A biografia de Marky Ramone

Capa do livro de Marky Ramone, o lendário baterista dos Ramones
Capa do livro de Marky Ramone, o lendário baterista dos Ramones

Lançado no Brasil em 2015 através da Editora Planeta, “Minha Vida Como Um Ramone – Punk Rock Blitzkrieg” traz a biografia do lendário Marky Ramone, músico que assumiu por mais tempo as baquetas de uma das mais aclamadas bandas de rock da história, os Ramones. A obra, com cerca de 450 páginas e 21 capítulos e mais apêndice, foi escrita pelo baterista em conjunto com Rich Herschlag e, na versão em português, teve a tradução assinada por Alyne Azuma e a apresentação feita por Clemente Nascimento, integrante das bandas Inocentes e Plebe Rude.

O livro é bem “Ramone” mesmo, ou seja, rápido, básico, sem firulas e nem papas na língua e, em sua maior parte, narra a trajetória de Marky Ramone nos Ramones ao longo do tempo em que ficou na banda sob o seu ponto de vista, é lógico. O baterista relata desde como foi a sua entrada no lugar de Tommy Ramone, os TOCs e os problemas de Joey, as loucuras de Dee Dee, as opiniões reacionárias, extremamente de direita e o autoritarismo de Johnny Ramone e, evidentemente, a sua trajetória dentro do grupo.

A obra é descrita em ordem cronológica, sem necessariamente mencionar datas, e começa desde quando o pequeno Marc Bell (seu nome de batismo) se interessou pela música e as suas experiências, algumas frustradas, por diversas bandas, como Backstreet Boys (NÃO! Não é aquela “boy band” que estourou nos anos 1990), passando pelo Richard Hell e Dust até chegar aos Ramones.

Na primeira passagem pela banda nova-iorquina, Marky descreve os pormenores que aconteceram entre 1978 e 1983, as “tretas” entre eles, os empecilhos que tiveram com Phil Spector na produção do álbum “End Of Century” (1980). Mas o ápice desse trecho do livro é o momento em que Marky Ramone aborda os seus problemas com o alcoolismo e, consequentemente, o prejuízo que o vício lhe causou na banda. Para se ter uma ideia, o baterista chegou a perder um show porque ficou no hotel, bêbado, e o seu estado de embriaguez foi notado pelo piloto de um avião fretado pelo empresário do grupo que recusou a levá-lo até o local do concerto seguinte.

O músico caiu em si e percebeu que ele era o problema e resolveu se tratar ao seguir os passos dos Alcoólatras Anônimos. Depois da recuperação, Marky voltou aos Ramones e descreveu sobre a saída de Dee Dee e a entrada de C.Jay Ramone, o fim do grupo. Mas também não deixou de destacar a gratidão e o reconhecimento do público sulamericano, especialmente argentino e carioca, para com o grupo.

Na parte final da obra, Marky Ramone fala sobre as mortes de Joey, Dee Dee e Johnny Ramone, a frustração de Joey não ter conseguido com que a banda lançasse um single de sucesso, e os seus projetos pós-Ramones. Todavia, o livro deixa o recado de que ele cumpriu o seu papel e a sua importância de ter sido parte de uma das maiores bandas da história do rock.

O livro é mais do que recomendado para os apreciadores do punk rock e, principalmente, fãs dos Ramones (a banda, e não a “grife”). Mais que recomendo.

Livro: Minha Vida Como Um Ramone – Punk Rock Blitzkrieg
Autores: Marky Ramone com Rich Herschlag
Editora: Planeta
Ano de lançamento: 2015
Número de páginas: 447
Preço médio: de R$ 40,00 a R$ 50,00

Por Jorge Almeida

 

 

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Ramones: 30 anos de “Too Tough To Die”

"Too Tough To Die": o disco "Heavy Metal" dos Ramones
“Too Tough To Die”: o disco “Heavy Metal” dos Ramones

Ontem, 1º de outubro, o álbum “Too Tough To Die”, dos Ramones, completou 30 anos de seu lançamento. O disco marcou a estreia do baterista Richie Ramone na banda no lugar de Marky Ramone e também o retorno de Thomas Ederlyi (o Tommy Ramone) na produção de um trabalho do grupo (o ex-baterista fez a co-produção do play com Ed Stasium).

Entre agosto de dezembro de 1983 os Ramones ficaram sem fazer shows. Esse foi o período mais longo que a banda ficou sem tocar ao vivo. O fato se deve ao episódio em que Johnny Ramone se envolveu em uma briga em 15 de agosto. O guitarrista estava em um bar, viu uma garota aparentemente bêbada e foi oferecer ajuda. Porém, para azar dele, o suposto namorado da bêbada o recepcionou com socos, chutes e pontapés na cabeça e precisou parar no hospital para realizar uma complicada cirurgia no cérebro. Johnny esteve entre a vida e a morte em virtude da fratura que sofreu no crânio.

Após a recuperação de Johnny, os integrantes voltaram a sair juntos e, nas turnês, resolveram excursionar sem levar namoradas ou esposas. O incidente brutal envolvendo o guitarrista foi o motivo para tirar o nome do álbum. “Too Tough To Die” significa algo como “Muito durão para morrer”. O título foi dado por Dee Dee em homenagem a Johnny.

Para a gravação do oitavo álbum, os Ramones não estavam preocupados em emplacar um hit e resolveram apostar em uma sonoridade mais pesada, com direito a uso de teclados e sintetizadores, uma vez que o som mais pop dos trabalhos mais recentes não deu à banda o retorno que esperavam.

O disco pode ser considerado um triunfo pessoal de Dee Dee Ramone, já que nove das 13 faixas que compõem o álbum são de sua autoria (algumas em co-autoria com Johnny), além dele cantar dois temas: “Wart Hog” e “Endless Vacation”. Foi a primeira vez que o baixista fez voz solo em músicas inteiras nos Ramones. O restante das faixas trazem duas assinadas por Joey, uma por Richie e outra por Johnny Ramone.

A foto da capa, que mostra as silhuetas dos integrantes da banda escuras e no fundo com iluminação azul e névoa de gelo seco em que eles estão lado a lado debaixo de um arco de passagem subterrânea, foi feita pelo artista George DuBose em um metrô no Central Park, em Nova York. A ideia da capa, de acordo com DuBose, partiu de Johnny Ramone que queria uma imagem que associava à gangue do filme “Laranja Mecânica” (1971), de Stanley Kubrick. Assim, a fotografia da capa remete à sequência em que Alex e seus ‘droogs’ vão atacar um homem.

O processo de gravação de “Too Tough To Die”, que foi realizado no verão de 1984 no Sound Studios, em Nova York, foi com a mesma técnica utilizada para gravar o seu ‘debut’, de 1976, ou seja, praticamente ao vivo no estúdio. Além disso, o estilo lírico e de composição retomaram a banda às suas raízes, deixando de lado, pelo menos parcialmente, a musicalidade pop que predominou nos últimos trabalhos.

A sonoridade apresentada no álbum, com grandes riffs, agradou parte da crítica. Contudo, as vendas do play foram baixas, levando ao 171º lugar na Billboard 200.

Quanto ao tracklist, o disco traz 13 temas no melhor estilo ramônico, mas com direcionamento que mescla hardcore punk e beira o Heavy Metal.

Entre os destaques do play estão a faixa de abertura – “Mama’s Boy” -, a faixa-título, “Daytime Dilemma (Dangers Of Love)”, que marca a estreia de Daniel Rey no processo de co-autoria com os integrantes da banda, especialmente Dee Dee, e os dois temas cantarolados pelo baixista: as hardcores “Wart Hog” e “Endless Vacation”. Vale uma menção honrosa a “Durango 95”, o primeiro tema instrumental gravado pelos Ramones. O nome da música é referente ao carro conduzido no filme “Laranja Mecânica”. Inclusive, a instrumental passou a fazer parte da abertura dos shows dos Ramones até o fim da banda, em 1996.

Em 2002, o álbum foi lançado em edição remasterizada e expandida que trazia mais 12 faixas, entre demos e lados B’s, incluindo aí temas com versões que apresentavam o vocal de Dee Dee Ramone.

Embora não tenha sido um dos trabalhos mais vendidos dos Ramones, “Too Tough To Die” foi um dos melhores trabalhos lançados pelos reis do punk rock nos anos 1980 (particularmente, acho que só perde para “Brain Drain”, de 1989). Pois trata-se, praticamente, de um disco de Heavy Metal (aliás, ele é mais “metal” do que alguns trabalhos lançados por bandas “de metal”). Mais que recomendo.

Abaixo, a ficha técnica e o tracklist (da versão expandida) do disco.

Álbum: Too Tough To Die
Intérprete: Ramones
Lançamento: 1º de outubro de 1984
Gravadora: Sire Records / Beggars Banquet Records
Produtores: Tommy Ramone / Ed Stasium / David A. Stewart (apenas em “Howling At The Moon”)

Joey Ramone: voz
Johnny Ramone: guitarra
Dee Dee Ramone: baixo, backing vocal e voz
Richie Ramone: bateria e backing vocal

Walter Lure: guitarra extra (em algumas faixas)
Jerry Harrison: sintetizador em “Chasing The Night
Bem Tench: teclados em “Daytime Dilemma (Dangers Of Love)

1. Mama’s Boy (Johnny Ramone / Dee Dee Ramone / Tommy Ramone)
2. I’m Not Afraid Of Life (Dee Dee Ramone)
3. Too Tough To Die (Dee Dee Ramone)
4. Durango 95 (Johnny Ramone)
5. Wart Hog (Dee Dee Ramone / Johnny Ramone)
6. Danger Zone (Dee Dee Ramone / Johnny Ramone)
7. Chasing The Night (Busta Cherry Jones / Joey Ramone / Dee Dee Ramone)
8. Howling At The Moon (Sha-La-La) (Dee Dee Ramone)
9. Daytime Dilemma (Dangers Of Love) (Joey Ramone / Daniel Rey)
10. Planet Earth 1988 (Dee Dee Ramone)
11. Humankind (Richie Ramone)
12. Endless Vacacion (Dee Dee Ramone / Johnny Ramone)
13. No Go (Joey Ramone)
Faixas bônus:
14. Street Fightning Man (Jagger / Richards)
15. Smash You (Richie Ramone)
16. Howling At The Moon (Sha-La-La) (Demo version) (Dee Dee Ramone)
17. Planet Earth 1988 (Dee Dee vocal version) (Dee Dee Ramone)
18. Daytime Dilemma (Dangers Of Love) (demo version) (Joey Ramone / Daniel Rey)
19. Endless Vacation (demo version) (Dee Dee Ramone / Daniel Rey)
20. Danger Zone (Dee Dee vocal version) (Dee Dee Ramone / Johnny Ramone)
21. Out Of Here (Ramones)
22. Mama’s Boy (demo version) (Johnny Ramone / Dee Dee Ramone / Tommy Ramone)
23. I’m No An Answer (Ramones)
24. Too Tough To Die (Dee Dee vocal version) (Dee Dee Ramone)

25. No Go (demo version) (Joey Ramone)

Por Jorge Almeida

Morre Tommy Ramone

Tommy Ramone: baterista da formação original dos Ramones em imagem dos anos 1970. Foto: divulgação
Tommy Ramone: baterista da formação original dos Ramones em imagem dos anos 1970. Foto: divulgação

Tommy Ramone, baterista da primeira (e clássica) formação dos Ramones, morreu aos 62 anos (alguns veículos apontam que ele tinha 65 anos) na noite desta sexta-feira (11), em casa, no Queens, em Nova York. O músico lutava contra um câncer biliar. Tommy foi o último integrante da line-up inicial dos Ramones a falecer.

Filho de judeus, Erdélyi Tamas (nome de batismo de Tommy) nasceu em Budapeste, na Hungria. Ainda criança, sua família imigrou-se para os Estados Unidos, onde cresceu em Forrest Hills, em Nova York. Na adolescência, tocou em bandas como Tangerine Puppets com John Cummings que, futuramente, seria conhecido como Johnny Ramone.

Já adulto, enquanto trabalhava no Performance Studios (sua paixão), conheceu um trio formado por Joey (bateria e voz), Dee Dee (baixo e voz) e Johnny (guitarra). Eram os Ramones. Com a sua noção mais apurada em relação aos demais, Thomas Erdelyi (como era conhecido por lá) aconselhou que Joey (que não conseguia tocar bateria e cantar ao mesmo tempo) assumisse o posto de vocalista, propôs também que Dee Dee tocasse baixo e fizesse os backing vocals e ainda sugeriu que eles procurassem mais um integrante para assumir as baquetas da banda que estava a nascer. Então, antes dos testes, Thomas procurava mostrar aos candidatos qual era a pegada do grupo. No entanto, o trio não gostou de nenhum deles. Foi aí que eles perceberam que Erdelyi era o cara ideal para o cargo. Assim, adotou o nome artístico de Tommy Ramone e entrou no grupo.

E, com essa formação – Joey Ramone (voz), Dee Dee Ramone (baixo e backing vocal), Johnny Ramone (guitarra) e Tommy Ramone -, os Ramones fizeram o seu primeiro show no próprio Performance Studios a 30 de março de 1974. Depois, o grupo marcou presença constante na lendária casa noturna CBGB’s. As performances do quarteto chamaram atenção da Sire Records que, em 1975, assinou um contrato de cinco anos com o grupo.

Com os Ramones, Tommy gravou os álbuns “Ramones” (1976), “Leave Home” e “Rocket To Russia” (ambos de 1977 e que tiveram o baterista como co-produtor). Mas ele gostava mesmo era dos estúdios e não das constantes viagens que o grupo fazia. Dessa forma, saiu amigavelmente. Tommy ainda participou das gravações dos álbuns “It’s Alive” (1979), gravado ao vivo na virada de Ano Novo de 1977 para 1978, e o póstumo “NYC 1978” (2003). Em 1978, Tommy Ramone foi sucedido pelo ex-Dust Marc Bell que, obviamente, virou Marky Ramone.

Mesmo assim, ele não ficou totalmente separado dos Ramones, uma vez que trabalhou na produção de alguns trabalhos da banda, como o “Road To Ruin” (1978) e “Too Tough To Die” (1984).

Apesar de terem assinados todas as faixas em conjunto nos primeiros álbuns (exceto os covers evidentemente), Tommy Ramone revelou no documentário “Ramones RAW” (2004), em uma espécie de “faixa-a-faixa”, quais temas que, de fato, cada integrante escreveu. O baterista revelou, por exemplo, que ele era o co-autor de “Blitzkrieg Bop” e o principal compositor de “I Wanna Be Your Boyfriend”, ambas presentes no ‘debut’ do grupo. Além dessas, Tommy colaborou na faixa “Mama’s Boy”, tema de abertura do disco “Too Tough To Die”.

Além dos Ramones, Tommy produziu, na década de 1980, o disco de estreia dos Replacements, “Tim” (1985) e também o álbum “Neurotica” (1987), de Redd Kross. Nos últimos anos, o músico e produtor vinha trabalhando com sua esposa Claudia Tienan no Uncle Monk, projeto voltado para trabalhos acústicos e música country.

Depois de sua saída dos Ramones, em 1978, a banda prosseguiu na ativa até 1996. E, ao longo dos primeiros anos do século XXI, os integrantes do grupo foram sucumbindo. Primeiro foi Joey, com linfoma em 2001. No ano seguinte foi a vez de Dee Dee Ramone, vítima de uma overdose acidental de heroína. Em 2004, Johnny Ramone não resistiu a um câncer de próstata. Finalmente, neste 11 de julho de 2014, foi a vez do lendário Tommy Ramone se juntar aos companheiros de banda no plano celestial.

O co-fundador de uma das bandas mais influentes da história do rock deixa mulher e irmão. Seu enterro será reservado para familiares e amigos próximos.

Aliás, conforme bem lembrou o locutor da rádio Kiss FM, Rodrigo Branco, os Ramones “deve ser o único caso da história de uma banda de sucesso que 40 anos depois não existe mais nenhum membro original vivo”. Inclusive, dentre os demais integrantes que passaram pelo grupo, seguem vivos Marky, Richie, Elvis (que teve curtíssima passagem em 1987) e C.J. Ramone.

E, ao contrário da duração de suas músicas, que geralmente não ultrapassavam os três minutos, o legado deixado pelo quarteto nova-iorquino dos Ramones será eterno.

Descanse em paz, Tommy.

“Gabba Gabba, Hey!”.

Por Jorge Almeida

Ramones: 20 anos de “Acid Eaters”

Acid Eaters: álbum lançado pelos Ramones totalmente composto por covers
Acid Eaters: álbum lançado pelos Ramones totalmente composto por covers

Costumeiramente digo à exaustão que os Ramones sempre foram a melhor banda cover do mundo (se bem que o Metallica também manda bem pra caramba em seus covers). Ou seja, suas versões de temas de outros artistas eram matadoras e os caras faziam de um jeito tão autêntico, que pareciam mais ser uma música de Joey Ramone e seus ‘parças’. E, em alguns casos, eram melhores que as versões originais. Afinal, os covers não são nenhuma novidade para os Ramones. Até porque em quase em toda a sua discografia, sempre havia pelo menos uma regravação em cada álbum lançado (acredito que apenas uns dois ou três álbuns são de trabalhos 100% autorais). “Let’s Dance”, “California Sun”, “Surfin’ Bird” (o melhor cover de todos os tempos, pelo menos para mim!), “Do You Wanna Dance?”, “Needles & Pins” são apenas alguns exemplos de como os caras eram bons em “coverizar”.

E essa minha concepção a respeito dos punks novaiorquinos pode ser conferida com mais afinco em “Acid Eaters”, décimo terceiro álbum de estúdio da banda lançado em dezembro de 1993, que é inteiramente constituído de covers.

Depois de um estrondoso sucesso de “Mondo Bizarro”, que foi sucesso de crítica e vendas, a banda estava em alta. Considerada uma das melhores faixas do álbum de 1992, a versão ramônica de “Take It As It Come” motivou a gravadora a solicitar que o grupo fizesse um álbum inteiramente com músicas dos anos 1960, deixando o cover dessa música dos Doors no lado A. O projeto se arrastou por quase dois anos e a gravadora, então, propôs alguns temas para a banda regravar e, dessa forma, cada ramone escolheu as músicas que mais gostavam e que gostariam de regravar. Assim, o álbum inteiro foi elaborado com músicas do final dos anos 1960, época que mais influenciaram Joey e Johnny Ramone.

Algumas canções escolhidas como “Substitute”, do The Who, “Somebody To Love”, gravada originalmente por The Great Society, mas que ficou popularizada com o Jeferson Airplane, e “I Can´t Control My Self”, do The Troggs, já haviam sido regravadas anteriormente por bandas como Sex Pistols, Agent Orange e Buzzcocks, respectivamente. Além disso, os Ramones escolheram algumas faixas obscuras de bandas consagradas, tais como “Out Of Time”, dos Rolling Stones, e “When I Was Young”, do The Animals.

O álbum abre com “Journey To The Center Of The Mind”, dos The Amboy Dukes, com os vocais de C.J. Ramone, que estava com prestígio na banda. Na sequência, uma versão matadora para um clássico do The Who: “Substitute”, que teve a participação do próprio Pete Townshend nos backing vocais. Além da gravação, o guitarrista do The Who apareceu no videoclipe da música, assim como a lenda Lemmy Kilmister. O terceiro tema é “Out Of Time”, uma faixa obscura da vasta discografia dos Rolling Stones, mas Joey Ramone faz uma ótima interpretação. E C.J. volta aos vocais novamente para o cover do Max Frost And The Troopers, que é “Shape Of Things To Come”, mais uma bela performance do baixista. A quinta música é “Somebody To Love”, popularizada com o Jeferson Airplane e que aqui Joey divide os vocais com a ex-atriz pornô Tracy Lords. E “Acid Eaters” chega à sua metade com “When I Was Young”, do The Animals, que ficou tão “ramônica”, que se não aparecesse os nomes dos autores nos créditos, poderia ser considerada facilmente uma música da banda.

A segunda metade do disco começa com um cover do Love – “7 And 7 Is” -, que foi escolhida por Marky Ramone. Confesso que essa é um dos (poucos) pontos baixos do álbum. Em seguida, uma releitura para “My Back Pages”, de Bob Dylan, em que C.J. (novamente!) apresenta um excelente desempenho vocal e justifica o seu prestígio com os demais componentes. A nona canção do álbum é “Can’t Seem To Make You Mine”, dos The Seeds, que é uma faixa menos “brilhosa” em relação às demais, valeu pela homenagem histórica. Em contrapartida, a faixa seguinte, “Have You Ever Seen The Rain?” recompensa. E foi o substituto de Dee Dee Ramone quem escolheu o “hit master” do Creedence Clearwater Revival. A penúltima canção do álbum é “I Can’t Control Myself”, dos Troogs, e que se fosse lançada em “Mondo Bizarro”, todo mundo pensaria que era faixa dos Ramones. E, para encerrar, “Surf City”, de Jan And Dean. A banda chegou a tocar essa música em seus concertos no início dos anos 1980 e está fortemente associada à influência que a Surf Music tem na banda, vide também a clássica “Rockaway Beach”.

A versão de “Acid Eaters” em vinil, lançada em 1997, trazia as mesmas faixas, porém, em ordem diferente à edição de 1994. Além disso, a versão japonesa do álbum, trazia o cover dos Beach Boys, “Surfin’ Safari”.

Mesmo que os atributos que o faz um grande álbum, infelizmente, “Acid Eaters” foi lançado no momento errado. Pois, naquela época, os EUA estavam no momento pós-grunge, que clamavam por canções ramônicas, ou seja, “rápido, básico e sem firulas”, enquanto bandas como The Offspring e Green Day estouravam comercialmente.

De fato, “Acid Eaters” não é o melhor trabalho dos Ramones, está muito longe de um “Ramones”, “Rocket To Russia” ou “Brain Drain”, mas não podemos deixar de reconhecer que o disco demonstrou o amadurecimento dos eternos pais do Punk Rock, além de conhecermos as suas influências.

Abaixo, a ficha técnica e o tracklist do play.

Álbum: Acid Eaters
Intérprete: Ramones
Lançamento: dezembro de 1993
Gravadora: Radioactive Records
Produtor: Scott Hackwith

Joey Ramone: voz
Johnny Ramone: guitarra
C. Jay Ramone: baixo e voz solo em “Journey To The Center Of The Mind”, “The Shape Of Things To Come” e “My Back Pages
Marky Ramone: bateria

Pete Townshend: backing vocal em “Substitute
Sebastian Bach: backing vocal em “Out Of Time
Traci Lords: backing vocal em “Somebody To Love
Joe McGinty: teclados

1. Journey To The Center Of The Mind (Nugent / Farmer)
2. Substitute (Townshend)
3. Out Of Time (Jagger / Richards)
4. The Shape Of Things To Come (Mann / Weil)
5. Somebody To Love (Slick)
6. When I Was Young (Burdon/Weider/Briggs/McCulloch/Jenkins)
7. 7 And 7 Is (Lee)
8. My Back Pages (Dylan)
9. Can’t Seem To Make You Mine (Saxon)
10. Have You Ever Seen The Rain? (Forgety)
11. I Can’t Control Mysel (Presley)
12. Surf City (Wilson / Berry)
Faixa bônus:
13. Surfin’ Safari (Wilson / Love)

Por Jorge Almeida

Ramones: 35 anos de “Road To Ruin”

Road To Ruin: álbum que marca a estreia de Marky Ramone na baqueta dos Ramones
Road To Ruin: álbum que marca a estreia de Marky Ramone na baqueta dos Ramones

No último dia 21 de setembro, o álbum “Road To Ruin”, dos Ramones, fez 35 anos de seu lançamento. O registro marcou a estreia de Marc Bell, que virou Marky Ramone, obviamente, na banda. O ex-Dust substituiu Tommy Ramone na bateria. Além disso, o disco traz outra peculiaridade: foi o primeiro trabalho do grupo com música que ultrapassou os três minutos de duração.

O último registro de Tommy como integrante da banda foi na gravação de um concerto que ocorreu no dia 31 de dezembro de 1977 no Rainbow Theatre, em Londres. Esse show, um ano depois de sua realização, foi lançado como “It’s Alive” (1979), o primeiro trabalho ao vivo dos Ramones e que trazia 28 temas ramônicos intercalados pelos famosos berros “one, two, three, four!” de Dee Dee Ramone. A saída do baterista foi de forma amigável e, inclusive, a principal causa de seu desligamento foi pelo fato de que Tommy estava saturado das longas turnês que os Ramones vinham fazendo. Então, ele dedicou-se à produção de discos, inclusive o próprio “Road To Ruin” e “Too Tough To Die”, e passou a assinar com o seu nome verdadeiro: Tommy Ederlyi.

Com Marky assumindo o posto de baterista em maio de 1978 e, algumas semanas depois, entrou juntamente com Joey, Johnny e Dee Dee Ramone, no estúdio Media Sound, em Nova York, para dar início às gravações do quarto álbum de inéditas da banda punk, cujas seções duraram até junho do mesmo ano. A primeira apresentação com o novo integrante aconteceu em 29 de junho de 1978, logo após a gravação do disco. Então, os Ramones realizaram cerca de 160 shows para a divulgação do álbum.

No final daquele ano, começaram as filmagens de “Rock ‘N’ Roll High School”, um filme produzido em 1979 produzido por Roger Corman e que teve a participação dos Ramones. Porém, o (pouco) dinheiro que a banda recebeu durante as gravações do filme, em Los Angeles, não era suficiente para pagar a conta do hotel. Então, para compensar o “preju”, o quarteto faziam shows em cidades próximas.

Quanto a “Road To Ruin”, ele soou mais pop em relação aos trabalhos anteriores e também é nítida a influência dos grupos sessentistas, em especial os femininos, em músicas como “Don’t Come Close”. E claro que o disco não poderia ficar sem o seu cover. Dessa vez, a música “coverizada” pelos Ramones foi a balada “Needles And Pins”, composta pela dupla Jack Nitzche e Sonny Bono, e que foi gravada primeiramente por Jackie de Shannon em 1963. O disco é recheado de boas músicas, como as citadas anteriormente, e também a faixa que abre o disco (“I Just Want To Have Something To Do”), “I Don’t Want You”, “I’m Against It”, que foi regravada pela banda Overkill em seu álbum de covers intitulado “Coverkill” (1999), a empolgante “She’s The One”, “Bad Brain”, faixa que inspirou os, então, desconhecidos Mind Power a mudarem o nome que dá título à canção, porém, com o substantivo (“brain” = “cérebro”) no plural. E, sem deixar de destacar o clássico “I Wanna Be Sedated”, que, de longe, é a música mais conhecida de “Road To Ruin” e um dos maiores clássicos dos Ramones.

A capa do álbum foi ilustrada por John Homstron, da revista Punk. Vale destacar que o vinil editado nos Estados Unidos foi prensado da forma tradicional, ou seja, na cor preta, enquanto no Reino Unido, o material foi prensado em vinil amarelo transparente.

A versão original dos EUA do álbum foi prensado em vinil preto tradicional, enquanto que a versão original no Reino Unido foi prensado em vinil amarelo transparente.

Em 2001, “Road To Ruin” foi relançado com cinco faixas bônus. Duas delas – “I Want You Around” e “Rock ‘N’ Roll High School” – foram remixadas por Ed Stasium e lançadas anteriormente na trilha sonora de “Rock ‘N’ Roll High School” (1979) e na coletânea dupla “Hey Ho! Let’s Go! Ramones Anthology” (1999), enquanto “Come Back, She Cried A.K.A. I Walk Out” foi gravada em uma demo de “Road To Ruin”, “Yea, Yea” foi gravada durante as sessões de “Pleasant Dreams” (1981), mas já havia sido lançada na coletânea “All The Stuff (And More) – Volume 2” (1991) e, finalmente, o medley “Blitzkrieg Bop / Teenage Lobotomy / California Sun / Pinhead / She’s The One” também consta no tracklist na trilha sonora do filme.

Assim como os três primeiros trabalhos dos Ramones, esse também é obrigatório para quem quiser conhecer melhor o mundo “ramônico” de Joey Ramone e camaradas. Fica a dica.

Abaixo, a ficha técnica e o tracklist desse clássico do rock.

Álbum: Road To Ruin
Intérprete: Ramones
Lançamento: 21 de setembro de 1978
Gravadora: Sire / Warner Bros.
Produtores: Tommy Ederlyi e Ed Stasium

Joey Ramone: voz
Johnny Ramone: guitarra
Dee Dee Ramone: baixo e backing vocal
Marky Ramone: bateria

1. I Just Want To Have Something To Do (Ramones)
2. I Wanted Everything (Ramones)
3. Don’t Come Close (Ramones)
4. I Don’t Want You (Ramones)
5. Needles And Pins (Bono / Nitzsche)
6. I’m Against It (Ramones)
7. I Wanna Be Sedated (Ramones)
8. Go Mental (Ramones)
9. Questioningly (Ramones)
10. She’s The One (Ramones)
11. Bad Brain (Ramones)
12. It’s A Long Way Back (Ramones)
Bônus:
13. I Want You Around (Ed Stasium Version) (Ramones)
14. Rock ‘N’ Roll High School (Ed Stasium Version) (Ramones)
15. Blitzkrieg Bop/Teenage Lobotomy/California Sun/Pinhead/She’s The One (Ramones / Glover & Levy)
16. Come Back, She Cried A.K.A. I Walk Out (demo) (Ramones)
17. Yea, Yea (demo) (Joey Ramone)

Por Jorge Almeida

Ramones: 30 anos de “Subterranean Jungle”

Capa de Subterranean Jungle: Marky Ramone aparece isolado dos demais 'ramones'.
Capa de Subterranean Jungle: Marky Ramone aparece isolado dos demais ‘ramones’.

Há cerca de 30 anos, os Ramones lançaram o seu sétimo álbum de estúdio. Trata-se de “Subterranean Jungle”, que foi gravado em dezembro de 1982 no Estúdio Kingdom Sound, em Syott, Long Island, Nova York e teve a produção assinada por Ritchie Cordell e Glen Kolotkin.

Lançado em 24 de fevereiro de 1983, o álbum marca a despedida de Marky Ramone (antes da volta em 1987) e também a estreia de Dee Dee Ramone como voz principal em uma canção dos Ramones. O que tornou-se rotineiro nos trabalhos posteriores até a sua saída em 1989. Antes disso, o baixista fazia os backing vocals, cantava pequenos trechos de alguns temas – como “53rd & 3rd” – e os famosos “one, two, three, four!”.

Depois da insatisfação causada por “Pleasant Dreams”, as coisas não iam bem nos Ramones. Com Johnny “chefiando” a parte burocrática do grupo (organizando setlist, cachê, agenda de shows, etc.) e sem contribuir nas composições – apesar de ter seu nome creditado em “Psycho Therapy”, foi Dee Dee quem escreveu a música inteira -, além disso, havia os problemas que o baterista Marky Ramone vinha enfrentando com o alcoolismo.

Durante a pré-produção do álbum, a situação ficou insustentável para Marky, que acabou saindo do grupo para se tratar do vício em uma clínica de reabilitação. Para se ter uma ideia, o baterista chegou a faltar em shows. E, se repararmos bem, o substituto de Tommy Ramone aparece separado dos demais integrantes da banda na capa do disco, deixando nítida a sua insatisfação.

Para a conclusão do disco, os Ramones estavam à procura de um novo baterista. O primeiro foi Billy Rogers, que acabou tocando bateria em “Time Has Come Today”, mas não ficou na banda. Para o posto foi recrutado Richard Reinhardt que, obviamente, virou Richie Ramone. Aliás, o novo baterista aparece nos clipes de “Psycho Therapy” e “Time Has Come Today”.

E foi a partir de “Subterranean Jungle” que os punks nova-iorquinos passaram a ter a colaboração de Walter Lure, que tocou com Johnny Thunders & The Heartbreakers, como um “segundo” guitarrista. Lure foi quem gravou os solos nas músicas gravadas em “Too Tough To Die” (1984) e “Animal Boy” (1986), além de “Subterranean…”. Apesar de Johnny Ramone ser um mestre nos três acordes, ele pecava nas ocasiões em que a sonoridade “pedia” solos de guitarra.

Ao contrário do trabalho anterior, em que Joey foi o grande compositor, “Subterranean Jungle” apresentou Dee Dee como o principal letrista dos Ramones. Uma vez que, dos 12 temas lançados, o baixista assinou seis, enquanto o vocalista foi o autor de outras três. Além disso, diferentemente de “Pleasant Dreams”, que foi a primeira obra ‘ramônica’ sem canções de outros artistas, o registro de 1983 apresenta três covers (!), totalizando, assim, as 12 músicas.

Capa do álbum-tributo dos Tip Toppers em homenagem aos Ramones
Capa do álbum dos Tip Toppers que homenageiam os Ramones

O álbum começa com “Little Bit O’ Soul”, um cover do The Music Explosion, originalmente gravado em 1967.

Na sequência, outro cover, “I Need Your Love”, que pertence ao grupo The Boyfriends.

A terceira faixa é “Outsider”, que tem Dee Dee Ramone cantando o refrão. A música foi regravada pelo Greenday no single de “Warning”, de 2000, e incluída na coletânea “Shenanigans” (2002) e no álbum-tributo aos Ramones: “We’re A Happy Family: A Tribute To Ramones” (2003).

Em seguida vem “What’d Ya Do?” – regravada pelos suecos do The Hellacopters no tributo “The Song Ramones The Same”, “Highest Trails Above” e “Somebody Like Me”, três músicas que não empolgam tanto.

Na época do LP, o lado B começava justamente com o “carro-chefe” do disco, enquanto isso no CD, é a sétima faixa. Trata-se de “Psycho Therapy”, grande clássico. Considerada uma das melhores canções dos Ramones nos anos 1980. Vale a pena também conferir o videoclipe dessa música, em que os integrantes da banda aparecem em um manicômio ao lado de figurantes travestidos de internos do estabelecimento. O tema já foi gravado pelo Skid Row, em seu EP “B-Sides Ourselves” (1992) e pela banda de death metal Six Feet Under no álbum “Graveyard Classics III” (2010).

A oitava faixa é “Time Has Come Today”, que conforme foi descrito acima, teve a colaboração de Billy Rogers na bateria, mas é Richie quem aparece no videoclipe. A música foi gravada originalmente pelos The Chambers Brothers, em 1968.

Posteriormente, o disco dá uma caída com as medianas “My-My Kind Of A Girl” e “In The Park”.

E, para finalizar, “Time Bomb”, que traz Dee Dee Ramone como interlocutor principal, e a ‘romântica’ “Everytime I Eat Vegetables It Makes Me Think of You”. Sim, o título dessa última, em português, quer dizer algo do tipo: “Toda vez que eu como vegetais me lembro de você”.

A foto da capa do disco, que mostra a banda em algum trem pichado do metrô de Nova York, foi tirada por George DuBose. O nome da banda que aparece pichado junto à porta foi retocado por cima da foto original. Convenhamos, a imagem traduz bem o título do álbum: “Subterranean Jungle” = “Selva Subterrânea”. Aliás, se fosse feita aqui no Brasil, a foto seria captada às 18h na Estação Sé do Metrô de São Paulo, bem no horário do rush paulistano.

O álbum foi relançado em 20 de agosto de 2002 e foi acrescido de sete faixas bônus.

Ah, só uma curiosidade: “Subterranean Jungle” foi gravado na íntegra em 2004 pela banda norte-americana The Tip Toppers no estilo surf music.

A seguir, a ficha técnica do álbum e o tracklist.

Álbum: Subterranean Jungle
Intérprete: Ramones
Lançamento: 24 de fevereiro de 1983
Gravadora: Sire
Produtores: Ritchie Cordell e Glenn Kolotkin

Joey Ramone: voz
Johnny Ramone: guitarra
Dee Dee Ramone: baixo, backing vocal e voz principal em “Time Bomb
Marky Ramone: bateria

Billy Rogers: bateria em “Time Has Come Today
Walter Lure: guitarra

1. Little Bit O’ Soul (Hawker / Shakespeare)
2. I Need Your Love (Waxman)
3. Outside (Dee Dee Ramone)
4. What’d Ya Do? (Joey Ramone)
5. Highest Trails Above (Dee Dee Ramone)
6. Somebody Like Me (Dee Dee Ramone)
7. Psycho Therapy (Dee Dee Ramone / Johnny Ramone)
8. Time Has Come Today (Willie Chambers / Joseph Chambers)
9. My-My Kind Of A Girl (Joey Ramone)
10. In The Park (Dee Dee Ramone)
11. Time Bomb (Dee Dee Ramone)
12. Everytime I Eat Vegetables It Makes Me Thing Of You (Joey Ramone)
Faixas bônus:
13. Indian Giver (Original Mix) (Bloom / Cordell / Gentry)
14. New Girl In Town (Ramones)
15. No One To Blame (demo) (Ramones)
16. Roots Of Hatred (demo) (Ramones)
17. Bumming Along (demo) (Ramones)
18. Unhappy Girl (demo) (Ramones)
19. My-My Kind Of Girl (acoustic demo) (Joey Ramone)

Por Jorge Almeida

Ramones: 35 anos do clássico “Rocket To Russia”

Rocket To Russia: considerado a obra-prima dos Ramones

Hoje, 4 de novembro, é celebrado o 35º aniversário de um dos álbuns mais cultuados do rock, o clássico “Rocket To Russia”, o terceiro trabalho de estúdio dos punks nova-iorquinos dos Ramones. Boa parte das músicas do álbum é nitidamente influenciada pelo surf rock.

O álbum é marcado por ser o último registro de Tommy Ramone enquanto integrante, uma vez que o primeiro ‘live’ da banda, “It’s Alive”, foi gravada na virada de 1977 para 1978 quando Tommy ainda fazia parte do grupo, mas que foi lançado só em 1979, já com Marky nas baquetas.

Lançado pela Sire Records e gravado durante o final de agosto e começo de setembro de 1977 no Media Sound Studios, em Manhattan, o disco teve a produção assinada pelo próprio Tommy Ramone (que utilizou o seu verdadeiro nome nos créditos: Tommy Ederlyi) e Tony Bongiovi (primo de segundo grau de um famoso cantor de hard rock, um tal de Jon Bon Jovi).

O custo da gravação do álbum girou em torno de U$$ 25 mil, o que foi significativamente maior do que os dois registros anteriores. E, atendendo a um pedido de Johnny Ramone, o editor da revista Punk e ilustrador John Holmstrom produziu a ilustração da contracapa do álbum, que mostra uma visão caricata do mundo a partir de um foguete com o “pinhead” (uma espécie de mascote da banda) montado nele em direção da Rússia (lembrando que o título do álbum, em português, significa: “Foguete para a Rússia”). No ano seguinte, o disco alcançou a 49ª posição da Billboard, o que o tornou um dos lançamentos mais populares dos Ramones.

Aliás, a capa de “Rocket To Russia” era uma paródia que a banda fez de si mesma em relação ao álbum de estreia, que mostra os quatro integrantes encostados em um muro.

Bom, o álbum abre com os riffs iniciais de “Cretin Hop” que é simples, mas ao mesmo tempo é incrível. No refrão da música – “1,2,3,4 cretins wanna hope some more / 4,5,6,7 all the good cretins go to heaven” -, a batida da bateria de Tommy é a grande graça.

A faixa seguinte é (para mim) uma das melhores músicas dos Ramones: “Rockway Beach”. Ela é perfeita, desde “1, 2, 3, 4!”, dito por Dee Dee, até a última nota. A letra deixa bem explícito que o negócio era pegar o “bubble gum” e ir surfar. Clássicão.

Depois aparece “Here Today, Gone Tomorrow” para dar uma acalmada. Mas quando você escuta a balada, o refrão grudento fica martelando na cabeça. Uma excelente canção.

Enquanto isso, “Locket Love” mantém o mesmo timbre de voz de Joey Ramone milimetricamente aliada à mesma nota em toda a canção.

Já “I Don’t Care” traz Dee Dee Ramone no backing vocal, três versos, três acordes (aliás, isso é obrigatório em se tratando de Ramones) e a mesma batida de bateria. Aliás, Renato Russo confessou que plagiou descaradamente o riff da música ao compor o clássico legionário “Que País É Esse?”.

Depois aparece “Sheena Is A Punk Rocker”, que dispensa comentários. Talvez seja ao lado de “Blitzkrieg Bop”, um dos temas mais populares do grupo. Foi lançado “oficialmente” em “Rocket To Russia”, pois algumas prensagens do trabalho anterior – “Leave Home” – trazia a música no tracklist no lugar da censurada “Carbona Not Glue”.

A metade de “Rocket To Russia” chega com “We’re A Happy Family”, que fala sobre uma família disfuncional que o interlocutor fazia parte. O título da música foi dado a um álbum-tributo à banda em 2003. E também ela encerrou muitos shows da banda, como pode ser ouvido no próprio “It’s Alive”.

Logo surge outro tema bem conhecido dos fãs: “Teenage Lobotomy”, que celebra a paranoia do protagonista que passa por situações como “Slugs and snails are after me (caramujos e lesmas estão me seguindo)”.

Já emendando aparece o primeiro cover do disco: “Do You Wanna Dance?”, de Bob Freeman. A música já foi gravada por inúmeros nomes, como Cliff Richards, John Lennon, Beach Boys, Johnny Rivers (talvez a versão mais conhecida dela). Mas os Ramones tinham como grande trunfo fazer com que os covers soassem como músicas próprias. E foi o que aconteceu com essa. Basta comparar a versão melosa de “Joãozinho Rios” com a de Joey Ramone e sua trupe. Essa é uma das poucas canções que acredito que o cover ficou melhor do que o original.

Em seguida, aparecem as simplórias, mas excelentes, “I Wanna Be Well” e “I Can’t Give You Anything”, seguida da meia-balada-meia-rock “Ramona”, que aqui no Brasil ganhou uma versão aportuguesada de “Pequena Raimunda” feita pelos “seus discípulos” Raimundos.

A penúltima canção é outro cover. Trata-se de “Surfin’ Bird”, do The Trashman, o que mostra nitidamente a influência da banda pela surf music. Em minha opinião, a versão ramônica dessa é o melhor cover de todos os tempos. REPITO: em minha opinião.

E, para encerrar, “Why Is It Always This Way”, que manteve a mesma pegada do disco: rápido, básico e sem firulas.

Em 19 de junho de 2001, a Rhino Records relançou a versão remasterizada do álbum, acrescido de faixas bônus: as demos de “Needles And Pins” (que foi cortada de “Rocket To Russia”) e “It’s A Long Way Back To Germany”, ambas foram lançadas no álbum seguinte da banda, “Road To Ruin” (1978), a semi-inédita “Slug” (que só consta na coletânea “All The Stuff (And More!) – volume 2”, de 1990), e os “singles versions” de “I Don’t Care” e “Sheena Is A Punk Rocker”.

Bom, se “Rocket To Russia” é um dos cinco álbuns favoritos de gente como Iggor Cavalera, é sinal de que ele não é pouca coisa, não é mesmo?

Mais do que recomendar. Digo que, se você gosta de rock cru, básico e sem firulas, é uma obrigação fazer parte da sua coleção. Afirmo que, em minha opinião (mais uma vez), é um dos melhores discos da história do rock.

A seguir, a ficha técnica e o tracklist do disco.

Álbum: Rocket To Russia
Intérprete: Ramones
Lançamento: 4 de novembro de 1977
Gravadora: Sire Records/Rhino
Produtores: Tommy Ederlyi / Tony Bongiovi

Joey Ramone: voz
Dee Dee Ramone: baixo e backing vocal
Johnny Ramone: guitarra
Tommy Ramone: bateria

1. Cretin Hop (The Ramones)
2. Rockaway Beach (The Ramones)
3. Here Today, Gone Tomorrow (The Ramones)
4. Locket Love (The Ramones)
5. I Don’t Care (The Ramones)
6. Sheena Is A Punk Rocker (The Ramones)
7. We’re A Happy Family (The Ramones)
8. Teenage Lobotomy (The Ramones)
9. Do You Wanna Dance? (Freeman)
10. I Wanna Be Well (The Ramones)
11. I Can’t Give You Anything (The Ramones)
12. Ramona (The Ramones)
13. Surfin’ Bird (White / Frazier / Harris / Wilson)
14. Why Is It Aways This Way (The Ramones)
Faixas Bônus da edição expandida de 2001:
15. Needles & Pins (Early Version) (Bono / Nitzche)
16. Slug (Demo) (Joey Ramone)
17. It´s a Long Way Back To Germany (UK B-side) (The Ramones)
18. I Don’t Care (Single Version) (The Ramones)
19. Sheena Is A Punk Rocker (Single Version) (The Ramones)

Por Jorge Almeida