The Clash: 40 anos do primeiro grande disco punk do Reino Unido

“The Clash”, o álbum: o primeiro grande disco de punk lançado no Grã-Bretanha

No dia 8 de abril de 2017, o primeiro álbum do Clash completou 40 anos de seu lançamento. O material foi gravado entre os dias 10 e 27 de fevereiro no CBS Studios, em Londres, e no National Film and Television School, em Beaconsfield, na Inglaterra. A produção foi de Mickey Foote. A versão norte-americana foi lançada em 1979, depois de “London Calling”.

A maior parte do repertório do disco foi concebida no 18º andar de um apartamento alugado pela avó de Mick Jones, que frequentemente ia ver os shows da banda do neto ao vivo. O álbum foi gravado durante três sessões de fim de semana no CBS Studio 3 em fevereiro de 1977. Na terceira dessas sessões, o play foi gravado e mixado até a conclusão, com as fitas sendo entregues à CBS no começo de março ao custo de £ 4000 para ser produzido.

A arte da capa do disco foi projetada pela artista polonesa Roslaw Szaybo. Já a fotografia da capa foi tirada por Kate Simon, em um beco que fica em frente ao edifício Rehearsal Rehearsals, em Camden Market. Embora fosse um membro do Clash na época, o baterista Terry Chimes não apareceu na foto, pois já havia decidido deixar a banda.

Com 14 faixas, o álbum traz temas sobre a juventude descontente da Grã-Bretanha, do desemprego, das drogas, dos tumultos e do policiamento opressivo, que foram pilares para a crescente filosofia do estilo punk.

O disco abre com “Janie Jones”, que fala sobre um ilustre proprietário de bisontes em Londres na década de 1970. A faixa seguinte, “Remote Control” foi escrito por Mick Jones após a Anarchy Tour e traz observações pontuadas sobre os burocratas da sala cívica que cancelaram alguns shows. A CBS a lançou como single sem consultar a banda. Já “I’m So Bored With The USA” é uma condenação da banda para a “americanização” do Reino Unido. Enquanto isso, “White Riot”, que foi o primeiro single do grupo, liricamente, trata da economia de classe e de raça. A versão que entrou no disco não foi a gravada nos estúdios da CBS, mas sim a original que fizeram antes de assinar com a gravadora. O quinto tema, “Hate And War” traz toda a fúria do disco (e da banda) contra o “sistema”. E o disco segue com mais três petardos: “What’s My Name?”, “Deny” e “London’s Burning”.

O lado B do vinil começa com “Career Opportunities”, que ataca a situação política e econômica da Inglaterra na época, mencionando a falta de empregos disponíveis e a falta de recurso de boa parte dos cidadãos. Posteriormente, a curta “Cheat” que não chega a empolgar. Na sequência, o disco segue com “Protex Blue”, cantada por Mick Jones, que fala sobre uma marca de preservativos dos anos 1970. Foi inspirada pela máquina de venda automática de anticoncepcionais nos sanitários do Castelo de Windsor. A canção termina com a frase gritada “Johnny Johnny!”, o termo é uma gíria britânica para um preservativo. A música seguinte é um dos pilares do disco. Trata-se de “Police And Thieves”, cover de Lee Perry que entrou no álbum porque o grupo notou que quantidade de faixas gravadas era muito curta para preencher um disco. A versão original, que é um reggae, foi uma das principais influências para o Clash usufruísse de outros ritmos, especialmente da música negra, em suas músicas. O disco termina com mais dois temas: a curta “48 Hours” e “Garageland”, escrita como uma resposta à crítica feita a Charles Shaar Murray, que criticou a banda em um artigo ao afirmar que o Clash é uma banda de garagem e que deve ser “devolvida imediatamente à garagem”.

No processo de produção do álbum, a banda recusou os produtores encaminhados pela gravadora, assim, optaram por Micky Foote, que atuava como operador de mesa da banda nos shows. E, devido a inexperiência de Foote com produção, o álbum saiu, musicalmente falando, deficiente. Com guitarras “vazando” de um canal para outro, vocais que surgiram embolados e a péssima mixagem que tornaram o produto ainda mais sofrível. A sorte é que as músicas são boas.

Apesar dos defeitos técnicos, o álbum alcançou o número 12 das paradas britânicas e a modesta 126ª colocação na Billboard 200 quando a versão norte-americana foi lançada dois anos depois. E, ao longo dos anos, foi constantemente mencionado nos rankings das revistas especializadas. A New Musical Express, por exemplo, classificou o disco como 13º melhor álbum de todos os tempos em uma edição de fevereiro de 1993. Já a revista Spin o colocou no número 3 de sua lista dos 50 discos mais essenciais do Punk, em uma edição de maio de 2001. A revista Mojo classificou “The Clash” na segunda posição em seu Top 50 de álbuns punk.

Em passagem por Londres em 1977, o produtor jamaicano Lee Perry ouviu o disco e informou para Bob Marley que, por sua vez, mencionou o Clash na faixa “Punky Reggae Party”, que foi lançado como single pelo cantor em julho daquele ano.

A versão norte-americana do álbum merece uma atenção à parte por quatro aspectos: o lançamento, que ocorreu em 29 de julho de 1979, ou seja, mais de dois anos e três meses em relação à edição britânica; a produção, que foi assinada pela banda em conjunto com Mickey Foote, Lee Perry, Sandy Pearman e Bill Price; e o tracklist que é diferente da versão original; e a distribuição, que ficou a cargo da Epic, uma vez que a filial norte-americana da CBS optou em não lançá-lo nos Estados Unidos porque o disco não era “amigável ao rádio”. No entanto, entre 1977 e 1978, o ‘debut’ estava disponível na terra do Tio Sam como material importado e, como tal, tornou-se o item de importação mais vendido do ano, com mais de 100 mil cópias vendidas.

A edição ianque lançada pela Epic contém cinco faixas que foram lançadas no Reino Unido como singles e B-sides, incluindo temas que saíram depois de “Give ‘Em Enough Rope” (1978), segundo disco da banda, além de uma versão regravada de “White Riot”, que foi vetada da versão britânica e o cover do Sonny Curtis – “I Fought The Law” -, que o Clash lançou no EP “The Cost Of Living” (1979) no Reino Unido.

Assim, para edição norte-americana do play as faixas “Deny”, “Cheat”, “Protex Blue”, “48 Hours” e a versão original de “White Riot” foram substituídas por “Clash City Rockers”, “Complete Control”, a versão regravada de “White Riot”, “(White Man) In Hammersmith Palais”, “I Fought The Law” e “Jail Guitar Doors”.

Além disso, a versão da CBS Records canadense trazia uma borda azul escuro na capa em vez de verde e as primeiras cópias traziam como bônus a música “Groovy Times”. E as pressões iniciais da edição norte-americana apresentaram “What’s My Name?” como faixa 4 e “Complete Control” como faixa 11.

E, assim, embora a qualidade da produção do material não tenha sido um primor, “The Clash”, o álbum, é amplamente celebrado como um dos melhores discos punks de todos os tempos. E, de fato, é.

Só uma observação: antes que alguém questione porque explanei que o ‘debut’ do Clash foi o primeiro grande disco punk do Reino Unido e não “Never Mind The Bollocks, Here’s The Sex Pistols”, do Sex Pistols, a resposta é simples: o trabalho da banda de Johnny Rotten foi lançado posteriormente: no final de outubro de 1977.

A seguir, a ficha técnica e o tracklist do play.

Álbum: The Clash
Intérprete: The Clash
Lançamento: 8/04/1977 (versão britânica) / 29/07/1979 (versão norte-americana)
Gravadoras: CBS (Reino Unido) / Epic Records (EUA)
Produtores: Mickey Foote (versão britânica) /  Mickey Foote, Lee Perry, The Clash, Sandy Pearlman, Bill Price (versão norte-americana)

Joe Strummer: voz, backing vocal, guitarra rítmica e guitarra principal em “48 Hours
Mick Jones: guitarra principal, voz em “Hate And War” e “Protex Blue” e backing vocal
Paul Simonon: baixo
Terry Chimes (creditado como Tory Crimes): bateria
Topper Headon: bateria em “Clash City Rockers”, “Complete Control”, “(White Man) In Hammersmith Palais”, “I Fought The Law” e “Jail Guitar Doors

Versão britânica:
1. Janie Jones (Strummer / Jones)
2. Remote Control (Strummer / Jones)
3. I’m So Bored With The USA (Strummer / Jones)
4. White Riot (Strummer / Jones)
5. Hate And War (Strummer / Jones)
6. What’s My Name? (Strummer / Jones / Levene)
7. Deny (Strummer / Jones)
8. London’s Burning (Strummer / Jones)
9. Career Opportunities (Strummer / Jones)
10. Cheat (Strummer / Jones)
11. Protex Blue (Strummer / Jones)
12. Police And Thieves (Murvin / Perry)
13. 48 Hours (Strummer / Jones)
14. Garageland (Strummer / Jones)

Versão norte-americana:
1. Clash City Rockers (Strummer / Jones)
2. I’m So Bored With The USA (Strummer / Jones)
3. Remote Control (Strummer / Jones)
4. Complete Control (Strummer / Jones)
5. White Riot (Strummer / Jones)
6. (White Man) In Hammersmith Palais (Strummer / Jones)
7. London’s Burning (Strummer / Jones)
8. I Fought The Law (Curtis)
9. Janie Jones (Strummer / Jones)
10. Career Opportunities (Strummer / Jones)
11. What’s My Name? (Strummer / Jones)
12. Hate And War (Strummer / Jones)
13. Police And Thieves (Murvin / Perry)
14. Jail Guitar Doors (Strummer / Jones)
15. Garageland (Strummer / Jones)

Por Jorge Almeida

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