Pink Floyd: 40 anos de “Animals”

“Animals” (1977): disco do Pink Floyd quase 100% composto por Roger Waters

Neste ano, o décimo álbum de estúdio do Pink Floyd completa 40 anos de seu lançamento. O disco em questão é o clássico “Animals”, que saiu em 23 de janeiro de 1977. Produzido pela própria banda, o play foi gravado nos estúdios do grupo, o Britannia Row Studios, em Londres.

Aliás, a produção foi marcada pelos primeiros sinais de discórdias que, posteriormente, culminaram com a saída de Richard Wright da banda, que ficou de fora entre 1981 e 1987. Assim como os trabalhos anteriores – “The Dark Side Of The Moon” (1973) e “Wish You Were Here” (1975) -, o álbum também seguiu a linha de disco conceitual, que faz críticas às condições político-sociais da Inglaterra na década de 1970, além de mostrar uma notável mudança no estilo musical do grupo.

Em 1975, a banda comprou um edifício de três andares em Britannia Row e transformaram o prédio em um estúdio de gravação e depósito. A reforma durou quase todo aquele ano, mas em abril de 1976 os integrantes começaram a trabalhar no novo álbum nas novas instalações.

Nesse período, o Reino Unido fora dominado pela alta inflação, desemprego, violência racial e pela indústria. Ao mesmo tempo, um novo movimento musical contestador a essa realidade vivida pelos britânicos surgia, o punk rock, que foi uma reação à complacência geral e, em parte, um protesto niilista contra as condições sociais da maioria da população. Os músicos dessa vertente do rock alvejaram o Pink Floyd, isso é nitidamente claro quando Johnny Rotten, do Sex Pistols, vestiu uma camisa da banda progressiva em que ele acrescentou “I HATE” (“eu odeio”) antecedendo o nome da banda. Curiosamente, em 1977, Nick Mason produziu o segundo trabalho da banda de punk rock The Damned, “Music For Pleasure”, no Britanni Row Studios.

O Pink Floyd já havia trabalhado diversas vezes com o engenheiro Brian Humphries, que foi chamado para atuar no novo disco. A gravação foi feita entre abril e dezembro de 1976. Dois temas – “Raving And Drooling” e “You’ve Got To Be Crazy”, que já tinham sido tocadas ao vivo e que foram consideradas para serem parte de “Wish You Were Here”, surgiram aqui como “Sheep” e “Dogs”, respectivamente. Dessa forma, os músicos trabalharam nelas para que fossem adaptadas para o novo conceito e, consequentemente, separadas para uma nova canção de Roger Waters, “Pigs (Three Different Ones)”. Excetuando “Dogs”, que foi co-escrita com David Gilmour, todas as faixas foram compostas por Waters que, evidentemente, recebeu mais royalties que Gilmour, apesar de “Dogs” ocupar quase todo o lado A do álbum. Assim foi contabilizado porque os royalties são calculados por música. A menor participação de Gilmour no processo de composição tem um motivo compreensível: o nascimento de seu primeiro filho. Da mesma forma, nem Mason e nem Wright contribuíram muito para “Animals”, se comparado com os trabalhos anteriores. Aliás, esse é o primeiro registro da banda que não tem qualquer canção composta por Richard Wright.

A banda já havia cogitado a contratação de outro guitarrista para as digressões seguintes, de modo que Snowy White foi convidado para vir a estúdio. Depois de Waters e Mason apagarem acidentalmente um solo de guitarra de Gilmour, pediram a White que gravasse um solo para “Pigs On The Wing“, que embora não aparecesse na versão LP, foi incluído na versão do álbum lançada em cartucho. As gravações de “Animals” foram árduas para Richard Wright, pois, de acordo com o tecladista foi pelo fato de Roger Waters acreditar que ele, Roger, era o único compositor da banda e que por causa de Waters que a banda ainda estava unida, e que isso colaborou no desenvolvimento do ego do baixista, e, assim, a ter bastantes conflitos com os demais, especialmente Wright.

Apesar de Waters pudesse ser contra o novo movimento musical que eclodia no Reino Unido, suas preocupações relacionadas a desigualdade, ao preconceito e as atitudes sociais e políticas da época não eram muito diferentes do que propagavam as bandas punks britânicas. “Animals” é baseado no livro “Animal Farm” (“A Revolução dos Bichos”), de George Orwell, em que equipara os humanos a cada um dos três animais do livro: os cães representam os homens da lei; os porcos os políticos corruptos e moralistas; e as ovelhas, que sem pensamento próprio, cegamente seguem um líder. Enquanto o romance concentra-se no comunismo, o álbum é uma crítica direta ao estado e, embora ambos defendam os ideais do socialismo democrático, o álbum tem diferenças com o livro que a ovelha se rebele e domine os seus opressores.

Em “Dogs”, embora não tenha participado muito do processo criativo das canções, Richard Wright contribuiu significantemente ao fazer sons fúnebres utilizando os sintetizadores usados em “Wish You Were Here”. Já “Pigs (Three Different Ones)” tem melodias que lembra “Have A Cigar” e faz referências evidentes aos defensores da censura, em especial Mary Whitehouse (1910-2001), ativista social inglesa conhecida por sua forte oposição ao liberalismo social e aos alternativos media britânicos. Enquanto isso, em “Sheep” há uma versão modificada do Salmo 23, onde um Senhor que “Faz-me pendurar em lugares altos e converte-me a costeletas de cordeiro” (referindo-se as ovelhas do título) é celebrado. No final da canção, as ovelhas rebelam-se e matam os cães, mas, em seguida, retiram-se para suas casas. O álbum termina com “Pigs On The Wing“, uma simples canção de amor, em que ele vê um vislumbre de esperança, apesar da raiva expressa nas outras três canções do álbum. A música é fortemente influenciada pela relação de Waters com a então sua namorada.

A capa do disco, um porco sobrevoando entre duas chaminés da Usina Termelétrica de Battersea, foi desenvolvida por Roger Waters, em conjunto com Storm Thorgerson e a Agência Hipgnosis, colaborador de longa data do grupo. Para a sessão de fotos, o Pink Floyd contratou uma empresa alemã especializada em produzir balões e dirigíveis e um artista australiano para a construção de um balão de um porco gigante (conhecido como Algie), que foi cheio com gás hélio e colocado em frente ao edifício, tendo um atirador a tiracolo pronto para disparar caso ele escapasse. Contudo, devido ao mau tempo, que atrasou a sessão de fotos, o empresário da banda, Steve O’Rourke, não tinha em seus planos contratar o atirador por mais tempo. No outro dia, o balão soltou-se das cordas e sumiu de vista. Sendo recuperado por um fazendeiro de Kent, que estava furioso por conta de a geringonça teria assustado suas vacas. A sessão de fotos aconteceu dias depois, mas os registros iniciais feitos na central de energia foram considerados melhores, a imagem do suíno foi sobreposta sobre uma dessas.

O disco foi bem-sucedido nas paradas britânicas e norte-americanas, onde atingiu a terceira posição na Billboard, apesar de ter ficado apenas seis meses nas paradas, mas suas vendas renderam-lhe uma certificação quádrupla de disco de platina.

O disco se tornou material para a turnê “In The Flesh Tour”, que iniciou em Dortmund, na Alemanha, no dia do lançamento do álbum, e seguiu pela Europa, em fevereiro, e no Reino Unido, em março, e mais algumas datas pelos Estados Unidos entre abril e julho. O porco inflável Algie se tornou atração do espetáculo ao flutuar sobre a plateia e explodia. Apesar do sucesso do grupo, as relações internas estavam se tornando preocupantes. Roger Waters, por exemplo, chegava aos shows sozinho e ia embora logo após o término das apresentações. Em outra ocasião, Richard voltou para a Inglaterra ameaçando deixar o grupo. Nesse tempo, os integrantes Pink Floyd adquiriram uma espécie de fobia a tocar em locais com grande capacidade de público, pois ocorreram alguns incidentes em lugares para onde tocaram para mais de 50 mil pessoas. Em Chigado, por exemplo, os promotores alegaram que venderam 67 mil ingressos para um show no Estádio Soldier Field, mas Waters e O’Rourke desconfiaram. Então, contrataram um helicóptero, um fotógrafo e um advogado, e, no final, descobriram que, na verdade, havia cerca de 95 mil pessoas, o que gerou um prejuízo de US$ 640 mil para a banda. Em julho de 1977, em um show no Estádio Olímpico de Montreal, um seleto grupo de fãs barulhentos irritou de tal forma Roger Waters que ele cuspiu em um dele e esse incidente foi um dos principais catalisadores para o baixista desenvolver “The Wall”, o álbum subsequente da banda. Já David Gilmour chegou a se recusar a tocar o habitual bis da banda.

Esse é mais um daqueles discos do Pink Floyd que certamente fará você viajar. Só tome cuidado para não dormir. Mas é muito bom. Mais que recomendado.

A seguir a ficha técnica e o tracklist do disco.

Álbum: Animals
Intérprete: Pink Floyd
Lançamento: 23 de janeiro de 1977
Gravadora: Harvest Records (UK) / Columbia Records (EUA) / Capitol Records (1994)
Produtor: Pink Floyd

Roger Waters: baixo, voz e guitarra acústica
David Gilmour: guitarra, voz e talk box
Nick Mason: bateria e percussão
Richard Wright: teclados e sintetizador

1. Pigs On The Wing (Part I) (Waters)
2. Dogs (Gilmour / Waters)
3. Pigs (Three Different Ones) (Waters)
4. Sheep (Waters)
5. Pigs On The Wing (Part II) (Waters)

Por Jorge Almeida

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