Camisa de Vênus: 30 anos de “Viva”

"Viva": primeiro ao vivo do Camisa de Vênus. Um disco que, de fato, foi gravado ao vivo
“Viva”: primeiro ao vivo do Camisa de Vênus. Um disco que, de fato, foi gravado ao vivo

Em 2016, outro grande álbum ao vivo completa 30 anos. O disco em questão é o “Viva”, o primeiro disco ao vivo do grupo baiano Camisa de Vênus. Produzido por Pena Schmidt e pela banda, o registro foi lançado pela RGE. O álbum foi realizado como forma de encerrar o contrato que os músicos tinham com a RGE, conforme ficou acordado com o que viria ser a nova gravadora deles, a WEA.

O disco foi um dos primeiros a conter palavrões e imperfeições técnicas, como microfonia, gritos do público, instrumentos mal tocados, enfim, sem overdubs, enfim, um “disco ao vivo, ao vivo” mesmo, sem truques de alteração na mixagem, enfim, o registro de um show “nu e cru”.

No ano anterior ao lançamento do álbum, houve a redemocratização do Brasil, e, como Marcelo Nova já tinha experiência em ter suas músicas censuradas, ele aproveitou do novo momento político que o país vivia e não enviou o registro à apreciação da Censura. Todavia, o álbum foi lançado em meados de 1986, e já havia mais de 40 mil cópias vendidas, quando foi recolhido pela Polícia Federal por ordens da Censura. Marceleza mesmo testemunhara a ação da PF enquanto visitava uma loja de discos em São Paulo.

Após este incidente, o play teve oito de suas dez músicas censuradas por trazerem “linguagem inapropriada”. Todavia, embora a proibição de sua execução radiofônica e, possivelmente, por conta do impulso obtido com as notícias de censura ao álbum, as vendas alavancaram e chegou a marca de 180 mil cópias vendidas, o que fez de “Viva”, o segundo disco ao vivo mais vendido do rock nacional, perdendo apenas para “Rádio Pirata Ao Vivo”, do RPM, que foi lançado no mesmo ano.

O álbum foi gravado ao vivo no Caiçara Music Hall, em Santos (SP), em 8 de março de 1986. Além dos sucessos do grupo lançado até à época, o registro traz ainda cinco músicas não lançadas nos trabalhos anteriores até então. São elas: “Homem Forte”, “Solução Final”, “Rotina”, “My Way” e “Silvia”.

O show começa de forma avassaladora com a banda tocando a clássica “Eu Não Matei Joana D’Arc”, seguida de “Hoje”, música que trata em seu tema a loucura da vida nas grandes cidades. Em seguida, aparecem as inéditas citadas exatamente na mesma ordem que aparecem no parágrafo acima, sendo que “Bete Morreu”, outro clássico, interrompe a sequência, entre “My Way” que, aliás, deixou bem claro a interação entre público e banda, nessa versão recheada de palavrões do clássico consagrado de Frank Sinatra.

E, como o concerto foi gravado no Dia Internacional da Mulher, Marcelo Nova faz o seguinte discurso anárquico antes de mandarem “Silvia”: “Hoje tem um monte de mulher na plateia. Hoje é o dia internacional da mulher e nós queremos aproveitar a oportunidade… porque o Camisa de Venus tem sido acusado de ser uma banda machista, mas não é nada disso. Na verdade o camisa de Venus é a única banda heterossexual do planeta… e então a gente não podia deixar de dizer que nós amamos as mulheres. Sem vocês, nós não viveríamos em hipótese alguma. Inclusive eu acho que o mundo só vai concertar o dia que a mulher tomar o poder, tem mais tato, sensibilidade, tem mais carinho. Bem, agora que eu já enchi o ego de vocês, podem arriar as calçolinhas e vamos lá”. Aí, vem a música que também teve a colaboração do público que, a cada vez que a protagonista-tema era citada por Marceleza, respondia “piranha!”.

E, para finalizar, “Metástase”, faixa do primeiro disco de 1983, e “O Adventista”, com mais uma participação dos fãs ensandecidos trocando o refrão de “não vai haver amor nesse mundo nunca mais” por “não vai haver amor nessa porra nunca mais”, enquanto isso, o vocalista se deita no palco e começa a rezar o Pai Nosso. Que desfecho.

Anos mais tarde, em 1992, o disco foi relançado no formato em CD, porém, sem a faixa “Rotina” e sem o discurso de Marcelo Nova antes de “Silvia”. Em vez disso, foram adicionadas como bônus músicas de estúdio dos dois primeiros álbuns da banda. O que, particularmente acredito, foi um erro por parte da gravadora, que poderia ter mantido o show na íntegra e complementar com as versões ao vivo de outros clássicos que ficaram de fora do vinil em virtude de sua limitação de tempo (cerca de 35 minutos).

Em “Viva”, podemos notar o rock and roll em sua essência. Pois, tudo ali é genuinamente autêntico. Um público fiel e frenético até o fim, diferentemente de hoje, em que há uma plateia paradona e que anda mais preocupada em tirar foto e filmar do que curtir o espetáculo de fato. O show de 1986 trata-se um rock sem frescura, público inspirado e banda idem.

Pelo feito, o Camisa de Vênus merece todas as honras. Afinal, o público que o grupo formou foi conquistado através de seus incendiários shows, uma vez que a banda enfrentou muita rejeição por parte das rádios, da TV e da imprensa como um todo. Boa parte disso se deve ao nome da banda que, para os mais leigos, Camisa de Vênus significa camisinha. Mas, naquela época, em que a sociedade era mais conservadora do que hoje, o termo era considerado um palavrão, conforme Marcelo Nova sabiamente cantarolou em “Rock And Roll” (música do álbum “A Panela do Diabo”, lançado em parceria com Raul Seixas em 1989): “eu não podia aparecer na televisão porque a banda era nome de palavrão”. Além disso, as declarações ácidas de seu vocalista também não colaboravam muito para a popularidade do grupo perante as massas. Com a fidelidade de seus fãs, que iam aos shows, sabiam todas as músicas e embalavam a banda com o famoso bordão “bota pra fudê!”, o Camisa de Vênus chegou ao patamar das grandes bandas brasileiras por méritos próprios, sem ajuda da mídia e sem se render “ao sistema”.

Para quem gosta de rock nacional e não faz “mimimi”, esse registro é obrigatório na coleção (isso se você conseguir achar o álbum, já que ele se tornou produto raro).

A seguir, a ficha técnica (versões LP e CD) e o tracklist do play.

Álbum: Viva
Intérprete: Camisa de Vênus
Lançamento: 1986
Gravadora: RGE
Produtores: Pena Schmidt e Camisa de Vênus

Marcelo Nova: voz
Karl Hummel: guitarra base
Gustavo Mullem: guitarra solo
Robério Santana: baixo
Aldo Machado: bateria

LP:
1. Eu Não Matei Joana D’Arc (Gustavo Mullem / Marcelo Nova)
2. Hoje (Karl Hummel / Marcelo Nova)
3. Homem Forte (Karl Hummel / Marcelo Nova)
4. Solução Final (Karl Hummel / Marcelo Nova)
5. Rotina (Karl Hummel / Gustavo Mullem / Marcelo Nova)
6. My Way (Anka / François / Revaux / Thimbalt / Versão: Marcelo Nova)
7. Bete Morreu (Marcelo Nova / Robério Santana)
8. Sílvia (Marcelo Nova / Robério Santana)
9. Metástase (Karl Hummel / Marcelo Nova)
10. O Adventista (Karl Hummel / Marcelo Nova)

CD (relançamento):
1. Eu Não Matei Joana D’Arc (Gustavo Mullem / Marcelo Nova)
2. Hoje (Karl Hummel / Marcelo Nova)
3. My Way (Anka / François / Revaux / Thimbault / Versão: Marcelo Nova)
4. Bete Morreu (Marcelo Nova / Robério Santana)
5. Silvia (Marcelo Nova / Robério Santana)
6. Metástase (Karl Hummel / Marcelo Nova)
7. O Adventista (Karl Hummel / Marcelo Nova)
8. Solução Final (Karl Hummel / Marcelo Nova)
9. Homem Forte (Karl Hummel / Marcelo Nova)
10. Negue (Adelino Moreira / Enzo de Almeida Passos)
11. Dogmas Tecnofacistas (Karl Hummel / Marcelo Nova)
12. Lena (Karl Hummel / Marcelo Nova)
13. Gothan City (Capinan / Macalé)
14. Ladrão de Banco (Gustavo Mullem / Karl Hummel / Marcelo Nova)
15. Batalhões de Estranhos (Karl Hummer / Marcelo Nova)
16. Coiote no Cio (Tema de Pantera Cor-de-Rosa) (Henry Mancini)

Por Jorge Almeida

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