20 anos sem os Mamonas Assassinas

Os Mamonas Assassinas, que tinham a irreverência como marca registrada. Créditos: Reprodução / Internet
Os Mamonas Assassinas, que tinham a irreverência como marca registrada. Créditos: Reprodução / Internet

Pois é, no meio dessa semana, mais precisamente na última quarta-feira (2), o Brasil lembrou dos 20 anos da morte dos integrantes da banda Mamonas Assassinas. Desde daquele fatídico domingo de 1996 até hoje, foram feitas inúmeras homenagens a Dinho, Júlio Rasec, Bento Hinoto e os irmãos Reoli, Sérgio e Samuel, especialmente quando chega essa data. A banda marcou tanto uma geração que, até hoje, tem fãs que sequer eram nascidos enquanto estavam na ativa no biênio 1995-1996, período tão meteórico para eles quanto o seu fim trágico.

A primeira vez que este que vos escreve soube da existência dos Mamonas Assassinas foi em um domingo qualquer de 1995. Estava em casa com meus pais assistindo ao Domingão do Faustão quando vi cinco caras engraçados fantasiados de super-heróis e cantando músicas em total descontração com suas letras debochadas. Sei que muito mais gente já sabia da existência do quinteto de Guarulhos antes mesmo de mim. Mas, quando vi eles tocando (ou fazendo playback?) de “Pelados Em Santos”, chorei de tanto rir. No dia seguinte, fui atrás de comprar um CD, LP, fita K7, seja lá o que for. De fato, o começo da minha adolescência nunca mais foi a mesma. Procurava saber tudo sobre essa banda: que programa eles iam participar, inclusive os de rádio para poder comprar mais fitas K7. Aliás, lembro perfeitamente quando gravei uma edição do programa “Estúdio ao Vivo” da Rádio Transamérica, que tinha em seu cast os caras do Café com Bobagem. Enfim, era tanta palhaçada, que era impossível não tornar-se fã desses caras.

Os Mamonas Assassinas conquistaram o Brasil com suas músicas sarcásticas, politicamente incorretas, enfim, um desfiladeiro de letras que mesclam inocência, duplo sentido, malícia, ou seja, uma quantidade enorme do que poderíamos chamar hoje de “the zoeira never ends”. Ninguém escapava das brincadeiras da banda: mídia, empresários, corporações, fãs, apresentadores e quem mais você possa imaginar. E, assim, todo mundo aprendeu a admirar e a idolatrar a banda: desde o bebê engatinhando até o senhor de 90 anos. Tudo na mais sadia harmonia. Pais não reclamavam e, se vacilar, até eles entravam na brincadeira do “vira”. Os Mamonas eram uma festa. Não havia tristeza por onde eles passavam.

Com apenas um disco lançado (em 2010, fiz um texto relembrando os 15 anos do lançamento do ‘debut’ do grupo e, se você quiser, pode conferir aqui), enquanto estiveram na ativa, o grupo excursionou o Brasil inteiro, sempre com casa cheia. Apareciam em tudo quanto era programa, estavam em todos os lugares. O álbum era fenômeno de vendas, batendo até em pesos pesados da indústria fonográfica brasileira, como Xuxa e Roberto Carlos.

Mas, naquele 2 de março de 1996, um domingo de manhã, o Brasil parou e chorou pasmo com a notícia da morte dos Mamonas Assassinas. Após voltarem de um show realizado em Brasília no dia anterior, o jatinho Learjet, modelo 25D, prefixo PT-LSD, chocou-se contra a Serra da Cantareira, numa tentativa de arremetida, matando todos os que estavam a bordo. Curiosamente, no encarte do disco, o vocalista Dinho agradecia Santos Dummont “por ter inventado o avião, senão a gente tava indo mixar o disco a pé”.

O enterro dos integrantes aconteceu no dia 4 de março no cemitério Parque das Primaveras, em Guarulhos, e muita gente acompanhou tanto lá quanto pela TV, uma vez que a mídia deu total cobertura, inclusive, chegando a interromper a programação normal. A comoção que girou em torno da morte dos Mamonas Assassinas foi tão grande que, acredito, só não foi maior que a do ídolo nacional Ayrton Senna.

E, hoje, passadas duas décadas do fim do maior fenômeno musical que surgiu até então, foram lançados vários produtos: CD’s e outros materiais póstumos, documentários, especiais de TV e, atualmente, está em cartaz um musical. Além de infinitas homenagens, mais que merecidas, aos responsáveis por informarem ao Brasil que em Guarulhos não havia só o Aeroporto de Cumbica.

Passados 20 anos da partida dos Mamonas Assassinas, muita gente se pergunta, como eles estariam hoje. Sinceramente, em minha modesta opinião, com a frescura da sociedade atual, com o seu “politicamente correto”, sua hipocrisia e o seu “vitimismo”, os Mamonas Assassinas não existiriam mais, cairiam no ostracismo, sofreriam inúmeros processos ou, ainda, até presos. Pois os “delegados virtuais” não aprovariam nenhuma de suas músicas, pelo menos não àquelas do álbum lançado em 1995.

Circula pelas redes um texto, que não sei de quem é a autoria, que define perfeitamente o meu ponto de vista a respeito das circunstâncias que os Mamonas Assassinas teriam se, por ventura, estivessem vivos. O texto aponta em cada música lançada pela banda há 20 anos o “mimimi” que elas provocariam em alguns grupos. Só não vou colocar na íntegra justamente por não saber a autoria para dar-lhe os devidos créditos. Mas, resumidamente, tentarei fazer do meu jeito, inclusive, deixar claro que foi antes mesmo de eu ler o material.

Por exemplo, em “1406”, faixa que abre o CD, os “vitimistas” defenderiam que os caras pregariam o “capitalismo opressor” e os fanáticos militantes políticos alegariam que eles fizeram uma afronta ao ex-presidente Lula por causa do tal triplex (“Eu queria um apartamento no Guarujá…”), daí temas como “Vira-Vira” e “Uma Arlinda Mulher” seriam pratos cheios para as “feminazzis” acusarem os caras de machistas. Já “Robocop Gay”, já diz por si só, não é nem preciso dizer que seriam acusados de homofóbicos e, se vacilar, receberiam textões do Facebook ou nota de repúdio do movimento gay e projetos do “deputado BBB” para proibir a execução da música em locais públicos. A xenofobia poderia ser motivo para ira contra os Mamonas Assassinas em músicas como “Jumento Celestino” e “Chopis Centis”. E o que dizer de “Lá Vem O Alemão”?, a música que encerra o CD? Pregariam que a banda era racista e pediriam que se retratassem, pois, poderiam alegar que o interlocutor era negro e foi trocado por um “alemão” porque era “lindo, loiro e forte”. Talvez, nem o clássico-mor dos Mamonas, “Pelados Em Santos”, escaparia da “delegacia virtual”: poderiam acusá-los de incentivar a pirataria porque Dinho afirmara que “pro Paraguai, ela não quis viajar”, ou seja, ele queria ir lá para comprar muambas e produtos falsificados. Até mesmo a singela “Sábado de Sol” não escaparia de um possível ataque feroz desse pessoal, ao abordar um possível incentivo por parte do grupo ao uso da maconha.

Enfim, apesar de ter escutado todas essas “atrocidades” musical dos Mamonas Assassinas desde a adolescência (ouço até hoje sim), isso não me tornou uma pessoa machista, egoísta, racista e tudo que é “ista” ou “fóbico”.

Até o cara que descobriu a banda, o produtor Rick Bonadio, em entrevista, disse que seria inviável a existência dos Mamonas nos tempos atuais, pois “o mundo está muito chato”.

E, confesso, que isso, nos tempos atuais, não ficaria restrito apenas aos Mamonas Assassinas. Pessoas como o comediante Costinha e a galera dos Trapalhões (com Mussum e Zacarias vivos), por exemplo, seriam também execrados pelos “politicamente corretos” metidos a serem “donos da verdade”.

Por Jorge Almeida

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