Sinopse de “Lemmy – A Biografia Definitiva”, de Mick Wall

“Lemmy – A Biografia”, de Mick Wall

Estamos em dezembro e, daqui a cerca de três semanas, completará três anos da morte de uma das figuras mais icônicas da história do rock, Lemmy Kilmister, o eterno frontman do Motörhead. Em 2016, o conceituado jornalista e crítico de rock Mick Wall lançou o livro “Lemmy – The Definity Biography”, que, no seguinte, o mercado brasileiro ganhou a sua edição em português lançada pela Globo Livros, intitulada, obviamente, como “Lemmy – A Biografia Definitiva”.

O autor se baseou nas longas e inúmeras entrevistas que fez ao lendário vocalista/baixista do Motörhead, assim como ex-companheiros de banda, músicos de outros grupos, roadies, empresários, pessoas ligadas às gravadoras que também colaboraram com Mick para falar a respeito de Ian Fraser Kilmister.

Filho único nascido em 24 de dezembro de 1945, em Stoke-On-Trent, em Staffordshire, na Inglaterra, o jovem Ian Kilmister não teve a oportunidade de crescer na companhia do pai, que separou-se de sua mãe antes de seu primeiro ano de vida. Acostumado a conviver sozinho enquanto a mãe saía para trabalhar para garantir o sustento, Ian foi adquirindo a sua própria percepção de mundo e das pessoas e, ao longo dos anos, adquiriu uma personalidade que lhe fora muito peculiar. E, de carona em carona com um amigo, se bicou para Londres e tocou em diversos grupos pequenos em troca de umas míseras libras para sobreviver.

O jornalista Mick Wall acompanhou a saga de Ian, que virou Lemmy, desde os tempos da escola no País de Gales, no começo do sucesso na década de 1960, com os Rockin’ Vicars, depois trabalhou como roadie de Jimi Hendrix, colaborou com o Hawkwind até o topo das paradas de 1972 com o clássico do space rock chamado “Silver Machine” e, expulso do grupo por conta de uso de drogas erradas às vésperas de uma turnê pela América do Norte, Lemmy resolveu montar a sua própria banda, o Motörhead, e de rejeitado tornou-se uma lenda quatro décadas depois.

A obra descreve com exatidão a história de um dos maiores personagens da música pesada, com depoimentos absolutamente franco e honesto de um cara que jamais aceitou ser vendido e nem que a sua banda fosse lesada por “experts” do meio business. Lemmy e outros relatam momentos intensos vividos para o cara que, como ele costumava dizer, “nascido para perder, vivendo para ganhar”. Nenhum assunto passou em branco com o “poLemmyco” (não pude evitar o trocadilho infame) biografado: drogas, mulheres, a jogatina, as trocas de integrantes ao longo da trajetória do Motörhead, a amizade com vários nomes do rock internacional (de Dave Grohl a Ozzy Osbourne), a sua memorabilia de itens nazistas.

Ex-assessor de imprensa e amigo há mais de 35 anos de Lemmy Kilmister, Mick Wall abordou sabiamente o percurso de um homem que não tinha o rebolado de Elvis Presley, não tinha a popularidade dos Beatles, não vendeu como os Rolling Stones, não tinha a loucura de Ozzy Osbourne, não tocava guitarra como Jimi Hendrix ou Eric Clapton, mas com o seu jeito nada simpático, com suas verrugas intimidadoras, cara fechada, chapéu, camisa preta com os botões abertos até a metade da barriga, o cinto de balas e seu Rickenbacker, Lemmy Kilmister era (e ainda é) idolatrado e respeitado por toda gente: desde os punks até os headbangers e apreciadores de Black/Death Metal.

O homem que se tornou maior que o próprio Motörhead. Infelizmente, apesar de toda a mitologia feita em torno de Lemmy, no começo dos anos 2010, o seu lado “mortal” deu seus sinais ao ser que parecia ser eterno, embora ele deixasse claro em “Ace Of Spades”, seu maior clássico, que “não queria viver eternamente”. Nos últimos anos, o velho guerreiro Lemmy Kilmister precisou amenizar o uso de seu speed, de seu Jack Daniels com Coca-Cola e de seu nicotinoso Marlboro. Assim, a cada ano, a saúde do cara malvado do Motörhead piorava e, consequentemente, os cancelamentos de shows passaram ser frequentes (inclusive o do Monsters Of Rock, em São Paulo, em 2015 – para minha frustração), os sinais de sua saúde debilitada estavam cada vez mais visíveis enquanto Lemmy insistia em tentar. Esquecimento de suas próprias letras, saídas repentinas do palco, dificuldades para andar, enfim, o imortal estava dando ao lugar para um senhor de 70 anos que precisava urgentemente de cuidados médicos. Sem contar que nesse período o Motörhead já havia perdido dois integrantes: o ex-guitarrista Würzel e o ex-baterista Phil “Philthy Animal” Taylor”.

Os amigos pareciam adivinhar que o fim estava próximo e resolveram fazer uma festa de aniversário antecipada para Lemmy Kilmister. Vários nomes do rock apareceram. Mas, dois dias após completar 70 anos, em 26 de dezembro de 2015, Lemmy teve um diagnóstico de um câncer inoperável que havia se espalhado pelo seu corpo. Foi dada uma estimativa de vida de dois a seis meses, contudo, apenas dois dias da terrível análise, Ian Fraser Kilmister morria em silêncio, em sua casa, dormindo.

A notícia da morte Lemmy Kilmister foi devastadora em todo o mundo do rock. Várias mensagens de músicos de tudo quanto é canto do mundo lamentaram a perda do vocalista. Os fãs, é claro, embora soubessem da gravidade da saúde do ídolo, não quiseram acreditar que aquele homem que impunha respeito era humano de carne e osso como todos nós.

Quanto ao futuro do Motörhead após a morte de Lemmy Kilmister, conforme relatou Wall na obra, o baterista da última formação da banda, o sueco Mikkey Dee foi claro: “o Motörhead acabou, Lemmy era o Motörhead” e reforçou que a “marca prevalece e Lemmy viverá no coração de todos”. Sábias palavras.

A publicação de Wall está dividida em dez capítulos com cerca de 280 páginas, além de um caderno com fotografias. Sem dúvida, uma das biografias mais impressionantes, brutalmente franca e verdadeira da história do rock. E, de fato, Lemmy Kilmister era único.

A seguir, a ficha técnica da obra.

Livro: Lemmy – A Biografia
Autor: Mick Wall
Editora: Globo Livros (no Brasil)
Lançamento: 2017 (edição em português)
Edição:
Número de páginas: 280
Preço médio: R$ 32,50

Por Jorge Almeida

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Motörhead: 20 anos de “Snake Bite Love”

“Snake Bite Love”, o 14º álbum de estúdio do Motörhead que completou 20 anos em 2018

No último dia 10 de março, o álbum “Snake Bite Love”, do Motörhead, completou 20 anos de seu lançamento. O disco foi o 14º trabalho de estúdio da banda de Lemmy Kilmister, sendo o terceiro com a gravadora Steamhammer. Co-produzido com Howard Benson em diversos estúdios, a gravação foi feito às pressas, segundo o baterista Mikkey Dee.

Antes de entrarem em estúdio, o Motörhead ao longo de 1997 excursionou exaustivamente durante a turnê de “Overnight Sensation”. A parte europeia da tour iniciou em 12 de janeiro, no London Astoria, em Londres, onde os músicos convidados Todd Cambpell, filho de Phil, tocou “Ace Of Spades” e o ex-guitarrista da banda, “Fast” Eddie Clarke tocou em “Overkill”. Essa parte da turnê durou até março e seguiu para mais quatro datas no Japão, entre o final de maio e começo de junho, depois seguiu para uma turnê norte-americana com o W.A.S.P. durante o resto daquele mês. Em agosto, seguiram por mais três datas na Europa e mais sete apresentações em solo britânico, que terminou com uma apresentação no Academia Brixton, em 25 de outubro, que teve a participação do filho de Lemmy, Paul Iner, em “Ace Of Spades”. Mais quatro shows em outubro na Rússia encerraram aquele ano para o grupo.

Lemmy Kilmister lembrou que tudo ocorria bem na turnê, incluindo com apresentações na Argentina e no Japão, em que o grupo tocou em locais maiores. Na opinião do vocalista, a formação com três integrantes estava com o desempenho excelente e que já estava na hora de fazer outro álbum ao vivo. Porém, o grupo acabou fazendo outro disco de estúdio antes, “Snake Bite Love”, gravado em diversos estúdios e lançado em março de 1998.

No livro “Overkill: The Untold Story of Motörhead”, de 2011, o baterista relatou que, na época da gravação do álbum, eles estavam estressados e que se tivessem mais três semanas para gravar, seria ótimo. Dee ainda comentou que “Night Side” foi a pior música já feita e que só foi feita porque não havia mais tempo para escrever outra música.

Já Lemmy Kilmister foi mais ameno sobre o material ao relatar em sua autobiografia “White Line Fever” ao admitir que “saiu muito bem” e que a produção do álbum foi bastante normal para os padrões da banda e reforçou que, seis semanas antes de gravá-lo, não havia nenhuma música feita, mas que, na hora, juntou tudo muito rápido e meteu o “pau na máquina”. Porém, durante alguns ensaios, ele adoeceu, o que comprometeu com o andamento da produção do disco.

O fundador da banda admite que, quando fica dois integrantes que não cantam, “alguns arranjos soam estranhos”, como ele aponta particularmente para os casos de “Desperate For You” e “Night Side”. Lemmy exemplificou como aconteceu com a faixa-título, que começou com uma música totalmente diferente: Mikkey Dee gravou a parte da bateria contra um conjunto distinto de acordes, depois voltou para a Suécia (o baterista é de lá), enquanto Phil Campbell declarou que não gostou do resultado. O baixista concordou e o guitarrista surgiu com um novo riff e mudou toda a coisa.

No documentário do grupo “The Guts And The Glory, The Motörhead History” (2010), Lemmy Kilmister admitira que o play “tinha dois perus neles”, numa referência a “Desperate For You” e “Better Off Dead”, apesar de reconhecer que os fãs gostavam das duas músicas. Enquanto Campbell foi creditado, em uma brincadeira nas notas do álbum, como um glifo impronunciável (algo como “O Artista Frequentemente Visto na Loja de Bebidas”) claro que isso foi a um sarcasmo por causa de Prince.

O disco não foi tão bem recebido, assim como os demais que o grupo lançou na década de 1990, época em que o público em geral tinha ambivalência com relação ao grupo. Boa parte das músicas não foi executada no repertório ao vivo do trio, com raras exceções.

Para alguns críticos, o play mostrou um lado menos pesado do Motörhead, com “um ou dois trechos mais lentos, mas ainda é pesado na maior parte”, ou ainda, com mescla de ideias musicais ao variar o metal cru em “Dogs Of War” e “Assassin” para o rock and roll que influenciou a banda em seus primórdios como na faixa-título e em “Don’t Lie To Me”. O disco pode parecer não tão consistente como o anterior, mas faixas como “Love For Sale” foi tocada com um bom groove, enquanto “Joy Of Labour” traz um riff desagradavelmente lento e a “ordinária” “Night Side” é uma faixa rápida que deve ter agradado os fãs da “velha escola”.

Segundo o crítico musical Stephen Thomas Erlewine, “Snake Bite Love” é um álbum “sem disfarce”… e que “não há necessariamente nada de errado com o disco, já que oferece um conjunto sólido de rocks pesados ​​que correm a uma velocidade vertiginosa, mas não adiciona nenhuma novidade à fórmula ou ter músicas particularmente memoráveis”. Já para o biógrafo do Motörhead, Joel McIver, o disco foi considerado “sólido, confiável e não extremamente memorável”.

Para começar a turnê do álbum, o Motörhead se juntou ao Judas Priest no Anfiteatro Universal de Los Angeles, em 3 de abril. Cerca de um mês e meio depois, em 21 de abril, o show que o grupo fez no The Docks, em Hamburgo, na Alemanha foi gravado e, posteriormente, lançado como “Everything Louder Than Everyone Else” em 1999.

A banda foi convidada para participar do Ozzfest Tour e tocou pelos Estados Unidos entre julho e agosto e marcou presença na Europa no começo de outubro até o final de novembro. A parte britânica da tour foi apelidada de “No Speak With Forked Tongue”, que contou como bandas de apoio o Groop Dogdrill, Radiator e Psycho Squad, que foi liderada pelo filho de Phil Campbell, Todd.

Embora não seja considerado o trabalho mais inspirado do Motörhead, “Snake Bite Love” mantém a fúria e a crueza que só Lemmy Kilmister e sua trupe é capaz de fazer.

A seguir, a ficha técnica e o tracklist da obra.

Álbum: Snake Bite Love
Intérprete: Motörhead
Lançamento: 10 de março de 1998
Gravadora: Steamhammer / SPV GmbH (distribuição) / CMC
Produtores: Howard Benson e Motörhead

Lemmy Kilmister: baixo e voz
Phil Campbell: guitarra
Mikkey Dee: bateria

1. Love For Sale (Kilmister / Campbell / Dee)
2. Dogs Of War (Kilmister / Campbell / Dee)
3. Snake Bite Love (Kilmister / Campbell / Dee)
4. Assassin (Kilmister / Campbell / Dee)
5. Take The Blame (Kilmister / Campbell / Dee)
6. Dead And Gone (Kilmister / Campbell / Dee)
7. Night Side (Kilmister / Campbell / Dee)
8. Don’t Lie To Me (Kilmister)
9. Joy Of Labour (Kilmister / Campbell / Dee)
10. Desperate For You (Kilmister / Campbell / Dee)
11. Better Off Dead (Kilmister / Campbell / Dee)

Por Jorge Almeida

Morre “Fast” Eddie Clark, ex-guitarrista do Motörhead

“Fast” Eddie Clarke, ex-guitarrista do Motörhead, faleceu nesta quarta-feira (10) em decorrência de uma pneumonia. Créditos: divulgação/@motorheadofficial

O ex-guitarrista do Motörhead, “Fast” Eddie Clarke, morreu na noite desta quarta-feira (10), aos 67 anos, no hospital onde se tratava de uma pneumonia. A informação foi divulgada na página oficial da banda no Facebook nesta quinta-feira. Ele foi o último membro da formação considerada pelos fãs como “clássica” do Motörhead a falecer. Antes dele, o baterista Phil “Philthy Animal” Taylor e o baixista e vocalista Lemmy Kilmister morreram no final de 2015.

Conhecido pelo seu jeito feroz e rápido de tocar, daí o apelido “Fast” Eddie, o músico nasceu em 5 de outubro de 1950 como Edward Alan Clarke, em Twickenham, em Londres. Começou a tocar guitarra aos 15 anos e passou por muitas bandas locais até 1973 quando se tornou profissional ao se juntar à banda de rock prog de blues de Curtis Knight, Zeus, como guitarrista principal. No ano seguinte, a banda gravou um álbum chamado “The Second Coming at Olympic Studios“. Clarke escreveu a música para a letra de Knight, em uma faixa intitulada “The Confession“. Depois participou de uma banda chamada Blue Goose, formada juntamente com o amigo Allan Callan, mas um desentendimento entre eles por causa de um amplificador fez com que Clarke deixasse a banda. Em seguida, formou o Continuous Performance, que não obteve sucesso e, de forma temporária, o guitarrista deu um tempo na música.

Mas, em 1975, quando não estava atuando como músico, Eddie conheceu Phil Taylor, que o apresentou a Lemmy Kilmister. E, pouco tempo depois, o trio já estava ensaiando como Motörhead. Na banda, “Fast” Eddie Clarke viveu o seu auge, quando gravou os primeiros cinco álbuns de estúdio – “Motorhead” (1977), “Overkill” (1979), “Bomber” (1979), “Ace Of Spades” (1980) e “Iron Fist” (1982) – e o ‘live’ “No Sleep ‘Til Hammersmith” (1981), além do EP “The St. Valentine’s Day Massacre” (1981), lançado em conjunto com as minas do Girlschool.

No tempo em que ficou no Motörhead (até 1982), Eddie fez o vocal principal em quatro músicas da banda: “Beer Drinkers And Hell Raisers”, “I’m Your Witchdoctor” (na qual faz dueto vocal com Lemmy), “Step Down”, uma versão alternativa de “Stone Dead Forever” (que foi lançada na versão luxuosa de “Bomber”, lançada em 2005), além de “Emergency”, um das faixas do lado B do EP lançado com a banda Girlschool.

O guitarrista deixou a banda em 1982 devido a divergências musicais, formou o Fastway, que chegou até fazer shows de abertura para o AC/DC em uma turnê europeia em 1992, mas sem obter o mesmo sucesso com o Motörhead, embora tenha lançado bons discos de Hard N’ Heavy. Depois do fim da banda, na década de 1990, o guitarrista participou de alguns projetos mais sem muito apelo comercial.

Mas o primeiro integrante do Motörhead a morrer não fez parte da formação clássica. O guitarrista Würzel, que tocou no grupo entre 1984 e 1992, faleceu aos 61 anos em 9 de julho de 2011 após sofrer uma parada cardiorrespiratória.

A morte de “Fast” Eddie Clarke repercutiu nas redes sociais e diversas personalidades do rock se manifestaram. Nomes como Slash (Guns N’ Roses), Scott Ian (Anthrax), além de Mikkey Dee e Phil Campbell, os dois últimos que fizeram parte da formação final do Motörhead (que já não contava com a participação de “Fast” Eddie) lamentaram a morte do “rápido” guitarrista.

Aliás, dentre as bandas consideradas clássicas do rock, o Motörhead se junta aos Ramones como uma das únicas a não contarem mais no plano terrestre a sua formação clássica. Assim como hoje os “motorheadbangers” não têm mais as presenças físicas de Lemmy, Phil e Eddie, os fãs da banda punk não contam mais com os lendários Joey, Johnny, Dee Dee e Tommy Ramone em vida.

A seguir, a informação na íntegra da página oficial do Motörhead no Facebook sobre a morte de “Eddie” Fast Clarke:

Estamos devastados ao comunicar que acabamos de saber ontem à noite, – Edward Allan Clarke, ou como o conhecemos e amamos, Fast Eddie Clarke – morreu ontem.

Ted Carroll, da Chiswick Records, nos deus as más notícias pela sua fanpage no Facebook, depois de saber por Doug Smith que Fast Eddie morreu em paz no hospital onde estava sendo tratado de pneumonia.

Fast Eddie… continue detonando e agitando como um maldito, sua Motörfamily não esperaria nada menos que isso!

RIP Fast Eddie Clarke – 5 de outubro de 1950 a 10 de janeiro de 2018.”.

Obrigado pela obra e o legado deixado, “Fast” Eddie Clarke. Descanse em paz.

Por Jorge Almeida

Motörhead: 30 anos de “Rock ‘N’ Roll”, o álbum

“Rock ‘N’ Roll”: o álbum que marca a volta de Phil “Philthy Animal” Taylor ao Motörhead

Já que estamos às vésperas da data que seria o 72º aniversário do saudoso Lemmy Kilmister, então, vamos falar de Motörhead, mais precisamente dos 30 anos do álbum “Rock ‘N’ Roll”, o oitavo trabalho de estúdio da banda, que saiu em 5 de setembro de 1987, e foi o último lançamento com a GWR, devido a questões legais que atrapalharam o grupo com mais uma gravadora. Gravado ao longo de 1987 no Master Rock Studios e no Redwood Studios, em Londres, o material foi produzido pela banda em conjunto com Guy Bidmead. Esse foi o último disco gravado pelo grupo antes de Kilmister se mudar da Grã-Bretanha para Los Angeles.

Em 1987, Lemmy Kilmister fez uma “pontinha” no filme “Eat The Rich”, do comediante Peter Richardson, como “Spider”, e que trazia o elenco de The Comic Strip. Para a película, a banda compôs a faixa homônima e, em sua trilha sonora, trazia faixas de “Orgasmatron” e o single do álbum solo de “Würzel, “Bess”. Ao longo do processo, Peter Gil foi demitido da banda e Phil “Philthy Animal” Taylor voltou para o grupo. Lemmy encontrou Taylor que, na época, estava tocando com Frankie Miller e o ex-guitarrista do Thin Lizzy, Brian “Robbo” Robertson, e confessou ao amigo que queria voltar. E o líder do Motörhead não titubeou em trazer o baterista de volta, pois ele estava tendo problemas com Gil.

O estúdio Redwood, em Londres, um dos quais fora utilizado pela banda durante a gravação do disco tinha como um dos proprietários Michael Palin. O engenheiro de som que ajudou a banda havia atuado em todos os trabalhos do Monty Python, grupo humorístico que Palin fez parte, e apresentou ao grupo várias faixas que nunca foram gravadas pelos Pythons. Palin foi convidado a descer para fazer uma recitação para o álbum. E ele apareceu vestido com um uniforme de jogador de críquete da década de 1940: um suéter com gola “V” e com o cabelo penteado para um lado. Lemmy se recordou de Palin adentrando no estúdio e perguntando: “Olá, que tipo de coisa faremos agora, então?”, e respondeu-lhe, “Bem, você sabe em The Meaning of Life, tinha esse discurso que começava com “Oh, Senhor -“. Ao que Palin respondeu “Ah! Me dê uma catedral”, e começou a gravar o seu discurso (“Oh, Lord, look down upon these people from Motörhead“). Aliás, esse falso discurso de Palin, intitulado como “Blessing”, em algumas versões aparece como faixa 5 do lado A (nas versões em vinil e K7) ou como faixa oculta inserida no final de “Stone Deaf In The USA” ou no início de “The Wolf”, sendo que nessas versões não aparece creditado no encarte. Porém, há edições do álbum que o discurso aparece como faixa 5 e, consequentemente, deixa o CD com 10 em vez de nove faixas.

Aliás, o imbróglio entre o Motörhead e a GWR começou em 1988. Em dois de julho daquele ano, a banda fez parte do line-up do Giants of Rock Festival, em Hämeenlinna, na Finlândia. As faixas foram lançadas como “No Sleep At All”, em 15 de outubro de 1988. O single do disco planejado pela banda era “Traitor” no lado A, mas, em vez disso foi escolhido “Ace Of Spades”. Ao perceber a mudança feita pela gravadora, os caras se recusaram que fosse permitido o lançamento desse single nas lojas, foi retirado das prateleiras e disponibilizado apenas na turnê “No Sleep At All” e pelo fã-clube Motörheadbangers. Isso durou entre o biênio 1989-1990 e um processo judicial com a GWR se seguiu, que só foi solucionado em meados de 1990.

Sobre “Rock ‘N’ Roll”, no documentário “Motörhead: The Guts And The Glory” (2003), o guitarrista Phil Campbell disse que, embora não seja um ótimo álbum, havia coisas que ele gostava. Já Lemmy, em depoimento na autobiografia “White Line Fever” (2002), escrita em co-autoria com Janiss Garza, comentou que o play tinha “algumas músicas fantásticas”, como “Dogs”, “Boogeyman” e “Traitor”, que tocaram “durante anos”, mas que, no geral, ele simplesmente parecia não funcionar.

Mas, apesar de estar no rol de clássicos do Motörhead, como um “Ace Of Spades” ou “Overkill“, o registro contém 35 minutos do mais puro rock ‘n’ roll, executado da forma visceral e fazendo jus ao nome do álbum. A começar com a faixa-título, que abre o play: pedrada na orelha. Assim como a que encerra o disco, “Boogeyman“. Mas os principais destaques ficam por conta das citadas “Stone Deaf In The USA” e “Dogs” e a “canção de amor”, mas que não é balada, “All For You“, com seu riff de guitarra cativante, “Eat The Rich”, que ganhou um videoclipe, que teve partes do filme de Robertson inserida, e a narração de Michael Palin em “Blessing“. Em “Boogeyman“, os três solos de guitarra foram executados pelo trio Würzel, Campbell e Lemmy (sim, o próprio). No álbum, Würzel e Campbell fizeram revezamentos nas partes de guitarra solo, de base e no slide guitar.

Em 1996, “Rock ‘N’ Roll” foi relançado pela Castle Communications com duas faixas bônus; “Cradle To The Grave” e a longa “Just ‘Cos You’ve Got The Power“, ambas faziam parte do lado B do single de “Eat The Rich”. Dez anos depois, o disco foi relançado também pela Sanctuary Records, que trazia um CD bônus, que começava justamente com essas duas faixas. O restante do material é acrescido de uma apresentação que o Motörhead fez no Monster Of Rock de 1986 em Castle Donington. Na época, Peter Gil ainda estava na bateria e o grupo divulgava a turnê de “Orgasmatron”. Sempre bom reforçar que, alguns clássicos da banda nessa apresentação, como “Ace Of Spades” e “Bite The Bullet”, gravadas originalmente com um guitarrista, ali, ganhou mais velocidade, pois eram executadas por dois guitarristas.

Essa versão da Sanctuary apresenta um encarte magnânimo aos fãs por conter diversas fotos que exibem o espírito “motörheadbanger” da época, além de imagens de pôsteres e de reprodução de produtos de memorabilia, como backstage passes, resenhas, capas de single, setlists, etc, e o texto assinado por Malcolm Dome. E foi o último da série de relançamento lançados pela Sanctuary.

E, apesar da aparição de Lemmy Kilmister em um filme de comédia que tem o mesmo nome de um single e de uma faixa do álbum do Motörhead – “Eat The Rich” -, “Rock ‘N’ Roll” não foi um sucesso comercial, assim como os dois últimos trabalhos do grupo, pois alcançou apenas a modesta 34ª posição nas paradas do Reino Unido, teve a pior performance de todos os principais trabalhos da banda. Apesar de a Grã-Bretanha ter “perdido o interesse” no grupo, os fãs norte-americanos se demonstraram mais dispostos em ir aos shows e comprar os álbuns do grupo, o que renovou a esperança comercial do Motörhead nos Estados Unidos que, talvez, tenha motivado a mudança de Lemmy Kilmister para Los Angeles.

Apesar de, na época, ser composto por um quarteto de respeito, o Motörhead passou por uns perrengues no final dos anos 1980, pois ficaram sem lançar nenhum material novo até 1991, quando saiu o álbum “1916”.

Porém, embora não tenha sido um sucesso de crítica e de vendas, “Rock ‘N’ Roll” é sim um grande disco de rock. Apesar de ter sido menos inspirado, ainda é superior a muitos álbuns de bandas do mainstream.

A seguir, a ficha técnica e o tracklist (versão da Sanctuary) da obra.

Álbum: Rock ‘N’ Roll
Intérprete: Motörhead
Lançamento: 5 de setembro de 1987
Gravadora/Distribuidora: GWR / Castle (relançamento de 1996) / Sanctuary (relançamento de 2006)
Produtores: Motörhead e Guy Bidmead

Lemmy Kilmister: baixo, voz e guitarra solo em “Boogeyman
Phil “Wizzö” Campbell: guitarra e slide guitar em “Eat The Rich
Würzel: guitarra e slide guitar em “Stone Deaf In The USA
Phil “Philthy Animal” Taylor: bateria

Peter Gil: bateria (faixas de 3 a 15 do CD 2)
Michael Palin: narração em “Blessing

CD 1:
1. Rock ‘N’ Roll (Kilmister / Burston / Campbell / Taylor)
2. Eat The Rich (Kilmister / Burston / Campbell / Taylor)
3. Blackheart (Kilmister / Burston / Campbell / Taylor)
4. Stone Deaf In The USA (Kilmister / Burston / Campbell / Taylor)
5. Blessing (Palin) – não creditado em algumas edições
6. The Wolf (Kilmister / Burston / Campbell / Taylor)
7. Traitor (Kilmister / Burston / Campbell / Taylor)
8. Dogs (Kilmister / Burston / Campbell / Taylor)
9. All For You (Kilmister / Burston / Campbell / Taylor)
10. Boogeyman (Kilmister / Burston / Campbell / Taylor)

CD 2:
1. Cradle To The Grave (Kilmister / Burston / Campbell / Taylor)
2. Just ‘Cos You Got The Power (Kilmister / Burston / Campbell / Taylor)
3. Iron Fist (Kilmister / Clarke / Taylor)
4. Stay Clean (Kilmister / Clarke / Taylor)
5. Nothing Up My Sleeve (Kilmister / Burston / Campbell / Gil)
6. Metropolis (Kilmister / Clarke / Taylor)
7. Doctor Rock (Kilmister / Burston / Campbell / Gil)
8. Killed By Death (Kilmister / Burston / Campbell / Gil)
9. Ace Of Spades (Kilmister / Clarke / Taylor)
10. Steal Your Face (Kilmister / Burston / Campbell / Gil)
11. Bite The Bullet (Kilmister / Clarke / Taylor)
12. Built For Speed (Kilmister / Burston / Campbell / Gil)
13. Orgasmatron (Kilmister / Burston / Campbell / Gil)
14. No Class (Kilmister / Clarke / Taylor)
15. Motörhead (Kilmister)

Por Jorge Almeida

Motörhead: 40 anos do autointitulado álbum

“Motörhead”: o primeiro álbum da banda de Lemmy Kilmister que completa 40 anos em 2017

Nesse dia 21 de agosto, segunda-feira, o autointitulado álbum do Motörhead completa 40 anos de seu lançamento. Gravado entre os dias 27 e 29 de abril de 1977, no Escape Studios, em Kent, na Inglaterra, o disco foi produzido por John “Speedy” Keen e lançado pela Chiswick Records. O play é considero o primeiro trabalho da banda de Lemmy Kilmister (o álbum “On Parole” foi gravado antes, porém, lançado depois).

Esse foi o primeiro trabalho lançado com a line-up clássica do Motörhead – Lemmy Kilmister (baixo e voz), “Fast” Eddie Clark (guitarra) e Phil “Philthy Animal” Taylor (bateria). E foi também o único a ser lançado pela Chiswick e, por conta do sucesso do disco, foram contratados pela Bronze Records no começo de 1978.

Em maio de 1975, Lemmy foi demitido do Hawkwind depois de ter sido preso na fronteira do Canadá com os Estados Unidos com posse de drogas. Então, ao voltar para a Inglaterra, ele se juntou para montar uma nova banda, que, temporariamente, chamou-se de Bastard. Além dele, o guitarrista Larry Wallis e o baterista Lucas Fox foram recrutados. O gerente do grupo no período, Doug Smith, os havia alertado que, com o nome de Bastard, não passariam no Top Of The Tops. Logo, Lemmy sugeriu o nome Motörhead, que era também o título da última música que escrevera com o Hawkwind, que parecia mais apropriado e assim ficou e a história foi escrita.

O trio conseguiu assinar com a United Artists, que trabalhava com o Hawkwind, e com eles gravaram um álbum nos Rockfield Studios, no País de Gales, durante o inverno de 1975-76, mas a United Artists duvidou da viabilidade comercial e recusou a lançar o material, o que viria a ser “On Parole”, que saiu apenas em 1979.

Em abril de 1977, frustrados com a United Artists, o grupo fez a sua primeira alteração em sua formação: saíram Lucas Fox que, para Lemmy, não era comprometido o suficiente para permanecer no Motörhead, e Larry Wallis, que saiu por conta própria após um show no Marquee Club, em Londres, e entraram Phil “Philthy Animal” Taylor e “Fast” Eddie Clark, respectivamente.

Paralelamente a essa situação, não muito longe dali, Ted Carroll tinha começado os serviços de sua Chiswick Records após Lemmy ter sido demitido do Hawkwind. E, como os dois já se conheciam por conta de uma loja de LP’s que Ted possuía em Londres, da qual Kilmister era um cliente assíduo. Ted deu a oportunidade que o Motörhead precisava. A chance veio quase como um favor, pois a United Artists havia colocado o álbum gravado pelo Motörhead “na geladeira”.

E, no que poderia ter sido o show de despedida do Motörhead, a banda pediu para Carroll gravar o show, mas como o Marquee queria cobrar 500 libras esterlinas para fazer uma gravação lá, o que estava fora de cogitação na ocasião. Foi então que Carroll ofereceu ao grupo dois dias no Escape Studios, em Kent, para gravar um single com o produtor John “Speedy” Keen.

Assim que terminou o show no Marquee, a banda se dirigiu diretamente para o estúdio em Kent. Com o estúdio livre, os caras aproveitaram o final de semana e o material que vinham tocando há um ano e pensaram em “ferrar o cara” e gravar um álbum inteiro em vez de um single. E, em poucas horas e poucas cervejas a mais, o material foi finalizado na noite de sábado.

No entanto, quando Carroll voltou aos estúdios para ouvir os resultados, o trio gravou nada menos do que onze faixas. Impressionado com o que escutou, ele pagou por mais tempo pelo estúdio e permitir que o Motörhead terminasse o álbum. Com esse apoio, o grupo reescreveu quase todo o conteúdo do álbum gravado pela United Artists, deixando apenas “Fools” e “Leaving Here” sem regravar. Além disso, foram acrescidas mais duas novas composições autorais: “White Line Fever” e “Keep Us On The Road”, além de um cover cabuloso de Tiny Bradshaw: “Train Kept A-Rollin’” (também regravada pelo Aerosmith em seu “Get Your Wing”, de 1974).

Das faixas gravadas para o ‘debut’, três foram compostas por Lemmy nos tempos de Hawkwind – “Motörhead”, “Lost Johnny” e “The Watcher”. Aliás, a faixa-título foi lançada em single tendo “City Kids”, que não entrou no álbum, no lado B.

A sessão ainda teve quatro faixas gravadas que ficaram arquivadas até 1980, quando foram lançadas no EP “Beer Drinkers And Hell Raisers”, pela Big Beat Records, entre eles a versão matadora da faixa que dá nome ao EP, gravada originalmente pelo ZZ Top. Todavia, o lado B do single “Motörhead” e o material do EP foram posteriormente adicionados como faixas bônus na versão em CD do play.

No entanto, os membros da banda não ficaram muitos satisfeitos com o som confuso, cru e pesado, diferentemente, da qualidade de gravação mais bem polida nos lançamentos seguintes. Até aí, tudo bem, afinal, os caras ainda estavam buscando o seu som em meio ao caos que estavam passando naquele momento.

A faixa-título dispensa comentários, clássico absoluto, enquanto “Lost Johnny” dá uma cadenciada que remete ao Metal europeu, mas claro com a marca registrada do Motörhead. O hardão se faz presente com a dobradinha “Iron Horse/Born To Lose” e o que dizer da ‘blueseira’ “Keep Us On The Road”?

A capa do álbum traz o famoso “mascote” da banda, o Warpig “Snaggletooth”, que se tornaria o ícone da banda (assim como as verrugas de Lemmy!), foi criada pelo artista Joe Petagno, que havia trabalhado com Storm Thorgerson (1944-2013) da Hipgnosis e criou o logo da Swan Song, a gravadora do Led Zeppelin. De acordo com o artista, o Warpig é uma suposta combinação de urso, um lobo e um crânio de cachorro com presas de javali. A versão original da ilustração tinha uma suástica na espiga do capacete, mas foi removida.

Assim como o trabalho de estreia dos Ramones, “Motörhead”, o álbum, foi gravado com uma sonoridade crua e suja, porém, rápida, básica e sem frescura. Ou seja, embora não tenha tantos temas que se tornariam clássicos, esse disco é apenas um indício da capacidade de Lemmy Kilmister em chutar os traseiros de quem não gosta de sua banda. Ouça-o no máximo.

A seguir, a ficha técnica e o tracklist do material.

Álbum: Motörhead
Intérprete: Motörhead
Lançamento: 21 de agosto de 1977
Gravadora: Chiswick (1977) / Big Beat Records (1988) / Chiswick (Ace Records) (2001)
Produtor: John “Speed” Keen

Lemmy Kilmister: voz e baixo
“Fast” Eddie Clarke: guitarra, backing vocal e voz em “Beer Drinkers And Hell Raisers” e “I’m Your Witchdoctor
Phil “Philthy Animal” Taylor: bateria

1.Motörhead (Kilmister)
2. Vibrator (Wallis / Brown)
3. Lost Johnny (Kilmister / Farren)
4. Iron Horse/Born To Lose (Taylor / Brown / Lawrence)
5. White Line Fever (Kilmister / Clarke / Taylor)
6. Keep Us On The Road (Kilmister / Clarke / Taylor / Farren)
7. The Watcher (Kilmister)
8. The Train Kept A-Rollin’ (Bradshaw / Kay / Mann)
Faixas bônus:
9. City Kids (Wallis / Sanderson)
10. Beer Drinkers And Hell Raisers (Gibbons / Hill / Beard)
11. On Parole (Wallis)
12. Instro (Instrumental) (Kilmister / Clarke / Taylor)
13. I’m Your Witchdoctor (Mayall)

Por Jorge Almeida

Motörhead: 15 anos de “Hammered”

“Hammered”, álbum do Motörhead, que completou 15 anos em 2017

No último dia 9 de abril, o álbum “Hammered”, do Motörhead, completou 15 anos de seu lançamento. O disco é o 16º trabalho de estúdio da banda capitaneada por Lemmy Kilmister. Gravado no Henson Studios e no Chuck Reed’s House ao longo de 2001, o material foi produzido por Thom Panunzio e pelo próprio Motörhead. O disco foi o primeiro a ser distribuído pela Metal-Is, uma subsidiária da Sanctuary Records na América do Norte.

Na biografia da banda escrita Joel McIver – “Overkill: The Untold Story Of Motörhead” – Mikkey Dee menciona que o disco foi influenciado pelos ataques ao World Trade Center, em 11 de setembro. Faz sentido, uma vez que o disco tem em suas letras uma abordagem mais sombria e tom reflexivo.

No entanto, para Lemmy, conforme seu depoimento no documentário “The Guts And The Glory”, o play “há algumas boas faixas sobre o tema e há uma porcaria nele”. O disco também é lembrado por “The Game” – que é faixa bônus -, escrito pelo compositor de música da WWE, Jim Johnston, como o tema de entrada para o lutador Triple H. Em dois eventos da WrestleMania, WrestleMania X-Seven e WrestleMania 21, Motörhead interpretaria esta música ao vivo quando Triple H fez sua entrada ao ringue. Triple H também contribuiu com os vocais na faixa de palavras faladas “Serial Killer“.

A capa foi concebida por um velho conhecido da banda, Joe Petagno, que disse em uma entrevista que saiu no DVD bônus do álbum “Inferno” (2004), que “originalmente seria usado para o design do aniversário de 27 anos (da banda), tiramos os 27 e experimentamos. A primeira ideia que Lemmy tinha era colocar dois martelos cruzados no fundo, mas parecia muito russo. Então nós optamos por um ás no final. Era supostamente para ser a trança de ouro que você teria em sua gola ou ombro militar. É muito bonito. A parte mais difícil foi a rotulação, os destaques e as sombra“.

Duas semanas após do lançamento de “Hammered” saiu também um DVD com registros do Motörhead nas décadas de 1970 e 1980 intitulado “The Best Of Motörhead”. A turnê do novo trabalho começou nos Estados Unidos, por onde seguiu até o final de maio, e depois por uma parte da Europa entre junho e agosto. No mês de outubro, o trio tocou no Reino Unido em cinco datas, tendo participações do Anthrax, Skew Siskin e Psycho Squad, que na apresentação realizada no Wembley Arena, em Londres, foi substituída pelo Hawkwind como banda de apoio. Nessa ocasião, Lemmy subiu ao palco com eles e tocou “Silver Machine”, que foi lançado como single pela ex-banda em 1972. Em seguida, durante o resto de outubro e boa parte de novembro, o Motörhead seguiu em turnê com o Anthrax.

De abril e maio de 2003, a banda continuou a promover o álbum “Hammered” nos Estados Unidos, e nas três datas que Phil Campbell teve de se ausentar por conta da morte de sua mãe. Na ocasião, Todd Youth o substituiu. Entre o final de maio e meados de julho, a banda tocou sete datas nos Festivais de Verão na Europa e, no final de julho até o final de agosto, estavam viajando pelos Estados Unidos com Iron Maiden e Dio. Em 7 de outubro, uma coleção abrangente de cinco discos das gravações da banda entre 1975 e 2002 foi lançada como “Stone Deaf Forever!”. Em 1º de setembro de 2003, a banda retornou ao clube Whiskey A Go-Go de Hollywood para a Indução da Hollywood Walk of Fame. Durante o mês de outubro, a banda realizou uma turnê pelo Reino Unido com o pessoal do The Wildhearts e Young Heart Attack. O grupo realizou sete shows em toda a Bélgica, Países Baixos e Espanha, entre 21 e 28 de outubro, e desde o final de novembro até o início de dezembro, foram na Alemanha e na Suíça, viajando com Skew Siskin e Mustasch. No dia 9 de dezembro, o álbum “Live at Brixton Academy” foi lançado. O material foi gravado em 2000 durante as comemorações de 25 anos da banda.

O disco abre com “Walk A Crooked Mile”, que já entrou no rol dos clássicos de Motörhead (mais um entre vários). Seu grande destaque é a linha de baixo de Lemmy Kilmister. Tem um pouco de pegada punk, como muitas músicas do grupo. Em seguida aparece a ‘massacrante’ “Down The Line”, com guitarra pesada e uma excelente pegada de bateria. O terceiro tema é “Brave New World”, que contém uma intro de bateria poderosa, uma guitarra agressiva e o estilo speed metal característico do Motörhead. Só tem o mesmo título de uma canção homônima do Iron Maiden, mas não tem nada a ver com a música da Donzela de Ferro.

A quarta faixa é “Voices From The War”, pesada, mas nem tão pesada quanto o conteúdo da letra que aborda o sofrimento em estado bruto, da dor de quem afeta ou é afetado diretamente pela guerra: deixar entes queridos para trás, ver os seus membros amputados. O play segue com “Mine All Mine”, cuja introdução lembra vagamente “I Was Made For Lovin’ You”, do Kiss. Há a participação especial de Dizzy Reed, famoso pelo trabalho com o Guns ‘N’ Roses, no piano. O sexto tema é a ‘hardona oitentista’ “Shut Your Mouth”, com uma pitada à Motörhead.

O disco continua a todo vapor com a pesada “Kill The World”, cuja mensagem pede para nos salvar e “matar” o mundo. Já em “Dr. Love”, a oitava faixa, traz o perfeito entrosamento do baixo retorcido de Lemmy e a guitarra suja de Campbell, e fala do homem estilo ‘machão’ e pegador no melhor estilo rockstar. O álbum apresenta a ‘trasher’ “No Remorse”, faixa nove, com seu vocal agressivo e a abordagem que fala do fim da vida e que não devemos ter remorso.

A penúltima faixa é a porrada sonora “Red Raw”, cuja rapidez lembra “Ace Of Spades”, e que nos deixa impossibilitado de ouvi-la sem se mexer. E o final vem com “Serial Killer”, com um discurso feito por Kilmister que é de amedontrar.

Algumas edições do “Hammered” ainda traz duas faixas bônus: a já citada “The Game” e uma versão ao vivo de “Overnight Sensation”, registrada em 2000.

Embora não tivesse sido o “trabalho dos sonhos” de Lemmy Kilmister, “Hammered” é um tremendo disco, pois tem o “padrão Motörhead de qualidade”.

A seguir, a ficha técnica e o tracklist do disco.

Álbum: Hammered
Intérprete: Motörhead
Lançamento: 9 de abril de 2002
Gravadora: SPV GmbH / Metal-Is
Produtores: Thom Panunzio e Motörhead

Lemmy Kilmister: baixo e voz
Phil Campbell: guitarra
Mikkey Dee: bateria

Dizzy Reed: piano em “Mine All Mine”]
Triple H: co-vocais em “Serial Killer

1. Walk A Crooked Mile (Kilmister / Campbell / Dee)
2. Down The Line (Kilmister / Campbell / Dee)
3. Brave New World (Kilmister / Campbell / Dee)
4. Voices From The War (Kilmister / Campbell / Dee)
5. Mine All Mine (Kilmister / Campbell / Dee)
6. Shut Your Mouth (Kilmister / Campbell / Dee)
7. Kill The World (Kilmister / Campbell / Dee)
8. Dr. Love (Kilmister / Campbell / Dee)
9. No Remorse (Kilmister / Campbell / Dee)
10. Red Raw (Kilmister / Campbell / Dee)
11. Serial Killer (Kilmister / Campbell / Dee)
Bônus tracks:
12. The Game (Johnston)
13. Overnight Sensation (live) (Kilmister / Campbell / Dee)

Por Jorge Almeida

Sinopse de “A História Não Contada do Motörhead”, de Joel McIver

O livro de Joel McIver documenta uma das maiores bandas da história
O livro de Joel McIver documenta uma das maiores bandas da história

Lançado lá fora em 2011, o livro de Joel McIver ganhou em 2016 uma versão em português que, aqui no Brasil, foi lançada pela Edições Ideal, e aborda uma das bandas de rock mais influentes, importantes e polêmicas da história: Motörhead.

Com 276 páginas distribuídas em 20 capítulos divididos em ordem cronológica, a obra de McIver começa antes de 1971 e vai até 2011, ou seja, quando o livro foi lançado originalmente e, claro, antes da morte do ícone Lemmy Kilmister.

O livro conta a história do power trio britânico capitaneado por Lemmy, que estabeleceu um carreira impressionante, pontuada por músicas rápidas, pesadas, farras homéricas e um dos shows mais poderosos que se tem notícias. Enfim, um caminho tortuoso, com vários bons e maus momentos, dessa banda que prestou mais de 40 anos de bons serviços ao rock and roll.

Até os dias atuais, mesmo com o fim do Motörhead, que se foi junto com a morte de seu mentor no final de 2015, o grupo fez parte do mainstream das grandes bandas de rock, mas que nunca fez questão de carregar esse rótulo, especialmente Lemmy, cuja parte do livro é dedicada a ele, até porque, em se tratando de Motörhead, não tinha como ser diferente, afinal, desde 1975, quando a banda, de fato, começou, o saudoso vocalista/baixista sempre esteve à frente do grupo e, nesta biografia, Kilmister destacou a importância de seus colegas de banda e que, todo dinheiro que ganhavam com o Motörhead era dividido igualmente.

O Motörhead começou como trio na metade dos anos 1970, virou quarteto no meio da década de 1980 e, depois, voltou a ser trio até o fim, em 2015, logo, quando o livro já havia saído da editora, pelo menos a versão estrangeira, não custa reforçar.

Com 20 álbuns lançados, alguns registros ao vivo e várias coletâneas, o Motörhead foi uma genuína banda de rock. Seus integrantes seguiram à risca à filosofia de “sexo, drogas e rock and roll”. O escritor Joel McIver fez um trabalho minucioso ao coletar e organizar relatos e entrevistas de várias fontes num recorde de tempo de mais quatro décadas.

A história – contada ou não contada – do Motörhead é a própria história de Lemmy Kilmister. Pois, ele sempre esteve lá, o cara mais velho e mais experiente do grupo, foi forte influência para várias bandas, que tal o Metallica só para citar uma?

Embora a biografia seja dedicada à banda, McIver relata também acontecimentos relacionados a Lemmy Kilmister que constatam que ele é a própria história do rock. Aos 12 anos, em 1957, teve seu primeiro contato com o Rock And Roll, com Bill Haley, foi impactado por Little Richard, Jerry Lee Lewis, Chuck Berry e Fats Domino, foi roadie de Jimi Hendrix, dormiu no sofá da casa da mãe de Jon Lord (Deep Purple), tocou no Hawkwind, montou o Motörhead, excursionou com Dio, aliviou a barra do Twisted Sister diante dos fãs, fez parceria com as garotas do Girlschool, escreveu músicas com Ozzy Osbourne, foi homenageado pelo Metallica em sua festa surpresa de 50 anos quando James Hetfield e sua trupe se caracterizaram de Lemmy.

O Motörhead foi uma das bandas que, digamos, “inrotulável”, ou seja, nunca pertenceu a nenhuma vertente do rock específica, embora já tenham tentado classificá-lo como Trash Metal, Punk, NWOBHM, Heavy Metal, enfim, o grupo sempre foi aquilo que seu mentor sempre pregou: “uma banda de rock and roll”.

E, evidentemente, que não poderia deixar de esquecer de falar sobre o prefácio da obra que foi escrito “simplesmente” pelo The Voice Of Rock, Glenn Hughes (ex-Trapeze, Deep Purple, Black Sabbath e outros). No texto, o renomado baixista definiu muito bem: “Lemmy é o rock ‘n’ roll personificado”. Perfeito!

E, seguramente, essa obra de Joel McIver é um pedaço expressivo da história do rock.

A seguir, a ficha técnica do livro.

Livro: A História Não Contada do Motörhead
Autor: Joel McIver
Páginas: 276
Editora: Edições Ideal
Edição: 1
Ano: 2015 (versão em português)
Preço médio: R$ 35,90

Por Jorge Almeida