Motörhead: 15 anos de “Inferno”

“Inferno”: clássico do Motörhead que completa 15 em 2019

Hoje, 22 de junho de 2019, o décimo sétimo álbum de estúdio do Motörhead, “Inferno“, completa 15 anos. Gravado no NRG Studios, Paramount Studios e Maple Studios, no começo de 2004, o disco foi produzido por Cameron Webb e foi o oitavo trabalho da banda lançado com a Steamhammer, sendo o segundo a sair pela Sanctuary Records e sua subsidiária Metal-Is na América do Norte e outros mercados.

O registro foi o primeiro do Motörhead com Cameron Webb que, dissera uma vez em entrevista a Joel McIver para o Classic Rock Motörhead, em 2010, que gostaria de fazer um álbum pesado para a banda e que encontrou os caras em um jantar no Sunset Marquis Hotel para discutir a oportunidade de trabalharem juntos. E, apesar de suas pretensões em querer fazer um “disco pesado” para o Motörhead, ele “barrou” em Lemmy que gosta de “tocar rock and roll e não música pesada”.

Apesar da exigência do “dono da banda”, Webb e o grupo produziram o disco mais pesado do Motörhead em anos. Mas o procedimento para a gravação do play foi o mesmo que os outros: aluguel de uma grande sala para ensaiar em Los Angeles, compondo os novos temas em um mês e meio e, em uma semana, gravou as faixas “ainda frescas”.

Embora o Motörhead praticamente tenha feito a mesma coisa desde 1976, esse trabalho, certamente, foi o melhor lançado pela formação vigente à época – Lemmy Kilmister, Phil Campbell e Mikkey Dee -, e que traz aquela velha e inconfundível essência do grupo: a mistureba de punk, metal e rock and roll, que fazem de “Inferno” praticamente mais um clássico para os ‘motoreadbangers’.

Além de Lemmy com sua inconfundível voz e o uso de seu baixo como guitarra, de Phil Campbell, com sua ótima performance nas guitarras e solando muito e Mikkey Dee tocando demais, o registro traz a participação especilissima de Steve Vai, que divide as guitarras com Campbell em “Terminal Show“, faixa que abre a obra, e que faz um solo em “Down On Me“.

Quanto ao tracklist, o álbum contém as pesadonas “Fight“, “Smiling Like A Killer“, a citada “Down On Me“, as ótimas “In Name Of Tragedy” e “Killers“, que certamente abriram muitas rodas de mosh quando os caras fizeram a turnê do play. Outro bom tema é o blues pesado de “Keys Of The Kingdom“, com passagens de cordas e refrão grudento.

E, para manter a tradição, o grupo apresenta uma faixa que se destoa de sua sonoridade costumeira, caso de “Whorehouse Blues“, que encerra a obra com um blues acústico bem interessante e que serve para aliviar os danificados ouvidos após tanta “pedrada”. Nela, os três músicos tocam violão e Lemmy ainda ousa arriscar uma gaita no final. Carinhosamente, a chamo de “Blues do Puteiro“,

A filmagem do vídeo de “Whorehouse Blues” deveria ter lugar no clube de um Stringfellow, mas Peter Stringfellow se opôs ao título da música e suas associações, e retirou qualquer envolvimento. Com vinte e quatro horas restantes até a filmagem, eles encontraram um clube em Ealing.

A capa, claro, tem a assinatura de Joe Petagno, artista de longa data da banda, e que, de acordo com o próprio, “foi uma espécie de retorno ao ‘Overkill‘ e dar uma segunda chance”.

Algumas versões de “Inferno” vem acrescido com um DVD como bônus. No material, entrevistas e o making off do álbum, além de três videoclipes “Brave New World“, “Serial Killer” e “We Are Motörhead“.

A seguir, a ficha técnica e o tracklist da obra.

Álbum: Inferno
Intérprete: Motörhead
Lançamento: 22 de junho de 2004
Gravadora: SPV GmbH / Sanctuary Records (nos Estados Unidos)
Produtor: Cameron Webb

Lemmy Kilmister: voz, baixo, violão e gaita em “Whorehouse Blues
Phil Campbell: guitarra e violão em “Whorehouse Blues
Mikkey Dee: bateria e violão em “Whorehouse Blues

Steve Vai: guitarra em “Terminal Show” e solo em “Down On Me
Curtis Mathewson: cordas em “Keys Of The Kingdon

1. Terminal Show (Kilmister / Campbell / Dee)
2. Killers (Kilmister / Campbell / Dee)
3. In The Name Of Tragedy (Kilmister / Campbell / Dee)
4. Suicide (Kilmister / Campbell / Dee)
5. Life’s A Bitch (Kilmister / Campbell / Dee)
6. Down On Me (Kilmister / Campbell / Dee)
7. In The Black (Kilmister / Campbell / Dee)
8. Fight (Kilmister / Campbell / Dee)
9. In The Year Of The Wolf (Kilmister / Campbell / Dee)
10. Keys To The Kingdom (Kilmister / Campbell / Dee)
11. Smiling Like A Killer (Kilmister / Campbell / Dee)
12. Whorehouse Blues (Kilmister / Campbell / Dee)

Por Jorge Almeida

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Motörhead: 25 anos de “Live At Brixton”

“Live At Brixton”: registro ao vivo do Motörhead gravado em 1987 e lançado em 1994

O quarto registro ao vivo do Motörhead, “Live At Brixton”, completa hoje, sexta-feira, 12 de abril, 25 anos de seu lançamento. Produzido por Mo The Man, foi lançado pela Roadrunner Records em 1994 e pela Sanctuary Records em 2005 com o acréscimo do termo “’87” no título da obra. O registro traz, no entanto, a gravação de uma apresentação que Lemmy Kilmister e sua trupe fizeram na Brixton Academy, em Londres, no dia 23 de dezembro de 1987, véspera do 42º aniversário do vocalista.

A pretensão do grupo, originalmente, era ter usado esse concerto para o que se tornou o ‘live’ “No Sleep At All”, em 1988. Porém, este material “desapareceu” por alguns anos, e eles não conseguiram encontrá-lo e, para suprir o “sumiço”, a banda utilizou o show realizado no Giants Of Rock, na Finlândia, seis meses depois.

Antes do lançamento licenciado pela Roadrunner, sem a permissão da banda, esse show encontrava-se disponível como ‘bootleg’. Por isso que o ouvinte pode notar nitidamente a “pobreza” na qualidade do som para ser “produzido” para um disco ao vivo. Apesar de ter feito a remasterização das fitas originais, a versão reeditada pela Sanctuary – essa sim com o aval do Lemmy para a sua ‘oficialização’ -, em 2005, não saiu “lá essas coisas”.

Na ocasião do espetáculo, o Motörhead atuara como um quarteto e vinha das turnês dos álbuns “Orgasmatron” (1986) e “Rock And Roll” (1987), e parte do material do play nunca mais fora tocada ao vivo após o término da tour, em 1988.

Com isso, faixas como “Doctor Rock”, “Jus ‘Cos You Got The Power” (lado B do single “Eat The Rich”), nunca foram ouvidas novamente até o lançamento do DVD “Stage Fright” (2005). Enquanto isso, clássicos como “Stay Clean”, “Metropolis” e “Ace Of Spades” estão presentes no tracklist. Aliás, essas faixas só não constam nos bootlegs “Live In Toronto” (1982) e “Live In Manchester” (1983), sendo este último com a participação de Brian Robertson na guitarra, e que foi “oficializado” em 2005 ao ser incluído como CD bônus na versão remasterizada do álbum “Another Perfect Day” (1983).

Já em outros casos, como “Deaf Forever”, “Built For Speed”, “Eat The Rich”, “Stone Deaf In The U.S.A.”, “Traitor” e “Dogs” só fizeram parte do repertório ao vivo do Motörhead durante as turnês que aconteceram entre 1986 e 1988, já que a partir da década de 1990, todas foram limadas do set ao vivo da banda, mesmo em apresentações aleatórias. Aliás, esse foi o único disco ao vivo oficial do grupo que a faixa “Rock ‘N’ Roll” foi lançada.

Os “motörheadbangers” certamente notaram a ausência de temas clássicos e obrigatórios como “No Class”, “Orgasmatron”, “Motörhead”, “Overkill” e “Killed By Death”, que foram tocados no concerto, mas que ficou de fora desse lançamento, assim como o ao vivo anterior do grupo, embora exista um bootleg japonês com o show completo que está em circulação.

Com 12 faixas, “Live At Brixton” pode até pecar pela qualidade duvidosa do áudio, mas, em se tratando de Motörhead, isso é o de menos, pois, o negócio é estourar o tímpano e chutar traseiros por aí. Som na máquina.

A seguir, a ficha técnica e o tracklist da obra.

Álbum: Live At Brixton / Live At Brixton ‘87
Intérprete: Motörhead
Lançamento: 12 de abril de 1994
Gravadoras: Roadrunner Records / Sanctuary Records (relançamento de 2005)
Produtor: Mo The Man

Lemmy Kilmister: baixo e voz
Phil Campbell e Würzel: guitarra e backing vocal
Phil “Philthy Animal” Taylor: bateria

1. Doctor Rock (Kilmister / Burston / Campbell / Gill)
2. Stay Clean (Kilmister / Clarke / Taylor)
3. Traitor (Kilmister / Campbell / Burston / Taylor)
4. Metropolis (Kilmister / Clarke / Taylor)
5. Dogs (Kilmister / Campbell / Burston / Taylor)
6. Ace Of Spades (Kilmister / Clarke / Taylor)
7. Stone Deaf In The U.S.A. (Kilmister / Campbell / Burston / Taylor)
8. Eat The Rich (Kilmister / Campbell / Burston / Taylor)
9. Built For Speed (Kilmister / Burston / Campbell / Gill)
10. Rock ‘N’ Roll (Kilmister / Campbell / Burston / Taylor)
11. Deaf Foverer (Kilmister / Burston / Campbell)
12. Just ‘Cos You Got The Power (Kilmister / Campbell / Burston / Taylor)

Por Jorge Almeida

Motörhead: 20 anos de “Everything Louder Than Everyone Else”

“Everything Louder Than Everyone Else”: disco duplo ao vivo do Motörhead que completa 20 anos em 2019

Hoje, dia 9 de março, completam-se 20 anos do lançamento de “Everything Louder Than Everyone Else“, o sexto registro ao vivo do Motörhead. Gravado ao vivo no The Docks, em Hamburgo, na Alemanha, em 21 de junho de 1998, o disco duplo foi produzido pela própria banda e lançado pelas gravadoras independentes SPV GmbH, na Alemanha, e pela CMC, no mercado norte-americano.

Gravado durante a turnê de “Snake Bite Love“, o play mostra que o trio composto por Lemmy Kilmister (baixo e voz), Phil Campbell (guitarra) e Mikkey Dee (bateria) estava em plena forma e que trazem a essência de como o Motörhead era no palco. Sem frescura, o negócio era fazer rock and roll de qualidade e acelerado como padrão. Com 25 temas, o play mescla clássicos eternos da banda com faixas recentes que o tempo a tratou de deixá-las clássicas.

No registro, é nítido o desempenho impecável dos caras. Com uma sonoridade absurdamente alta e de qualidade, quem não conhece a banda, não poderia acreditar que o material executado foi feito por apenas três caras. E, musicalmente falando, o entrosamento deles é tão impressionante que, ao longo do show, não há um “buraco” entre as músicas, tanto que a falta de um segundo guitarrista não é notada. Afinal, Campbell segura a bronca nas seis cordas sozinho enquanto Lemmy faz de seu baixo uma guitarra rítmica, que preenche os “espaços vazios” no som da banda. Além disso, Mikkey Dee faz uma performance tão estupenda que, em uma parte do show, o “chefe” o menciona como “o melhor baterista do mundo”.

E, curiosamente, pelo fato de ter sido lançado por uma gravadora independente, a qualidade do som impressiona, tanto por estar limpo, alto e cru. Assim, quem ouve a obra consegue escutar cada instrumento separadamente.

O CD 1 abre com a tradicional “boas-vindas” de Lemmy: “We’re Motörhead. We’re gonna kick your ass” e, em seguida, arrebentam com tudo com uma dobradinha de clássicos: “Iron Fist” e “No Class“. Posteriormente, a pedrada segue com uma sequência de quatro petardos lançados na década de 1990: “On Your Feet Or On Your Knees“, “Over Your Shoulder“, “Civil War” (melhor que a “homônima” dos Guns N’ Roses) e “Burner“. Depois, os caras mandam bala e mesclam hits das décadas anteriores e as, então na época, faixas recentes: “Metropolis“, “Nothing Up My Sleeve“, “I’m So Bad (Baby I Don’t Care)“, a arrasa-quarteirão “The Chase Is Better Than The Catch“, do inenarrável álbum “Ace Of Spades” (1980), e a ‘fresca’ “Take The Blame“, do mais recente disco da banda naquele período. Em seguida, mais clássicos: “No Class“, que dispensa comentários, “Overnight Sensation” e a primeira parte da obra termina com “Sacrifice“.

O CD 2 se inicia com uma dobradinha do disco “Bastards” (1993): “Born To Raise Hell“, que fez relativo sucesso na época em que foi lançada e a “falsa” balada “Lost In The Ozone“. A obra segue com “The One To Sing The Blues“, do álbum “1916“, e com a incrível “Capricorn“. E o último tema recente do tracklist aparece com “Love For Sale“. Depois disso, é uma pedrada atrás da outra que começa com “Orgasmatron“, a ‘brasileira’ “Going To Brazil“, “Killed By Death“, “Bomber” e, para colocar a cereja no bolo, a obrigatória “Ace Of Spades” e “Overkill“, com as ‘falsas codas’.

Depois de conferir duas horas do mais puro rock and roll, o ouvinte chegará à conclusão de que não era à toa que a boa reputação que o Motörhead tinha como ótimos músicos ao vivo.

Aliás, vale destacar a forma de interação entre Kilmister e o público, tudo devidamente capturada na gravação ao vivo, o que comprova que o negócio foi ao vivo, de fato, sem overdubs. E o melhor: tudo gravado no mesmo show, e não em vários locais diferentes, como acontece frequentemente na maioria dos registros ‘live’ das bandas. Sem contar que não há ‘medleys’ e sem aqueles dez minutos desnecessários de solos individuais. Além disso, parece que o trio tentou fazer fielmente a versão de estúdio das músicas, porém, duas vezes mais rápidas e mais altas.

A seleção das faixas em “Everything Louder...” não deixa a desejar e a mistura de músicas entre antigas e as mais novas combinaram perfeitamente. Mas sem desmerecer o nostálgico “No Sleep ‘Till Hammersmith” (1981).

E, se você está procurando por uma obra-prima ao vivo rápida, pesada e impiedosa, esse é o disco certo para ti. Porém, para quem quiser entrar no universo dos motörheadbangers, esse não é o ponto de partida ideal, pois, poderá se decepcionar depois com as versões menos velozes dessas faixas nos lançamentos de estúdio. E, duas palavras para finalizar: compre agora.

A seguir, a ficha técnica e o tracklist da obra.

Álbum: Everything Than Louder Everyone Else
Intérprete: Motörhead
Lançamento: 9 de março de 1999
Gravadoras: SPV GmbH (Alemanha) / CMC (EUA)
Produtor: Motörhead

Lemmy Kilmister: baixo e voz
Phil Campbell: guitarra
Mikkey Dee: bateria

CD 1:
1. Iron Fist (Kilmister / Clarke / Taylor)
2. Stay Clean (Kilmister / Clarke / Taylor)
3. On Your Feet Or On Your Knees (Kilmister / Burston / Campbell / Dee)
4. Over Your Shoulder (Kilmister / Burston / Campbell / Dee)
5. Civil War (Campbell / Dee / Ax)
6. Burner (Kilmister / Burston / Campbell / Dee)
7. Metropolis (Kilmister / Clarke / Taylor)
8. Nothing Up My Sleeve (Kilmister / Campbell / Burston / Gill)
9. I’m So Bad (Baby I Don’t Care) (Kilmister / Campbell / Burston / Taylor)
10. The Chase Is Better Than The Catch (Kilmister / Clarke / Taylor)
11. Take The Blame (Kilmister / Campbell / Dee)
12. No Class (Kilmister / Clarke / Taylor)
13. Overnight Sensation (Kilmister / Campbell / Dee)
14. Sacrifice (Kilmister / Burston / Campbell / Dee)

CD 2:
1. Born To Raise Hell (Kilmister)
2. Lost In The Ozone (Kilmister / Burston / Campbell / Dee)
3. The One To Sing The Blues (Kilmister / Campbell / Burston / Taylor)
4. Capricorn (Kilmister / Clarke / Taylor)
5. Love For Sale (Kilmister / Campbell / Dee)
6. Orgasmatron (Kilmister / Campbell / Burston / Gill)
7. Going To Brazil (Kilmister / Campbell / Burston / Taylor)
8. Killed By Death (Kilmister / Campbell / Burston / Gill)
9. Bomber (Kilmister / Clarke / Taylor)
10. Ace Of Spades (Kilmister / Clarke / Taylor)
11. Overkill (Kilmister / Clarke / Taylor)

Por Jorge Almeida

 

Sinopse de “Lemmy – A Biografia Definitiva”, de Mick Wall

“Lemmy – A Biografia”, de Mick Wall

Estamos em dezembro e, daqui a cerca de três semanas, completará três anos da morte de uma das figuras mais icônicas da história do rock, Lemmy Kilmister, o eterno frontman do Motörhead. Em 2016, o conceituado jornalista e crítico de rock Mick Wall lançou o livro “Lemmy – The Definity Biography”, que, no seguinte, o mercado brasileiro ganhou a sua edição em português lançada pela Globo Livros, intitulada, obviamente, como “Lemmy – A Biografia Definitiva”.

O autor se baseou nas longas e inúmeras entrevistas que fez ao lendário vocalista/baixista do Motörhead, assim como ex-companheiros de banda, músicos de outros grupos, roadies, empresários, pessoas ligadas às gravadoras que também colaboraram com Mick para falar a respeito de Ian Fraser Kilmister.

Filho único nascido em 24 de dezembro de 1945, em Stoke-On-Trent, em Staffordshire, na Inglaterra, o jovem Ian Kilmister não teve a oportunidade de crescer na companhia do pai, que separou-se de sua mãe antes de seu primeiro ano de vida. Acostumado a conviver sozinho enquanto a mãe saía para trabalhar para garantir o sustento, Ian foi adquirindo a sua própria percepção de mundo e das pessoas e, ao longo dos anos, adquiriu uma personalidade que lhe fora muito peculiar. E, de carona em carona com um amigo, se bicou para Londres e tocou em diversos grupos pequenos em troca de umas míseras libras para sobreviver.

O jornalista Mick Wall acompanhou a saga de Ian, que virou Lemmy, desde os tempos da escola no País de Gales, no começo do sucesso na década de 1960, com os Rockin’ Vicars, depois trabalhou como roadie de Jimi Hendrix, colaborou com o Hawkwind até o topo das paradas de 1972 com o clássico do space rock chamado “Silver Machine” e, expulso do grupo por conta de uso de drogas erradas às vésperas de uma turnê pela América do Norte, Lemmy resolveu montar a sua própria banda, o Motörhead, e de rejeitado tornou-se uma lenda quatro décadas depois.

A obra descreve com exatidão a história de um dos maiores personagens da música pesada, com depoimentos absolutamente franco e honesto de um cara que jamais aceitou ser vendido e nem que a sua banda fosse lesada por “experts” do meio business. Lemmy e outros relatam momentos intensos vividos para o cara que, como ele costumava dizer, “nascido para perder, vivendo para ganhar”. Nenhum assunto passou em branco com o “poLemmyco” (não pude evitar o trocadilho infame) biografado: drogas, mulheres, a jogatina, as trocas de integrantes ao longo da trajetória do Motörhead, a amizade com vários nomes do rock internacional (de Dave Grohl a Ozzy Osbourne), a sua memorabilia de itens nazistas.

Ex-assessor de imprensa e amigo há mais de 35 anos de Lemmy Kilmister, Mick Wall abordou sabiamente o percurso de um homem que não tinha o rebolado de Elvis Presley, não tinha a popularidade dos Beatles, não vendeu como os Rolling Stones, não tinha a loucura de Ozzy Osbourne, não tocava guitarra como Jimi Hendrix ou Eric Clapton, mas com o seu jeito nada simpático, com suas verrugas intimidadoras, cara fechada, chapéu, camisa preta com os botões abertos até a metade da barriga, o cinto de balas e seu Rickenbacker, Lemmy Kilmister era (e ainda é) idolatrado e respeitado por toda gente: desde os punks até os headbangers e apreciadores de Black/Death Metal.

O homem que se tornou maior que o próprio Motörhead. Infelizmente, apesar de toda a mitologia feita em torno de Lemmy, no começo dos anos 2010, o seu lado “mortal” deu seus sinais ao ser que parecia ser eterno, embora ele deixasse claro em “Ace Of Spades”, seu maior clássico, que “não queria viver eternamente”. Nos últimos anos, o velho guerreiro Lemmy Kilmister precisou amenizar o uso de seu speed, de seu Jack Daniels com Coca-Cola e de seu nicotinoso Marlboro. Assim, a cada ano, a saúde do cara malvado do Motörhead piorava e, consequentemente, os cancelamentos de shows passaram ser frequentes (inclusive o do Monsters Of Rock, em São Paulo, em 2015 – para minha frustração), os sinais de sua saúde debilitada estavam cada vez mais visíveis enquanto Lemmy insistia em tentar. Esquecimento de suas próprias letras, saídas repentinas do palco, dificuldades para andar, enfim, o imortal estava dando ao lugar para um senhor de 70 anos que precisava urgentemente de cuidados médicos. Sem contar que nesse período o Motörhead já havia perdido dois integrantes: o ex-guitarrista Würzel e o ex-baterista Phil “Philthy Animal” Taylor”.

Os amigos pareciam adivinhar que o fim estava próximo e resolveram fazer uma festa de aniversário antecipada para Lemmy Kilmister. Vários nomes do rock apareceram. Mas, dois dias após completar 70 anos, em 26 de dezembro de 2015, Lemmy teve um diagnóstico de um câncer inoperável que havia se espalhado pelo seu corpo. Foi dada uma estimativa de vida de dois a seis meses, contudo, apenas dois dias da terrível análise, Ian Fraser Kilmister morria em silêncio, em sua casa, dormindo.

A notícia da morte Lemmy Kilmister foi devastadora em todo o mundo do rock. Várias mensagens de músicos de tudo quanto é canto do mundo lamentaram a perda do vocalista. Os fãs, é claro, embora soubessem da gravidade da saúde do ídolo, não quiseram acreditar que aquele homem que impunha respeito era humano de carne e osso como todos nós.

Quanto ao futuro do Motörhead após a morte de Lemmy Kilmister, conforme relatou Wall na obra, o baterista da última formação da banda, o sueco Mikkey Dee foi claro: “o Motörhead acabou, Lemmy era o Motörhead” e reforçou que a “marca prevalece e Lemmy viverá no coração de todos”. Sábias palavras.

A publicação de Wall está dividida em dez capítulos com cerca de 280 páginas, além de um caderno com fotografias. Sem dúvida, uma das biografias mais impressionantes, brutalmente franca e verdadeira da história do rock. E, de fato, Lemmy Kilmister era único.

A seguir, a ficha técnica da obra.

Livro: Lemmy – A Biografia
Autor: Mick Wall
Editora: Globo Livros (no Brasil)
Lançamento: 2017 (edição em português)
Edição:
Número de páginas: 280
Preço médio: R$ 32,50

Por Jorge Almeida

Motörhead: 20 anos de “Snake Bite Love”

“Snake Bite Love”, o 14º álbum de estúdio do Motörhead que completou 20 anos em 2018

No último dia 10 de março, o álbum “Snake Bite Love”, do Motörhead, completou 20 anos de seu lançamento. O disco foi o 14º trabalho de estúdio da banda de Lemmy Kilmister, sendo o terceiro com a gravadora Steamhammer. Co-produzido com Howard Benson em diversos estúdios, a gravação foi feito às pressas, segundo o baterista Mikkey Dee.

Antes de entrarem em estúdio, o Motörhead ao longo de 1997 excursionou exaustivamente durante a turnê de “Overnight Sensation”. A parte europeia da tour iniciou em 12 de janeiro, no London Astoria, em Londres, onde os músicos convidados Todd Cambpell, filho de Phil, tocou “Ace Of Spades” e o ex-guitarrista da banda, “Fast” Eddie Clarke tocou em “Overkill”. Essa parte da turnê durou até março e seguiu para mais quatro datas no Japão, entre o final de maio e começo de junho, depois seguiu para uma turnê norte-americana com o W.A.S.P. durante o resto daquele mês. Em agosto, seguiram por mais três datas na Europa e mais sete apresentações em solo britânico, que terminou com uma apresentação no Academia Brixton, em 25 de outubro, que teve a participação do filho de Lemmy, Paul Iner, em “Ace Of Spades”. Mais quatro shows em outubro na Rússia encerraram aquele ano para o grupo.

Lemmy Kilmister lembrou que tudo ocorria bem na turnê, incluindo com apresentações na Argentina e no Japão, em que o grupo tocou em locais maiores. Na opinião do vocalista, a formação com três integrantes estava com o desempenho excelente e que já estava na hora de fazer outro álbum ao vivo. Porém, o grupo acabou fazendo outro disco de estúdio antes, “Snake Bite Love”, gravado em diversos estúdios e lançado em março de 1998.

No livro “Overkill: The Untold Story of Motörhead”, de 2011, o baterista relatou que, na época da gravação do álbum, eles estavam estressados e que se tivessem mais três semanas para gravar, seria ótimo. Dee ainda comentou que “Night Side” foi a pior música já feita e que só foi feita porque não havia mais tempo para escrever outra música.

Já Lemmy Kilmister foi mais ameno sobre o material ao relatar em sua autobiografia “White Line Fever” ao admitir que “saiu muito bem” e que a produção do álbum foi bastante normal para os padrões da banda e reforçou que, seis semanas antes de gravá-lo, não havia nenhuma música feita, mas que, na hora, juntou tudo muito rápido e meteu o “pau na máquina”. Porém, durante alguns ensaios, ele adoeceu, o que comprometeu com o andamento da produção do disco.

O fundador da banda admite que, quando fica dois integrantes que não cantam, “alguns arranjos soam estranhos”, como ele aponta particularmente para os casos de “Desperate For You” e “Night Side”. Lemmy exemplificou como aconteceu com a faixa-título, que começou com uma música totalmente diferente: Mikkey Dee gravou a parte da bateria contra um conjunto distinto de acordes, depois voltou para a Suécia (o baterista é de lá), enquanto Phil Campbell declarou que não gostou do resultado. O baixista concordou e o guitarrista surgiu com um novo riff e mudou toda a coisa.

No documentário do grupo “The Guts And The Glory, The Motörhead History” (2010), Lemmy Kilmister admitira que o play “tinha dois perus neles”, numa referência a “Desperate For You” e “Better Off Dead”, apesar de reconhecer que os fãs gostavam das duas músicas. Enquanto Campbell foi creditado, em uma brincadeira nas notas do álbum, como um glifo impronunciável (algo como “O Artista Frequentemente Visto na Loja de Bebidas”) claro que isso foi a um sarcasmo por causa de Prince.

O disco não foi tão bem recebido, assim como os demais que o grupo lançou na década de 1990, época em que o público em geral tinha ambivalência com relação ao grupo. Boa parte das músicas não foi executada no repertório ao vivo do trio, com raras exceções.

Para alguns críticos, o play mostrou um lado menos pesado do Motörhead, com “um ou dois trechos mais lentos, mas ainda é pesado na maior parte”, ou ainda, com mescla de ideias musicais ao variar o metal cru em “Dogs Of War” e “Assassin” para o rock and roll que influenciou a banda em seus primórdios como na faixa-título e em “Don’t Lie To Me”. O disco pode parecer não tão consistente como o anterior, mas faixas como “Love For Sale” foi tocada com um bom groove, enquanto “Joy Of Labour” traz um riff desagradavelmente lento e a “ordinária” “Night Side” é uma faixa rápida que deve ter agradado os fãs da “velha escola”.

Segundo o crítico musical Stephen Thomas Erlewine, “Snake Bite Love” é um álbum “sem disfarce”… e que “não há necessariamente nada de errado com o disco, já que oferece um conjunto sólido de rocks pesados ​​que correm a uma velocidade vertiginosa, mas não adiciona nenhuma novidade à fórmula ou ter músicas particularmente memoráveis”. Já para o biógrafo do Motörhead, Joel McIver, o disco foi considerado “sólido, confiável e não extremamente memorável”.

Para começar a turnê do álbum, o Motörhead se juntou ao Judas Priest no Anfiteatro Universal de Los Angeles, em 3 de abril. Cerca de um mês e meio depois, em 21 de abril, o show que o grupo fez no The Docks, em Hamburgo, na Alemanha foi gravado e, posteriormente, lançado como “Everything Louder Than Everyone Else” em 1999.

A banda foi convidada para participar do Ozzfest Tour e tocou pelos Estados Unidos entre julho e agosto e marcou presença na Europa no começo de outubro até o final de novembro. A parte britânica da tour foi apelidada de “No Speak With Forked Tongue”, que contou como bandas de apoio o Groop Dogdrill, Radiator e Psycho Squad, que foi liderada pelo filho de Phil Campbell, Todd.

Embora não seja considerado o trabalho mais inspirado do Motörhead, “Snake Bite Love” mantém a fúria e a crueza que só Lemmy Kilmister e sua trupe é capaz de fazer.

A seguir, a ficha técnica e o tracklist da obra.

Álbum: Snake Bite Love
Intérprete: Motörhead
Lançamento: 10 de março de 1998
Gravadora: Steamhammer / SPV GmbH (distribuição) / CMC
Produtores: Howard Benson e Motörhead

Lemmy Kilmister: baixo e voz
Phil Campbell: guitarra
Mikkey Dee: bateria

1. Love For Sale (Kilmister / Campbell / Dee)
2. Dogs Of War (Kilmister / Campbell / Dee)
3. Snake Bite Love (Kilmister / Campbell / Dee)
4. Assassin (Kilmister / Campbell / Dee)
5. Take The Blame (Kilmister / Campbell / Dee)
6. Dead And Gone (Kilmister / Campbell / Dee)
7. Night Side (Kilmister / Campbell / Dee)
8. Don’t Lie To Me (Kilmister)
9. Joy Of Labour (Kilmister / Campbell / Dee)
10. Desperate For You (Kilmister / Campbell / Dee)
11. Better Off Dead (Kilmister / Campbell / Dee)

Por Jorge Almeida

Motörhead: 30 anos de “Rock ‘N’ Roll”, o álbum

“Rock ‘N’ Roll”: o álbum que marca a volta de Phil “Philthy Animal” Taylor ao Motörhead

Já que estamos às vésperas da data que seria o 72º aniversário do saudoso Lemmy Kilmister, então, vamos falar de Motörhead, mais precisamente dos 30 anos do álbum “Rock ‘N’ Roll”, o oitavo trabalho de estúdio da banda, que saiu em 5 de setembro de 1987, e foi o último lançamento com a GWR, devido a questões legais que atrapalharam o grupo com mais uma gravadora. Gravado ao longo de 1987 no Master Rock Studios e no Redwood Studios, em Londres, o material foi produzido pela banda em conjunto com Guy Bidmead. Esse foi o último disco gravado pelo grupo antes de Kilmister se mudar da Grã-Bretanha para Los Angeles.

Em 1987, Lemmy Kilmister fez uma “pontinha” no filme “Eat The Rich”, do comediante Peter Richardson, como “Spider”, e que trazia o elenco de The Comic Strip. Para a película, a banda compôs a faixa homônima e, em sua trilha sonora, trazia faixas de “Orgasmatron” e o single do álbum solo de “Würzel, “Bess”. Ao longo do processo, Peter Gil foi demitido da banda e Phil “Philthy Animal” Taylor voltou para o grupo. Lemmy encontrou Taylor que, na época, estava tocando com Frankie Miller e o ex-guitarrista do Thin Lizzy, Brian “Robbo” Robertson, e confessou ao amigo que queria voltar. E o líder do Motörhead não titubeou em trazer o baterista de volta, pois ele estava tendo problemas com Gil.

O estúdio Redwood, em Londres, um dos quais fora utilizado pela banda durante a gravação do disco tinha como um dos proprietários Michael Palin. O engenheiro de som que ajudou a banda havia atuado em todos os trabalhos do Monty Python, grupo humorístico que Palin fez parte, e apresentou ao grupo várias faixas que nunca foram gravadas pelos Pythons. Palin foi convidado a descer para fazer uma recitação para o álbum. E ele apareceu vestido com um uniforme de jogador de críquete da década de 1940: um suéter com gola “V” e com o cabelo penteado para um lado. Lemmy se recordou de Palin adentrando no estúdio e perguntando: “Olá, que tipo de coisa faremos agora, então?”, e respondeu-lhe, “Bem, você sabe em The Meaning of Life, tinha esse discurso que começava com “Oh, Senhor -“. Ao que Palin respondeu “Ah! Me dê uma catedral”, e começou a gravar o seu discurso (“Oh, Lord, look down upon these people from Motörhead“). Aliás, esse falso discurso de Palin, intitulado como “Blessing”, em algumas versões aparece como faixa 5 do lado A (nas versões em vinil e K7) ou como faixa oculta inserida no final de “Stone Deaf In The USA” ou no início de “The Wolf”, sendo que nessas versões não aparece creditado no encarte. Porém, há edições do álbum que o discurso aparece como faixa 5 e, consequentemente, deixa o CD com 10 em vez de nove faixas.

Aliás, o imbróglio entre o Motörhead e a GWR começou em 1988. Em dois de julho daquele ano, a banda fez parte do line-up do Giants of Rock Festival, em Hämeenlinna, na Finlândia. As faixas foram lançadas como “No Sleep At All”, em 15 de outubro de 1988. O single do disco planejado pela banda era “Traitor” no lado A, mas, em vez disso foi escolhido “Ace Of Spades”. Ao perceber a mudança feita pela gravadora, os caras se recusaram que fosse permitido o lançamento desse single nas lojas, foi retirado das prateleiras e disponibilizado apenas na turnê “No Sleep At All” e pelo fã-clube Motörheadbangers. Isso durou entre o biênio 1989-1990 e um processo judicial com a GWR se seguiu, que só foi solucionado em meados de 1990.

Sobre “Rock ‘N’ Roll”, no documentário “Motörhead: The Guts And The Glory” (2003), o guitarrista Phil Campbell disse que, embora não seja um ótimo álbum, havia coisas que ele gostava. Já Lemmy, em depoimento na autobiografia “White Line Fever” (2002), escrita em co-autoria com Janiss Garza, comentou que o play tinha “algumas músicas fantásticas”, como “Dogs”, “Boogeyman” e “Traitor”, que tocaram “durante anos”, mas que, no geral, ele simplesmente parecia não funcionar.

Mas, apesar de estar no rol de clássicos do Motörhead, como um “Ace Of Spades” ou “Overkill“, o registro contém 35 minutos do mais puro rock ‘n’ roll, executado da forma visceral e fazendo jus ao nome do álbum. A começar com a faixa-título, que abre o play: pedrada na orelha. Assim como a que encerra o disco, “Boogeyman“. Mas os principais destaques ficam por conta das citadas “Stone Deaf In The USA” e “Dogs” e a “canção de amor”, mas que não é balada, “All For You“, com seu riff de guitarra cativante, “Eat The Rich”, que ganhou um videoclipe, que teve partes do filme de Robertson inserida, e a narração de Michael Palin em “Blessing“. Em “Boogeyman“, os três solos de guitarra foram executados pelo trio Würzel, Campbell e Lemmy (sim, o próprio). No álbum, Würzel e Campbell fizeram revezamentos nas partes de guitarra solo, de base e no slide guitar.

Em 1996, “Rock ‘N’ Roll” foi relançado pela Castle Communications com duas faixas bônus; “Cradle To The Grave” e a longa “Just ‘Cos You’ve Got The Power“, ambas faziam parte do lado B do single de “Eat The Rich”. Dez anos depois, o disco foi relançado também pela Sanctuary Records, que trazia um CD bônus, que começava justamente com essas duas faixas. O restante do material é acrescido de uma apresentação que o Motörhead fez no Monster Of Rock de 1986 em Castle Donington. Na época, Peter Gil ainda estava na bateria e o grupo divulgava a turnê de “Orgasmatron”. Sempre bom reforçar que, alguns clássicos da banda nessa apresentação, como “Ace Of Spades” e “Bite The Bullet”, gravadas originalmente com um guitarrista, ali, ganhou mais velocidade, pois eram executadas por dois guitarristas.

Essa versão da Sanctuary apresenta um encarte magnânimo aos fãs por conter diversas fotos que exibem o espírito “motörheadbanger” da época, além de imagens de pôsteres e de reprodução de produtos de memorabilia, como backstage passes, resenhas, capas de single, setlists, etc, e o texto assinado por Malcolm Dome. E foi o último da série de relançamento lançados pela Sanctuary.

E, apesar da aparição de Lemmy Kilmister em um filme de comédia que tem o mesmo nome de um single e de uma faixa do álbum do Motörhead – “Eat The Rich” -, “Rock ‘N’ Roll” não foi um sucesso comercial, assim como os dois últimos trabalhos do grupo, pois alcançou apenas a modesta 34ª posição nas paradas do Reino Unido, teve a pior performance de todos os principais trabalhos da banda. Apesar de a Grã-Bretanha ter “perdido o interesse” no grupo, os fãs norte-americanos se demonstraram mais dispostos em ir aos shows e comprar os álbuns do grupo, o que renovou a esperança comercial do Motörhead nos Estados Unidos que, talvez, tenha motivado a mudança de Lemmy Kilmister para Los Angeles.

Apesar de, na época, ser composto por um quarteto de respeito, o Motörhead passou por uns perrengues no final dos anos 1980, pois ficaram sem lançar nenhum material novo até 1991, quando saiu o álbum “1916”.

Porém, embora não tenha sido um sucesso de crítica e de vendas, “Rock ‘N’ Roll” é sim um grande disco de rock. Apesar de ter sido menos inspirado, ainda é superior a muitos álbuns de bandas do mainstream.

A seguir, a ficha técnica e o tracklist (versão da Sanctuary) da obra.

Álbum: Rock ‘N’ Roll
Intérprete: Motörhead
Lançamento: 5 de setembro de 1987
Gravadora/Distribuidora: GWR / Castle (relançamento de 1996) / Sanctuary (relançamento de 2006)
Produtores: Motörhead e Guy Bidmead

Lemmy Kilmister: baixo, voz e guitarra solo em “Boogeyman
Phil “Wizzö” Campbell: guitarra e slide guitar em “Eat The Rich
Würzel: guitarra e slide guitar em “Stone Deaf In The USA
Phil “Philthy Animal” Taylor: bateria

Peter Gil: bateria (faixas de 3 a 15 do CD 2)
Michael Palin: narração em “Blessing

CD 1:
1. Rock ‘N’ Roll (Kilmister / Burston / Campbell / Taylor)
2. Eat The Rich (Kilmister / Burston / Campbell / Taylor)
3. Blackheart (Kilmister / Burston / Campbell / Taylor)
4. Stone Deaf In The USA (Kilmister / Burston / Campbell / Taylor)
5. Blessing (Palin) – não creditado em algumas edições
6. The Wolf (Kilmister / Burston / Campbell / Taylor)
7. Traitor (Kilmister / Burston / Campbell / Taylor)
8. Dogs (Kilmister / Burston / Campbell / Taylor)
9. All For You (Kilmister / Burston / Campbell / Taylor)
10. Boogeyman (Kilmister / Burston / Campbell / Taylor)

CD 2:
1. Cradle To The Grave (Kilmister / Burston / Campbell / Taylor)
2. Just ‘Cos You Got The Power (Kilmister / Burston / Campbell / Taylor)
3. Iron Fist (Kilmister / Clarke / Taylor)
4. Stay Clean (Kilmister / Clarke / Taylor)
5. Nothing Up My Sleeve (Kilmister / Burston / Campbell / Gil)
6. Metropolis (Kilmister / Clarke / Taylor)
7. Doctor Rock (Kilmister / Burston / Campbell / Gil)
8. Killed By Death (Kilmister / Burston / Campbell / Gil)
9. Ace Of Spades (Kilmister / Clarke / Taylor)
10. Steal Your Face (Kilmister / Burston / Campbell / Gil)
11. Bite The Bullet (Kilmister / Clarke / Taylor)
12. Built For Speed (Kilmister / Burston / Campbell / Gil)
13. Orgasmatron (Kilmister / Burston / Campbell / Gil)
14. No Class (Kilmister / Clarke / Taylor)
15. Motörhead (Kilmister)

Por Jorge Almeida

Ramones: 20 anos de “We’re Outta Here!”

“We’re Outta Here!”: álbum que registra o último show dos Ramones

Além do disco do Metallica (mencionado no post anterior), outro álbum completa 20 anos neste 18 de novembro: o ‘live’ “We’re Outta Here!”, o registro do último show dos Ramones que foi lançado postumamente, uma vez que, na época em que saiu o material, os punks nova-iorquinos já haviam encerrado suas atividades. Produzido por Gary Kurfirst, o material foi lançado pela gravado pela Eagle Rock/Radioactive Records.

O registro foi lançado em diversas versões: LP duplo, CD, VHS e DVD. Inclusive, na sessão de autógrafos, realizado em 25 de novembro de 1997, pela primeira vez todos os seis Ramone (exceto o ex-baterista Ritchie) estavam reunidos. Gravado no The Palace, em Los Angeles, no dia 6 de agosto de 1996, o play registra a última apresentação oficial dos Ramones, depois de 22 anos de estrada e 2263 shows.

O produtor Gary Kurfirst gastou mais de um ano entre a apresentação derradeira da banda norte-americana e o produto final. O fato inusitado se deve ao local escolhido para a realização do espetáculo: na Califórnia. Ou seja, longe de casa, em Forest Hills, em Nova York, ou na América do Sul, mais especificamente Argentina ou Brasil, países onde os caras são tratados como semideuses. Mas prevaleceu a vontade de Johnny Ramone, que já estava morando em Los Angeles.

Em quase 70 minutos de espetáculo, Joey, Johnny, Marky e C.J. Ramone detonam um desfiladeiro de clássicos ‘ramônicos’ em 32 temas. O show foi registrado em vídeo no formato de um documentário. Contudo, o concerto não foi mostrado na íntegra, já que a performance completa foi editada com trechos do show mesclado com depoimentos de amigos, produtores e integrantes dos Ramones, além de aparições do grupo em programas de TV, inclusive nos Simpsons. Na filmagem, que foi dirigida Kevin Kerslake, eram exibidos os cortes rápidos com câmeras apontadas para o vazio, para o chão ou para os pés dos músicos. Enquadramentos nenhum pouco convencional e ainda o famoso estilo ‘câmera na mão’ (dessa vez não era o Marky, que sempre registrara os momentos da banda nos bastidores) ou como um voyeur espiando de algum canto do palco.

Porém, o grande deleite é a parte destinada aos convidados especiais: o ex-baixista Dee Dee Ramone, Lemmy Kilmister, a dupla do Rancid: Tim Armstrong e Lars Frederiksen, além dos grunges Chris Cornell e Ben Shepherd, ambos, na época, do Soundgarden, e Eddie Vedder, do Pearl Jam.

Embora não tenha a mesma energia do primeiro registro ao vivo dos caras, o clássico “It’s Alive!” (1979) e um pouco menos rápido que “Loco Live” (1991), “We’re Outta Here!” traz os Ramones na sua essência: ou seja, sem muito blá, blá, blá, pau na máquina, apenas os famosos berros que C.J. “herdou” de Dee Dee: “one, two, three, four!” quando necessário, enfim, tudo no melhor estilo: “rápido, básico e sem firulas”.

O álbum começa com a famosa introdução “The Good, The Bad And The Ugly” (não consta nos créditos), de Enio Morricone, emendada com “Durango 95”. Em seguida, a mesma sequência das nove primeiras faixas de “Loco Live”: “Psycho Theraphy”, “Blitzkrieg Bop”, “Do You Remember Rock ‘N’ Roll Radio?”, “I Believe In Miracles”, “Gimme Gimme Shock Treatment”, “Rock ‘N’ Roll High School” e “I Wanna Be Sedated”. O show segue com a versão ‘ramônica’ de “Spider Man” e mais clássicos: “The KKK Took My Baby Away”, “Commando”, “Sheena Is A Punk Rocker”, “Pet Sematary” e “The Crusher”.

E um dos momentos mais esperados veio na sequência. O ex-integrante da banda, Dee Dee Ramone, faz uma participação especial em “Love Kills”. Mas o ex-baixista perdeu o ‘time’ da música e esqueceu parte da letra que ele mesmo esqueceu. E, depois de um rápido e breve “thank you”, o ex-Ramone se retirou do palco. Joey Ramone voltou ao palco e mandou bala com “Do You Wanna Dance?”, “Somebody Put Something In My Drink”, “I Don’t Want You” e C.J. cantarola o hardcore “Wart Hog”.

Outro convidado da festa aparece em seguida: Lemmy Kilmister. O líder do Motörhead dividiu os microfones com C.J. e Joey para cantarem “R.A.M.O.N.E.S.”, música originalmente gravada pelo Motörhead em homenagem aos punks nova-iorquinos. O show seguiu com a dobradinha “Today Your Love, Tomorrow The World” e “Pinhead”, com direito a presença do famoso mascote microcefálico com a inseparável placa “Gabba, Gabba, Hey!”. Depois veio uma trinca com mais convidados especiais. Tim Armstrong e Lars Frederiksen, ambos do Rancid, tocam junto com Joey, Johnny, Marky e C.J. os hits “53rd & 3rd“, “Listen To My Heart” e “We’re A Happy Family“. Depois dos punks, foi vez dos grunges que tinham grande admiração pelos Ramones a subirem no palco. Primeiro vieram Chris Cornell e Ben Shepherd, do Soundgarden, para executarem “Chinese Rock“. A penúltima faixa foi “Beat On The Brat“, o último tema executado pelos Ramones como quarteto. Isso porque coube a Eddie Vedder, do Pearl Jam, a honra de cantar a última música tocada pelos reis do punk rock ao vivo: o cover “Anyway You Want It“, do Dave Clark Five.

Após o último acorde, Joey Ramone se despede do público e os Ramones se recolheram para sempre. Depois do 2263º show, foram lançados diversos registros ao vivo e coletâneas póstumas. Logo ao término do grupo, os integrantes investiram em projetos solos, especialmente Marky e C.J., porém, de lá para cá todos os membros da formação original foram morrendo no decorrer dos anos: primeiro foi Joey Ramone, em 2001; depois foi a vez de Dee Dee, em 2002; em seguida, Johnny Ramone faleceu em 2004 e, finalmente, Tommy Ramone, morrera em 2014. Os demais Ramone: Marky, C.J. e Ritchie continuaram a fazer excursões regularmente com projetos que homenageiam a banda que os consagrou.

Em “We’re Outta Here!”, a qualidade do som pode não ser a das melhores, mas, a virtude nisso é deixa nítido a autenticidade de um show de rock ao vivo: microfonia falha, vocalista atropelando as letras, velocidade acima do normal, enfim, sem ‘overdubs’. Histórico.

A seguir, a ficha técnica e o tracklist da obra.

Álbum: We’re Outta Here!
Intérprete: Ramones
Lançamento: 18 de novembro de 1997
Gravadora/Distribuidora: Eagle Rock/Radioactive Records
Produtor: Gary Kurfirst

Joey Ramone: voz
Johnny Ramone: guitarra
Marky Ramone: bateria
C.J. Ramone: baixo, backing vocal, voz em “The Crusher”, “Wart Hog” e “R.A.M.O.N.E.S.

Dee Dee Ramone: voz em “Love Kills
Lemmy Kilmister: baixo e voz em “R.A.M.O.N.E.S.
Chris Cornell: voz em “Chinese Rock
Ben Shepherd: baixo em “Chinese Rock
Eddie Vedder: voz em “Anyway You Want It
Tim Armstrong e Lars Frederiksen: guitarra e voz em “53th & 3th”, “Listen To My Heart” e “We’re A Happy Family

1. Durango 95 (Johnny Ramone)
2. Teenage Lobotomy (Ramones)
3. Psycho Therapy (Johnny Ramone / Dee Dee Ramone)
4. Blitzkrieg Bop (Ramones)
5. Do You Remember Rock ‘n’ Roll Radio? (Ramones)
6. I Believe in Miracles (Dee Dee Ramone / Daniel Rey)
7. Gimme Gimme Shock Treatment (Ramones)
8. Rock ‘n’ Roll High School (Ramones)
9. I Wanna Be Sedated (Ramones)
10. Spider-Man (Harris / Webster)
11. The KKK Took My Baby Away (Joey Ramone)
12. I Just Wanna Have Something To Do (Ramones)
13. Commando (Ramones)
14. Sheena Is a Punk Rocker (Ramones)
15. Rockaway Beach (Ramones)
16. Pet Sematary (Dee Dee Ramone / Daniel Rey)
17. The Crusher (Dee Dee Ramone / Daniel Rey)
18. Love Kills (Dee Dee Ramone / Johnny Ramone / Joey Ramone)
19. Do You Wanna Dance? (Freeman)
20. Somebody Put Something In My Drink (Richie Ramone)
21. I Don’t Want You (Ramones)
22. Wart Hog (Dee Dee Ramone / Johnny Ramone)
23. Cretin Hop (Ramones)
24. R.A.M.O.N.E.S. (Würzel / Campbell / Kilmister / Taylor)
25. Today Your Love, Tomorrow The World (Ramones)
26. Pinhead (Ramones)
27. 53rd & 3rd (Ramones)
28. Listen to My Heart (Ramones)
29. We’re a Happy Family (Ramones)
30. Chinese Rock (Ramones)
31. Beat on the Brat (Ramones)
32. Anyway You Want It” (Dave Clark)

Por Jorge Almeida