Resenha de livro sobre Vladimir Herzog

Obra de Audálio Dantas, lançada em 2012, detalha as "duas guerras" vividas por Vlado Herzog
Obra de Audálio Dantas, lançada em 2012, detalha as “duas guerras” vividas por Vlado Herzog

Lançado em 2012, o livro “As Duas Guerras de Vlado Herzog – Da Perseguição Nazista na Europa à Morte sob Tortura no Brasil”, de Audálio Dantas, apresenta em cerca de 400 páginas, a saga da família Herzog em sua fuga da Iugoslávia por conta da II Guerra Mundial até a morte sob tortura de Vladimir Herzog em 1975. A obra foi lançada pela editora Civilização Brasileira.

Nascido em Banja Luka, na antiga Iugoslávia (atual Bósnia e Herzegovina) em 27 de julho de 1937 e filho de um casal de origem judaica (Zigmund “Giga” Herzog e Zora Herzog), Vlado Herzog, aos seis anos, teve o seu primeiro contato com a guerra quando a rádio local anunciou que os alemães estavam chegando. Isso foi em 6 de abril de 1941. No mesmo dia, a cidade sofreu um verdadeiro bombardeio aéreo e todos ali sofreram com o terror da guerra e também com o medo da instauração das tropas de Adolf Hitler, que estavam dispostas em cumprir o ideário nazista em exterminar da face da Terra as consideradas por ele “raças inferiores”, incluindo-se aí os eslavos e judeus.

E, assim, Vlado teve a infância marcada pelas perseguições e fugas juntamente com os seus familiares. Primeiramente foi com seus pais para a Itália, onde ficaram refugiados clandestinamente até o final de 1946, quando ouviram falar de um país acolhedor e onde poderiam ter a paz. a liberdade e salvar o único bem que lhes restavam: a vida. Dessa forma, Vlado Herzog e seus progenitores chegaram ao Brasil às vésperas do Natal de 1946 desembarcando primeiramente no Rio de Janeiro e, poucos dias depois, o clã Hergoz partira para São Paulo, onde o pequeno Vlado cresceu e naturalizou-se brasileiro.

Apaixonado pela fotografia, Vlado exercia a atividade de fotógrafo devido aos seus projetos com o cinema. Tornou-se jornalista e passou a assinar “Vladimir” por acreditar que seu nome verdadeiro (Vlado) aparentasse exótico para os brasileiros. Na década de 1970, assumiu a direção do departamento de telejornalismo da TV Cultura e também foi professor de jornalismo na Escola da Comunicação e Artes (ECA) da USP.

Afiliado ao Partido Comunista Brasileiro no período da Ditadura Militar, Vladimir Herzog foi torturado e assassinado pelo regime militar nas instalões do DOI-CODI no quartel-general do II Exército, em São Paulo, após se apresentar voluntariamente ao órgão para “prestar esclarecimentos” sobre suas “ligações e atividades criminosas”.

A obra de Audálio Dantas detalha, em especial, a “outra guerra” vivida por Vlado (a primeira foi a fuga da II Guerra Mundial e a segunda foi a Ditadura Militar). Ao longo do livro, além do protagonista, destaca também as prisões, as torturas e o sofrimento de outros profissionais de imprensa que se posicionavam contra o Regime. E também o efusivo trabalho do recém-fundado Sindicato dos Jornalistas de São Paulo.

No livro, também é esclarecido a farsa do suposto suicídio de Vladimir Herzog na prisão. Na época, era comum que o governo militar informasse que as vítimas de suas torturas e assassinatos haviam cometido suicídio, atropeladas ou mortas em fugas. O laudo expedido pela Política Técnica de São Paulo informou que Vladimir Herzog havia se enforcado com uma tira de pano – a “cinta do mcacão que o preso usava” – amarrada a uma grade de 1,63 metro de altura. Porém, o macacão que os prisioneiros do DOI-CODI usavam não tinha cinto, que era retirado juntamente com os cordões dos sapatos. No documento anexo do laudo, foi mostrado uma imagem de Vlado “enforcado” com os seus pés tocando o chão e os joelhos levemente dobrados, ou seja, uma posição impossível para a prática de enforcamento. Além disso, foi constatada a existência de duas marcas no pescoço da vítima, típicas de estrangulamento.

A obra também dá espaço para o grande ato religioso em memória de Vladimir Herzog que reuniu milhares de pessoas dentro e fora da Catedral da Sé, em São Paulo. A morte do jornalista gerou uma onda de protestos de toda a imprensa mundial, mobilizando e iniciando um processo internacional em prol dos direitos humanos na América Latina, em especial no Brasil, a morte de Herzog impulsionou fortemente o movimento pelo fim da ditadura militar brasileira Após a morte de Herzog, grupos intelectuais, agindo em jornais e grupos de atores, no teatro, como também o povo, nas ruas, entre outros, se empenharam na resistência contra a ditadura do Brasil.

Vladimir Herzog foi casado com Clarice Herzog, com quem teve dois filhos: Ivo e André.

O livro foi vencedor do Troféu Juca Pato 2013 e recebeu o Prêmio Jabuti em 2013 na categoria “Melhor Livro de Não-Ficção”.

Passados mais de 40 anos da morte de Vladimir Herzog, parte do povo brasileiro que convive com a democracia, indignados com a corrupção na política, chega a clamar por uma intervenção militar. Bom, para esse pessoal, esse livro de Audálio Dantas é uma excelente fonte de informação para que eles saibam se a intervenção militar pedida por eles não é um bom negócio.

A seguir, a ficha técnica da obra.

Livro: “As Duas Guerras de Vlado Herzog – Da Perseguição Nazista na Europa à Morte sob Tortura no Brasil”
Autor: Audálio Dantas
Páginas: 406
Editora: Civilização Brasileira
Edição: 1
Ano: 2012
Preço médio: R$ 40,00

Por Jorge Almeida

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