Kiss lançará “Kiss Rocks Vegas” em agosto

"Kiss Rock Vegas", o próximo "live" do Kiss que será lançado no final de agosto. Crédito: divulgação
“Kiss Rocks Vegas”, o próximo “live” do Kiss que será lançado no final de agosto. Crédito: divulgação

A lendária banda norte-americana Kiss lançará no próximo dia 26 de agosto (um dia após Gene Simmons completar 67 anos) mais um álbum ao vivo de sua vasta discografia. Trata-se de “Kiss Rocks Vegas”, que será desencadeado pela Eagle Rock Entertainment. O trabalho terá diversos formatos: DVD + CD, Blu-ray + CD, DVD + 2 LP’s ou a edição “Deluxe”, que vem com DVD + Blu-ray + 2 CD’s.

Captado em meio da turnê “40th Anniversary World Tour”, os recentes integrantes do seleto Rock And Roll Of Fame agitou Las Vegas durante sua estadia no The Joint, no Hard Rock Hotel e Casino, em novembro de 2014. O material apresenta os maiores clássicos do Kiss ao longo de seu legado de 44 álbuns: “Rock And Roll All Nite”, “Detroit Rock City”, “Shout It Out Loud”, “Love Gun”, e outros mais. Como bônus, “Kiss Rock Vegas” inclui um setlist acústico com sete temas.

Com pirotecnia em abundância, o filme apresenta fogo, eletricidade e todo tipo de experiência que se tem em um show de rock, que fez com que o Kiss vendesse mais de 100 milhões de discos no mundo todo.

A luxuosa edição do material traz um pacote com capa dura, um livreto 12×12, ostentando fotos do show e um CD exclusivo.

Embora ainda não tenha previsão de lançamento no Brasil, “Kiss Rocks Vegas” pôde ser conferido em 30 salas de cinema do País no último dia 25 de maio.

Resta-nos agora aguardar e juntar uma graninha, pois, o próximo lançamento dos mascarados poderá custar algumas bagatelas de três dígitos.

A seguir, a ficha técnica e o setlist de “Kiss Rocks Vegas”.

Álbum: Kiss Rocks Vegas
Intérprete: Kiss
Lançamento: 26 de agosto de 2016
Gravadora: Eagle Rock Entertaiment

Paul Stanley: voz, backing vocal e guitarra-base
Gene Simmons: voz, baixo e backing vocal
Eric Singer: bateria, backing vocal e voz
Tommy Thayer: guitarra solo e backing vocal

1. Detroit Rock City (Stanley / Ezrin)
2. Creatures Of The Night (Stanley / Mitchell)
3. Psycho Circus (Stanley / Cuomo)
4. Parasite (Frehley)
5. War Machine (Simmons / Adams / Vallance)
6. Tears Are Falling (Stanley)
7. Deuce (Simmons)
8. Lick It Up (Stanley / Vincent)
9. I Love It Loud (Simmons / Vincent)
10. Hell Or Hallelujah / Tommy Solo (Stanley) / (Thayer)
11. God Of Thunder (Stanley)
12. Do You Love Me (Stanley / Fowley / Ezrin)
13. Love Gun (Stanley)
14. Black Diamond (Stanley)
15. Shout It Out Loud (Stanley / Simmons / Ezrin)
16. Rock And Roll All Nite (Stanley / Simmons)
Acoustic Set:
17. Comin’ Home (Stanley / Frehley)
18. Plaster Caster (Simmons)
19. Hard Luck Woman (Stanley)
20. Christine Sixteen (Simmons)
21. Goin’ Blind (Simmons / Coronel)
22. Love Her All I Can (Stanley)
23. Beth (Criss / Penridge / Ezrin)

Por Jorge Almeida

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Resenha do livro que conta os primórdios do Kiss

Livro traz cerca de 200 depoimentos de pessoas ligadas aos primeiros anos do Kiss
Livro traz cerca de 200 depoimentos de pessoas ligadas aos primeiros anos do Kiss

Lançado em 2013, o livro “Nothin’ To Lose – A Formação do Kiss – 1972-1975” traz em 560 páginas depoimentos de pessoas que fizeram parte do começo de uma das maiores bandas da história do rock, o Kiss. Escrito por Ken Sharp (jornalista responsável por outra obra envolvendo a banda – “Kiss – Por Trás das Máscaras”, de 2005), com colaboração de Gene Simmons e Paul Stanley, a obra foi lançada no Brasil pela editora Benvirá (selo da Editora Saraiva).

A obra apresenta mais de 200 depoimentos de pessoas que vão desde roadies, seguranças, técnicos de palcos, proprietários de clubes, fotógrafos, produtores, músicos, fãs, entre outros, o livro podemos definir como um autêntico dossiê do Kiss. Inclusive, há fotos raras do grupo.

O registro conta minuciosamente as adversidades que a banda e seu staff tiveram desde o começo: a dificuldade em conseguir encontrar uma gravadora e a rejeição dos promotores de eventos em incluir o grupo nos principais “points” de rock em Nova York, a busca pela fama e o estrelato, a ambição dos nova-iorquinos que quase levaram a gravadora Casablanca à falência, as fracas vendas dos primeiros álbuns – “Kiss” (1974), “Hotter Than Hell” (1974) e “Dressed To Kill” (1975) – até o estouro com “Alive!” (1975), que definitivamente salvaram as finanças do Kiss e, claro, da gravadora.

Os próprios integrantes – Ace Frehley, Gene Simmons, Paul Stanley e Peter Criss – também deixam suas aspas na obra. Eles contam a origem de tudo, inclusive na forte influência do New York Dolls e de Alice Cooper, principalmente, nas maquiagens que consagraria o Kiss. Ou seja, em nenhum ponto o Secos & Molhados é citado, que fique claro.

Nos depoimentos, alguns entrevistados – como roadies e técnicos – destacam que o empenho em amor ao Kiss era tanto que, em algumas ocasiões, trabalhavam sem receber, mas valia a pena fazer todo o esforço para que o quarteto realizasse o espetáculo que, anos mais tarde, faria deles a “banda mais quente do mundo”. O “staff” também detalha a rivalidade com outros grupos, especialmente o Aerosmith e o New York Dolls.

Além disso, o livro mostra como os bombásticos shows da banda atraía o público, a tal ponto que fez outros grupos mais populares na época rejeitarem o Kiss como banda de abertura simplesmente pelo fato de o quarteto ofuscar a atração principal, e mesmo com a popularidade de suas apresentações, não estavam sendo traduzidos em vendagens de discos. E também aborda a visão ousada e criativa de seu empresário, Bill Aucoin, e de Neil Bogart (presidente da Casablanca), que não pouparam esforços para investirem no sucesso do Kiss, que foram recompensados com o “estouro” de “Alive!”, considerado um dos melhores registros ao vivo da história do rock, apesar de contar com “overdubs”.

E, assim como o livro de 2005, “Nothin’ To Lose” traz depoimentos “chapa branca” de membros de outras bandas, como Rush, Blue Öyster Cult, Black Sheep, entre outras, e, inclusive, em seu depoimento, o baterista do Red Hot Chili Pepper, Chad Smith, esteve presente no Cobo Hall, em Detroit, em uma apresentação da banda no registro que viria ser “Alive!”.

O título do livro – “Nothin’ To Lose” – foi tirado de uma das músicas de seu primeiro álbum. Mas a música que traz o enredo que define bem o árduo caminho percorrido pelo Kiss em busca do sucesso é “God Gave Rock ‘N’ Roll To You II”, faixa presente em “Revenge” (1992). Uma vez que “Nothin’ To Lose” (a música) fala sobre a insistência do interlocutor em coagir com a namorada a prática do sexo anal, ou seja, fugindo totalmente da temática do livro.

O livro é ideal para quem gosta do Kiss e para quem não gosta do Kiss, já que mostra detalhadamente a forma que o grupo batalhou para chegar até onde se encontra e que, quem quiser, se motivar em buscar o seu “lugar o Sol”, afinal, “it’s never too late to work nine-to-five”. Obrigatório.

A seguir a ficha técnica da publicação.

Livro: Nothin’ To Lose – A Formação do Kiss – 1972-1975
Autores: Ken Sharp com colaboração de Gene Simmons e Paul Stanley
Editora: Benvirá (selo da Editora Saraiva)
Número de páginas: 560 (fora as 32 páginas não numeradas com fotos)
Ano de edição: 2013 (1ª edição)
Preço médio: R$ 40,00

Por Jorge Almeida

Analisando “Eu, S.A.”, de Gene Simmons

Capa de "Eu, S.A.", o livro do empreendedor Gene Simmons
Capa de “Eu, S.A.”, o livro do empreendedor Gene Simmons

Atenção!! Antes de prosseguir a leitura, um aviso: se você é metido a socialista, comunista e afins, enfim, é crítico ao que chamam de “capitalista opressor”, não precisa seguir adiante. Pois a breve análise que descreverei abaixo trata-se de um livro escrito por um capitalista convicto, orgulhoso morador dos Estados Unidos e sem papas na língua. Recado dado, prosseguimos. No último mês de abril, o Kiss passou por aqui e, em São Paulo, foi o headline do segundo dia do festival Monsters Of Rock. Na véspera de sua apresentação na capital paulista, o baixista Gene Simmons aproveitou para divulgar o seu mais recente livro na Livraria Cultura do Conjunto Nacional: “Eu, S.A.” (OK, o nome completo da obra é “Eu, S.A. – Construa um exército de um homem só, liberte seu deus interior (do rock) e vença na vida e nos negócios”). Claro que a presença do ‘linguarudo’ causou alvoroços no local.

Gene Simmons, como é de conhecimento de todos, é co-fundador do Kiss. Embora tenha mais de 40 anos de carreira, nos últimos anos, o baixista tem chamado mais atenção pelo que anda falando por aí do que pela música em si. Além disso, é muito conhecido no meio como “o homem dos negócios” do Kiss, enfim, o “marketeiro” da banda. Mas esse status atribuído a ele não veio por acaso. O livro retrata como Gene usufruiu da fama para se tornar um empreendedor e ficar milionário.

Lançado pela editora Fábrica 231, “Eu, S.A.” apresenta em um pouco mais de 250 páginas (25 capítulos mais prefácio – feito por John Varvatos e agradecimentos) divididos em duas partes – “Eu” e “Você” – em que Gene Simmons dá uma série de dicas e conselhos, alguns não tão recomendáveis assim, de como se tornar um empreendedor de sucesso, especialmente no ramo que adotou nas últimas quatro décadas.

Como se era de imaginar, o israelense naturalizado norte-americano, no começo, conta a dificuldade que tivera na infância em sua terra-natal, a sua vinda à “terra das oportunidades” (os EUA), os entreveros para montar uma banda de rock e o seu lado “muquirana” para conseguir os seus primeiros trocados.

Sendo um genuíno “self made man”, Simmons tornou-se ao longo dos anos, boa tarde atribuída ao sucesso do Kiss, um empreendedor de mão cheia. No livro, a sua nada modéstia prevalece: acredita nas suas convicções, descreve com orgulho a sua gama de negócio que vai além da música, como os itens de merchandising do Kiss (que vai desde camisetas a caixão), a criação de uma gravadora, uma rede de restaurantes, a realização de um reality show, personagem de videogames, de seu time de futebol americano, enfim, todas as empreitadas encaradas por esse mestre do marketing pessoal.

Entre os conselhos que Gene dá, por exemplo, “espalhar os riscos”, ou seja, investir em coisas diferentes, não tirar férias se você for jovem, priorizar a carreira para depois casar ou, ainda, aprender falar inglês, entre outras coisas.

Ele deixa bem claro que é um capitalista convicto e demonstra eterna gratidão aos Estados Unidos por ter conseguido tudo por lá. Mas a obra destaca também alguns pontos negativos no caminho que Simmons encontrou até chegar ao topo, como as crises com os integrantes do Kiss, os problemas que o reality show causou que quase culminou com o fim de sua relação com Shannon Tweed.

Embora muitos não gostem de sua personalidade arrogante e prepotente, Gene Simmons é um sujeito sincero e convicto de suas decisões, conforme o livro atesta e explica também os motivos que levam o Kiss a ser uma das bandas mais bem-sucedidas da história do rock (se bem que o alerta dado por Paul Stanley, relatada em sua biografia, sobre as finanças do grupo nos anos 1980 não é mencionada por Gene). E alguns de seus conselhos são realmente válidos para quem quer vencer no mundo dos negócios, não necessariamente no mundo do rock.

Aliás, quem comprar o livro como “fã do Kiss” poderá ficar decepcionado, pois o seu foco não é a banda, mas sim o empreendedorismo de um de seus fundadores.

Pelas redes circulam rumores de que o Kiss continuará após Gene Simmons e Paul Stanley se aposentarem. Muitos fãs e seguidores da banda acham isso um absurdo. Mas, após ler esse livro, poderá compreender que, de acordo com a filosofia de Gene – eternizar a marca “Kiss” – é uma atitude compreensível. E é mesmo. Afinal, já que o baixista trata o Kiss não apenas como uma banda de rock, mas sim como uma marca, poderá figurar para as próximas gerações o mesmo patamar de uma Coca-Cola ou uma Ford, por exemplo. Aliás, analisando bem, se o Kiss é uma marca, por que acabá-lo após as (possíveis) saídas de seus integrantes fundadores? Enfim, a Coca-Cola não deixou de existir quando John Pemberton, seu criador, morreu em 1888, ou até mesmo o Mc Donald’s não fechou suas portas devido às saídas da cena dos irmãos Dick e Maurice McDonald. Então, a mesma situação cabe à marca Kiss.

O livro é uma boa indicação para quem aprecia esses lances de empreendedorismo e tal, e, obviamente, para quem é fã de Gene Simmons, independentemente de suas opiniões, controversas ou não.

A seguir, a ficha técnica do livro.

Livro: Eu, S.A. – Construa um exército de um homem só, liberte seu deus interior (do rock) e vença na vida e nos negócios
Autor: Gene Simmons
Editora: Fábrica 231
Ano de lançamento: 2015 – 1ª edição
Páginas: 255
Preço médio: R$ 23,50

Por Jorge Almeida

Kiss: 40 anos de “Hotter Than Hell”

"Hotter Than Hell": o segundo trabalho do Kiss, que é o preferido de Dave Mustaine, do Megadeth
“Hotter Than Hell”: o segundo trabalho do Kiss, que é o preferido de Dave Mustaine, do Megadeth

Na última quarta-feira (22), o segundo álbum do Kiss, “Hotter Than Hell”, completou 40 anos de seu lançamento. Gravado durante o mês de agosto de 1974 no Village Recorder Studios, em Los Angeles, o disco foi lançado pela Casablanca Records e, assim como o ‘debut’, trouxe a assinatura da dupla Kenny Kerner e Richie Wise na produção.

Como a dupla mudou-se para Los Angeles, os integrantes da banda odiaram a ida para lá, que culminou inclusive com alguns incidentes, como o furto de uma guitarra de Paul Stanley e um acidente de carro envolvendo Ace Frehley. Em virtude da falta de adaptação à cidade, a dupla Stanley/Frehley compuseram “Comin’ Home”.

O play foi marcado por alguns empecilhos para o grupo: a mudança para Los Angeles, a estratégia fracassada da Casablanca em cuidar da promoção do álbum (a gravadora se comprometeu com tudo: desde agendamento de shows a divulgação do disco), tanto que o disco vendeu menos que o seu antecessor, e os citados acidente com Ace e furto da guitarra de Paul. Além disso, alguns ‘eventos’ que foram realizados no processo de gravação deixou claro a divisão que o Kiss teria dali para frente: os “porras loucas” Peter e Ace de um lado e do outro Paul Stanley e o abstêmio Gene Simmons.

A princípio, o disco se chamaria “The Harder They Come”, mas para evitar confusões com o trabalho homônimo de Jimmy Cliff, que foi lançado em 1972, a banda optou por um nome que sintetize bem o espírito da coisa: “Hotter Than Hell” (“Mais Quente que o Inferno”).

Ace relatou que “Hotter Than Hell” foi mais difícil de gravar em relação ao primeiro álbum porque eles estavam em plena turnê quando a gravadora queria lançar um trabalho novo. Já o produtor Kenny Kerner comentou que o disco foi praticamente gravado ao vivo e que, devido a isso, o som ficara mais pesado, embora Richie Wise tenha odiado o som.

Enquanto Ace Frehley mostrou mais seu lado compositor em relação ao ‘debut’ ao compor dois temas sozinho e ter sido co-autor da citada “Comin’ Home”, Peter Criss queria mostrar mais o seu espaço na banda ao insistir em cantar “Mainline” e pela inclusão de um solo de bateria de sete minutos (!?) em “Strange Ways”, outra música cantada por ele no álbum.

Quanto ao tracklist, as faixas mais antigas foram “Goin’ Blind”, parceria de Gene Simmons e Steve Coronel nos tempos do Wicked Lester e que se chamava “Little Lady” e “Watchin’ You”, que foi gravada na demo entregue à Casablanca antes da gravação do primeiro álbum. As demais surgiram entre a turnê de “Kiss” e a pré-produção de “Hotter Than Hell”.

O repertório do álbum, composto por dez faixas, traz o Kiss na sua essência: músicas não tão complexas, mas sim um Hard básico e objetivo, e suas letras não são de caráter político-social, mas sim de diversão e aventuras amorosas, coisas que a banda leva até hoje. Merecem atenção especial as faixas “Goin’ Blind”, a balada-Heavy de Gene Simmons em que o protagonista de 93 anos se apaixona por uma jovem de 16; a emblemática faixa-título (adoro o riff que é executado no “fade out”); a rocker “Let Me Go, Rock ‘N’ Roll”, que é uma prévia de “Rock And Roll All Nite”; “Watchin’ You”, cuja letra, segundo Simmons, veio de um filme de Alfred Hitchcock chamado “Rear Window” (“Janela Indiscreta”), de 1954; e “Comin’ Home”, que Paul Stanley e Ace Frehley compuseram inspirados na situação que estavam passando no momento da gravação do play, como os quartos de hotel apertado em Los Angeles e a saudade de casa – Nova York.

Quanto à capa do álbum, merece uma atenção especial. A concepção dela veio de Norman Seeff, que queria colocar caracteres japoneses na capa para passar a (falsa) impressão de que a banda já era conhecida no Japão (ou seria para atrair o público nipônico para junto da banda?). O caractere japonês na parte inferior da capa do álbum (力) é “chikara”, que significa “poder”. Ele viria a ser usado pela banda anos mais tarde, especialmente no kit de bateria de Eric Carr e na contracapa de “Crazy Nights” (1987). Os caracteres japoneses no canto superior direito da capa do álbum (地獄 の さ け び) são “Jigoku no Sakebi”, que significa “o grito do inferno”.

A sessão de fotos para a capa foi realizada também por Norman Seeff, em Los Angeles. Na contracapa, cada membro do Kiss foi clicado em um clima de festa. Aliás, no evento, os caras – exceto Gene Simmons – estavam bêbados, inclusive as garotas que posaram junto com eles. O baixista disse que aquela tinha sido uma das poucas vezes que ele viu Paul bêbado. No entanto, em virtude do acidente sofrido, Ace Frehley só foi maquiado parcialmente por causa dos cortes sofridos no rosto. A outra metade teve interferência gráfica pelo departamento de arte da gravadora.

Esse é um excelente trabalho para quem quiser conhecer melhor o Kiss. Apesar da falha no processo de divulgação do álbum, “Hotter Than Hell” é clássico. Não é à toa que ele é o disco do Kiss preferido de Dave Mustaine, o “boss” do Megadeth.

A seguir, a ficha técnica e o tracklista do play.

Álbum: Hotter Than Hell
Intérprete: Kiss
Lançamento: 22 de outubro de 1974
Gravadora: Casablanca Records
Produtores: Kenny Kerner e Richie Wise

Ace Frehley: guitarra-solo, backing vocal em “Parasite”, “Comin’ Home” e “Strange Ways” e baixo em “Parasite
Gene Simmons: voz e baixo
Paul Stanley: voz e guitarra-ritmo
Peter Criss: bateria, percussão e voz em “Mainline” e “Strange Ways

1. Got To Choose (Stanley)
2. Parasite (Frehley)
3. Goin’ Blind (Simmons / Coronel)
4. Hotter Than Hell (Stanley)
5. Let Me Go, Rock ‘N’ Roll (Simmons / Stanley)
6. All The Way (Simmons)
7. Watchin’ You (Simmons)
8. Mainline (Stanley)
9. Comin’ Home (Stanley / Frehley)
10. Strange Ways (Frehley)

Por Jorge Almeida

Kiss: 25 anos de “Hot In The Shade”

"Hot In The Shade": teve a balada "Forever" como carro-forte, mas foi o disco menos vendido do Kiss nos anos 1980
“Hot In The Shade”: teve a balada “Forever” como carro-forte, mas foi o disco menos vendido do Kiss nos anos 1980

Na última sexta-feira (17), o álbum “Hot In The Shade”, o 15º registro de estúdio do Kiss, completou 25 anos de seu lançamento. Produzido pelos “donos” da banda, Paul Stanley e Gene Simmons, o play foi gravado entre julho e agosto de 1989 no The Fortress, em Hollywood, Califórnia. Na discografia da banda, é o disco de estúdio com mais faixas no total: 15.

Depois de tentar de tudo para recuperar a identidade e o prestígio ao longo da década de 1980: disco conceitual, tirada da maquiagem, hard rock “farofeiro” com visual glam, o Kiss também sofreu também com a instabilidade em virtude das constantes trocas de guitarristas – Ace Frehley, Vinnie Vincent, Mark St. John e Bruce Kulick. E foi justamente com este último que o quarteto conseguiu encontrar uma formação estável (eles vinham tocando juntos há quatro anos). E foi com essa line-up – Stanley, Simmons, Carr e Kulick – que o Kiss começou o processo de voltar as raízes, que foram iniciadas aqui com “Hot In The Shade”, e que foi consolidada com “Revenge”, já com Eric Singer na bateria.

Depois do lançamento de “Crazy Nights”, em 1987, a maré do grupo deu uma amenizada e a gravadora resolveu lançar a coletânea “Smashes, Trashes & Hits”, que trazia dois temas inéditos – “Let’s Put The X In Sex” e “(You Make Me) Rock Hard” – além da releitura de “Beth”, com Eric Carr nos vocais, o que fez dividir as opiniões dos fãs. E, nesse período, vale destacar a participação da banda no Monsters Of Rock, que teve o Iron Maiden como o seu headliner. Esse hiato de quase dois anos permitiu que o grupo pudesse mostrar serviço e, talvez, tenha exagerado na dose ao compor um disco com 15 músicas, quando, geralmente, um álbum do Kiss tem em média dez temas.

E é justamente esse excesso de música, em alguns momentos, que faz o play parecer enjoativo. Ainda mais que o Kiss estava em um momento de definição em relação ao seu direcionamento musical.

O álbum abre com a ótima “Rise To It”, que ganhou um videoclipe. Aliás, o clipe traz uma situação curiosa: Gene Simmons e Paul Stanley aparecem com as consagradas ‘make-ups’ pela primeira vez desde 1983. No entanto, a cena em que eles aparecem ocorreu em 1975 e os trajes que vestiam eram, historicamente, inexatos: Simmons utilizou o figurino da era de “Unmasked” (1980) enquanto o de Paul Stanley era da época de “Love Gun” (1977). Kulick e Carr só aparecem na parte em que a banda está de “cara limpa”.

Outra faixa de destaque é “Hide Your Heart”, que também ganhou videoclipe, e trazia as características de um hit em potencial: bem arranjada e um enredo bacana. Uma das minhas prediletas do play.

Em “Hot In The Shade”, merecem também atenção a forte “King Of Hearts” e “Little Caesar”, essa última cantada pelo carismático Eric Carr. Inclusive, com o baterista assumindo o vocal nessa música, a banda passou por uma situação que não acontecia em seus discos de estúdio desde “Music From ‘The Elder’”: outro vocalista além de Gene e Paul. Vale lembrar que, ao longo da década de 1980, nos shows da banda, os temas consagrados na voz de Peter Criss eram cantados por Eric Carr, que também cantava “Young And Wasted” (na versão de estúdio, do álbum “Lick It Up”, o vocal foi feito por Gene Simmons).

É claro que o carro-chefe do disco é a balada “Forever”, composição de Paul Stanley e Michael Bolton. A música fez parte da trilha sonora da novela “Rainha da Sucata”, da Rede Globo, o que irritou alguns fãs aqui no Brasil.

O álbum apresenta uma série de faixas “meia-bomba”, como “Read My Body”, “You Love Me To Hate You” e “Somewhere Between Heaven And Hell” e as bacanas “Betrayed” e “The Street Giveth And The Street Taketh Away”, ambas tendo Tommy Thayer, atual substituto de Ace Frehley no Kiss, na guitarra. De resto, só faixas medianas que não acrescentam em nada.

Apesar de ter recebido certificado de ouro pelas vendas do álbum no final de 1989 (cerca de 800 mil cópias), “Hot In The Shade” foi o disco de menor sucesso da fase sem máscaras do Kiss (não conto o “Carnival Of Souls (The Final Sessions)” porque foi lançado fora de contexto e não teve um trabalho de divulgação).

Hot In The Shade” é um disco nota 6,0. É um bom disco, mas não é aconselhável para quem não conhece ou pouco conhece sobre o Kiss. É um típico álbum que, para qualquer colecionador de discografias completas de bandas, seria um dos últimos a ser adquirido ao acervo.

Abaixo, a ficha técnica e o tracklist do play.

Álbum: Hot In The Shade
Intérprete: Kiss
Lançamento: 17 de outubro de 1989
Gravadora: Mercury
Produtores: Paul Stanley e Gene Simmons
Paul Stanley: voz, guitarra, slide guitar em “Rise To It” e violão em “Forever
Gene Simmons: baixo e voz:
Eric Carr: bateria, percussão, backing vocal, voz e baixo em “Little Caesar
Bruce Kulick: guitarra, backing vocal e baixo em “Forever

Tommy Thayer: violão e guitarra em “Betrayed” e “The Street Giveth And The Street Taketh Away
Pat Regan: metais em “Cadillac Dreams
Charlotte Crossley, Valerie Pinkston e Kim Edwards-Brow: backing vocals em “Silver Spoon
Kevin Valentine: bateria em “You Love Me To Hate You
Phil Ashley: teclados em “Hide Your Heart” e “Forever

1. Rise To It (Stanley / Halligan)
2. Betrayed (Simmons / Thayer)
3. Hide Your Heart (Stanley / Child / Knight)
4. Prisoner Of Love (Simmons / Kulick)
5. Read My Body (Stanley / Halligan)
6. Love’s A Slap In The Face (Simmons / Poncia)
7. Forever (Stanley / Bolton)
8. Silver Spoon (Stanley / Poncia)
9. Cadillac Dreams (Simmons / Poncia)
10. King Of Hearts (Stanley / Poncia)
11. The Street Giveth And The Street Taketh Away (Simmons / Thayer)
12. You Love Me To Hate You (Stanley / Child)
13. Somewhere Between Heaven And Hell (Simmons / Poncia)
14. Little Caesar (Carr / Simmons / Mitchell)
15. Boomerang (Simmons / Kulick)

Por Jorge Almeida

Kiss: 30 anos de “Animalize”

Hoje, 13 de setembro, marca o 30º aniversário do lançamento do 12º trabalho de estúdio do Kiss. Trata-se de “Animalize”, o segundo álbum da banda norte-americana sem as famosas maquiagens. Produzido por Paul Stanley, o disco foi gravado entre junho e julho de 1984 no Right Track Studios, em Nova York. Foi o único registro da banda que teve a presença de Mark St. John nas guitarras.

Depois de lançar “Lick It Up” no ano anterior já com Vinnie Vincent, o Kiss estava disposto a dar continuidade ao querer trabalhar em um álbum com a mesma pegada. No entanto, Gene Simmons e Paul Stanley tinham um problema que atendia pelo nome de Vinnie Vincent. Depois de diversas divergências com os “patrões”, o substituto de Ace Frehley foi demitido após o fim de uma mini tour que o grupo fazia pelos Estados Unidos.

Dessa forma, em abril de 1984, Vincent foi substituído por Mark St. John, músico de estúdio, professor de guitarra e fascinado por jazz. Com o novo guitarrista, o Kiss entrou nos estúdios para a gravação do novo álbum. No entanto, o grupo enfrentava uma nova crise interna. Gene Simmons estava mais interessado em trabalhar em seu segundo filme, “Runaway” (o primeiro foi “Kiss Meets The Phantom Of The Park”, de 1978), do que gravar o disco.

Além disso, o novo guitarrista, apesar de ser um cara capacitado, não tinha noção de composição, conforme declarações dadas por Gene Simmons que ainda disse que a guitarra de St. John fazia soar como uma “abelha enfurecida”, e que isso teve que precisar ser controlado por ele e, principalmente, por Paul Stanley.

Com o velho parceiro se dedicando ao cinema, restou a Paul toda a pressão em lidar com a produção de “Animalize”. Ele assumiu todas as rédeas na gravação. Simmons ia ao estúdio gravava a parte dele e ia embora. Então, o resultado não saía satisfatório e Stanley refazia as faixas. Apesar de ter mais liberdade por ter ficado “sozinho” na produção, Paul Stanley se desgastou bastante para produzir o álbum. Aliás, durante os anos 1980, era Stanley quem assumia os comandos no Kiss, ele tomava a iniciativa em gravar os álbuns ou então não saía. Em resumo: “Animalize” pode ser considerado um álbum de Paul Stanley.

E os problemas do Kiss não acabaram por aí, havia mais um: Mark St. John. O guitarrista, em sua curta estadia na banda, fez apenas um show inteiro com o Kiss, em Beltimore (EUA), o que tornou o registro dessa apresentação em uma raridade. No entanto, a performance dele foi o suficiente para os demais perceberem que ele era uma carta fora do baralho, pois além da parte técnica questionada, St. John não sabia cantar e os seus backings eram catastróficos. Contudo, Mark seguiu em turnê com o grupo e, durante o período, desenvolveu a síndrome de Reither, que inchou a sua mão. Assim, o Kiss passou a dividir os shows com St. John e Bruce Kulick para, ao final da turnê, Mark ser despedido. Gene alegou que o sucessor de Vinnie Vincent saiu em razão da doença, mas, curiosamente, pouco tempo depois, Mark estaria tocando com outra banda, o White Tiger, que não vingou. Anos depois, em 5 de abril de 2007, Mark St. John morreu de hemorragia cerebral ocasionado por uma overdose acidental de metanfetaminas.

Com Mark fora da banda, restou Gene Simmons e Paul Stanley efetivarem Bruce Kulick que, ao contrário de seus antecessores, não tinha habilidades para solos mais velozes, mas compensava pela competência em executar tanto o material antigo quanto o atual do grupo. E Bruce foi o quarto guitarrista do Kiss em um período de três anos. Aliás, mesmo Vincent e St. John serem mais virtuosos que Kulick, os ‘carros-chefes’ dos álbuns que eles tocaram não tinham solo, casos de “Lick It Up” e “Heaven’s On Fire”. Ainda falando de Bruce Kulick, o primeiro registro oficial na íntegra com a presença dele foi a gravação do homevideo (que virou DVD obviamente) “Kiss: Animalize Live Uncesored”, gravado em uma apresentação no Cobo Hall, em Detroit, em 8 de dezembro de 1984 e lançado em 19 de abril de 1985. Antes disso, ele havia gravado a guitarra em duas faixas de “Animalize”.

O álbum abre com a boa “I’ve Had Enough (Into The Fire)”, parceria de Paul Stanley e o ‘hitmaker’ Desmond Child. A música começa com um breve riff de guitarra. Eric Carr colaborou com o refrão. A segunda faixa é “Heaven’s On Fire”, o principal hit do disco. O seu videoclipe mostra a única aparição de Mark St. John no Kiss. Seu single alcançou o 11º lugar na Billboard. A popularidade da música foi tanta que foi um dos poucos temas oitentistas do Kiss que foi mantido nos shows da banda desde quando eles voltaram a usar as máscaras em 1996. A terceira música é “Burn Bitch Burn”, de Gene Simmons, que, assim como em diversas músicas de sua autoria, tem a conotação sexual e frases de duplo sentido como tema. Aqui, o linguarudo canta algo como “Quando o amor ergue a cabeça eu quero entrar em você, quero colocar o meu tronco na sua lareira”.

Posteriormente, “Animalize” aparece com a trinca de medianas, “Get All You Can Take”, “Lonely Is The Hunter” e “Under The Gun”, que são mais conhecidas pelos fãs “troozões” do Kiss. Aliás, apesarem de ser boas músicas, não acrescentam nada no álbum.

A sétima faixa é a bela “Thrills In The Night”, que virou o segundo single do disco. Ela é fruto da parceria entre Paul Stanley e outro ‘hitmaker’, Jean Beauvoir, ex-baixista do Plasmatics. A música fala de uma mulher que trabalha das 9 às 17h e que à noite cumpre desejos sexuais promíscuos. No videoclipe, que foi gravado com a banda tocando na frente de uma plateia ao vivo, Bruce Kulick já marcara presença no lugar de Mark St. John.

E “Animalize” chega em sua parte final com duas músicas assinadas por Gene Simmons e Mitch Weissman: “While The City Sleeps” e “Murder In High Heels”. A primeira foi composta pelo baixista durante a sua fase de ator e o título foi tirado de um filme homônimo que falava sobre um misterioso assassinato nos anos 1950. Enquanto a segunda, segundo Simmons, foi tirada de um livro de brochure dos anos 1950. Para o riff, Gene propôs uma variação do riff de “Rice Pudding”, do Jeff Beck.

Apesar de ter sido contestado pela crítica e pelos fãs porque o Kiss manteve o estilo glam rock, “Animalize” vendeu mais de dois milhões de cópias, que certificou o Kiss a receber o disco duplo de platina, e foi o trabalho mais vendido da banda nos anos 1980, assim como foi o mais vendido desde “Alive II” (1977) até então.

O álbum “Animalize”, apesar de ter sido o mais bem sucedido comercialmente na década de 1980, não é o melhor disco do Kiss da fase ‘unmasked’ (em minha opinião, ele fica um degrau abaixo de “Lick It Up” e de “Revenge”), mas é um bom disco de rock. Se os fãs da época reclamaram que o Kiss estava disposto a manter-se no glam rock, eles não esperavam que o pior estava por vir, que foi o lançamento de “Asylum” (1985), que considero o álbum mais “farofa” de toda a discografia do Kiss.

A seguir, a ficha técnica e o tracklist do play.

Álbum: Animalize
Intérprete: Kiss
Lançamento: 13 de setembro de 1984
Gravadora: Mercury / Vertigo (Europa) / Casablanca Records (Japão)
Produtor: Paul Stanley

Paul Stanley: voz, guitarra rítmica e backing vocal
Gene Simmons: baixo, voz e backing vocal
Mark St. John: guitarra solo
Eric Carr: bateria e backing vocal

Desmond Child: backing vocal
Jean Beauvoir: baixo em “Get All You Can Take”, “Under The Gun” e “Thrills In The Night” e backing vocal
Bruce Kulick: guitarra solo em “Lonely Is The Hunter” e “Murder In High Heels
Allan Schwartzberg: bateria em “Murder In High Heels

  1. I’ve Had Enough (Into The Fire) (Child / Stanley)
  2. Heaven’s On Fire (Child / Stanley)
  3. Burn Bitch Burn (Simmons)
  4. Get All You Can Take (Weissman / Stanley)
  5. Lonely Is The Hunter (Simmons)
  6. Under The Gun (Child / Carr / Stanley)
  7. Thrills In The Night (Beauvoir / Stanley)
  8. While The City Sleeps (Simmons / Weissman)
  9. Murder In High Heels (Simmons / Weissman)

Por Jorge Almeida

Kiss: os 40 anos do álbum de estreia da banda

Capa do 'debut' do Kiss: inspirada em "With The Beatles"
Capa do ‘debut’ do Kiss: inspirada em “With The Beatles”

Nessa semana, mais precisamente no último dia 18 de fevereiro, completou-se 40 anos do lançamento do trabalho de estreia do Kiss. Gravado entre outubro e novembro de 1973 no Bell Sound Studios, em Nova York, o disco teve a produção assinada pela dupla Kenny Kerner e Richie Wise (ex-integrante do Dust, banda de Hard Rock do início dos anos 1970 e que tinha entre seus membros, um tal de Marc Bell na bateria, que ganhou a fama mundial com a alcunha de Marky Ramone).

Depois do fim do Wicked Lester, Gene Simmons e Paul Stanley estavam dispostos a criar uma nova banda com intuito de não ser apenas “mais uma” em meio a tantas outras já existentes. Eles queriam montar um supergrupo. Para isso, fizeram anúncios em jornais e revistas à procura de novos músicos. E ao lerem um classificado em que um baterista com 11 anos de experiência estava disposto a “qualquer coisa”. A dupla não hesitou e contactaram o dito cujo. Tratava-se de George Peter John Criscoula, ou simplesmente, Peter Criss.  Como um trio, o que viria a se tornar o Kiss começou os seus primeiros ensaios. Contudo, como Paul não sabia solar, eles viram que havia a necessidade em ter mais um guitarrista. Então, quando fizeram um teste para a escolha do novo integrante, um dos candidatos, vestido de forma estranha, com um tênis de cada cor e calça rasgada chegou ao local cortando a fila. No entanto, o rapaz foi reprimido e informado que não podia cortar fila e ele teria de esperar a sua vez. Logo, ao chegar o seu momento, o jovem mostrou as suas habilidades com as seis cordas e impressionou a todos. Seu nome: Paul Daniel Frehley, que virou Ace Frehley, já que havia um Paul na banda. No homevídeo “X-Treme Close-up” (1992), Gene Simmons relata que, na primeira vez que viu Ace, achou que tratava-se de um mendigo.

Com a formação já definida, faltava criar um nome para a banda. Pensaram em algo como “Fuck” ou “Albatroz”, mas optaram por um que fosse fácil de falar em qualquer idioma: KISS. Há duas versões a respeito da origem da escolha pelo nome KISS: uma diz que foi uma brincadeira de Paul Stanley a respeito de um dos grupos que Peter participou, o Lips (lips = lábios, logo, kiss = beijo); a outra (e a mais conhecida) é que o quarteto se inspirou em um concurso de beijo que rolava em Nova York. Então, cada um escolheu a sua make-up baseada em sua personalidade. Assim, Gene Simmons virou “The Demon” por conta de sua paixão por filmes e quadrinhos de terror; Paul Stanley sempre quis ser um rockstar, então, optou em pintar uma estrela em seu olho direito para sintetizar o seu sonho; Ace Frehley sempre foi fissurado por temas futuristas e espaciais, daí veio a inspiração para ser o “Space Ace”; enquanto Peter Criss expressou em sua maquiagem a sua devoção aos felinos, logo, transformou-se em “The Catman”. E, por ter estudado arte, Ace Frehley foi o responsável pela criação do logotipo da banda.

Dessa forma, com a maquiagem e toda a parafernália, o Kiss partiu para os primeiros concertos. Evidentemente, o público não era como é hoje. E, entre uma apresentação e outra por Nova York, o empresário Bill Aucoin descobriu o talento dos quatro mascarados. Então, foi um grande passo para assinar contrato com a recém-fundada Casablanca, de Neil Bogart. Depois de gravarem o álbum, a gravadora realizou uma festa no Hotel Century Plaza, em Los Angeles, para celebrar o lançamento do ‘debut’ do Kiss.

A capa do álbum foi inspirada na famosa “With The Beatles”, dos Beatles, óbvio. Na ocasião, três dos quatro integrantes do Kiss fizeram a sua própria maquiagem, exceto Peter Criss, que, por preguiça, preferiu que um maquiador fizesse a sua make-up, por isso que a sua maquiagem está totalmente diferente da que o consagrou.

A princípio, as vendagens de “Kiss” foi um fiasco (cerca de 75 mil cópias vendidas na época), no entanto, a gravadora estrategicamente propôs ao grupo que gravassem um cover de Bobby Rydell, de 1959, intitulada “Kissin’ Time”, que foi inserida no tracklist em uma nova prensagem do disco, que ocorreu em maio de 1974. Ou seja, quem tem o primeiro LP do Kiss sem “Kissin’ Time” tem uma verdadeira relíquia em mãos, já que essas cópias sem essa faixa é muito procurada pelos fãs mais fervorosos. Aliás, “Kiss” só teve o reconhecimento devido graças a “Alive!” (1975), que permitiu que as pessoas fossem atrás do primeiro álbum, que recebeu o certificado de Disco de Ouro apenas em 1977, quando o Kiss já era a “banda mais quente do mundo”.

O álbum abre com “Strutter”, composta por Paul e Gene antes de Ace se juntar a banda. Stanley fez a letra em cima de uma música que Simmons havia composto intitulada “Stanley, The Parrot”. Com seu riff certeiro e um excelente vocal de Paul, não é à toa que ela continua no rol dos eternos clássicos do Kiss.

Em seguida, aparece “Nothin’ To Lose”, com o linguarudo baixista dividindo os vocais com Peter Criss. A música fala sobre a insistência do interlocutor em coagir com a namorada a prática do sexo anal. Paul Stanley colabora nos backing vocals.

O terceiro tema é “Firehouse”, que apresenta bom riff, mas não chega a empolgar. Ela ganhou mais destaque porque é justamente durante a sua execução nos shows que Gene Simmons faz a famosa cuspida de fogo.

Ace Frehley mostra que é um compositor de mão cheia com a inigualável “Cold Gin”. Inseguro para cantá-la, o guitarrista deixou Gene para tal finalidade. O curioso é que o abstêmio baixista interpretou o tema com tamanha maestria que parecia um “expert” na arte de ingerir goró. Aliás, a música está na sétima colocação das dez melhores composições feitas sobre bebida pela Guitar World em 2009.

E “Kiss” chega a sua metade com “Let Me Know”, que considero como uma das melhores do disco, mas que a banda raramente toca em seus concertos. A música foi apresentada por Paul Stanley para Gene Simmons quando eles se conheceram. Na época, a canção chamava-se “Sunday Driver”, e o guitarrista revidou uma provocação do baixista, que achava que apenas ele e a dupla Lennon/McCartney sabiam compor. A faixa chegou a ser registrada pelo Wicked Lester, mas no álbum entrou com Stanley e Simmons dividindo os vocais.

O lado B do vinil abre com “Kissin’ Time” que, conforme relatado acima, não foi incluída no lançamento original do disco, mas que entrou depois de dois meses da distribuição do álbum por ideia da gravadora. No final, a música não é “lá essas coisas”.

A sétima faixa é a clássica “Deuce”, que mostra todo o potencial de Gene Simmons como vocalista. Seguramente, é uma das faixas mais conhecidas do vasto repertório do Kiss. Constantemente é a faixa de abertura da banda nas turnês (como a que foi feita por aqui em 2009) e também os integrantes fazem uma coreografia na parte final. E, como boa parte das letras de Gene, fala da submissão feminina ao homem no sexo, que é o caso de “Deuce”, mesmo que de forma sutil.

Na sequência, o álbum apresenta a instrumental “Love Theme From Kiss”, que surgiu como uma versão encurtada de “Acrobat”, cuja versão integral pode ser conferida no “Box Set” (2001).  É uma das três músicas do Kiss compostas por seus quatro membros (vigentes às respectivas formações), as outras duas são “All Hell’s Breakin’ Loose” (do álbum “Lick It Up”, de 1983) e “Back To The Stone Age” (do disco “Monster”, de 2012). Mas que é a primeira que leva a assinatura de Simmons, Stanley, Frehley e Criss. E só como curiosidade, “Love Theme…” apareceu na trilha do filme “Somewhere” (2010), dirigido por Sofia Coppola.

E o ‘debut’ do Kiss vai chegando ao seu final com mais dois petardos. Primeiro vem “100,000 Years”, com o sua famosa introdução com um riff de baixo de Gene Simmons. Depois surgem os outros para detonar tudo. Musicalmente falando, é a melhor música do álbum: tudo é absurdamente perfeito: baixo, bateria, riffs, letra e voz. Nos concertos, suas versões costumam ultrapassar os dez minutos por conta do solo de bateria de Peter Criss (e posteriormente por Eric Carr e Eric Singer) e a interação entre Paul Stanley e a plateia.

E o outro petardo, que finaliza o álbum, é “Black Diamond”, que inicia com Stanley cantando o primeiro verso acompanhado de um violão de 12 cordas, e depois passa a bola para Peter Criss, que mostra o poder de sua voz na música. Após o solo de Frehley, a música vai diminuindo gradualmente até o final que, aparentemente, foi feito para completar a duração do disco, o que tira todo o brilho da faixa por ser algo entediante. A versão que contém na coletânea “Double Platinum” (1978) é a melhor, pois, em vez de manter o final “carregado”, repete a primeira parte. Após a saída do baterista original, “Black Diamond” continuou no setlist do Kiss, mas com os vocais de Eric Carr e Eric Singer, respectivamente.

O álbum “Kiss” resume perfeitamente o que é o Kiss: uma banda ambiciosa que apenas se preocupa em fazer música para divertir seus fãs através de suas temáticas adolescentes: festas, rock and roll e sexo (drogas não fazem parte do contexto, por incrível que pareça). Além disso, o disco sintetiza a forma de atuação de cada integrante ao longo dos anos: Ace pode não ser um guitarrista dos mais técnicos, mas seu estilo influenciou muita gente, entre eles, só para citar, Dimebag Darrell; Peter Criss possui suas limitações como baterista, mas se sobressai por saber tocar, mesmo que o básico, e cantar; Gene Simmons e Paul Stanley compõem sobre o mesmo assunto, mas de forma diferente. Enquanto o Starchild prefere adotar métodos convencionais nas letras sobre amor/sexo, ou seja, o lado romântico da coisa, o baixista prefere tratar a figura da mulher como objeto (nas letras, que fique claro), ou seja, prevalecendo o domínio machista na relação, além de usufruir das frases de duplo sentido. Apesar desse lado “machão”, quem diria, Simmons precisou se humilhar anos atrás para ter o perdão de sua atual esposa e ex-coelhinha da Playboy Shannon Tweed por suas “mancadas”. Esse é um excelente disco e certamente um dos melhores trabalhos de estreia de uma banda na história do rock.

Abaixo, a ficha técnica e o tracklist de “Kiss”.

Álbum: Kiss
Intérprete: Kiss
Lançamento: 18 de fevereiro de 1974
Gravadora: Casablanca Records
Produtores: Kenny Kerner e Richie Wise

Gene Simmons: baixo, voz e backing vocal
Paul Stanley: guitarra-rítmica, voz e backing vocal
Peter Criss: bateria, voz e backing vocal
Ace Frehley: guitarra solo

Bruce Foster: piano em “Nothin’ To Lose
Warren Dewey: sirene em “Firehouse

1. Strutter (Stanley / Simmons)
2. Nothin’ To Lose (Simmons)
3. Firehouse (Stanley)
4. Cold Gin (Frehley)
5. Let Me Know (Stanley)
6. Kissin’ Time (Mann / Lowe)
7. Deuce (Simmons)
8. Love Theme From Kiss (Frehley / Stanley / Simmons / Criss)
9. 100,000 Years (Stanley / Simmons)
10. Black Diamond (Stanley)

Por Jorge Almeida