Os Paralamas do Sucesso: 30 anos de “Bora Bora”

“Bora Bora”: quarto trabalho de estúdio d’Os Paralamas do Sucesso, que completou 30 anos em 2018

Em 2018, o quarto trabalho de estúdio d’Os Paralamas do Sucesso, “Bora Bora”, completou 30 anos. Gravado nos estúdios da EMI, no Rio de Janeiro, em fevereiro de 1988, mixado em março do mesmo ano, o álbum foi lançado em maio daquele ano pela EMI e foi produzido por Carlos Savalla em parceria com a banda.

Depois do sucesso estrondoso de “Selvagem?” (1986), o trio formado por Herbert Vianna (guitarra e voz), João Barone (bateria) e Bi Ribeiro (baixo) saiu em turnê pelo Brasil e também mundo a fora, pois, em 1987, os caras gravaram o ao vivo “D”, no tradicionalíssimo Festival de Jazz de Montreaux, na Suíça.

No ano de 1988, os Paralamas trabalharam firmes no sucessor de “Selvagem?”. E a banda ganhou o reforço do tecladista João Fera que, ao longo desses 30 anos, praticamente se tornou um “quarto paralama”. No entanto, para “Bora Bora”, o grupo acrescentou metais na sonoridade de suas músicas e a influência dos ritmos afro-caribenhos se fazem presentes.

O álbum já chamou a atenção a começar pela capa colorida e os metais que já abriam a obra e que permeavam ao longo do disco. As faixas mesclavam o cunho político-social, como em “O Beco”, clássico que abre o play, com músicas animadas do lado A e com temas introspectivos e melancólicos no lado B, principalmente por conta do término do relacionamento de Herbert Vianna com Paula Toller, vocalista do Kid Abelha.

Os Paralamas do Sucesso passaram um perrengue durante o processo do álbum. Pois as fitas de 24 canais usadas na gravação, produzidas por uma empresa alemã, vieram de um lote defeituoso, soltavam óxido. Mas, o produtor Carlos Savalla e a banda só se deram conta do problema quando foram mixar o disco no Townhouse Studios, em Londres. Tanto que todas as fitas de “Bora Bora” não existem mais e a Afga, empresa responsável pelas fitas, alegou o problema do material devido às condições climáticas (“clima úmido”) do Brasil e “apenas” pediu desculpas à banda.

A obra começa com “O Beco”, com destaque à presença dos metais e o peso da temática de cunho social bastante forte. Em seguida, a instrumental “Bundalelê”, que Herbert Vianna escreveu em 1987, que mantém o clima alegre do disco. O terceiro tema é a faixa que dá nome ao disco. Bem tocada, os metais ganham destaque nela e sintetiza bem o espírito de “sol-praia-música” do grupo naquele momento. Em seguida, o álbum segue com “Sanfona”, cujo nome foi definido depois que os integrantes, que ainda não havia dado título a ela, como “aquela da sanfona”. E dá-lhe mais metais e ritmo caribenho que acompanha a faixa do começo ao fim. Posteriormente, a obra segue com a única não-autoral da banda, “Um A Um”, que fez sucesso com diversos nomes da música nordestina na divertida canção sobre futebol. A sexta faixa é a romântica “Fingido”, que apesar do belo arranjo, é uma típica faixa “lado B”. E o lado A do LP termina com “Don’t Give Me That”, que era para ser uma faixa instrumental, mas no meio do processo apareceu o toaster jamaicano Peter Metro, que atuou como uma espécie de repentista na música.

O outro lado da bolacha começa com o hit “Uns Dias”, que fora apresentada aos fãs no final de 1987 quando ainda era intitulada como “O Expresso do Oriente”. É tão ‘paralâmica’ que, se tivesse sido lançada em “O Passo do Lui” (1984) ou em “Cinema Mudo” (1983), não seria nenhum absurdo. Destaque para o teclado excelente de João Fera. Em seguida, outro sucesso do grupo, a melancólica e maravilhosa “Quase Um Segundo”, com a participação especial de Charly García no piano, que foi a “cereja do bolo”. Uma música tipicamente MPB que cairia como uma luva para cantoras como Zizi Possi ou Gal Costa, por exemplo. Já em “Dois Elefantes”, João Barone dá uma aula na condução da bateria. No ano seguinte, a música ganhou uma versão gravada por Marina Lima que, para alguns, é superior a essa. O disco segue com a trinca “Três”, “Impressão” e “O Fundo do Coração”, que não agregam muito à obra, e o término fica por conta de “The Can”, com mais uma participação de Peter Metro, em que eles resolveram fazer uma brincadeira com o “verão da lata”, que marcou o Rio de Janeiro em 1988. O episódio ficou conhecido em todo o Brasil quando o navio japonês Foo Lang III (que ficou conhecido no país como “Solana Star”) ia da Austrália para os Estados Unidos traficando 22 toneladas de maconha e a embarcação precisava parar no Brasil para fazer uns reparos. Com isso, temendo uma eventual abordagem da Marinha Brasileira, os marinheiros do navio jogaram a carga da maconha no mar. O caso aconteceu em 1987 e as latas foram levadas pela correnteza para as costas do litoral fluminense e paulista. O episódio ficou conhecido como o “verão da lata”.

Na época de seu lançamento “Bora Bora” vendeu cerca de 200 mil cópias, mas o disco marcou definitivamente a presença dos instrumentos de sopro no som d’Os Paralamas. Sim, é um clássico que vale a pena conferir com mais afinco.

A seguir, a ficha técnica e o tracklist da obra.

Álbum: Bora Bora
Intérprete: Os Paralamas do Sucesso
Lançamento: maio de 1988
Gravadora: EMI
Produtores: Carlos Savalla e Paralamas do Sucesso

Herbert Vianna: guitarra e voz
Bi Ribeiro: baixo
João Barone: bateria e percussão

João Fera: teclados
Mattos Nascimento: trombone
Humberto Araújo: saxofone
Don Harris: trompete
George Israel: sax em “O Fundo do Coração
Charly García: piano em “Quase Um Segundo
Peter Metro: toast em “Don’t Give Me That” e “The Can

1. O Beco (Bi Ribeiro / Herbert Vianna)
2. Bundalelê (Bi Ribeiro / João Barone / Herbert Vianna)
3. Bora Bora (Herbert Vianna)
4. Sanfona (Bi Ribeiro / Herbert Vianna)
5. Um a Um (Edgar Ferreira)
6. Fingido (Herbert Vianna)
7. Don’t Give Me That (Bi Ribeiro / Peter Clarke / Herbert Vianna)
8. Uns Dias (Herbert Vianna)
9. Quase Um Segundo (Herbert Vianna)
10. Dois Elefantes (Herbert Vianna)
11. Três (Herbert Vianna)
12. Impressão (Bi Ribeiro / João Barone / Herbert Vianna)
13. O Fundo do Coração (Herbert Vianna)
14. The Can (Bi Ribeiro / Peter Clarke / Herbert Vianna)

Por Jorge Almeida

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