Ramones: 15 anos de “We’re A Happy Family: A Tribute To Ramones”

Capa de “We’re A Happy Family: A Tribute to Ramones”

No último dia 11 de fevereiro, um dos tributos mais legais aos Ramones completou 15 anos de seu lançamento. “We’re A Happy Family: A Tribute To Ramones” é um tributo póstumo aos reis do punk rock em que várias bandas/artistas prestam homenagens ao quarteto nova-iorquino. Produzido por Johnny Ramone e Rob Zombie, o álbum foi lançado pela Columbia.

O projeto teve início quando o eterno guitarrista da banda foi confrontado com a ideia de um projeto que homenageasse sua banda e questionado se gostaria de participar. Com a resposta afirmativa, desde que não ficasse com o controle total do projeto, Johnny conseguiu a ajuda de Rob Zombie para co-produzir o álbum e convidou as bandas para participar. Encarregado de supervisionar o play, Johnny Ramone propôs aos grupos escolhidos a fazer as próprias músicas. E uma das versões ramônicas favoritas dele foi “Havana Affair”, feita pelo Red Hot Chili Peppers, que ele escolheu para abrir o álbum.

Como dito, a banda de Anthony Kiedis abre o tributo com “Havana Affair”, que se transformou em uma semibalada, ou seja, com um andamento mais lento em relação à original, lançada no álbum “Ramones” (1976). Aliás, a música fez parte do setlist do grupo californiana em sua passagem pelo Brasil e, particularmente, acho que entraria facilmente em um CD do Red Hot Chili Peppers.

Na sequência, Rob Zombie, que ralou bastante para que o projeto fosse feito com êxito, colaborou com uma versão de “Blitzkrieg Bop”, o hino dos Ramones. Um heavy pesadão que, apesar de ter descaracterizado a música original, ficou bem interessante. Mais tarde, a música foi inserida na coletânea de Zombie, “Past, Present & Future” (2003).

O terceiro tema é uma releitura de “I Believe In Miracles” feita por Eddie Vedder (Pearl Jam) com o apoio da banda Zeke. O instrumental ficou um pouco diferente do original, mas o vocalista deixa nítido que seu estilo vocal foi influenciado pelo saudoso Joey Ramone. Edder e o grupo também colaboram em outra faixa do tributo: “Daytime Dilemma (Dangers Of Love)”, originalmente gravada no álbum “Too Tough To Die” (1984). Contudo, essa música não está presente em todas as versões do play.

A quarta faixa é “53rd & 3rd” na versão do Metallica. Apesar de ser uma versão pesada, a faixa soou estranha, principalmente com os vocais de James Hetfield, sobretudo nos versos em que Dee Dee Ramone cantarolou na música original. Além dessa, o Metallica fez outros cinco covers dos Ramones nas mesmas sessões que foram lançadas em diferentes versões de “St. Anger” (2003).

O tributo segue com a interpretação de “Beat On The Brat” feita pelo U2. Simples, nada de excepcional. O curioso é que a música fala de violência (“bater no pirralho com um taco de basebol”) e é tocada por uma banda considerada pacifista.

Posteriormente o play segue com aquela que considero o melhor cover do disco: “Do You Remember Rock ‘N’ Roll Radio?”, feito pelo Kiss. Os mascarados fizeram uma versão matadora e sem contar que o tema lhe caiu bem, afinal, qual banda que mais cultua o Rock And Roll que o Kiss? Para a gravação, os vocais ficaram divididos entre Paul Stanley e Gene Simmons, que tocaram guitarra e baixo, respectivamente, além de Eric Singer na bateria e Derek Sherinian nos teclados. O grupo incluiu a música na edição simples do álbum “Symphony: Alive IV” (2003).

O disco foi “da água para o vinho” (ou seria “do vinho para a água”?) com Marilyn Manson e sua colaboração para “The KKK Took My Baby Away”, que ficou sombria e, ao contrário de Rob Zombie, não agradou. Certamente, a pior faixa do disco.

A oitava música é “I Just Want To Have Something To Do”, que ficou “culhosa” na versão do Garbage. Certeiro, o vocal de Shirley Mason ficou bem apropriado para a canção e seguiu quase fiel à original.

Em seguida, os pupilos dos Ramones, o Green Day, fizeram uma versão “redondinha” de “Outsider”. Sem soar pejorativo, o trio fez parecer que Billie Joe Armstrong estivesse em um karaokê.

O The Pretenders deu uma diminuída no ritmo com sua interpretação de “Something To Believe In”. Embora tenha sido bem cantada por Chrissie Hynde, a música ficou lenta e um pouco cansativa pelo menos para essa faixa, uma vez que ela é uma espécie de “We Are The World” dos punks.

Os caras do Rancid chegaram arrebentando com tudo com “Sheena Is A Punk Rocker”. Com uma versão mais rápida que a original, a banda acertou em cheio com a escolha e, se ouvir no talo, a vontade de entrar na roda de pogo é inevitável. Uma das melhores do álbum.

O 12º tema do disco é “I Wanna Be Your Boyfriend” cantada por Pete Yorn, que fez uma versão igualzinha à original. Não surpreendeu, mas também não comprometeu.

Quem também fez um bom trabalho foi o Offspring que caprichou em “I Wanna Be Sedated”. Ficou tão idêntica ao original que só não podemos afirmar que é a própria por conta dos vocais de Dexter Holland e Joey Ramone que diferencia a original do cover.

O disco está chegando aos momentos finais com o Rooney (não, não é o jogador!), que fez uma versão bacaninha de “Here Today, Gone Tomorrow”, com uma ligeira alteração nos arranjos. Johnny Ramone queria que a “princesa” Lisa Marie Presley (se Elvis Presley é o “Rei”, nada mais óbvio ela ser a princesa por ser filha dele) gravasse a faixa para o tributo, mas ela a regravou para o seu trabalho “Now What” (2005).

Em 1995, os Ramones “coverizaram” uma música de Tom Waits para o derradeiro álbum “¡Adios Amigos!” (1995), a clássica “I Don’t Want To Grow Up”. Então, o compositor resolveu “retribuir” a gentileza e fez um semi-country para “Return Of Jackie & Judy”. Essa é a faixa que finaliza o disco, dependendo da versão de alguns países. Uma vez que a já citada “Daytime Dilemma (Dangers Of Love)” aparece como uma faixa bônus.

O tributo segue com três faixas (17, 18 e 19) que possuem dez segundos de duração e com silêncio. No entanto, a faixa 20, que está “escondida” traz uma versão de “Today Your Love, Tomorrow The World” feita por John Frusciante empunhado de um violão e acompanhado de um coro. Contudo, o vocal apresentado pelo guitarrista saiu desafinado. Não havia necessidade para isso.

Como descrevemos acima, esse álbum-tributo aos Ramones possui os seus altos e baixos. E, embora os arranjos das músicas dos punks nova-iorquinos sejam consideradas simples, é complicado tentar fazer algo diferente do legado deixado pelos caras e conseguir êxito por isso. Afinal, apesar de fazerem por 22 anos um estilo de rock “rápido, básico e sem firulas”, a obra deixada por Joey, Johnny, Dee Dee e Tommy Ramone (posteriormente por Marky, Richie e C.J.) estará eternizada no rol dos clássicos do rock. De 0 a 10, o disco merece nota 8. Aliás, foi uma pena que Joey e Dee Dee Ramone não estavam mais vivos quando a merecedíssima homenagem saiu.

A seguir, a ficha técnica e o tracklist da obra.

Álbum: We’re A Happy Family: A Tribute To Ramones
Intérprete: diversos
Lançamento: 11/02/2003
Gravadora: Columbia Records / SK 87321
Produtores: Rob Zombie / Johnny Ramone

1. Havana Affair (The Ramones) – Intérprete: Red Hot Chili Peppers
2. Blitzkireg Bop (The Ramones) – Intérprete: Rob Zombie
3. I Believe In Miracles (Dee Dee Ramone/Daniel Rey) – Intérprete: Eddie Vedder & Zeke
4. 53rd & 3rd (The Ramones)Intérprete: Metallica
5. Beat On The Brat (The Ramones) – Intérprete: U2
6. Do You Remember Rock ‘N’ Roll Radio? (The Ramones) – Intérprete: Kiss
7. The KKK Took My Baby Away (Joey Ramone) – Intérprete: Marilyn Manson
8. I Just Want To Have Something To Do (The Ramones) – Intérprete: Garbage
9. Outsider (Dee Dee Ramone) – Intérprete: Green Day
10. Something To Believe In (Dee Dee Ramone/Jean Beauvoir) – Intérprete: The Pretenders
11. Sheena Is A Punk Rocker (The Ramones) – Intérprete: Rancid
12. I Wanna Be Yout Boyfriend (The Ramones) – Intérprete: Pete Yorn
13. I Wanna Be Sedated (The Ramones) – Intérprete: The Offspring
14. Here Today, Gone Tomorrow (The Ramones) – Intérprete: Rooney
15. Return Of Jackie & Judy (The Ramones) – Intérprete: Tom Waits
16. Daytime Dilemma (Dangers Of Love) (Joey Ramone/Daniel Rey) – Intérprete: Eddie Vedder & Zeke
17. Untitled track
18. Untitled track
19. Untitled track
20. Today Your Love, Tomorrow The World (The Ramones) – Intérprete: John Frusciante

Por Jorge Almeida

Anúncios

Ramones: 20 anos de “We’re Outta Here!”

“We’re Outta Here!”: álbum que registra o último show dos Ramones

Além do disco do Metallica (mencionado no post anterior), outro álbum completa 20 anos neste 18 de novembro: o ‘live’ “We’re Outta Here!”, o registro do último show dos Ramones que foi lançado postumamente, uma vez que, na época em que saiu o material, os punks nova-iorquinos já haviam encerrado suas atividades. Produzido por Gary Kurfirst, o material foi lançado pela gravado pela Eagle Rock/Radioactive Records.

O registro foi lançado em diversas versões: LP duplo, CD, VHS e DVD. Inclusive, na sessão de autógrafos, realizado em 25 de novembro de 1997, pela primeira vez todos os seis Ramone (exceto o ex-baterista Ritchie) estavam reunidos. Gravado no The Palace, em Los Angeles, no dia 6 de agosto de 1996, o play registra a última apresentação oficial dos Ramones, depois de 22 anos de estrada e 2263 shows.

O produtor Gary Kurfirst gastou mais de um ano entre a apresentação derradeira da banda norte-americana e o produto final. O fato inusitado se deve ao local escolhido para a realização do espetáculo: na Califórnia. Ou seja, longe de casa, em Forest Hills, em Nova York, ou na América do Sul, mais especificamente Argentina ou Brasil, países onde os caras são tratados como semideuses. Mas prevaleceu a vontade de Johnny Ramone, que já estava morando em Los Angeles.

Em quase 70 minutos de espetáculo, Joey, Johnny, Marky e C.J. Ramone detonam um desfiladeiro de clássicos ‘ramônicos’ em 32 temas. O show foi registrado em vídeo no formato de um documentário. Contudo, o concerto não foi mostrado na íntegra, já que a performance completa foi editada com trechos do show mesclado com depoimentos de amigos, produtores e integrantes dos Ramones, além de aparições do grupo em programas de TV, inclusive nos Simpsons. Na filmagem, que foi dirigida Kevin Kerslake, eram exibidos os cortes rápidos com câmeras apontadas para o vazio, para o chão ou para os pés dos músicos. Enquadramentos nenhum pouco convencional e ainda o famoso estilo ‘câmera na mão’ (dessa vez não era o Marky, que sempre registrara os momentos da banda nos bastidores) ou como um voyeur espiando de algum canto do palco.

Porém, o grande deleite é a parte destinada aos convidados especiais: o ex-baixista Dee Dee Ramone, Lemmy Kilmister, a dupla do Rancid: Tim Armstrong e Lars Frederiksen, além dos grunges Chris Cornell e Ben Shepherd, ambos, na época, do Soundgarden, e Eddie Vedder, do Pearl Jam.

Embora não tenha a mesma energia do primeiro registro ao vivo dos caras, o clássico “It’s Alive!” (1979) e um pouco menos rápido que “Loco Live” (1991), “We’re Outta Here!” traz os Ramones na sua essência: ou seja, sem muito blá, blá, blá, pau na máquina, apenas os famosos berros que C.J. “herdou” de Dee Dee: “one, two, three, four!” quando necessário, enfim, tudo no melhor estilo: “rápido, básico e sem firulas”.

O álbum começa com a famosa introdução “The Good, The Bad And The Ugly” (não consta nos créditos), de Enio Morricone, emendada com “Durango 95”. Em seguida, a mesma sequência das nove primeiras faixas de “Loco Live”: “Psycho Theraphy”, “Blitzkrieg Bop”, “Do You Remember Rock ‘N’ Roll Radio?”, “I Believe In Miracles”, “Gimme Gimme Shock Treatment”, “Rock ‘N’ Roll High School” e “I Wanna Be Sedated”. O show segue com a versão ‘ramônica’ de “Spider Man” e mais clássicos: “The KKK Took My Baby Away”, “Commando”, “Sheena Is A Punk Rocker”, “Pet Sematary” e “The Crusher”.

E um dos momentos mais esperados veio na sequência. O ex-integrante da banda, Dee Dee Ramone, faz uma participação especial em “Love Kills”. Mas o ex-baixista perdeu o ‘time’ da música e esqueceu parte da letra que ele mesmo esqueceu. E, depois de um rápido e breve “thank you”, o ex-Ramone se retirou do palco. Joey Ramone voltou ao palco e mandou bala com “Do You Wanna Dance?”, “Somebody Put Something In My Drink”, “I Don’t Want You” e C.J. cantarola o hardcore “Wart Hog”.

Outro convidado da festa aparece em seguida: Lemmy Kilmister. O líder do Motörhead dividiu os microfones com C.J. e Joey para cantarem “R.A.M.O.N.E.S.”, música originalmente gravada pelo Motörhead em homenagem aos punks nova-iorquinos. O show seguiu com a dobradinha “Today Your Love, Tomorrow The World” e “Pinhead”, com direito a presença do famoso mascote microcefálico com a inseparável placa “Gabba, Gabba, Hey!”. Depois veio uma trinca com mais convidados especiais. Tim Armstrong e Lars Frederiksen, ambos do Rancid, tocam junto com Joey, Johnny, Marky e C.J. os hits “53rd & 3rd“, “Listen To My Heart” e “We’re A Happy Family“. Depois dos punks, foi vez dos grunges que tinham grande admiração pelos Ramones a subirem no palco. Primeiro vieram Chris Cornell e Ben Shepherd, do Soundgarden, para executarem “Chinese Rock“. A penúltima faixa foi “Beat On The Brat“, o último tema executado pelos Ramones como quarteto. Isso porque coube a Eddie Vedder, do Pearl Jam, a honra de cantar a última música tocada pelos reis do punk rock ao vivo: o cover “Anyway You Want It“, do Dave Clark Five.

Após o último acorde, Joey Ramone se despede do público e os Ramones se recolheram para sempre. Depois do 2263º show, foram lançados diversos registros ao vivo e coletâneas póstumas. Logo ao término do grupo, os integrantes investiram em projetos solos, especialmente Marky e C.J., porém, de lá para cá todos os membros da formação original foram morrendo no decorrer dos anos: primeiro foi Joey Ramone, em 2001; depois foi a vez de Dee Dee, em 2002; em seguida, Johnny Ramone faleceu em 2004 e, finalmente, Tommy Ramone, morrera em 2014. Os demais Ramone: Marky, C.J. e Ritchie continuaram a fazer excursões regularmente com projetos que homenageiam a banda que os consagrou.

Em “We’re Outta Here!”, a qualidade do som pode não ser a das melhores, mas, a virtude nisso é deixa nítido a autenticidade de um show de rock ao vivo: microfonia falha, vocalista atropelando as letras, velocidade acima do normal, enfim, sem ‘overdubs’. Histórico.

A seguir, a ficha técnica e o tracklist da obra.

Álbum: We’re Outta Here!
Intérprete: Ramones
Lançamento: 18 de novembro de 1997
Gravadora/Distribuidora: Eagle Rock/Radioactive Records
Produtor: Gary Kurfirst

Joey Ramone: voz
Johnny Ramone: guitarra
Marky Ramone: bateria
C.J. Ramone: baixo, backing vocal, voz em “The Crusher”, “Wart Hog” e “R.A.M.O.N.E.S.

Dee Dee Ramone: voz em “Love Kills
Lemmy Kilmister: baixo e voz em “R.A.M.O.N.E.S.
Chris Cornell: voz em “Chinese Rock
Ben Shepherd: baixo em “Chinese Rock
Eddie Vedder: voz em “Anyway You Want It
Tim Armstrong e Lars Frederiksen: guitarra e voz em “53th & 3th”, “Listen To My Heart” e “We’re A Happy Family

1. Durango 95 (Johnny Ramone)
2. Teenage Lobotomy (Ramones)
3. Psycho Therapy (Johnny Ramone / Dee Dee Ramone)
4. Blitzkrieg Bop (Ramones)
5. Do You Remember Rock ‘n’ Roll Radio? (Ramones)
6. I Believe in Miracles (Dee Dee Ramone / Daniel Rey)
7. Gimme Gimme Shock Treatment (Ramones)
8. Rock ‘n’ Roll High School (Ramones)
9. I Wanna Be Sedated (Ramones)
10. Spider-Man (Harris / Webster)
11. The KKK Took My Baby Away (Joey Ramone)
12. I Just Wanna Have Something To Do (Ramones)
13. Commando (Ramones)
14. Sheena Is a Punk Rocker (Ramones)
15. Rockaway Beach (Ramones)
16. Pet Sematary (Dee Dee Ramone / Daniel Rey)
17. The Crusher (Dee Dee Ramone / Daniel Rey)
18. Love Kills (Dee Dee Ramone / Johnny Ramone / Joey Ramone)
19. Do You Wanna Dance? (Freeman)
20. Somebody Put Something In My Drink (Richie Ramone)
21. I Don’t Want You (Ramones)
22. Wart Hog (Dee Dee Ramone / Johnny Ramone)
23. Cretin Hop (Ramones)
24. R.A.M.O.N.E.S. (Würzel / Campbell / Kilmister / Taylor)
25. Today Your Love, Tomorrow The World (Ramones)
26. Pinhead (Ramones)
27. 53rd & 3rd (Ramones)
28. Listen to My Heart (Ramones)
29. We’re a Happy Family (Ramones)
30. Chinese Rock (Ramones)
31. Beat on the Brat (Ramones)
32. Anyway You Want It” (Dave Clark)

Por Jorge Almeida

A biografia de Marky Ramone

Capa do livro de Marky Ramone, o lendário baterista dos Ramones
Capa do livro de Marky Ramone, o lendário baterista dos Ramones

Lançado no Brasil em 2015 através da Editora Planeta, “Minha Vida Como Um Ramone – Punk Rock Blitzkrieg” traz a biografia do lendário Marky Ramone, músico que assumiu por mais tempo as baquetas de uma das mais aclamadas bandas de rock da história, os Ramones. A obra, com cerca de 450 páginas e 21 capítulos e mais apêndice, foi escrita pelo baterista em conjunto com Rich Herschlag e, na versão em português, teve a tradução assinada por Alyne Azuma e a apresentação feita por Clemente Nascimento, integrante das bandas Inocentes e Plebe Rude.

O livro é bem “Ramone” mesmo, ou seja, rápido, básico, sem firulas e nem papas na língua e, em sua maior parte, narra a trajetória de Marky Ramone nos Ramones ao longo do tempo em que ficou na banda sob o seu ponto de vista, é lógico. O baterista relata desde como foi a sua entrada no lugar de Tommy Ramone, os TOCs e os problemas de Joey, as loucuras de Dee Dee, as opiniões reacionárias, extremamente de direita e o autoritarismo de Johnny Ramone e, evidentemente, a sua trajetória dentro do grupo.

A obra é descrita em ordem cronológica, sem necessariamente mencionar datas, e começa desde quando o pequeno Marc Bell (seu nome de batismo) se interessou pela música e as suas experiências, algumas frustradas, por diversas bandas, como Backstreet Boys (NÃO! Não é aquela “boy band” que estourou nos anos 1990), passando pelo Richard Hell e Dust até chegar aos Ramones.

Na primeira passagem pela banda nova-iorquina, Marky descreve os pormenores que aconteceram entre 1978 e 1983, as “tretas” entre eles, os empecilhos que tiveram com Phil Spector na produção do álbum “End Of Century” (1980). Mas o ápice desse trecho do livro é o momento em que Marky Ramone aborda os seus problemas com o alcoolismo e, consequentemente, o prejuízo que o vício lhe causou na banda. Para se ter uma ideia, o baterista chegou a perder um show porque ficou no hotel, bêbado, e o seu estado de embriaguez foi notado pelo piloto de um avião fretado pelo empresário do grupo que recusou a levá-lo até o local do concerto seguinte.

O músico caiu em si e percebeu que ele era o problema e resolveu se tratar ao seguir os passos dos Alcoólatras Anônimos. Depois da recuperação, Marky voltou aos Ramones e descreveu sobre a saída de Dee Dee e a entrada de C.Jay Ramone, o fim do grupo. Mas também não deixou de destacar a gratidão e o reconhecimento do público sulamericano, especialmente argentino e carioca, para com o grupo.

Na parte final da obra, Marky Ramone fala sobre as mortes de Joey, Dee Dee e Johnny Ramone, a frustração de Joey não ter conseguido com que a banda lançasse um single de sucesso, e os seus projetos pós-Ramones. Todavia, o livro deixa o recado de que ele cumpriu o seu papel e a sua importância de ter sido parte de uma das maiores bandas da história do rock.

O livro é mais do que recomendado para os apreciadores do punk rock e, principalmente, fãs dos Ramones (a banda, e não a “grife”). Mais que recomendo.

Livro: Minha Vida Como Um Ramone – Punk Rock Blitzkrieg
Autores: Marky Ramone com Rich Herschlag
Editora: Planeta
Ano de lançamento: 2015
Número de páginas: 447
Preço médio: de R$ 40,00 a R$ 50,00

Por Jorge Almeida

 

 

Ramones: 30 anos de “Too Tough To Die”

"Too Tough To Die": o disco "Heavy Metal" dos Ramones
“Too Tough To Die”: o disco “Heavy Metal” dos Ramones

Ontem, 1º de outubro, o álbum “Too Tough To Die”, dos Ramones, completou 30 anos de seu lançamento. O disco marcou a estreia do baterista Richie Ramone na banda no lugar de Marky Ramone e também o retorno de Thomas Ederlyi (o Tommy Ramone) na produção de um trabalho do grupo (o ex-baterista fez a co-produção do play com Ed Stasium).

Entre agosto de dezembro de 1983 os Ramones ficaram sem fazer shows. Esse foi o período mais longo que a banda ficou sem tocar ao vivo. O fato se deve ao episódio em que Johnny Ramone se envolveu em uma briga em 15 de agosto. O guitarrista estava em um bar, viu uma garota aparentemente bêbada e foi oferecer ajuda. Porém, para azar dele, o suposto namorado da bêbada o recepcionou com socos, chutes e pontapés na cabeça e precisou parar no hospital para realizar uma complicada cirurgia no cérebro. Johnny esteve entre a vida e a morte em virtude da fratura que sofreu no crânio.

Após a recuperação de Johnny, os integrantes voltaram a sair juntos e, nas turnês, resolveram excursionar sem levar namoradas ou esposas. O incidente brutal envolvendo o guitarrista foi o motivo para tirar o nome do álbum. “Too Tough To Die” significa algo como “Muito durão para morrer”. O título foi dado por Dee Dee em homenagem a Johnny.

Para a gravação do oitavo álbum, os Ramones não estavam preocupados em emplacar um hit e resolveram apostar em uma sonoridade mais pesada, com direito a uso de teclados e sintetizadores, uma vez que o som mais pop dos trabalhos mais recentes não deu à banda o retorno que esperavam.

O disco pode ser considerado um triunfo pessoal de Dee Dee Ramone, já que nove das 13 faixas que compõem o álbum são de sua autoria (algumas em co-autoria com Johnny), além dele cantar dois temas: “Wart Hog” e “Endless Vacation”. Foi a primeira vez que o baixista fez voz solo em músicas inteiras nos Ramones. O restante das faixas trazem duas assinadas por Joey, uma por Richie e outra por Johnny Ramone.

A foto da capa, que mostra as silhuetas dos integrantes da banda escuras e no fundo com iluminação azul e névoa de gelo seco em que eles estão lado a lado debaixo de um arco de passagem subterrânea, foi feita pelo artista George DuBose em um metrô no Central Park, em Nova York. A ideia da capa, de acordo com DuBose, partiu de Johnny Ramone que queria uma imagem que associava à gangue do filme “Laranja Mecânica” (1971), de Stanley Kubrick. Assim, a fotografia da capa remete à sequência em que Alex e seus ‘droogs’ vão atacar um homem.

O processo de gravação de “Too Tough To Die”, que foi realizado no verão de 1984 no Sound Studios, em Nova York, foi com a mesma técnica utilizada para gravar o seu ‘debut’, de 1976, ou seja, praticamente ao vivo no estúdio. Além disso, o estilo lírico e de composição retomaram a banda às suas raízes, deixando de lado, pelo menos parcialmente, a musicalidade pop que predominou nos últimos trabalhos.

A sonoridade apresentada no álbum, com grandes riffs, agradou parte da crítica. Contudo, as vendas do play foram baixas, levando ao 171º lugar na Billboard 200.

Quanto ao tracklist, o disco traz 13 temas no melhor estilo ramônico, mas com direcionamento que mescla hardcore punk e beira o Heavy Metal.

Entre os destaques do play estão a faixa de abertura – “Mama’s Boy” -, a faixa-título, “Daytime Dilemma (Dangers Of Love)”, que marca a estreia de Daniel Rey no processo de co-autoria com os integrantes da banda, especialmente Dee Dee, e os dois temas cantarolados pelo baixista: as hardcores “Wart Hog” e “Endless Vacation”. Vale uma menção honrosa a “Durango 95”, o primeiro tema instrumental gravado pelos Ramones. O nome da música é referente ao carro conduzido no filme “Laranja Mecânica”. Inclusive, a instrumental passou a fazer parte da abertura dos shows dos Ramones até o fim da banda, em 1996.

Em 2002, o álbum foi lançado em edição remasterizada e expandida que trazia mais 12 faixas, entre demos e lados B’s, incluindo aí temas com versões que apresentavam o vocal de Dee Dee Ramone.

Embora não tenha sido um dos trabalhos mais vendidos dos Ramones, “Too Tough To Die” foi um dos melhores trabalhos lançados pelos reis do punk rock nos anos 1980 (particularmente, acho que só perde para “Brain Drain”, de 1989). Pois trata-se, praticamente, de um disco de Heavy Metal (aliás, ele é mais “metal” do que alguns trabalhos lançados por bandas “de metal”). Mais que recomendo.

Abaixo, a ficha técnica e o tracklist (da versão expandida) do disco.

Álbum: Too Tough To Die
Intérprete: Ramones
Lançamento: 1º de outubro de 1984
Gravadora: Sire Records / Beggars Banquet Records
Produtores: Tommy Ramone / Ed Stasium / David A. Stewart (apenas em “Howling At The Moon”)

Joey Ramone: voz
Johnny Ramone: guitarra
Dee Dee Ramone: baixo, backing vocal e voz
Richie Ramone: bateria e backing vocal

Walter Lure: guitarra extra (em algumas faixas)
Jerry Harrison: sintetizador em “Chasing The Night
Bem Tench: teclados em “Daytime Dilemma (Dangers Of Love)

1. Mama’s Boy (Johnny Ramone / Dee Dee Ramone / Tommy Ramone)
2. I’m Not Afraid Of Life (Dee Dee Ramone)
3. Too Tough To Die (Dee Dee Ramone)
4. Durango 95 (Johnny Ramone)
5. Wart Hog (Dee Dee Ramone / Johnny Ramone)
6. Danger Zone (Dee Dee Ramone / Johnny Ramone)
7. Chasing The Night (Busta Cherry Jones / Joey Ramone / Dee Dee Ramone)
8. Howling At The Moon (Sha-La-La) (Dee Dee Ramone)
9. Daytime Dilemma (Dangers Of Love) (Joey Ramone / Daniel Rey)
10. Planet Earth 1988 (Dee Dee Ramone)
11. Humankind (Richie Ramone)
12. Endless Vacacion (Dee Dee Ramone / Johnny Ramone)
13. No Go (Joey Ramone)
Faixas bônus:
14. Street Fightning Man (Jagger / Richards)
15. Smash You (Richie Ramone)
16. Howling At The Moon (Sha-La-La) (Demo version) (Dee Dee Ramone)
17. Planet Earth 1988 (Dee Dee vocal version) (Dee Dee Ramone)
18. Daytime Dilemma (Dangers Of Love) (demo version) (Joey Ramone / Daniel Rey)
19. Endless Vacation (demo version) (Dee Dee Ramone / Daniel Rey)
20. Danger Zone (Dee Dee vocal version) (Dee Dee Ramone / Johnny Ramone)
21. Out Of Here (Ramones)
22. Mama’s Boy (demo version) (Johnny Ramone / Dee Dee Ramone / Tommy Ramone)
23. I’m No An Answer (Ramones)
24. Too Tough To Die (Dee Dee vocal version) (Dee Dee Ramone)

25. No Go (demo version) (Joey Ramone)

Por Jorge Almeida

Morre Tommy Ramone

Tommy Ramone: baterista da formação original dos Ramones em imagem dos anos 1970. Foto: divulgação
Tommy Ramone: baterista da formação original dos Ramones em imagem dos anos 1970. Foto: divulgação

Tommy Ramone, baterista da primeira (e clássica) formação dos Ramones, morreu aos 62 anos (alguns veículos apontam que ele tinha 65 anos) na noite desta sexta-feira (11), em casa, no Queens, em Nova York. O músico lutava contra um câncer biliar. Tommy foi o último integrante da line-up inicial dos Ramones a falecer.

Filho de judeus, Erdélyi Tamas (nome de batismo de Tommy) nasceu em Budapeste, na Hungria. Ainda criança, sua família imigrou-se para os Estados Unidos, onde cresceu em Forrest Hills, em Nova York. Na adolescência, tocou em bandas como Tangerine Puppets com John Cummings que, futuramente, seria conhecido como Johnny Ramone.

Já adulto, enquanto trabalhava no Performance Studios (sua paixão), conheceu um trio formado por Joey (bateria e voz), Dee Dee (baixo e voz) e Johnny (guitarra). Eram os Ramones. Com a sua noção mais apurada em relação aos demais, Thomas Erdelyi (como era conhecido por lá) aconselhou que Joey (que não conseguia tocar bateria e cantar ao mesmo tempo) assumisse o posto de vocalista, propôs também que Dee Dee tocasse baixo e fizesse os backing vocals e ainda sugeriu que eles procurassem mais um integrante para assumir as baquetas da banda que estava a nascer. Então, antes dos testes, Thomas procurava mostrar aos candidatos qual era a pegada do grupo. No entanto, o trio não gostou de nenhum deles. Foi aí que eles perceberam que Erdelyi era o cara ideal para o cargo. Assim, adotou o nome artístico de Tommy Ramone e entrou no grupo.

E, com essa formação – Joey Ramone (voz), Dee Dee Ramone (baixo e backing vocal), Johnny Ramone (guitarra) e Tommy Ramone -, os Ramones fizeram o seu primeiro show no próprio Performance Studios a 30 de março de 1974. Depois, o grupo marcou presença constante na lendária casa noturna CBGB’s. As performances do quarteto chamaram atenção da Sire Records que, em 1975, assinou um contrato de cinco anos com o grupo.

Com os Ramones, Tommy gravou os álbuns “Ramones” (1976), “Leave Home” e “Rocket To Russia” (ambos de 1977 e que tiveram o baterista como co-produtor). Mas ele gostava mesmo era dos estúdios e não das constantes viagens que o grupo fazia. Dessa forma, saiu amigavelmente. Tommy ainda participou das gravações dos álbuns “It’s Alive” (1979), gravado ao vivo na virada de Ano Novo de 1977 para 1978, e o póstumo “NYC 1978” (2003). Em 1978, Tommy Ramone foi sucedido pelo ex-Dust Marc Bell que, obviamente, virou Marky Ramone.

Mesmo assim, ele não ficou totalmente separado dos Ramones, uma vez que trabalhou na produção de alguns trabalhos da banda, como o “Road To Ruin” (1978) e “Too Tough To Die” (1984).

Apesar de terem assinados todas as faixas em conjunto nos primeiros álbuns (exceto os covers evidentemente), Tommy Ramone revelou no documentário “Ramones RAW” (2004), em uma espécie de “faixa-a-faixa”, quais temas que, de fato, cada integrante escreveu. O baterista revelou, por exemplo, que ele era o co-autor de “Blitzkrieg Bop” e o principal compositor de “I Wanna Be Your Boyfriend”, ambas presentes no ‘debut’ do grupo. Além dessas, Tommy colaborou na faixa “Mama’s Boy”, tema de abertura do disco “Too Tough To Die”.

Além dos Ramones, Tommy produziu, na década de 1980, o disco de estreia dos Replacements, “Tim” (1985) e também o álbum “Neurotica” (1987), de Redd Kross. Nos últimos anos, o músico e produtor vinha trabalhando com sua esposa Claudia Tienan no Uncle Monk, projeto voltado para trabalhos acústicos e música country.

Depois de sua saída dos Ramones, em 1978, a banda prosseguiu na ativa até 1996. E, ao longo dos primeiros anos do século XXI, os integrantes do grupo foram sucumbindo. Primeiro foi Joey, com linfoma em 2001. No ano seguinte foi a vez de Dee Dee Ramone, vítima de uma overdose acidental de heroína. Em 2004, Johnny Ramone não resistiu a um câncer de próstata. Finalmente, neste 11 de julho de 2014, foi a vez do lendário Tommy Ramone se juntar aos companheiros de banda no plano celestial.

O co-fundador de uma das bandas mais influentes da história do rock deixa mulher e irmão. Seu enterro será reservado para familiares e amigos próximos.

Aliás, conforme bem lembrou o locutor da rádio Kiss FM, Rodrigo Branco, os Ramones “deve ser o único caso da história de uma banda de sucesso que 40 anos depois não existe mais nenhum membro original vivo”. Inclusive, dentre os demais integrantes que passaram pelo grupo, seguem vivos Marky, Richie, Elvis (que teve curtíssima passagem em 1987) e C.J. Ramone.

E, ao contrário da duração de suas músicas, que geralmente não ultrapassavam os três minutos, o legado deixado pelo quarteto nova-iorquino dos Ramones será eterno.

Descanse em paz, Tommy.

“Gabba Gabba, Hey!”.

Por Jorge Almeida

Ramones: 20 anos de “Acid Eaters”

Acid Eaters: álbum lançado pelos Ramones totalmente composto por covers
Acid Eaters: álbum lançado pelos Ramones totalmente composto por covers

Costumeiramente digo à exaustão que os Ramones sempre foram a melhor banda cover do mundo (se bem que o Metallica também manda bem pra caramba em seus covers). Ou seja, suas versões de temas de outros artistas eram matadoras e os caras faziam de um jeito tão autêntico, que pareciam mais ser uma música de Joey Ramone e seus ‘parças’. E, em alguns casos, eram melhores que as versões originais. Afinal, os covers não são nenhuma novidade para os Ramones. Até porque em quase em toda a sua discografia, sempre havia pelo menos uma regravação em cada álbum lançado (acredito que apenas uns dois ou três álbuns são de trabalhos 100% autorais). “Let’s Dance”, “California Sun”, “Surfin’ Bird” (o melhor cover de todos os tempos, pelo menos para mim!), “Do You Wanna Dance?”, “Needles & Pins” são apenas alguns exemplos de como os caras eram bons em “coverizar”.

E essa minha concepção a respeito dos punks novaiorquinos pode ser conferida com mais afinco em “Acid Eaters”, décimo terceiro álbum de estúdio da banda lançado em dezembro de 1993, que é inteiramente constituído de covers.

Depois de um estrondoso sucesso de “Mondo Bizarro”, que foi sucesso de crítica e vendas, a banda estava em alta. Considerada uma das melhores faixas do álbum de 1992, a versão ramônica de “Take It As It Come” motivou a gravadora a solicitar que o grupo fizesse um álbum inteiramente com músicas dos anos 1960, deixando o cover dessa música dos Doors no lado A. O projeto se arrastou por quase dois anos e a gravadora, então, propôs alguns temas para a banda regravar e, dessa forma, cada ramone escolheu as músicas que mais gostavam e que gostariam de regravar. Assim, o álbum inteiro foi elaborado com músicas do final dos anos 1960, época que mais influenciaram Joey e Johnny Ramone.

Algumas canções escolhidas como “Substitute”, do The Who, “Somebody To Love”, gravada originalmente por The Great Society, mas que ficou popularizada com o Jeferson Airplane, e “I Can´t Control My Self”, do The Troggs, já haviam sido regravadas anteriormente por bandas como Sex Pistols, Agent Orange e Buzzcocks, respectivamente. Além disso, os Ramones escolheram algumas faixas obscuras de bandas consagradas, tais como “Out Of Time”, dos Rolling Stones, e “When I Was Young”, do The Animals.

O álbum abre com “Journey To The Center Of The Mind”, dos The Amboy Dukes, com os vocais de C.J. Ramone, que estava com prestígio na banda. Na sequência, uma versão matadora para um clássico do The Who: “Substitute”, que teve a participação do próprio Pete Townshend nos backing vocais. Além da gravação, o guitarrista do The Who apareceu no videoclipe da música, assim como a lenda Lemmy Kilmister. O terceiro tema é “Out Of Time”, uma faixa obscura da vasta discografia dos Rolling Stones, mas Joey Ramone faz uma ótima interpretação. E C.J. volta aos vocais novamente para o cover do Max Frost And The Troopers, que é “Shape Of Things To Come”, mais uma bela performance do baixista. A quinta música é “Somebody To Love”, popularizada com o Jeferson Airplane e que aqui Joey divide os vocais com a ex-atriz pornô Tracy Lords. E “Acid Eaters” chega à sua metade com “When I Was Young”, do The Animals, que ficou tão “ramônica”, que se não aparecesse os nomes dos autores nos créditos, poderia ser considerada facilmente uma música da banda.

A segunda metade do disco começa com um cover do Love – “7 And 7 Is” -, que foi escolhida por Marky Ramone. Confesso que essa é um dos (poucos) pontos baixos do álbum. Em seguida, uma releitura para “My Back Pages”, de Bob Dylan, em que C.J. (novamente!) apresenta um excelente desempenho vocal e justifica o seu prestígio com os demais componentes. A nona canção do álbum é “Can’t Seem To Make You Mine”, dos The Seeds, que é uma faixa menos “brilhosa” em relação às demais, valeu pela homenagem histórica. Em contrapartida, a faixa seguinte, “Have You Ever Seen The Rain?” recompensa. E foi o substituto de Dee Dee Ramone quem escolheu o “hit master” do Creedence Clearwater Revival. A penúltima canção do álbum é “I Can’t Control Myself”, dos Troogs, e que se fosse lançada em “Mondo Bizarro”, todo mundo pensaria que era faixa dos Ramones. E, para encerrar, “Surf City”, de Jan And Dean. A banda chegou a tocar essa música em seus concertos no início dos anos 1980 e está fortemente associada à influência que a Surf Music tem na banda, vide também a clássica “Rockaway Beach”.

A versão de “Acid Eaters” em vinil, lançada em 1997, trazia as mesmas faixas, porém, em ordem diferente à edição de 1994. Além disso, a versão japonesa do álbum, trazia o cover dos Beach Boys, “Surfin’ Safari”.

Mesmo que os atributos que o faz um grande álbum, infelizmente, “Acid Eaters” foi lançado no momento errado. Pois, naquela época, os EUA estavam no momento pós-grunge, que clamavam por canções ramônicas, ou seja, “rápido, básico e sem firulas”, enquanto bandas como The Offspring e Green Day estouravam comercialmente.

De fato, “Acid Eaters” não é o melhor trabalho dos Ramones, está muito longe de um “Ramones”, “Rocket To Russia” ou “Brain Drain”, mas não podemos deixar de reconhecer que o disco demonstrou o amadurecimento dos eternos pais do Punk Rock, além de conhecermos as suas influências.

Abaixo, a ficha técnica e o tracklist do play.

Álbum: Acid Eaters
Intérprete: Ramones
Lançamento: dezembro de 1993
Gravadora: Radioactive Records
Produtor: Scott Hackwith

Joey Ramone: voz
Johnny Ramone: guitarra
C. Jay Ramone: baixo e voz solo em “Journey To The Center Of The Mind”, “The Shape Of Things To Come” e “My Back Pages
Marky Ramone: bateria

Pete Townshend: backing vocal em “Substitute
Sebastian Bach: backing vocal em “Out Of Time
Traci Lords: backing vocal em “Somebody To Love
Joe McGinty: teclados

1. Journey To The Center Of The Mind (Nugent / Farmer)
2. Substitute (Townshend)
3. Out Of Time (Jagger / Richards)
4. The Shape Of Things To Come (Mann / Weil)
5. Somebody To Love (Slick)
6. When I Was Young (Burdon/Weider/Briggs/McCulloch/Jenkins)
7. 7 And 7 Is (Lee)
8. My Back Pages (Dylan)
9. Can’t Seem To Make You Mine (Saxon)
10. Have You Ever Seen The Rain? (Forgety)
11. I Can’t Control Mysel (Presley)
12. Surf City (Wilson / Berry)
Faixa bônus:
13. Surfin’ Safari (Wilson / Love)

Por Jorge Almeida

Ramones: 35 anos de “Road To Ruin”

Road To Ruin: álbum que marca a estreia de Marky Ramone na baqueta dos Ramones
Road To Ruin: álbum que marca a estreia de Marky Ramone na baqueta dos Ramones

No último dia 21 de setembro, o álbum “Road To Ruin”, dos Ramones, fez 35 anos de seu lançamento. O registro marcou a estreia de Marc Bell, que virou Marky Ramone, obviamente, na banda. O ex-Dust substituiu Tommy Ramone na bateria. Além disso, o disco traz outra peculiaridade: foi o primeiro trabalho do grupo com música que ultrapassou os três minutos de duração.

O último registro de Tommy como integrante da banda foi na gravação de um concerto que ocorreu no dia 31 de dezembro de 1977 no Rainbow Theatre, em Londres. Esse show, um ano depois de sua realização, foi lançado como “It’s Alive” (1979), o primeiro trabalho ao vivo dos Ramones e que trazia 28 temas ramônicos intercalados pelos famosos berros “one, two, three, four!” de Dee Dee Ramone. A saída do baterista foi de forma amigável e, inclusive, a principal causa de seu desligamento foi pelo fato de que Tommy estava saturado das longas turnês que os Ramones vinham fazendo. Então, ele dedicou-se à produção de discos, inclusive o próprio “Road To Ruin” e “Too Tough To Die”, e passou a assinar com o seu nome verdadeiro: Tommy Ederlyi.

Com Marky assumindo o posto de baterista em maio de 1978 e, algumas semanas depois, entrou juntamente com Joey, Johnny e Dee Dee Ramone, no estúdio Media Sound, em Nova York, para dar início às gravações do quarto álbum de inéditas da banda punk, cujas seções duraram até junho do mesmo ano. A primeira apresentação com o novo integrante aconteceu em 29 de junho de 1978, logo após a gravação do disco. Então, os Ramones realizaram cerca de 160 shows para a divulgação do álbum.

No final daquele ano, começaram as filmagens de “Rock ‘N’ Roll High School”, um filme produzido em 1979 produzido por Roger Corman e que teve a participação dos Ramones. Porém, o (pouco) dinheiro que a banda recebeu durante as gravações do filme, em Los Angeles, não era suficiente para pagar a conta do hotel. Então, para compensar o “preju”, o quarteto faziam shows em cidades próximas.

Quanto a “Road To Ruin”, ele soou mais pop em relação aos trabalhos anteriores e também é nítida a influência dos grupos sessentistas, em especial os femininos, em músicas como “Don’t Come Close”. E claro que o disco não poderia ficar sem o seu cover. Dessa vez, a música “coverizada” pelos Ramones foi a balada “Needles And Pins”, composta pela dupla Jack Nitzche e Sonny Bono, e que foi gravada primeiramente por Jackie de Shannon em 1963. O disco é recheado de boas músicas, como as citadas anteriormente, e também a faixa que abre o disco (“I Just Want To Have Something To Do”), “I Don’t Want You”, “I’m Against It”, que foi regravada pela banda Overkill em seu álbum de covers intitulado “Coverkill” (1999), a empolgante “She’s The One”, “Bad Brain”, faixa que inspirou os, então, desconhecidos Mind Power a mudarem o nome que dá título à canção, porém, com o substantivo (“brain” = “cérebro”) no plural. E, sem deixar de destacar o clássico “I Wanna Be Sedated”, que, de longe, é a música mais conhecida de “Road To Ruin” e um dos maiores clássicos dos Ramones.

A capa do álbum foi ilustrada por John Homstron, da revista Punk. Vale destacar que o vinil editado nos Estados Unidos foi prensado da forma tradicional, ou seja, na cor preta, enquanto no Reino Unido, o material foi prensado em vinil amarelo transparente.

A versão original dos EUA do álbum foi prensado em vinil preto tradicional, enquanto que a versão original no Reino Unido foi prensado em vinil amarelo transparente.

Em 2001, “Road To Ruin” foi relançado com cinco faixas bônus. Duas delas – “I Want You Around” e “Rock ‘N’ Roll High School” – foram remixadas por Ed Stasium e lançadas anteriormente na trilha sonora de “Rock ‘N’ Roll High School” (1979) e na coletânea dupla “Hey Ho! Let’s Go! Ramones Anthology” (1999), enquanto “Come Back, She Cried A.K.A. I Walk Out” foi gravada em uma demo de “Road To Ruin”, “Yea, Yea” foi gravada durante as sessões de “Pleasant Dreams” (1981), mas já havia sido lançada na coletânea “All The Stuff (And More) – Volume 2” (1991) e, finalmente, o medley “Blitzkrieg Bop / Teenage Lobotomy / California Sun / Pinhead / She’s The One” também consta no tracklist na trilha sonora do filme.

Assim como os três primeiros trabalhos dos Ramones, esse também é obrigatório para quem quiser conhecer melhor o mundo “ramônico” de Joey Ramone e camaradas. Fica a dica.

Abaixo, a ficha técnica e o tracklist desse clássico do rock.

Álbum: Road To Ruin
Intérprete: Ramones
Lançamento: 21 de setembro de 1978
Gravadora: Sire / Warner Bros.
Produtores: Tommy Ederlyi e Ed Stasium

Joey Ramone: voz
Johnny Ramone: guitarra
Dee Dee Ramone: baixo e backing vocal
Marky Ramone: bateria

1. I Just Want To Have Something To Do (Ramones)
2. I Wanted Everything (Ramones)
3. Don’t Come Close (Ramones)
4. I Don’t Want You (Ramones)
5. Needles And Pins (Bono / Nitzsche)
6. I’m Against It (Ramones)
7. I Wanna Be Sedated (Ramones)
8. Go Mental (Ramones)
9. Questioningly (Ramones)
10. She’s The One (Ramones)
11. Bad Brain (Ramones)
12. It’s A Long Way Back (Ramones)
Bônus:
13. I Want You Around (Ed Stasium Version) (Ramones)
14. Rock ‘N’ Roll High School (Ed Stasium Version) (Ramones)
15. Blitzkrieg Bop/Teenage Lobotomy/California Sun/Pinhead/She’s The One (Ramones / Glover & Levy)
16. Come Back, She Cried A.K.A. I Walk Out (demo) (Ramones)
17. Yea, Yea (demo) (Joey Ramone)

Por Jorge Almeida