2. Se O Rádio Não Toca (Raul Seixas / Paulo Coelho)
3. Loteria da Babilônia (Raul Seixas / Paulo Coelho)
4. Água Viva (Raul Seixas / Paulo Coelho)
5. Lua Bonita (Zé do Norte / Zé Martins)
6. Monólogo (Depoimento Raul Seixas)
7. Sessão das Dez (Raulzito)
8. Gitã (Raul Seixas / Paulo Coelho)
9. Como Vovó Já Dizia (Raul Seixas / Paulo Coelho)
10. As Aventuras de Raul Seixas na Cidade de Thor (Raul Seixas)
11. S.O.S. (Raul Seixas)
12. Metamorfose Ambulante (Raul Seixas)
13. O Trem das Sete (Raul Seixas)
14. Não Pare Na Pista (Raul Seixas / Paulo Coelho)
15. Sociedade Alternativa (Raul Seixas / Paulo Coelho)
16. Rock Around The Clock (Knight / Freedman)

CD 5 – Eu Não Sou Hippie – Ao Vivo No Cine Patrocínio 1974 (2014):
1. Se O Rádio Não Toca (Raul Seixas / Paulo Coelho)
2. Ouro de Tolo (Raul Seixas)
3. O Trem das Sete (Raul Seixas)
4. Cachorro Urubu (Raul Seixas / Paulo Coelho)
5. Gitã (Raul Seixas / Paulo Coelho)
6. Água Viva (Raul Seixas / Paulo Coelho)
7. Sessão das 10 (Raulzito)
8. As Minas do Rei Salomão (Raul Seixas / Paulo Coelho)
9. Não Pare Na Pista (Raul Seixas / Paulo Coelho)
10. Let Me Sing, Let Me Sing (Raul Seixas / Nadine Wisner)
11. Rock Around The Clock (Freedman / Myers)
12. Ready Teddy (Morascalco / Blackwell)
13. Metamorfose Ambulante (Raul Seixas)
14. As Aventuras de Raul Seixas na Cidade de Thor (Raul Seixas)
15. Sociedade Alternativa (Raul Seixas / Paulo Coelho)

CD 6 – Isso Aqui Não É Woodstock, Mas Um Dia Pode Ser – Ao Vivo No Festival de Águas Claras – 1981 (2014):
1. Rock do Diabo (Raul Seixas / Paulo Coelho)
2. Aluga-se (Raul Seixas / Cláudio Roberto)
3. Como Vovó Já Dizia (Raul Seixas / Paulo Coelho)
4. Abre-te Sésamo (Raul Seixas / Cláudio Roberto)
5. As Aventuras de Raul Seixas na Cidade de Thor (Raul Seixas)
6. O Trem das Sete (Raul Seixas)
7. Blue Suede Shoes (Perkins)
8. Ready Teddy (Morascalco / Blackwell)
9. Maluco Beleza (Raul Seixas / Cláudio Roberto)
10. Al Capone (Raul Seixas / Cláudio Roberto)
11. Rock das ‘Aranha’ (Raul Seixas / Cláudio Roberto)
12. Sociedade Alternativa (Raul Seixas / Paulo Coelho)

DVD:
1. Entrevista com Sylvio Passos
2. Raul Seixas – “Início, Meio e Fim” – Entrevista com Raul Seixas (1983)
3. Fotobiografia

Aprecie sem moderação.

Por Jorge Almeida

Show “Gita – 40 Anos” no Sesc Pompeia (31.10.2014)

Da esquerda para direita: Fernando Catatau, Rubi, BNegão, Zé Geraldo e Maurício Pereira cantam "Gita". Foto: Jorge Almeida
Da esquerda para direita: Fernando Catatau, Rubi, BNegão, Zé Geraldo e Maurício Pereira cantam “Gita”. Foto: Jorge Almeida

O Sesc Pompeia apresentou na noite desta sexta-feira (31) o show “Gita – 40 Anos”, que celebra as quatro décadas do lançamento do clássico álbum de Raul Seixas. O espetáculo traz cinco cantores – Bnegão, Fernando Catatau, Maurício Pereira, Rubi e Zé Geraldo – que, de alguma forma, fazem referência em suas carreiras artísticas a Raul. Com direção artística e produção de Xuxa Levy, o show durou aproximadamente uma hora e trouxe na íntegra todas as 12 faixas de “Gita”, além de “Não Pare Na Pista” (lançada como lado B de “Gita”) e “Um Som Para Laio”, que fez parte da trilha sonora da novela “O Rebu” e que também está presente em algumas coletâneas do eterno Maluco Beleza.

Prevista para começar às 21h30, o show sofreu um pequeno atraso de dez minutos. No entanto, às 21h40, surgem no palco da Choperia do Sesc Pompeia os músicos Carneiro Sândalo (bateria), Jotaerre (percusão), Tuco Marcondes (guitarra), Regis Damasceno (violão e guitarra), Dudinha (baixo) e o trio responsáveis pelos metais: Sidmar Vieira, Will e Denílson Martins, capitaneados por Xuxa Levy, que no concerto tocou teclados, fez os backing vocals e “regeu” a banda.

Com essa formação, o show começou com um tema instrumental enquanto isso no backdrop era exibida projeções com imagens de Raul Seixas feitas pelo artista VJScan. Após a abertura, o primeiro vocalista a se apresentar foi Maurício Pereira, que nos anos 1980 fundou juntamente com André Abujamra a banda Os Mulheres Negras. Maurício cantarolou três temas: “Super Heróis”, faixa que abre o álbum homenageado, e que durante a performance, ele parecia ter esquecido (ou errado mesmo) parte da letra da sarcástica música de Raulzito. Mas, em seguida, soube conduzir o público com a inigualável “Sessão das Dez”. E, para encerrar a trinca, a clássica “Não Pare Na Pista”.

Depois foi a vez do goiano radicado em São Paulo Rubi interpretar de forma magistral mais três músicas do disco: as “calmas” “Prelúdio” e “Água Viva” e, para arrebentar com a incrível interpretação para “Moleque Maravilhoso”.

O ex-Planet Hemp BNegão seguiu no posto de frontman para cantarolar mais duas: “As Aventuras de Raul Seixas na Cidade de Thor”, onde contou com uma “cola” nada discreta (sim, ele cantou segurando uma folha na mão com a letra da música) e ainda interrompeu a música para falar a respeito da falta d’água em São Paulo e foi aplaudido pelos presentes. E mandou bem em “Loteria da Babilônia”. Aliás, cabe aqui uma observação a respeito de BNegão: ele participou no álbum-tributo a Raul Seixas lançado em 2004 intitulado “O Baú do Raul: Uma Homenagem a Raul Seixas”, onde cantou a faixa “É Fim do Mês”.

Outro que veio reverenciar o mestre foi Fernando Catatau que juntamente com sua guitarra interpretou “Um Som Para Laio” e a grande “S.O.S.”. E o fundador do Cidadão Instigado não fez feio. Saiu bastante aclamado pelo público.

E o show chega à sua reta final com a, talvez, participação mais aguardado: Zé Geraldo. Contemporâneo de Raulzito, o compositor mineiro mandou “O Trem das Sete” e, antes de cantar “Medo da Chuva”, ele contou brevemente como conheceu Raul Seixas. E enquanto Zé cantava os primeiros versos de “Gita”, os demais vocalistas voltaram ao palco para que, de forma revezada, encerrassem a apresentação cantarolando a faixa-título do álbum de 1974.

O arranjador Xuxa Levy pediu para que os cantores permanecessem no palco, ou seja, o tradicional “bis” foi feito com os todos os músicos no palco. O produtor fez os agradecimentos, apresentou a banda e, quando todos se preparavam para tocar “Sociedade Alternativa”, a Choperia ficou alguns minutos sem energia, o que não impediu que Carneiro Sândalo tocasse sua bateria e o público, mesmo às escuras e à capella, cantasse o hino raulseixista. Com a energia reestabelecida, os demais foram ligando os instrumentos para que, todos, cantassem em uníssono a mística faixa.

E, para a tristeza dos fãs de Raulzito, como esse que vos escreve, o show termina pontualmente às 22h40. E o público vai se dispersando pela unidade com o gostinho de “quero mais”.

Para quem perdeu a apresentação dessa noite terá uma nova chance neste sábado (1º). Pois, haverá o segundo concerto em homenagem aos 40 anos de “Gita” na mesma unidade. Contudo, as compras de ingressos pela internet já foram encerradas. O ideal é verificar na bilheteria do Sesc Pompeia. Os valores dos ingressos são: R$ 6,00 (comerciário), R$ 15,00 (meia-entrada) e R$ 30,00 (inteira). Reforçando que a venda é limitada a quatro ingressos por pessoa e menores de 18 anos só podem adentrar na Choperia acompanhados dos pais ou responsáveis legais.

A seguir, o setlist do show “Gita – 40 Anos”.

1. Abertura: tema instrumental
2. Super Heróis (Raul Seixas / Paulo Coelho)
3. Sessão das Dez (Raulzito)
4. Não Pare Na Pista (Raul Seixas / Paulo Coelho)
5. Prelúdio (Raul Seixas)
6. Água Viva (Raul Seixas / Paulo Coelho)
7. Moleque Maravilhoso (Raul Seixas / Paulo Coelho)
8. As Aventuras de Raul Seixas na Cidade de Thor (Raul Seixas)
9. Loteria da Babilônia (Raul Seixas / Paulo Coelho)
10. Um Som Para Laio (Raul Seixas)
11. S.O.S. (Raul Seixas)
12. O Trem das Sete (Raul Seixas)
13. Medo da Chuva (Raul Seixas)
14. Gita (Raul Seixas / Paulo Coelho)
Bis:
15. Sociedade Alternativa (Raul Seixas / Paulo Coelho)

Por Jorge Almeida

Raul Seixas: 40 anos de “Gita”

"Gita": o maior sucesso comercial de Raul Seixas com mais de 600 mil cópias vendidas
“Gita”: o maior sucesso comercial de Raul Seixas com mais de 600 mil cópias vendidas

Já que hoje, 21 de agosto, marca o 25º aniversário da morte de Raul Seixas, aproveito a ocasião para escrever sobre o que, pelo menos para mim, é o seu maior clássico: “Gita”, o seu segundo “disco solo de verdade” e que, em 2014, chega aos 40 anos de seu lançamento. Produzido pelo amigo Marco Mazzola, o álbum é considerado o de maior sucesso da carreira de Raulzito, com mais de 600 mil cópias vendidas, o que rendeu ao compositor o seu primeiro disco de ouro.

Em 1974, Raul Seixas e Paulo Coelho criaram a tal da Sociedade Alternativa, uma sociedade que se baseava na ideologia do bruxo inglês Aleister Crowley. Inclusive, a tal Sociedade Alternativa tinha sede, papel timbrado, relatórios mensais e chegou até à aquisição de um terreno em Minas Gerais para a construção da “Cidade das Estrelas”, cuja comunidade viveria em apenas uma única lei: “faze o que tu queres, pois é tudo da lei”. E, em todo show, Raul Seixas divulgava como era essa Sociedade Alternativa durante a execução da música de mesmo nome. E esse objetivo da dupla em fazer essa “civilização” trouxe problemas com a ditadura. O DOPS prendeu Raul e Paulo Coelho por achar que a Sociedade Alternativa seria um movimento armado contra o Governo.

Depois de torturados, Raul Seixas, Paulo Coelho e suas esposas – Edith e Adalgisa Rios, respectivamente – foram exilados para os Estados Unidos. E durante a estadia deles na terra do Tio Sam, muitas histórias foram ditas, incluindo até um encontro entre o cantor e John Lennon, que ninguém sabe se, de fato, aconteceu.

No entanto, enquanto Seixas e Coelho permaneciam exilados, a Phillips lançou o álbum “Gita” aqui no Brasil. O LP fez tanto sucesso que a Ditadura foi forçada a trazê-los de volta. E, por conta da popularidade do álbum, Raul Seixas e Paulo Coelho foram convidados a compor a trilha sonora de “O Rebu”, novela da Rede Globo (que ganhou um remake recentemente) e também um álbum homônimo. Ainda em 1974, Raul se separa de Edith, que foi embora para os Estados Unidos com a filha do casal – Simone.

Ainda não conhecido como Maluco Beleza, Raul provoca a Ditadura Militar – que o forçou a se exilar nos EUA – ao posar para a capa do disco vestido de guerrilheiro com uma guitarra vermelha.

O álbum abre com a ‘blueseira’ “Super Heróis”, com letra sarcástica em que o cantor cita gente como Marlon Brando, Silvio Santos, Pelé e Emerson Fittipaldi. A segunda faixa é a ‘classuda’ “Medo da Chuva”. Na sequência, a bacana “As Aventuras de Raul Seixas na Cidade de Thor”, que o compositor aproveita para “cutucar” àqueles que o acusava de fazer pacto com o “tinhoso”. Em seguida, a poética “Água Viva”, cantada magistralmente por Raul. O quinto tema é “Moleque Maravilhoso”, no melhor estilo Frank Sinatra. O álbum chega à sua metade com a ‘boêmia’ “Sessão das Dez”, que na verdade é uma regravação que Raul Seixas fez da música que ele e seus “Kavernistas” gravaram no álbum “Sociedade da Grã-Ordem Kavernista Apresenta: Sessão das Dez”. E, curiosamente, é a única faixa que é creditada como “Raulzito”.

O lado 2 do álbum começa com a emblemática “Sociedade Alternativa”, que foi inspirada na obra de Crowley e fala do “mundo perfeito”, segundo Raul – o tal do “faça o que tu queres”. Posteriormente, o disco segue com outro clássico e emblemático tema: “O Trem das Sete”, que permite várias interpretações da música, inclusive a respeito da morte. Depois, surge a ótima “S.O.S” que, para este que vos escreve, é a melhor faixa de “Gita”. A canção seguinte é “Prelúdio” que, entre os raulseixistas, virou uma espécie de mantra – “sonho que se sonha só, é só um sonho que se sonha só, mas sonho que sonha junto vira realidade”. A penúltima faixa é “Loteria da Babilônia”, que passa a impressão de ter sido gravada ao vivo, mas na verdade foi feita em estúdio com palmas enxertadas. E, para finalizar, a música que dá título ao play: “Gita”, uma das canções mais populares de Raul Seixas, que foi inspirada em um livro sagrado hindu, o Bhagavad Gita, escrito há mais de seis mil anos.

O disco é um dos maiores clássicos da história da música brasileira (no geral, não apenas do rock nacional), pois traz verdadeiras obras-primas de Raul Seixas. Quase todas as faixas são conhecidas do grande público, mesmo que não é fã do cantor. Vai me dizer que você não conhece ou alguém que não conheça coisas como “Gita”, “Medo da Chuva”, “S.O.S” ou “O Trem das Sete”? Se a resposta for positiva, como diria o próprio Raul, “pare o mundo que eu quero descer”. Obrigatório.

A seguir, a ficha técnica e o tracklist de “Gita”.

Álbum: Gita
Intérprete: Raul Seixas
Lançamento: 1974
Gravadora: Phillips
Produtor: Marco Mazzola

Raul Seixas: voz, violão, guitarra e arranjos
Miguel Cidras: orquestração
Luis Cláudio, Rick Ferreira, Tony Osanah e Alexandre: guitarras
Neco e Tony Osanah: violões
Alexandre, Juan Roberto Capobianco, Sérgio Barroso, Ivan, Luizão e Paulo César Barros: baixo
Mamão, Paulinho e Gustavo: bateria
Zé Roberto, Miguel Cidras e Jay Vaquer: teclados

1. Super Heróis (Raul Seixas / Paulo Coelho)
2. Medo da Chuva (Raul Seixas / Paulo Coelho)
3. As Aventuras de Raul Seixas na Cidade de Thor (Raul Seixas)
4. Água Viva (Raul Seixas / Paulo Coelho)
5. Moleque Maravilhoso (Raul Seixas / Paulo Coelho)
6. Sessão das Dez (Raulzito)
7. Sociedade Alternativa (Raul Seixas / Paulo Coelho)
8. O Trem das Sete (Raul Seixas)
9. S.O.S (Raul Seixas)
10. Prelúdio (Raul Seixas)
11. Loteria da Babilônia (Raul Seixas / Paulo Coelho)
12. Gita (Raul Seixas / Paulo Coelho)

Por Jorge Almeida

 

Raul Seixas: 35 anos de “Por Quem Os Sinos Dobram”

"Por Quem Os Sinos Dobram": um dos trabalhos mais 'obscuros' da carreira de Raul Seixas
“Por Quem Os Sinos Dobram”: um dos trabalhos mais ‘obscuros’ da carreira de Raul Seixas

Aproveitando que hoje, 20 de agosto, está entre os 25 anos de lançamento de “A Panela do Diabo” e a data da morte de Raul Seixas – 21 de agosto -, resolvi comentar a respeito de outro disco do compositor baiano: o “esquecido” “Por Quem Os Sinos Dobram”, que completa em 2014, 35 anos de seu lançamento.

O álbum foi o terceiro lançado por Raul Seixas pela WEA e o nono de sua carreira. A produção foi assinada por Gastão Lamounier. O título do disco foi inspirado no filme homônimo (originalmente intitulado “For Whom The Bell Tolls”, que também inspirou o Metallica que gravou música de mesmo nome em “Ride The Lightning”) baseado em livro de Ernest Hemingway. E, depois de Paulo Coelho e Cláudio Roberto, o parceiro da vez foi o argentino Oscar Rasmussen, com quem Raul assina todas as faixas do play.

Após o fracasso de vendas de “Mata Virgem” e a separação de Tânia Menna Barreto, “Por Quem Os Sinos Dobram” foi composto em um momento complicado na vida pessoal de Raul Seixas. Como se não bastasse isso, houve um episódio em que seu nome foi parar nas páginas policiais por conta do assassinato de seu segurança dentro de seu apartamento. E, para piorar as coisas, ficou internado para tratar-se do alcoolismo e, inclusive, precisou retirar a metade do pâncreas. Precisou passar uns meses na casa dos pais na Bahia. Enfim, o genial Maluco Beleza entrava em depressão.

É evidente que, por conta de todos esses problemas, Raul Seixas não fez um trabalho inspirado. E, assim como o trabalho anterior, “Por Quem Os Sinos Dobram” não agradou parte de seus fãs por conta do direcionamento musical.

Os problemas enfrentados por Raul aliado às baixas vendagens do novo álbum fizeram com que o seu contrato com a gravadora fosse rescindido, mas pelo menos ele não saiu de “mãos abanando”, se é que podemos dizer assim: levou consigo a secretária de imprensa da gravadora, a carioca Ângela Affonso Costa, que ficou conhecida como Kika Seixas, sua quarta esposa.

Apesar de não ser um dos trabalhos mais populares de Raul Seixas, o disco traz algumas boas faixas, como o ‘quase-reggae’ “Ide A Mim Dada”, as excelentes “A Ilha da Fantasia”, “O Segredo do Universo” e a faixa-título. Particularmente, aprecio bastante a faixa “Movido a Álcool” e seu sensacional verso: “derramar cachaça em automóvel é a coisa mais sem graça em que já ouvi falar”. Fato.

Aliás, só para registrar: o disco ainda tem as participações do ‘mutante’ Sérgio Dias e dos irmãos Caymmi: Dori e Danilo.

O disco é recomendado para quem quiser, de fato, conhecer o “lado B” da obra de Raul Seixas, mas se você é daqueles que só aprecia os clássicos de sempre, é melhor deixar pra adquiri-lo depois.

A seguir, a ficha técnica e o tracklist do disco.

Álbum: Por Quem Os Sinos Dobram
Intérprete: Raul Seixas
Lançamento: 1979
Gravadora: WEA
Produtor: Gastão Lamounier

Raul Seixas: voz, guitarra e arranjos de base

Paulo César Barros: arranjos de base e baixo
Dori Caymmi: arranjos de base e violão
Danilo Caymmi: flauta
Oberdan Magalhães: sax
Dom Charlie: teclados
Picolé, Mamão e Pedrinho: bateria
Robson Jorge, Rick Ferreira e Sérgio Dias: guitarras

1. Ide A Mim Dada (Raul Seixas / Oscar Rasmussen)
2. Diamante de Mendigo (Raul Seixas / Oscar Rasmussen)
3. A Ilha da Fantasia (Raul Seixas / Oscar Rasmussen)
4. Na Rodoviária (Raul Seixas / Oscar Rasmussen)
5. Por Quem Os Sinos Dobram (Raul Seixas / Oscar Rasmussen)
6. O Segredo do Universo (Raul Seixas / Oscar Rasmussen)
7. Dá-lhe Que Dá (Raul Seixas / Oscar Rasmussen)
8. Movido a Álcool (Raul Seixas / Oscar Rasmussen)
9. Réquiem Para Uma Flor (Raul Seixas / Oscar Rasmussen)

Por Jorge Almeida

As bodas de prata de “A Panela do Diabo”, de Raul Seixas e Marcelo Nova

"A Panela do Diabo": último registro de Raul Seixas lançado em vida, feito em parceria com o conterrâneo Marcelo Nova
“A Panela do Diabo”: último registro de Raul Seixas lançado em vida, feito em parceria com o conterrâneo Marcelo Nova

O último trabalho de Raul Seixas lançado em vida completa hoje, 19 de agosto, 25 anos de seu lançamento. Refiro-me ao álbum “A Panela do Diabo”, um trabalho feito em parceria entre o Maluco Beleza e o seu amigo e conterrâneo Marcelo Nova. Gravado em março de 1989, o registro foi lançado a dois dias da morte de Raul. O disco trazia Raulzito de volta para a WEA.

Após fazer uma apresentação em dezembro de 1985, já separado de Kika Seixas, Raul, que vinha de uma fase difícil na carreira – esquecido pela mídia e pela indústria fonográfica – ficou quase três anos sem subir ao palco, quando fez uma participação especial em três shows de Marcelo Nova, em Salvador, em 1988. Mas, antes disso, a proximidade da dupla aconteceu em 1986, quando Marceleza gravou “Ouro de Tolo”, de Raul, no álbum “Correndo O Risco”, do Camisa de Vênus. No ano seguinte, Marcelo Nova convidou Raulzito para compor e cantar “Muita Estrela, Pouca Constelação”, uma música que fazia crítica à indústria do entretenimento e que fez parte do tracklist de “Duplo Sentido”, disco do Camisa de Vênus lançado em 1987.

Nesse intervalo – entre o show do final de 1985 à participação especial nos concertos de Marcelo Nova em 1988 -, Raul Seixas havia lançado os plays “Uah-Bap-Luh-Bap-Lah-Béin-Bum!”, que rendeu disco de ouro graças a “Cowboy Fora-da-Lei”, e “A Pedra do Gênesis”, que foi um fiasco comercial.

Apesar do insucesso dos últimos registros, em 1989, Raul Seixas partiu para uma série de apresentações juntamente com o, agora parceiro musical, Marcelo Nova. No entanto, nos shows era visível a saúde debilitada de Raul. Ele participava apenas da metade dos shows, enquanto a primeira parte era feita por Marceleza.

Então, os dois ainda fizeram algumas apresentações ao vivo para divulgar o novo trabalho, que estava em andamento, e, inclusive, apareceram em programas televisivos como Domingão do Faustão e Jô Soares Onze e Meia.

No registro de “A Panela do Diabo”, nota-se o desgaste na voz de Raul, que estava muito debilitado em virtude da pancreatite aguda. Aliás, a aparência do Maluco Beleza também preocupava: inchado, gordo, visivelmente cansado. Infelizmente, na manhã do fatídico 21 de agosto de 1989 Raul Seixas foi encontrado morto sobre a casa em seu apartamento em São Paulo. Seu corpo foi velado no mesmo dia no Palácio de Convenções do Anhembi e, no dia seguinte, foi levado para Salvador, onde foi sepultado às 17 horas no cemitério Jardim da Saudade.

Mas, voltando para o álbum, que, além de Marcelo Nova e Raul Seixas, trazia a banda Envergadura Moral (veja a ficha técnica abaixo) dando o suporte e também André Cristovam (guitarra), Ricky Ferreira (pedal steel), Luiz Bueno de Carvalho e Paulo Calazans (violões) e os vocais de Kris, Maria Eugênia e Fátima.

O LP abre com os dois “putos brothers”, como eles se auto-denominaram no encarte, cantando à capella um trecho de “Be-Bop-A-Lula”, de Gene Vincent.

Na sequência, a ótima “Rock And Roll”, um ‘boogie’ semibiográfico dos dois. Pois, depois do riff da abertura e da entrada dos outros instrumentos, Raul Seixas fala de seu passado (“eu imitava Little Richard e me contorcia…”) e Marcelo Nova, que entra na segunda parte, cantarola que não podia “aparecer na televisão porque a banda era nome de palavrão”, uma referência clara ao Camisa de Vênus. E que, no final, eles deixam claro que vão seguir fiéis ao rock até o fim e ainda cantam o verso de “Roll Over Beethoven”, de Chuck Berry. Grande música.

O terceiro tema é a peculiar “Carpinteiro do Universo”, que começa com um piano melancólico e Ricky Ferreira mandando bem no pedal steel. Apesar de ser uma música bastante querida pelos fãs, a balada é “prejudicada” parcialmente por conta de algumas desafinações por parte da dupla.

Posteriormente, vem a metafórica “Quando Eu Morri”, cantada apenas por Marcelo Nova. Nela, o ex-Camisa de Vênus é acompanhado apenas de violão, do Hammond e de um baixo. Curiosamente, o tema “morte” é lembrado apenas nas canções cantadas por Nova (além dessa, o assunto aparece na sua vez ao cantarolar um verso de “Rock And Roll”: “por aí que os sinos dobram… / Se são sinos da morte ainda não bateram para mim”).

E o LP encerra o lado A com “Banquete de Lixo”, com Raul Seixas cantando de forma rouca, enquanto Marceleza fazia o refrão junto com o parça. É uma letra interessante e autobiográfica. Uma vez que ela fala das internações de Raul, assim como o seu exílio nos Estados Unidos – a parte do banquete apresentada pelo palhaço é real, isso aconteceu em Nova York quando um mendigo lhe ofereceu comida e, por incrível que pareça, Raul Seixas adorou -, assim como é fato o trecho que diz “muitas mulheres eu amei com tantas outras me casei”, que faz referência aos seus cinco casamentos.

Virando o play, o lado B começa com a ótima “Pastor João e a Igreja Invisível”, um rock alegre e letra sarcástica, que “corneta” alguns charlatões que se aproveitam da fé das pessoas para enriquecerem utilizando o nome de Deus. O piano puxa o ritmo da canção e Johnny Boy arrebenta no solo de hammond. Talvez, para muitos, seja a melhor faixa do álbum, assim como pode ser considerado o último hino para os raulseixistas.

A faixa seguinte é “Século XXI”, que dá uma diminuída no andamento do álbum. Uma letra inteligente, mas uma pena que nos trechos em que a dupla canta junta soa desigual.

Já em “Nuit”, a mais pesada do disco. Raul a canta sozinho e, apesar das desafinadas, é uma boa música. Nela, o compositor se denomina como “eu sou um mistério do Sol”.

Em “Best Seller”, o tema seguinte, é outro bom rock e uma letra bem-humorada. Infelizmente, é nítida que as desafinações apresentadas por Raulzito é devido ao seu estado de saúde. E aqui, mais uma vez, a participação do Hammond é o ponto alto.

O play chega à sua reta final com “Você Roubou o Meu Videocassete”, que começa com Marcelo Nova cantando e depois aparece Raul. Confesso que é a mais sem graça do álbum, nem o solo de teclado se salva.

E, para encerrar o disco, “Câimbra No Pé”, que traz todas as características de uma música do Camisa de Vênus em função do uso de sintetizadores e da guitarra embalada. 

O LP “A Panela do Diabo” vendeu 150 mil cópias, rendendo a Raul Seixas um disco de ouro póstumo, entregue à sua família e também a Marcelo Nova. Embora a crítica da época tenha elogiado o álbum, talvez a morte de Raul tenha influenciado nisso.

Infelizmente, o disco marca a despedida de Raul Seixas. Morria o homem, cantor e compositor, mas nascia a partir desse momento o mito Raul Seixas que, merecidamente, é cultuado até hoje por fãs que, inclusive, muitos deles não tiveram a oportunidade de vê-lo vivo.

Quanto ao disco, é um bom registro e, claro, longe de clássicos como “Gitã”, “Novo Aeon” e “Krig-ha, Bandolo!”, mas como diria Marceleza no documentário “O Início, o Fim e o Meio”: “estamos falando de Raul Seixas!”.

Abaixo, a ficha técnica e o tracklist do play.

Álbum: A Panela do Diabo
Intérprete: Raul Seixas e Marcelo Nova
Lançamento: 19 de agosto de 1989
Gravadora: WEA
Produção: Putos Brothers: Pena Schmidt, Carlos Alberto Calazans, Marcelo Nova e Raul Seixas

Raul Seixas: voz
Marcelo Nova: voz e guitarra

André Cristovam: guitarra
Ricky Ferreira: guitarra e pedal steel
Paulo Calazans: violão
Luiz Bueno de Carvalho: violão de aço
Kris, Maria Eugênia e Fátima: backing vocals
Banda Envergadura Moral:
Johnny “Boy” Chaves: teclados
Carlos Alberto Calazans: baixo
Franklin Paolilo: bateria
Gustavo Mullem: guitarra

1. Be-Bop-A-Lula (Vincent / Davis)
2. Rock And Roll (Marcelo Nova / Raul Seixas)
3. Carpinteiro do Universo (Raul Seixas / Marcelo Nova)
4. Quando Eu Morri (Marcelo Nova)
5. Banquete de Lixo (Marcelo Nova / Raul Seixas)
6. Pastor João E A Igreja Invisível (Raul Seixas / Marcelo Nova)
7. Século XXI (Marcelo Nova / Raul Seixas)
8. Nuit (Raul Seixas / Kika Seixas)
9. Best Seller (Marcelo Nova / Raul Seixas)
10. Você Roubou Meu Videocassete (Raul Seixas / Marcelo Nova)
11. Câimbra no Pé (Raul Seixas / Marcelo Nova)

Por Jorge Almeida

Marcelo Nova e conjunto no Sesc Belenzinho (01.08.2014)

 

Marcelo Nova e o filho Drake executando clássicos do álbum "A Panela do Diabo" no Sesc Belenzinho. Foto: Rudner Ospedal Bueno
Marcelo Nova e o filho Drake executando clássicos do álbum “A Panela do Diabo” no Sesc Belenzinho. Foto: Rudner Ospedal Bueno

Esse mês de agosto será marcado pelas celebrações à memória (e obra) de Raul Seixas, cujo aniversário de morte completam-se 25 anos no próximo dia 21. E, para iniciar as honrarias ao compositor, o ponta-pé foi dado por seu conterrâneo e parceiro Marcelo Nova, que na noite desta sexta-feira (1º) no Sesc Belenzinho, juntamente com seu conjunto, tocou na íntegra o álbum “A Panela do Diabo”, o último trabalho de Raul em vida, feito em parceira com o ex-vocalista do Camisa de Vênus e que, em 2014, chega às bodas de prata.

Assim, às 21h30, subiram ao palco do Sesc Marcelo Nova (voz e guitarra) e seu conjunto formado por Drake Nova (guitarra), Leandro Della Molle (baixo) e Celinho Cadilac (bateria) para celebrar os 25 anos de “A Panela do Diabo”.

O show começa justamente com a faixa de abertura do disco, o cover de Gene Vincent And His Blues Caps, “Be-Bop-A-Lula”. A diferença é que, na época, Raul e Marceleza usaram o tema apenas como uma introdução e cantaram à capella apenas um trecho e, no concerto, o quarteto tocou a música na íntegra. Na sequência, uma avalanche de clássicos do disco de 1989: “Rock And Roll”, “Você Roubou Meu Videocassete” e “Best Seller”.

E, antes de executar a próxima canção, Marcelo Nova saudou o público e explicou como foi feito o processo de criação de algumas músicas do disco. Então, veio outro grande tema da dupla Seixas e Nova: “Carpinteiro do Universo”.

Depois, Marcelo Nova saiu do palco e os músicos de seu conjunto tocaram “Nuit”, música de “A Panela do Diabo” que teve apenas os vocais de Raul Seixas. Apesar do ex-líder do Camisa de Vênus não tê-la cantado, o público não se importou e tratou de resolver isso: quem sabia a letra, cantarolou a música sem problema algum.

Marceleza voltou ao palco e continuou a apresentação com “Século XXI”, “Quando Eu Morri”, que teve uma citação de “Banquete de Lixo”. Ele anunciou um dos momentos mais esperados da noite: segundo ele, o “hino da nossa Igreja” – “Pastor João e a Igreja Invisível”. Aí, meu amigo, não teve jeito, a galera cantou essa a plenos pulmões. E, em uma parte da música, o vocalista “benzia” seus súditos com água e, durante a parte instrumental, apresentou seus “pastores” e intitulou-se como “padre Marcelo!”. E ainda deu tempo para citar uns versos de “Cãimbra No Pé”, faixa de encerramento do disco derradeiro.

O show chegava em seus momentos finais, pois Marcelo Nova tratou logo de avisar que não teria bis e “toda essa frescura”, e permaneceu no palco. Em seguida, comentou sobre os “brasileiros de Copa” e que a solução para os problemas do Brasil era “11 pagodeiros para colocarem a bola no ‘filó’” e que próxima música que eles tocariam fora composta por Raul Seixas nos anos 1970 e que trata exatamente desse tipo de comportamento. Ele estava se referindo a “Se Não Fosse Cabral” (PS: embora Marcelo Nova tenha dito que a música foi composta por Raul nos anos 1970, ela foi lançada oficialmente no álbum “Raul Seixas”, de 1983).

Depois vieram “Cocaína”, mais um clássico raulseixista – “Aluga-se” -, um tema do Camisa de Vênus – “Hoje” – e, para finalizar, a primeira música que Marcelo Nova fez em parceria com Raul Seixas: “Muita Estrela, Pouca Constelação”, que faz parte do álbum “Duplo Sentido” (1987), do próprio Camisa de Vênus.

Assim, após uma hora e meia de concerto, Marcelo Nova e seu conjunto deixam o palco. E, definitivamente, o cantor baiano é o “herdeiro” rocker do maior roqueiro brasileiro de todos os tempos. Ou seja, se Raulzito era o pai do rock nacional, Marcelo Nova é o filho mais velho. Embora acredite que a maioria dos presentes no show já conhece o álbum “A Panela do Diabo”, a apresentação dessa noite serviu para os que ainda não conheciam o material tivessem a noção da importância desse clássico do rock tupiniquim. Grande show.

Abaixo, o setlist da apresentação.

1. Be Bop a Lula (Vincent / Davis)
2. Rock And Roll (Marcelo Nova / Raul Seixas)
3. Você Roubou Meu Videocassete (Raul Seixas / Marcelo Nova)
4. Best Seller (Marcelo Nova / Raul Seixas)
5. Carpinteiro do Universo (Raul Seixas / Marcelo Nova)
6. Nuit (Raul Seixas / Kika Seixas)
7. Século XXI (Marcelo Nova / Raul Seixas)
8. Quando Eu Morri (Marcelo Nova) / Banquete de Lixo (Marcelo Nova / Raul Seixas)
9. Pastor João e a Igreja Invisível / Cãimbra No Pé (Raul Seixas / Marcelo Nova)
10. Não Fosse o Cabral (Lewis / Versão: Raul Seixas)
11. Cocaína (Marcelo Nova)
12. Aluga-se (Raul Seixas / Cláudio Roberto)
13. Hoje (Marcelo Nova / Karl Hummel)
14. Muita Estrela, Pouca Constelação (Marcelo Nova / Raul Seixas)

Por Jorge Almeida